quinta-feira, 14 de julho de 2005
Jazz.pt é uma nova tentativa de entrada no mercado de uma revista sobre jazz, em português. Bimestral, custa 5,00eur e encontra-se na Fnac, por exemplo. Propriedade do Jazz ao Centro Clube.
Fest Forward Magazine é pioneira no género: uma revista em forma de guia dedicada a festivais, sejam eles de música, dança, teatro, cinema, fotografia e demais correntes artísticas. Uma lufada de ar fresco no mercado. Aliás, qual mercado?! A Fest Forward Magazine custa nicles, é trimestral e o número-zero já anda a circular por aí, com a promessa do número-um para Setembro (abordando o trimestre Out/Nov/Dez). Procurem-na (para já, à porta do festival mais próximo), porque vale a pena.
Filipe Pedro é o Director, Gonçalo Guedes-Cardoso o Director-Adjunto e Ana Serafim a Editora, que dirigem um leque de jovens escribas.
terça-feira, 12 de julho de 2005
O país precisa de um choque tecnológico. Disse-o o Governo e digo eu, pese embora as minhas ideias diferirem um pouco das do Primeiro-Ministro, o Eng. José Sócrates – ou Socky, daqui em diante.
Em traços gerais, a estratégia do executivo é levar a banda larga a todo o país, a todo o tipo de serviços, dotando os públicos disso mesmo e facilitando (?) aos privados o acesso. Serviços de impostos, de justiça, de administração e gestão, local ou não, o Socky quer tudo online. Os hospitais em vídeo-conferência, para que não se perca no interior a oportunidade de ter um especialista do Santa Maria a ver um doente de caso bicudo. A criação de empresas numa hora. Pedir segundas-vias de livretes e registar veículos na DGV pela internet. E tudo o mais que se possa imaginar. Este é, grosso modo, o choque tecnológico do Socky e dos seus amiguinhos.
Já eu, assim a modos que vejo as coisas de forma diferente. E vou falar somente do tecido privado, supostamente – ou “preconceituosamente” – de melhor e mais longa formação, mais competitivo em todas as unidades da sua verticalidade e horizontalidade – porquanto está sujeito à concorrência, dos lugares e dos outros –, mais preparado e mais “século XXI”. Ora quando o tecido privado não sabe usar a internet, estamos bonitos. Quando um email demora dias a ser respondido (quando é), e quando a resposta não tem nada do que se solicitou, estamos um bocado verdes. Quando a internet deveria servir para diminuir custos e tempo, mas nos pedem que, ou «envie por correio ou por fax», ou ainda que telefonemos, estamos a achar pouca graça. Quanto, pronto ‘tá bem, optámos por telefonar e nos dão o «número directo» ao invés de passar a chamada, ou ainda quando se justificam que é melhor ligar e perguntar «porque senão eu tenho de procurar isso aqui no “sistema” e ‘tá a ver, não é?», então estamos… com cara de parvos, concerteza.
Por isto e muito mais, eu proponho o choque eléctrico. Sim, esse mesmo, em cadeira de carvalho ou pinho, à moda do Texas. Porque de outra forma não vamos lá. Ou melhor, vamos sim, e vão os que têm dois dedinhos de testa, para outro lado – leia-se, para um país civilizado. Portugal é o melhor sítio para se viver, sem dúvida. Mas se se quer trabalhar, é de fugir.
sábado, 9 de julho de 2005
8 de Julho, JAPP – The Charlie Parker Legacy Band
E à quarta noite fez-se jazz
Charlie Parker Legacy Band – o nome, só por si, já augura bons momentos, não tivesse Parker deixado uma marca indelével naquilo a que chamamos jazz. E o que é isso, precisamente, de jazz? Que nem se perca tempo tentando delimitar um conceito, porque tal é impossível e a resposta é tão simples quanto complexa. Porquê? Porque jazz, meus senhores, jazz foi o que se ouviu ontem, na quarta noite do festival do Estoril.
Só pela aparência o sexteto já cumpria com a imagem habitualmente predefinida do que é jazz: músicos negros americanos, barrigudos quanto-baste, daqueles que têm jazz nas veias e por isso tocam de olhos fechados, bem-humorados, e no que aos saxofonistas diz respeito, expressivos nas caretas de esforço e prazer que todos os fotógrafos desejam poder registar, a preto-e-branco, obviamente.
Logo aos primeiros acordes o público presente no Parque Palmela não conseguiu conter a satisfação. Porque o repertório de Parker é largamente conhecido, os comentários de fila de trás, daqueles que nos batem na nuca, foram uma constante entre os cavalheiros que, quixotescos, iniciavam suas donzelas no culto do jazz, quais booklet de CD, enquanto no palco os temas desfilavam alegres.
Como se tratou de interpretar pautas alheias, não houve espaço para improvisos ecletistas, somente para muita melodia. E nisso teve especial responsabilidade o trio de saxofonistas-alto, que bem aproveitou e muito agradou. Vincent Herring, repetente no Estoril, mais uma vez não deixou ninguém indiferente, porquanto o seu talento parecia sair em chamas do seu saxofone – admirável. Jesse Davis, natural do sítio onde tudo começou, Nova Orleães, também sobressaiu, apaixonado, cheio, estupendo. Wess Anderson, o mais jovem, foi porventura o mais fraco, contudo irrepreensível.
No conjunto, um nome saltava à vista. O veteraníssimo Jimmy Cobb, nascido no ano em que Wall Street “crashou”, baterista de formação que ao longo da sua carreira tocou com tantos e tão dotados músicos de jazz que só menciono um – Cobb é o último dos homens que gravaram o histórico Kind of Blue, de Miles Davis. Ontem, Cobb encantou e os seus solos fizeram-me perceber que até então eu vinha sendo intrujado por sucessivos bateristas. E confirmaram que o epíteto “lenda viva” serve, unicamente, aqueles que além de tocar há muito tempo, tocam muito, realmente muito bem.
A prestação de Ray Drummond, o baixista, foi a melhor que já vi no meu parco trajecto de jazz in loco. Nas mãos de Drummond – “lenda júnior”, nas palavras de Herring – o baixo não é um acessório, não está só lá no fundo, não passa despercebido e, acima de tudo, “percebe-se”.
Embora discreto, o pianista Ronnie Matthews foi peça essencial em todo o espectáculo, uma enorme bússola.
No final, era visível a satisfação estampada no rosto de quem descia o macadame rumo ao mar, ainda trauteando um “Quasimodo” ou “Parker’s Mood”. Que raio, nem o vento apareceu!
quarta-feira, 6 de julho de 2005
1 de Julho, Quarteto de Von Freeman
Von Freeman, o maratonista do saxofone
Jazz em modo long play é a primeira ideia que ocorre sobre a prestação de Von Freeman e seu trio ontem à noite, no concerto inaugural do 24º Estoril Jazz/Jazz num dia de Verão. Isto porque o espectáculo, dividido em duas partes, ficou marcado pela longa duração dos temas tocados, uma vez que, quase sem excepções, Freeman e o seu trio solaram à vez. Apesar dos seus 83 anos, o saxofonista tenor correspondeu ao que se poderia esperar e nunca deixou esmorecer o público.
Ao agradável espaço do auditório do Parque Palmela, mesmo apesar do vento frio do mar, compareceu uma audiência capaz de compôr a casa, embora não tenha chegado à lotação máxima. A assistência pareceu heterogéna quanto-baste, ainda que se notassem muitos experimentados. Não, não digo que fossem velhos, que esses são os trapos. Mas sim que, para quem frequenta a época de espectáculos de jazz da grande Lisboa, havia muitas caras repetentes e cabeleiras grisalhas, o que, se por um lado é prova da consolidação destes eventos, por outro é imagem da dificuldade desta corrente musical em chegar a públicos mais jovens. O que será que falta fazer?...
Von Freeman, uma das velhas figuras da escola de Chicago, ali envergando uma singela camisola amarela, casaco de “fato-de-treino” e óculos escuros, apesar de não conseguir sprints dignos de registo olímpico, quando era hora de regressar à frente do palco – uma vez houve que o músico, depois de ter entregue o palco aos seus jovens acompanhantes, não conseguiu regressar a tempo e teve que começar a tocar sem estar perto da frente nem do microfone –, venceu na corrida da performance. Várias vezes gritou ao seu trio um irónico «go for it baby!», a fim de o mandar calar, pois era tempo de entregar todo o seu fôlego ao saxofone, em improvisos nuns momentos mais duros – Perrilo, o pianista, não disfarçou algumas caretas –, noutros mais melódicos e perceptíveis a ouvidos menos treinados.
As interpretações foram longas, como já se disse, mas variadas. Em Speak Like a Child, de Herbie Hancock, o trio Ron Perrillo (piano), Denis Carroll (baixo) e George Fludas (bateria) teve espaço para brilhar, com Perrillo conseguindo até arrancar do público a maior parte dos gritos e assobios de aplauso da noite. Tiveram ainda lugar Miles Davis, uma fenomenal e intensa versão de A Night in Tunisia, de Dizzie Gillespie, e quando as luzes já estavam acesas e a assistência aquecia só com a ideia de regressar ao interior dos seus automóveis, Freeman voltou para uma Yardbird Suite, de Charlie Parker. Se disser que tudo durou mais de duas horas e um quarto, com o devido desconto do intervalo para convívio e refrescar da garganta, certamente não estarei a exagerar.
Desempenhos aparte, outras duas coisas ficaram perceptíveis naquele espectáculo. Que o afamado crítico José Duarte se fez notar, mais uma vez, altercando com um espectador que não havia problema algum em estar ao telefone e que ele, o espectador, certamente não sabia quem ele, José Duarte, era – episódio triste, para dizer o mínimo. E também que entre Freeman e o seu trio existia um fosso, não de idade ou de talento, mas de maturidade – claramente foi um conjunto composto para a [última?] digressão europeia do velho saxofonista.
sábado, 2 de julho de 2005
A colecção da mostra “Lisboa Photo 2005” patente naquela sala, foi uma desilusão. «É arte, estúpido», dir-me-ão. A mim soube-me a falta de originalidade e pobreza. Um euro e setenta e cinco para o lixo e um arranque em tropeção que dificilmente me levará a visitar algumas das outras colecções, expostas algures na cidade.
A exposição “Espelho Meu, Portugal Visto por Fotógrafos da Magnum” é também – para usar um vocábulo agora muito na moda política cá do burgo – um embuste. As anunciadas três partes (de 1955 até à revolução de Abril, com imagens de Henri Cartier-Bresson, Inge Morath, Thomas Hoepker e Bruno Barbey; durante a própria revolução, com trabalhos de Guy Le Querrec, Jean Gaumy e Gilles Peress; e após 1976 e até à actualidade, com trabalhos de Bruce Gilden ou Martin Parr) de um conjunto de mil fotografias sobre Portugal esquecidas e agora encontradas nos arquivos da agência Magnum, mais não são que um conjunto de três fotos por autor. E as próprias imagens escolhidas não satisfazem. Ficamos à mingua…
Para compôr o ramalhete, «as comissárias decidiram complementar e actualizar esta visão através de novos projectos […] Susan Meiselas, Miguel Rio Branco e Josef Koudelka foram convidados, em 2004, a realizar missões em Portugal […] Meiselas, que nunca antes cá tinha estado, dedicou-se ao Bairro da Cova da Moura». Mas alguém se esqueceu de regar as flores e como por cá parece que vivemos tempos de seca, murchou. Francamente pobre.
O único aspecto verdadeiramente interessante desta exposição é o documentário em projecção na sala intermédia – que, aliás, já passou várias vezes no canal dois da RTP. Um filme que parte da tal descoberta de imagens arquivadas sobre Portugal, e que vai ao encontro daqueles que cá vieram fotografar e filmar, no período de 1974/75. Realmente agradável, rico, esclarecedor até, e importante na medida em que mostra excertos de documentários por demais elucidativos sobre o Portugal pequenino e dos pequeninos – da pequenez? –, mais visível naqueles anos.
Estes filmes, aliás, foram reunidos e editados em DVD pelo Público, aquando dos 30 anos do 25 de Abril. São documentos valiosos. E “Torre Bela”, de Thomas Harlan, deve ser visto.
Portanto, vou fingir que o bilhete que paguei se destinava ao visionamento deste documentário, e que as fotos lá expostas também se dispunham somente a embelezar e preencher o espaço envolvente. Mas vale a pena, então, por isto.
sábado, 28 de maio de 2005
Este filme já passou na minha sala. Como será que acaba desta vez? As reposições terminam sempre da mesma forma e é disto que tenho medo, hoje.
No primário de tudo isto, senti-me vivo. E a hora e meia que levou rodar a cena nocturna, por entre um Tejo salpicado de luzes e versos cantados a voz quente, foi dos momentos mais bonitos que vivi. As tuas palavras doces, as tuas gargalhadas, repetires quão bonita e preciosa é a tua mãe e a sinceridade nua e limpa com que te confessaste e com que te disse que cada balde que puxo do teu poço é puro sentir - tudo isto foi a cena perfeita, porém filmada três stops abaixo. É que, com os truques certos, os erros de revelação podem reverter-se. No entanto, quando o que falha é o tempo de obturação ou a disponibilidade do diafragma, sempre fica tudo muito claro ou muito escuro, numa gradação que sempre sempre resulta invisível.
A minha obsessão pelo documento impediu-me de ver para além da linha ténue que demarca o campo da arte. É uma miopia de que sofro. Esta limitação para a criação é uma terrível frustração. Tanto mais que a vontade é grande. A beleza sim, vejo-a. Mas nunca a consegui captar. E na necessidade de alguma mudança, interrompi.
A visualização diária do real custa, consome. Mas revigora, também. O exercício de observação do barco no rio, da água que se separa no casco, das pessoas bonecos sérios, do cego no metro, do velhote sentado no jardim e de todos os outros e de tudo o mais, é extasiante por ser belo. É a realidade que não magoa – porque não é a nossa.
Se naquela manhã ele tivesse demorado um pouco mais no banho, provavelmente estaria morto, esmagado por uma parede de tijolo. O gás teria continuado a sair pelo bico sem chama do fogão, porque um púcaro de leite foi esquecido e ferveu e derramou e abafou o lume mas não o gás. De lençol à cintura, foi quando sentiu o cheiro forte a propano e então caminhou, vagaroso, seguindo o ruído sssssssssssssssssss e girou o botão. Abriu uma janela e outras mais pelo caminho até ao quarto. Cinco minutos mais, ou quatro ou três ou dois ou apenas um e o gás poderia ter subido à flama do esquentador, meio metro acima.
Mesmo assim, o ferry continuaria a cortar o rio, as marionetas iriam para o emprego, o cego a pedir no metro e o velhote a deitar pão aos pombos e todos e tudo porque o sol se haveria de pôr também.
A realidade em que somos actores principais, o dia que amanhece na nossa almofada e ali acaba horas depois, consome-nos; e porque não a vemos de fora, encontramo-nos de mãos e pés atados e com uma mordaça. E é silêncio e é cinzento. Umas vezes mais claro, outras vezes mais escuro.
A simplicidade das coisas não-objectos assusta e arrebata. Mas, que assalte – sim; que assuste – não.
O senhor não se importa?
«O senhor não se importa de se chegar para o lugar do lado? É que eu não dobro esta perna e então...» E sentou-se. De imediato se justificou perante os que estavam naquele bloco de assentos do metro, esclarecendo que os lugares reservados a deficientes estavam todos ocupados e que... Quanto à perna que não dobrava e na qual calçava um sapato com um tacão alto em madeira, «foi em Moçambique, em 1961 – tinha trinta e cinco anos».
«É que eu já fui perfeito, sabe? Mas um acidente nos comboios, em Moçambique...» Pela forma como repetia Moçambique, Moçambique, Moçambique, adivinhei que estaria para vir a conversa da descolonização. Qual seria a posição deste velho coxo face à debandada portuguesa? Sinceramente, pouco me interessava.
O vizinho ouvia, acenava compreensão, balbuciava acordo, mas não escondia o desagrado pela expropriação do seu banco, onde tentava, trémulo, fazer as palavras-cruzadas, recortadas de um jornal. De olhos no chão e guardando o pedaço de papel no bolso do casaco, «pois, pois... claro, claro». Reformado, também na casa dos setenta, «não, nunca estive em África».
Mas o velho coxo continuou e enveredou pelas histórias vividas em setenta e quatro e setenta e cinco. Não hesitou em demonstrar a paixão assolapada que tinha por personagens como Almeida Santos – «esse cão» –, Mário Soares – «esse bandido» – ou Otelo Saraiva de Carvalho – «esse energúmeno». Segundo ele, «foram esses bandidos que estragaram a vida dos de lá e dos de cá». Lá, que era a sua terra – havia nascido em Lourenço Marques.
Insultos, episódios de venda de imóveis por quantias avultadas, Samora Machel, a aventura daqueles que regressaram com a camisa do corpo. Os seus olhos, guardados por detrás de um par de lentes grossas, percorriam-nos, ansiando ouvir algumas palavras de acordo. Eu, a mulher que estava ao meu lado, o velho das palavras cruzadas. Mas mesmo não tendo uma assistência particularmente interessada, o velho coxo continuou o monólogo.
A fome em África era um assunto que o perturbava. «Até choro, quando vejo na televisão aqueles miúdos esqueléticos!» Quem não chora? A indignação era grande, pois «quem lá tivesse vivido nunca poderia pensar que, algum dia, houvesse fome naquele país». Foi então que as suas mãos deram de si, perdendo a bengala de madeira, que parou nos meus pés. Num esforço para não deixar cair muito mais, agradeceu-me a amabilidade do gesto e mergulhou na mágoa daquelas recordações, em silêncio.
Era segunda-feira e o comboio seguia veloz, estação a estação, repleto até ao topo. O ar carregado de suor, o cego que pedia «a moeda mais pequenina», a gorda que lia a Maria, o par de engravatados que viajava de pé. Estavam todos lá, como sempre, desde sempre.
Outra travagem, novamente o alarme das portas, mais gente que entra no comboio lotado, porque onde cabem mil, cabem dois ou três mil mais. Dando tréguas ao coração, o velho coxo quebrou o silêncio e pediu perdão pelo desabafo. Mostrava-se aliviado mas também envergonhado – certamente aquela situação seria frequente.
Tão frequente quanto a de um outro sujeito com quem me tenho cruzado, também no metro (sempre no metro!), e que vai ameaçando uns tipos que eu não conheço, que ninguém conhece – duvido mesmo que ele os conheça –, referindo-se a uma dívida de uns milhares de contos. E vai nisto toda a viagem, sempre de pé, quase gritando, visivelmente perturbado e excitado. Mas hoje não é ele, é o velho coxo de setenta e seis anos, que viaja mesmo à minha frente.
«Para ir para o Cais do Sodré tenho que mudar no Chiado, que é a próxima, não é?» É sim.
Imaginava ser revistado, passar por um detector de metais, ter que deixar alguma identificação à porta, ser seguido por uma panóplia de cameras de vídeo ou agentes, fardados ou de fato. No fundo, aquilo a que quatro séries de X-Files me habituaram. Mas não foi nada assim. Nem Skinner, nem Mulder, nem Scully, nem Cancer Man. Apenas um sujeito ridiculamente baixo e em nada intimidante que, para chegar ao balcão estaria, certamente, em bicos de pés. Nem o autêntico caixote que é a minha mala quiseram ver aberta. Estive quase a pedir-lhes que o fizessem, na tentativa de imprimir um ar mais hollywoodesco à coisa. «Traz consigo alguma arma, algum objecto cortante?»
Depois de esperar perto de uma hora, ao ritmo de discussões de teor benfiquista entre o porteiro com ar de funcionário público e outros dois indivíduos que estavam na zona de espera, subi, finalmente. A caminho do elevador passei pelo pórtico de detecção de metais, apesar de não me ter sido exigido – tristemente, o aparelho não piou. «Quarto andar, sala 412.»
O elevador era minúsculo e velho, daquele com botões grandes e uma grade de correr, e cheirava terrivelmente a tabaco. Desiludido, esperei que aquilo melhorasse na secção a que me dirigia. Na viagem, imaginei um hall de entrada, uma recepcionista, vozes, telefones e bater de teclas. Quando abri a porta deparei-me com um corredor estreito, portas e mais portas em madeira velha pintada de branco e umas chapinhas azuis com a indicação das divisões. O soalho rangia a cada passo. Era um antigo edifício de habitação, agora convertido, na Alexandre Herculano.
“Fraudes creditárias”. Fui recebido por um homem que não devia ter sequer trinta anos, em calça de ganga e camisa, num gabinete de paredes amarelecidas. A sala tinha duas secretárias, dois computadores, uma janela com vista para as traseiras do quarteirão. Nada daquilo remetia ao universo polícial de qualquer pessoa que tivesse nascido na era da televisão.
Chateado por não ter almoçado ainda, vi as fotografias a correr e não consegui identificar o brasileiro gordo que, em Agosto, comprou uma máquina fotográfica com um cartão de crédito ilícito. Passaram três meses, outra coisa não seria de esperar. Contudo, o sujeito estava preso e a minha presença ali era para prestar declarações que seriam anexadas ao processo. Como não domino o léxico policial, o meu depoimento necessitou de confirmação frase a frase, arrastando-se por quase quarenta minutos.
Está frio e chove sem parar. É já de noite quando entro no café, por volta das seis. À porta, sentado à caixa registradora, o velho sovina. Ao balcão, o tipo gordito e baixo, de bigode. Numa mesa, duas mulheres bebem um galão e comem bolos. Ao lado, um sujeito aprumado lança charme às tipas, enquanto folhea o Record. Entro, peço o meu café cheio, sento-me.
Abro o jornal, que comprei ainda de manhã, e leio sobre os atentados na Turquia e a viagem de Bush a Londres. Entra uma senhora com uma criança pela mão. Pede um bolo de arroz, recebe o talão, dirige-se ao velho para pagar. O gajo conta as moedas e deixa cair cada uma no seu respectivo lugar. Porque tudo tem um lugar.
- “Óh senhor Fernando, alcance aí o bolo de chocolate, sff”.
- “Qual deles?”
- “O que...”
- “Você não se explica! Quer que eu adivinhe? É que estão aqui dois! Um tem...”
- “O que está no nome da senhora Olinda.”
- “Ah bom, pois assim já sei. Agora, se você não me diz qual é, como é que eu hei de saber? É que estão aqui dois, um com cobertura e o outro s...”
- “Sim, senhor Fernando. Eu sei disso.”
Apeteceu-me levantar e esbofetear o velho. É costume parar lá, para um café apressado, e nunca o vi ser simpático, fosse para quem fosse. Antes pelo contrário, é estúpido que nem uma tábua. Imagino-o, de porta fechada, a conferir cada soma com o total de dinheiro em caixa. Não batendo certo, aproveita para enxovalhar um pouco mais o empregado e a filha. Será o senhorio? Que merda de acordo ou contrato é aquele, que obriga os sujeitos que lá trabalham a aturar o cabrão do velho sovina, que certamente ganha à comissão? Mas isso não é comigo. Nem com o ucraniano que está sentado à minha frente, aprumado à gangster do leste.
«E é de lamentar que uma das medidas anunciadas pelo primeiro-ministro - o corte das subvenções vitalícias dos primeiros-ministros - não se aplique aos seus antecessores. Imaginar que Santana Lopes e Durão Barroso vão ter direito a um prémio vitalício pelo lindo serviço prestado ao país é simplesmente intolerável.»
Miguel Sousa Tavares,
Público, 27Maio2005
terça-feira, 24 de maio de 2005
Ivo Ferreira, o português preso no Dubai por fumar um charro, em entrevista (rápida) à Grande Reportagem (nº228, 21 de Maio):
Sabia que era proibido fumar haxixe?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.
O Pudim Royal teve acesso à entrevista na íntegra. Foi assim:
Sabia que se, conduzindo um automóvel a 50km/h, não parar na passadeira quando peões atravessam, pode atropelá-los e matá-los?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.
Sabia que se passar o sinal vermelho num cruzamento pode provocar um acidente?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.
Sabia que se o sinal está vermelho, por alguma razão é?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.
Sabia que esse princípio serve também para os sinais de STOP e para a sinalização de "via fechada" na Ponte 25 de Abril?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.
Sabia que se se atirar de um prédio de 20 andares, provavelmente estatela-se no chão e vai desta pra melhor?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.
Sabia que quem anda à chuva, molha-se?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.
Sabia que George W. Bush foi re-eleito?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.
E sabia que José Sócrates é Primeiro-Ministro de Portugal?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.
E que Santana Lopes é um palerma?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.
E que Ratzinger é ultra-reaccionário e conservador?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.
E que os bebés não vêm de França, no bico de uma cegonha?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.
Então e o Ivo sabia que está a ser completamente estúpido ao responder dessa forma à pergunta original desta entrevista?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.
E que é, realmente, um perfeito otário?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.
Resumindo, esta do «sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse» é a desculpa portuguesa por excelência. Depois de um acidente de viação, diz um sobrevivente culpado, embriagado e tudo o mais: «sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse»; e o Sampaio, agora que remendou o erro de empossar Santana: «sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse»; e por aí fora...
quarta-feira, 4 de maio de 2005
domingo, 1 de maio de 2005
Se a realidade de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro corresponde a uma “patologia da normalidade”; se a religião é o instrumento último para a procura da felicidade; se não tendo acesso à religião, as gentes de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro eram infelizes, porque “patologicamente normais”; se a Igreja Católica não é uma instituição democrática mas sim uma hierarquia fechada – «há os que mandam e os que obedecem», esclarecem-me católicos praticantes convictos – na qual não há espaço para dúvidas ou questões, porque somente pregando uma verdade e uma certeza é que se pode conservar fiéis seguros e crentes – um clérigo não pode confundir um cristão com mensagens dúbias, mostrando, num momento, o caminho e levantando duvidas à doutrina, noutro; então a Igreja Católica prega uma “patologia da normalidade”; e fá-lo no seu seio e igualmente no seu rebanho.
Se a “patologia da normalidade”, como Fromm a teorizou, é nefasta; não menos perniciosa é aquela praticada pela Igreja Católica.
Acordem, senhores! - apetece dizer.
segunda-feira, 18 de abril de 2005
Em tempo que vem sendo de tantas certezas quantas as dúvidas que me não deixam adormecer, tropeçando de sobressalto em sobressalto pela noite dentro, o céu cinzento ajuda a pensar na areia da praia e no mar que bate nas rochas, no penhasco mais além, encimado por um farol que ainda não brilha.
Os faróis são brinquedos mágicos, mapas em forma de lanternas avariadas, que luzem as espaços, apontando o caminho do mar até à costa a embarcações perdidas ou que simplesmente navegam numa noite demasiado escura.
Queria ter um farol só meu. Daqueles que decoram o rochedo mais deserto, digno de postal, de onde se vê o sol enconder-se, onde a água bate mas não fere, onde o ar húmido entra por mim, enchendo-me os pulmões. E então sustenho a respiração, porque o quero aqui e não que a brisa imediata mo roube, mas revelo-me fraco e o ar gelado logo aquece e luta, bate-se pela liberdade e eu perco, já vermelho ou branco – não tenho espelho – e abro-me em esforço, como que tossindo, não que te queira expulsar, sabes bem que não!, mas porque te não posso mais ter dentro de mim, que acabarias por me matar.
Resigno-me. E logo quero agarrar, então, o mar. A água salgada e fresca que se transforma em espuma e depois em ar. Quero-a! Mas não consigo bebê-la. Não consigo tomá-la nas mãos. Não consigo senão leva-la na retina do coração.
Temos na cabeça uma glândula responsável pelo olfacto, pelos cheiros que nos entram narinas adentro e fazem sentido no segundo logo após o que. Queria ensopar a minha na água do mar, que nem um saquinho de infusão, e colocá-la depois cá dentro, amparando a minha palma direita por baixo e em concha, para não perder uma única gota.
A água do mar, numa garrafinha de plástico, morre. Não cheira; não sabe; não parece; não é. A água do mar fez-se – não foi feita. E fez-se para estar no mar, para alimentar sonhos de mergulhos, gargalhadas por fria que esteja, para se contemplar, para se tocar, até mesmo para se nos engasgar.
A água do mar, assim como o ar que nasce da espuma da onda que se desfaz na rocha, o ar do mar, fizeram-se – não foram feitos. E fizeram-se para ser livres. E para na sua liberdade nos acompanhar. Livres de nos fazer sentido quando bem entendam e não quando queremos que façam. Porque se for hoje à praia e gritar à água do mar ela virar-me-à as costas, indiferente. E se pedir ao ar do mar que me siga, ele logo me vai soprar e ser vento. «E o ar do mar? Hoje não está cá».
As notas do piano lembram o mar – ou o mar, porque se fez primeiro, lembra as notas do piano.
O instrumento de cordas “piano” requer mestria, para soar a mar. Tem que se lhe saber tocar – não basta manejar; aliás, manusear, manobrar ou dirigir não resultarão nunca, porque o piano, tal como o mar, tem que ser tocado.
Como quem passa os dedos na tua pele macia, desvendando os contornos do teu rosto, feio ou bonito, que tudo isso é relativo, já o diz o ditado «quem feio ama, bonito lhe parece». Mas não é de amor que me ocupo; é de tocar, viajar pela linha das tuas sobrancelhas, olhar-te nos olhos, cocegar o teu nariz e olhar o teu sorriso miúdo, sorrindo contigo enquanto subo para as rugas que entretanto se fizeram na tua testa, para depois cair na direcção dos teus lábios, que é por aí que me quero.
O piano tem cordas. Mas não há cordas que prendam a água do mar. Tampouco o ar do mar. As cordas, se fortes, podem segurar-nos, pessoas; segurar-me, homem.
A água do mar puxa-me. O ar do mar empurra-me. Sou eu quem tenho de me arrastar pela corda de piano. Ela só me segura. E se eu cair ela continuará atada à minha cintura, caindo comigo, atada como quem me mostra que me cabe a mim puxar, cortar as mãos e os braços no esforço por subir até onde possa assentar os pés, novamente. Não importa o sangue nem a dor, que não sinta as mãos ou os braços – basta que os veja. Por mais fundo que a corda de aço cave e desfaça a minha casca mole, epiderme, derme e endoderme, há que trepar até onde possa ver, cheirar, saborear e sentir a água do mar e o ar do mar. Tocar-lhes, não lhes tocando.
Sou eu quem tenho de me puxar pela corda de piano acima, a corda de piano atada ao meu farol, no cimo do meu penhasco.
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Primeiramente "postado" aqui
sexta-feira, 1 de abril de 2005
Quando João Paulo II morrer, temo bem não sentir comoção especial. Não por ser ateu. Simplesmente porque nunca conheci outro Papa e quando este me chegou visivel, era já velho e as suas acções me passaram despercebidas. De tal modo que não sei enumerar um punhado que seja. Nem mesmo de quantos atentados foi vítima, em solo português ou durante o seu pontificado. O que lhe suceder, acompanharei.
A RTP/RTPN foi a primeira estação de TV portuguesa a abrir um especial de informação acerca do assunto, ontem à noite. Seguiu-se-lhe a SIC/SIC Notícias e da TVI vi uma pivot desmaquilhada anunciar não percebi o quê e nada mais - é que a TVI é hoje Independente, Irreverente, Inovadora e por aí fora, como ma apresentaram alguns seus funcionários, aquando de uma visita; mas não quero falar do distante "caso-Marcelo".
A emissão da RTP começou tremida. Até o clérigo que convidaram (não fixei nome ou título) para o estúdio pareceu, a princípio, tremido e sem grandes coisas que dizer. Mas "o especial" melhorou com as peças entretanto apresentadas, sobre o percurso de João Paulo II. Agradou-me e foi uma boa emissão - a informação da RTP mostrou créditos.
Foi a própria correspondente da RTP em Roma (mais uma vez, falta-me o nome) que anunciou o que se veio a verificar: o Vaticano ficaria silencioso durante a noite, perecesse ou não o Papa. E se a primeira informação oficial foi de uma febre alta, para depois a CNN anunciar a santa-unção, de S. Pedro chegou a informação de que o sumo-pontífice estaria a reagir bem aos antibióticos administrados. E assim questiono a decisão de levar a cabo toda aquela emissão. Para além de que cedo se percebeu a quantidade de informações contraditórias.
domingo, 6 de março de 2005
Da gestão das empresas públicas, mais uma vez
Acima já se aludiu às reformas dos gestores públicos. Eu prefiro reforçar a gestão das empresas públicas (ou de capitais públicos). E para tal recordo-me de um texto de Jorge Costa, no Público (Carga e Transportes, 8/Nov), que apontava alguns aspectos da então recém nomeada Administração do Porto de Lisboa (APL), exemplificando quanto se brinca com os dinheiros públicos. Em resumo, era isto: perante passivo e perdas de 50 milhões de euros, a APL nomeou 15 novas chefias (o que orça 350 mil euros/ano, sem contar com pessoal para estes departamentos); o porto de Lisboa tem operado uma redução do número de funcionários, contra um aumento das chefias (40 chefias, actualmente, sem contar com equiparados em gabinetes ou comissões); esta APL criou, no entanto e ao invés da há muito esperada Divisão de Logística, uma Divisão de Animação e Eventos – uma clara aposta na imagem, tendo como pano de fundo a “devolução do porto aos lisboetas”.
Todos estes aspectos contribuem para: mostrar o irrealismo das metas propostas pelo Governo [de então, o XVI]: reduzir até 2006 o tempo médio de despacho em 50%; quadruplicar o movimento de contentores nos portos até 2015; auto-suficiência portuária em 2005. Para mostrar como as instituições públicas (ou de capitais públicos), mais do que servir o país e os cidadãos, servem para albergar amigos, comparsas e conhecidos. Para tornar mais clara a desgraçada tendência nacional para mudar tudo sempre que mudam os executivos e as tutelas. Para ilustrar o desinteresse crescente dos cidadãos por aquilo que deveria ser do interesse de todos.
Dos impostos
Mas nem tudo é responsabilidade individual dos habitantes aqui do burgo à beira mar plantado. Há também responsabilidades colectivas, ou do Estado, como a carga fiscal existente sobre alguns sectores da vida portuguesa. Um primeiro exemplo pode ser extraído dos impostos pagos pela compra e manutenção de um automóvel. À primeira vista e sem confirmação do que digo, são quatro: aquando da compra o consumidor paga IVA à taxa de 19 por cento; Imposto Automóvel (IA, que encontrei variando entre 15 por cento sobre o preço base de um automóvel de gama baixa e 28 por cento noutro de gama alta; o imposto varia consoante a cilindrada do veículo); depois, imposto sobre combustível e imposto sobre circulação de veículos, na sua manutenção. Deixo de fora as portagens (de pontes e auto-estradas) porque não considero impostos directos.
Abrindo um parêntesis e tocando no ponto da excessividade de impostos existentes e dos custos da sua cobrança, socorro-me de uma ideia de Luís Aguiar-Conraria (aqui):
«(...) Imposto sobre sucessões e doações e muitos eteceteras que a maioria de nós nem imagina. Por cada imposto cobrado, há imensos impressos, imensos regulamentos internos e imensos funcionários públicos dedicados à cobrança desse imposto. Tantos impostos diferentes traduzem-se num aumento de custos e de burocracias perfeitamente desnecessários(...)»
Mas retomando a fiscalidade operada em Portugal, e retomando igualmente João Casalta Nabais (Pública, 27/Fev), li que a tributação das pequenas e médias empresas (PME) é excessiva e que a contabilidade organizada (para estas) é também contraproducente. Ora destes meandros legais, pouco sei. Mas sei que tenho uma pequena sociedade e que subscrevo inteiramente esta frase: «ser empresário em Portugal é ser-se um herói». E é mesmo! Os procedimentos, as burocracias, os registos, os prazos e afins pelos quais tem de passar quem quiser abrir uma empresa neste país são, realmente, de fugir e repensar se se quer mesmo “meter naquilo”. O autor refere também que as pequenas e médias empresas (PME) são de vital importância para uma economia como a portuguesa, porque são sedentárias, ou seja, mantém postos de trabalho (não se deslocalizam para a China nem para o Leste da Europa); têm elevada resistência às crises (que o comprove o meu caso que, sem um “arranque” efectivo desde há bastante tempo, se mantém lutando). E eu acrescento que: revelam capacidade de adaptação às contingências do mercado; são, muitas vezes, empresas inovadoras; os lucros são, em grande parte, investidos no desenvolvimento do negócio; e outros. E as PME são também boas pagadoras de impostos – é sempre mais fácil a uma estrutura grande contornar o fisco, que a uma pequena.
sexta-feira, 4 de março de 2005
O português não tem poder de compra
O crédito para tudo e para nada também tem de ser tido em conta, quando se fala de consumo. A casa é comprada a crédito, o carro também, o computador não foge à regra, os móveis do IKEA igualmente, as mercearias adquiridas no Jumbo ou Continente também têm essa possibilidade, os próprios telemóveis chegam-nos a crédito mascarado (com cada carregamento, durante um período de tempo, é descontado um montante para pagar o restante do aparelho). E quando acontece um daqueles imprevistos, como um frigorífico avariado ou, azar dos azares, uma inundação lá em casa, o primeiro é comprado (mais uma vez) a crédito e o segundo é resolvido com um empréstimo extraordinário (nas Cetelem ou Cofidis e todas as suas semelhantes, que até já existe crédito por telefone, “quatro mil euros, sem perguntas”...).
O Público de hoje (28/Fev) também deu conta das ofertas da banca para os clientes que desloquem o seu crédito para habitação entre bancos e para modalidades mais longas no tempo – o banco dá ao cliente a benesse de um outro empréstimo pessoal, pois é sempre necessário mais dinheiro, não é verdade? Assim, haver quem compre um carro a pronto, ou mesmo um televisor ou coisa do género, é cada vez mais raro. Os portugueses não têm real poder de compra – e o que têm é artificial.
O que me leva a outra ideia, sob a forma de facto: «Portugal está no pior dos cenários quanto às remunerações do trabalho na União Europeia: os seus salários são os mais baixos da zona euro» (Público, 22/Fev). E o salário baixo não pode, certamente, ser um factor de desenvolvimento. Com remuneração baixa não se pode consumir (em quantidade, pelo menos), e não consumindo, o ciclo económico não funciona: o dinheiro não circula, os produtos não escoam, as indústrias não facturam, os empresários ficam sem com que pagar aos seus assalariados que, por sua vez, não recebendo a sua gratificação, não podem consumir e tudo recomeça.
Contudo, há outra coisa que li mas que ainda não consegui perceber: este país tem dos salários mais baixos da UE mas não é competitivo economicamente porque apresenta custos de trabalho elevados. Terei que pedir a alguém versado em economia que me esclareça acerca disto, embora suspeite, desde já, que deve ter que ver com fiscalidade.
quinta-feira, 3 de março de 2005
O português é um consumidor passivo
Isto lembra-me outra coisa que li, também na Pública (27/Fev). Pinto e Castro, professor universitário especializado em marketing, diz que o consumidor português «é ainda muito passivo». Por um lado, desconhece os seus direitos; por outro, não quer ser obrigado a «pensar e a escolher», demitindo-se da escolha «aceitando e agradecendo a manipulação dos anúncios» – ideia de Phillippe Breton, sociólogo, na mesma revista.
O acto de consumo é algo novo para o português. Consumir nem sempre foi um acto quotidiano, tampouco com as facilidades que hoje existem. Não há muitos anos que para comprar era necessário ter dinheiro na carteira, ponderar as opções e distinguir o essencial do acessório, olhando à relação preço/qualidade – porque os produtos tinham que durar. Hoje, para comprar nem é preciso dinheiro vivo – a utilização do dinheiro de plástico (os cartões, de crédito ou débito, tanto faz) tem um lado pernicioso, de contribuir para a desvalorização mental do acto, da quantia, da moeda. O apreço dos portugueses pelas grandes superfícies comerciais, os CC que pelo país fora se multiplicam – nelas passando horas, dias inteiros ao fim-de-semana, com os putos pela mão a berrar de calor, ou de tédio, ou de cansaço, comprando ou somente namorando, à espera que chegue o final do mês –, ilustra parte desta ideia. Li algures (creio que numa edição da Grande Reportagem) que os consumidores do Norte da Europa, por exemplo, encaram o Centro Comercial como um local para ir comprar o que já está previamente estipulado, findo o que regressam a casa.
Quanto a mim, a presente situação da venda de bilhetes para o concerto dos U2 é ilustrativa da passividade do consumidor português. Não só os ingressos são caros (entre 50 a 150 euros, se não erro, para um espectáculo único ao ar livre, não obstante a qualidade da banda, parece-me excessivo) como ninguém parece protestar pela forma como estão a ser vendidos – que considero, no mínimo, espantosamente hostil. A grande maioria dos ingressos estará disponível aos balcões de uma minoria de postos de abastecimento de combustíveis, o cliente terá que ser possuidor do cartão da marca, a British Petroleum, e ainda coleccionar um milhar e pouco de pontos (acumulados mediante consumo dos produtos da marca), para que lhe sejam então vendidos, aos preços referidos, os ditos ingressos. Se isto não é agressivo, não sei o que será.
Para o concerto dos U2 em Viena, Áustria, foram disponibilizados 370 postos de venda, 25 call-centers e uma página na internet. Pergunto-me quantos desses 370 postos de venda foram estações de serviço da BP...
Mas não se duvide: os bilhetes para o concerto em Alvalade esgotarão. Porque entre protestar activa e seriamente contra esta política, junto da produtora ou da imprensa (que, dada a proeminência do evento, não negaria espaço na sua agenda para um protesto desta índole), e esperar umas boas horas numa fila, cheirando vapores de gasolina, a segunda opção é claramente mais confortável. E até divertido e “radical”. Assim se abre um precedente e se alimenta as (bastante careiras) produtoras de eventos musicais que operam em Portugal, que muitas vezes não fornecem um produto que valha o dinheiro que cobram (ou em espaços dignos ou com condições de qualidade mínima). Pedir, à boca pequena, IVA de cinco por cento para os produtos musicais é, realmente, muito fácil; fazer alguma coisa de jeito é que já é muito chato.
(ACTUALIZAÇÃO:
«A BP ia vender os bilhetes em três fases mas, "como se excederam as expectativas, teve de se alterar o processo" e todos serão vendidos desta vez, referiu o engº. João Reis, do Departamento de Comunicação da BP. O cartão BP não é, afinal, essencial para comprar os bilhetes, mas quem o quiser usar tem um pequeno desconto.»
DN, 1Mar2005)
quarta-feira, 2 de março de 2005
Vícios de ricos e o crédito para habitação
Li na Pública (27/Fev) João Casalta Nabais, especialista em fiscalidade, dizer que Portugal tem «vícios de ricos, esquecendo-nos de que somos pobres – os mais pobres da União antes do alargamento de 2004», e a frase nunca me fez tanto sentido como hoje. Com os salários mais baixos da União Europeia, os portugueses têm casa própria; frequentemente mais de um automóvel – é certo que há quem tenha nenhum e viva dos transportes públicos e esta ressalva também se aplica aos exemplos seguintes – e suportam a factura da deslocação diária e individual até ao emprego nesse mesmo automóvel; têm vários telemóveis (simultaneamente ou vários num ano, por indivíduo; ou por agregado familiar; e lideram na compra do último grito da moda nestes equipamentos); computadores pessoais de secretária e os inflacionados portáteis; uma panóplia de gadgets sofisticados que ceifam das várias Fnac; e quando se avaria o frigorífico lá de casa, compram o novo a crédito, em 12 vezes. O autor aponta igualmente «vícios que nem os países mais ricos se dão a luxo de ter, como são, por exemplo, as pensões ou reformas pagas com base num pequeno número de anos de serviço, sem se ter atingido a idade de reforma, como as reformas dos políticos, dos gestores públicos, etc...».
A questão da propriedade de habitação é “um pau de dois bicos” mas ilustra várias coisas. A primeira é que Portugal insiste, perdão, os proprietários portugueses com imóveis para alugar insistem em preços impraticáveis, altíssimos, afastando a quase totalidade de potenciais arrendatários, que chegam à conclusão que a “renda” mensal é mais baixa quando paga a um banco, pela compra de um apartamento. Esta classe de senhorios, por sua vez, espelha várias outras coisas: que são gente que, através de um aluguer, quer ganhar o mesmo que ganharia com uma venda, com a diferença que, no fim, o imóvel continua pertencendo-lhes; que são gente que não realiza obras nos seus imóveis, pois estes pertencem-lhes para a colecta e já não pertencem para neles gastar dinheiro; que são gente que não honra contratos (isto de o contrato de arrendamento não ter que cumprir a forma escrita, deveria ser revisto), despejando os seus inquilinos quando se lembram; que são gente que não passa recibos, logo, arrecada dinheiro livre de impostos; e várias outras coisas, de que me não posso ocupar agora.
A segunda observação que me apraz fazer é que, depois de 40 anos de jugo ditatorial, os portugueses querem, agora que podem, ter algo seu. Isto, claro está, é legítimo. Mas critico que se o faça a qualquer custo. E que as gerações mais jovens sejam educadas desta forma, para esta sujeição ao crédito para habitação, é problemático e até duvidoso. O que me leva a um terceiro aspecto, ligado a esse crédito, que é o seguinte: no final, o português pagou a sua casa duas vezes! Isto mesmo esclareceu hoje (28/Fev) o Público, pondo a claro que num empréstimo de 125 mil euros a 50 anos, com uma taxa de juro nominal de 3 por cento, o montante total dos juros ascende a 116 493 euros, ou seja... Bem, os números falam por si. (a 10 anos o encargo com juros totaliza 19 841 euros; a 20 anos sobe para 41 370 euros)
Obviamente que têm lugar quartas e quintas e sextas e mais observações, desde o negócio que é a venda de terrenos para construção, o sustento das autarquias; o lobby do sector da construção civil, que fixa preços muito acima da qualidade dos imóveis; o imposto municipal ou SISA ou lá o que é; entre outros aspectos.
terça-feira, 1 de março de 2005
O país virou à esquerda
«Estou na primeira fila para assistir à salvação do país», disse-me um amigo descontente com a viragem à esquerda que as últimas eleições legislativas expressaram. Muito se diz que o voto foi de protesto contra uma determinada direita, que mais propriamente de vontade de esquerda. Seja como for, não é isso que me ocupa. Porque qualquer que seja a orientação política do Governo, nada de substancial mudará no país.
Creio que o problema de Portugal, deste Portugal de que todos nos queixamos, ricos e pobres, comunistas e democrata-cristãos, que a raiz do problema está nas pessoas, na sociedade portuguesa, como se apresenta culturalmente, transversalmente a todos os sectores. O problema está nos empresários, nos assalariados, nos governantes, nos gestores públicos, no sistema fiscal e por aí fora. A imprensa dos últimos dias, em referências que não importa precisar (fá-lo-ei às que me lembrar), foi rica em exemplos dessa mesma crise individual, que por força se torna colectiva.
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Partindo do que acima está escrito, durante os próximos dias publicarei as minhas opiniões e pensamentos recentes sobre o Portugal actual.
O texto foi escrito no dia 28 de Fevereiro mas será publicado em partes, pela sua extensão. Assim, pode dar-se o caso de alguns dos exemplos utilizados estarem desactualizados.
A rubrica "Crónicas de tasca" e o link 'A Tasca' não têm qualquer relação.
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005
Isto resume algumas das alarvidades que tenho ouvido lá pelo estabelecimento de ensino superior que frequento:
«Não, não! A esquerdalhada ganhar é que não! Daqui a nada, estão os comunistas a chutar a porta abaixo para nos comer as criancinhas ao pequeno almoço, e roubar as nossas posses, como os perfumes, a roupa cara e os carros de luxo que comprámos com o dinheiro que ganhámos justamente a explorar os plebeus! Com a Santa Direita no poder, há gente fina e gentalha, a elite e a ralé, toda bem separada! Nada destas "igualdades" tolas da esquerda! A minha empregada é igual a mim? Nunca! Sou bem mais que ela, que tenho estudos pagos pelo meu paizinho enquanto ela limpa retretes!»
(refiro-me, claro, à ignorância e ignobilidade do vazio de argumentos, que Ziggy aqui parodia)
terça-feira, 22 de fevereiro de 2005
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005
sábado, 12 de fevereiro de 2005
sábado, 5 de fevereiro de 2005
E hoje reparei que há já algum tempo que não consigo sorrir.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2004
A excelência da TSF presenteia-nos com uma belíssima revista do ano.
Aqui
terça-feira, 28 de dezembro de 2004
Tornei-me solidário com este movimento, logo desde que me chegaram as suas iniciativas.
Aqui
Aqui
Aqui
Estes posts deram origem a uma polémica de plágio, pelo jornal Público. Assunto sem dúvida interessante, também, mas não é isso que quero transmitir hoje.
terça-feira, 7 de dezembro de 2004
«O directo não pára porque a redacção quer notícias, mas as notícias não existem. Três repórteres revezam-se no dizer de coisa nenhuma. Cedo, nada mais há para dar conta que dos carros que passam, dos táxis que chegam. Quem vem lá? Será um arguido? Um advogado? Um magistrado? Câmara e jornalista fixam-se num táxi que acaba de chegar. A expectativa cresce, até ser substituída pelo desalento: "Por acaso é uma colega nossa", diz a jornalista Maria João Ruela, num comentário que deixa adivinhar a consciência do ridículo a que se está a prestar.»
João Manuel Rocha
Público 04Dez2004
terça-feira, 30 de novembro de 2004
«Dezembro, por tradição, é um mês de grande acalmia política, em que os portugueses estarão virados para si próprios, para as suas famílias, e para as festas de apaziguamento interior que o país bem precisa. Será assim?»
Luís Delgado,
Diário Digital 28NOV2004
texto completo aqui
«A realidade continua a ultrapassar a ficção. Quase não passa um dia sem que o Governo proporcione aos portugueses mais uma trapalhada. O Governo não, que as trapalhadas têm quase sempre o mesmo epicentro: o centro do Governo, os próximos de Santana Lopes, o próprio primeiro-ministro.»
José Manuel Fernandes,
Público 29NOV2004
texto completo aqui
Jorge Sampaio vai dissolver Assembleia da República
hoje
segunda-feira, 22 de novembro de 2004
domingo, 21 de novembro de 2004
quarta-feira, 17 de novembro de 2004
quinta-feira, 11 de novembro de 2004
segunda-feira, 8 de novembro de 2004
Perante um passivo final de 2003 na ordem dos 87 milhões de euros e de uma soma com custos e perdas que ascendeu a 51 milhões de euros (1/3 deste valor adjudicado a custos com pessoal e ¼ com amortizações), a Administração do Porto de Lisboa (APL) nomeou cinco novos directores de serviço, cinco novos chefes de divisão e cinco novos chefes de serviço, o que por si só orça 350 mil euros por ano (sem contar com pessoal para estes departamentos).
Convém lembrar que o presidente e o administrador da APL foram, também eles, recentemente nomeados, e que o porto de Lisboa tem operado uma redução do número de funcionários, contra um aumento das chefias (40 chefias, actualmente, sem contar com equiparados em gabinetes ou comissões).
Tudo isto resulta num aumento da burocracia, dos papéis a circular, do tempo de decisão e da desmotivação dos funcionários.
Esta administração do porto de Lisboa criou, no entanto e ao invés da há muito esperada Divisão de Logística, uma Divisão de Animação e Eventos. Uma clara aposta na imagem, tendo como pano de fundo a “devolução do porto aos lisboetas”.
Todos estes aspectos contribuem para: mostrar o irrealismo das metas propostas pelo Governo (reduzir até 2006 o tempo médio de despacho em 50%; quadruplicar o movimento de contentores nos portos até 2015; auto-suficiência portuária em 2005); para mostrar como as instituições públicas (ou de capitais públicos), mais do que servir o país e os cidadãos, servem para albergar amigos, comparsas e conhecidos; para tornar mais clara a desgraçada tendência nacional para mudar tudo sempre que mudam os executivos e as tutelas; para ilustrar o desinteresse crescente dos cidadãos por aquilo que deveria ser do interesse de todos.
Excertos do texto de Jorge Costa,
em Carga e Transportes
Público, 08Nov2004 (indisponível online)
A insistência no uso do termo “adaptação” quando se refere a teoria darwinista da evolução das espécies faz-me confusão. Ainda mais quando se diz que os animais “fazem adaptação” através da mutação (como se esta fosse voluntária), ao longo das gerações. E transpor isto para as teorias da comunicação, pior. Porque as pessoas se podem adaptar, adaptar as formas de comunicação; mas os animais não se adaptam para uma sobrevivência – isso era o que dizia Lamarck.
As girafas têm o pescoço comprido porque as acácias são altas e então a girafa adaptou-se e desenvolveu um pescoço mais comprido; e depois, pelo princípio da transmissão dos caracteres adquiridos, perpetua-se; e as acácias foram crescendo para fugir às girafas; e isto é (numa abordagem ridícula, é certo) Lamarck.
Darwin disse que somente o mais apto sobrevive. Darwin formulou que a variabilidade é intra-específica (através da mutação, da deriva genética, etc) e daí se selecciona, naturalmente, o indivíduo mais apto. Se este se reproduzir, garante a manutenção da espécie. Ou seja: existiram girafas de pescoço grande e pequeno, umas sobreviveram e outras não; o mesmo para as acácias.
Cuidado com “adaptação”. Obrigado Raul.
segunda-feira, 1 de novembro de 2004
Jim Jarmush filmou conversas que se têm em volta de café e cigarros. Gosto de café. Não devia gostar de cigarros. Gosto de cinema. Não gostei, especialmente, do filme – faltaram Samuel L. Jackson e John Travolta, discutindo carne de porco na alimentação diária.
Gosto do audio e do visual. E do audiovisual em movimento. Tenho o cinema e o cinema documental – este que, por acaso, passou em Lisboa e eu não vi – como iogurtes de pedaços para o crescimento, o interior. Intelectual ou cultural; individual sim. Ou não pertencesse a uma das gerações do computador. Há delas que são “do livro”, porque era aquele o meio privilegiado de informação. Outras, onde me incluo, são “do computador”, que é o primeiro livro a ser folheado.
Mas também sou das pessoas. Há tempo que tive consciência de um processo de reconhecimento do indivíduo que sou. Dos gostos, das preferências, dos hábitos, isto sem me conhecer bem. Gosto de escolher os filmes que vejo, por exemplo, e de assumir as consequências. Gosto de ter consciência disso. Com as pessoas é diferente, porque não as escolho. Ninguém nos escolhe.
O que me escreveste fez com que desligasse o telefone – fecho essa janela para o meu pequeno mundo, num gesto simbólico de falsa reclusão e que tanto mais significa que o que verdadeiramente quis que significasse no momento em que carreguei no botão e pousei o pequeno objecto em cima da mesa, não lhe tocando mais, como se fosse uma daquelas cartas que trazem más notícias. Só volto a abrir quando o despertador tocar. Porque o que disseste é verdade e sei que te magoei. E isso é um sufoco.
Gosto de pessoas. Invariavelmente me cruzo com alguém que me influencia bastante. Que altera o rumo da minha vida. Ou que contribui para que me detenha um pouco mais olhando a esquerda e a direita, antes de seguir, e escolher. Sem qualquer ordem específica posso recordar-me de algumas letras e efeitos mas há umas poucas que ficarão para sempre gravadas na minha memória.
Uma, fomos a Braga. Apesar da Primavera estava frio e foi a segunda vez que fui acima do Douro, mas acaba sendo a primeira porque a outra não conta porque é só desta que me lembro. O que ali nasceu não mais se quebrou. Outra, foi bem aqui, em Lisboa. E foi quando descobri o coelho da Alice, que corria na estação do metro. Foi também a primeira vez que olhei para dentro de mim.
Estas pessoas que nos ficam, ficam-nos porque trazem sempre uma primeira vez. O princípio fotográfico é mágico por essa mesma razão: só existe uma vez, a primeira.
E pela primeira vez li Almada Negreiros e li de Almada Negreiros uma fotografia genial que escreveu. Como quando a tiramos e depois nos detemos a olhar e a ver. É assim:
«Tinha um pescoço horrível, sem ligação da nuca com as costas. Uma cova em triângulo entre as homoplatas e a falha do pescoço. E aqui a cor era ordinária. Porém, a nuca perfeita de redondeza, nem saliente, nem retraída. O tronco era uma verdadeira maravilha. Era todo o segredo da sua formosura. Os seios hediondos, partidos, duas excrescências inutilizadas. O busto curto mas sólido. Os ombros grandes e largos, levemente subidos. Os braços apertavam desde o ombro até ao pulso por uma forma ridícula e sem distância. As ancas cerradas, entre menina e mulher. A linha dos ombros mais larga do que a das ancas, conforme a robustez do tronco. O ventre, bem posto, era contudo mais admirável do que formoso, mais escultural do que atraente. O umbigo, o sexo, as virilhas, era tudo infantil, inocente. As coxas é que rompiam audaciosas. A cor das coxas era clara e a do ventre incomparavelmente menos clara. Via-se que era filha de uma pessoa muito branca e de outra bastante morena. Mas a mistura não estava bem feita: a sua pele ia desde o mármore rosa-pálido até ao tijolo sujo. As costas, genialmente bem divididas por um único vinco, firme, vertical, helénico, separando duas metades simétricas, amplas, até aos rins longos. Umas nádegas de rapaz. As pernas, se tinham algum atractivo, não pertenciam contudo à maravilha daquele tronco, esse acaso feliz da natureza. As barrigas das pernas, grosseiras, saltimbancanescas. Os joelhos estropiados. Os pés horríveis, o pior de tudo juntamente com as mãos. Estas davam a impressão de não fecharem, desajeitadas, incompletas, mal terminadas, falhas de paciência. Os dedos não se punham direitos. As unhas roídas até para lá do meio. Enfim, as extremidades péssimas. Dir-se-ia que a desordem da sua vida ia dar cabo daquela obra-prima da natureza e começara já a sua destruição pelas extremidades.
A cabeça também era incompleta, mas tinha qualquer beleza que se ligava com o tronco. A testa pequeníssima ao alto e ao largo. Bons cabelos lisos, mal começados na frente, com remoinhos. As orelhas pobres, minúsculas e engraçadas. Uma boca ingénua, sem a sua maldade, e um jeito pândego ao canto da direita. Autentica boca de rua. Bons dentes, curtos, já separados, e as gengivas gastas. Os olhos míopes não davam o encanto que prometiam. O nariz pequeno e perfeito. O perfil desde o fim da testa, com a boca fechada, até ao busto, era formidável de inteireza e de carácter meridional, peninsular, português. Bastante viril e sem por isso ser masculino. (…)
A diferença entre o perfil e a frente era esmagadora. Ela tinha escarrada num focinho animal a triste vida que levava. A fisionomia era canalha e grosseira, e o seu perfil nobre e puro, não cabia ali.»
A miuda do filme da Sofia Coppola era bonita. Branquinha, mas bonita. Não percebi, contudo, qual o fetiche da roupinha colegial. Assim como certamente não vou perceber, amanhã, o Fernando Luís a dizer «a gaja é minha filha», pá.