sábado, 30 de dezembro de 2006

Não te incomoda que Saddam Hussein tenha sido enforcado?
Da felicidade
Em “Câmara Clara”, programa de Paula Moura Pinheiro, aqui com João Pereira Coutinho e Ana Martins. Este é um dos melhores programas em emissão na TV portuguesa. Ver aqui.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Tsunami, Tim Roth e deitar tarde
A mini-série de dois episódios “Tsunami, the aftermath”, com a chancela da HBO, passou insuspeita e a más horas em duas noites desta semana na SIC. Apesar do receio de que se tratasse de mais uma dramatização com base em testemunhos reais a atirar para a lamechice, foi por ter visto o Tim Roth no ecrã e pensar «ena, então este tipo ainda mexe?», que me demorei a ver partes de ambos os episódios. E surpreendi-me.

Roth interpreta o papel de um jornalista de agência, um dos primeiros a chegar ao local onde se passa a história, uma localidade costeira tailandesa. É um sujeito sujo, seboso e mal-cheiroso, muito curioso e com faro, que prefere deixar as histórias banais aos outros, que são todos, e procurar as suas. Até certo ponto da série tem um colega fotojornalista, nativo, e é com ele que se dá o primeiro de alguns choques provocados pelo jornalista: Roth quer fotografias dos corpos sendo cremados em templos budistas, corpos que não tinham sido identificados, e o colega recusa-se, por respeito aos monges, à sua religião, à sua cultura. Primeiro ponto de interesse: o choque de civilizações. O que se deve sobrepôr? A tradição da libertação das almas, que é também uma medida de salubridade, ou o procedimento legal, ocidental?, de esperar pela identificação daquelas vítimas e proporcionar-lhes uma viagem até casa e um enterro?

Adiante Roth apercebe-se de dois factos, que questiona a uma representante de cadeia hoteleira ocidental: porque ficaram de pé as palmeiras e os hotéis foram arrasados? e porque estão já em campo escavadoras e equipas de trabalho limpando escombros, alisando as praias onde antes estavam hotéis, escassos dias após o tsunami? Está apontado o dedo: os hotéis não passam de “palhotas”, construções precárias, baratas, inseguras, cujo valor único é o de estar erigidas nas praias do paraíso. Mais: o que importa é reconstruir, e se se puder sacar mais umas terras às vítimas locais que não deixem herdeiros, tanto melhor. Negam? Não negaram.

O diplomata inglês, tipicamente de calça beje e camisa azul claro, chegou ao local bastante atarantado e ainda soltou uns «arranjem-me um chá», «vamos montar a base no hotel» ou «precisamos de um escritório com ar-condicionado». Saudades do consulado… Com o tempo, lá assentou os pés na terra e percebeu que tinha era de fazer qualquer coisa pelos sobreviventes. Constata-se: ninguém está, estava, preparado para agir em conformidade com o que se passou.

Os turistas, aparte o drama de terem perdido alguns dos seus mais próximos e de quererem, a todo o custo, ser levados dali com os sobreviventes feridos, passaram um retrato daquele tipo de turismo, que acho fiel, nunca o tendo feito. Não falam a língua, não querem saber dos nativos — que são quem os serve, quem lhes arruma o quarto e as malas, etc — e não os ajudam naquela situação, que é em tudo semelhante à deles — a série lá se apoia no personagem de um rapaz tailandês, paquete de hotel, e único sobrevivente em toda a sua família, par mostrar o “outro lado” da tragédia. Os turistas acenam com o dólar, altivos, e querem que tudo aconteça num ápice. Os turistas, se são a subsistência daquele tipo de economias, são também nojentos. É bonito ir lá, estar lá enquanto tudo corre bem, mas ao primeiro odor a esturro é vê-los gritar e virar costas. A exploração destes povos que turistas e fornecedores ocidentais deste tipo de serviços fazem na Tailândia, em África, em Cuba, em tanto sítio, enoja-me um bocado.

E mais não vi.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Foi ou não foi Zé Carlos? Pssshhht cala-te!
No final do encontro com o primeiro-ministro turco, Recep Erdogan, este afirmou que o Papa lhe tinha dito: “Desejamos que a Turquia faça parte da União Europeia.” Mas o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, corrigiu o que Bento XVI teria dito: “A Santa Sé olha positivamente e encoraja o caminho de diálogo, aproximação e integração” da Turquia na Europa, “na base de valores e de princípios comuns”.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Um Porto branco seco
Que se lembrasse, nunca lhe tinha acontecido uma mulher pedir-lhe o número de telefone. Muito menos ligar-lhe cinco minutos depois de ter saído. Rindo e convidando-o para um jantar, sexta-feira, na Casa do Algarve, no Chiado. Em grupo. Aceitou, claro. E deitou-se sorrindo, curioso.

Na tarde seguinte resolveu desafiá-la para uma odisseia vínica. O aniversário de Tiago, o amigo do peito, já tinha passado e ele não tinha conseguido comprar atempadamente o vinho que queria oferecer. Então reservou a tarde para correr algumas garrafeiras da cidade e quis levá-la consigo. Era um teste, sim. Conhecê-la um pouco melhor, os dois sozinhos num campo neutro, sem horários que não os do fecho das lojas, sem constrangimentos. Para ver que assuntos surgiam, para ver se ela gostava ser deixada passar primeiro, para ver como contribuía para o passeio sem programa, para ouvir o que dizia e de que forma reagiam os olhos dela aos seus filmes preferidos, discos repetidos, lugares mais queridos e se gostava do nome que ele já tinha escolhido para o primogénito, o que, aliás, era condição inegociável mas, descanse-se, pode não ser o primeiro nome. Para saber dela e dos seus. Para se mostrar, ele e os seus. E os sentimentos também.

Joaquim Pedro — e Pedro é apelido — era um rapaz introvertido até ficar confortável, até ficar seguro de si, até a falsa timidez desaparecer, que não era falsa porque fosse mentirosa, mas sim a primeira casca a sair logo que sentisse reciprocidade no contacto.

Começaram na Garrafeira de Campo de Ourique, ali próximo à rua Ferreira Borges. O bairro tinha gente, lojas de todos os tipos, eléctricos a passar, pastelarias à antiga e até uma vista sobre o rio, a ponte e o Cristo Rei. Se anoitecesse entretanto, as iluminações de Natal comporiam o cenário e nem estava muito frio. Quase perfeito. Só não o foi porque o vinho, que havia no armazém, como meia hora antes a mulher tinha afiançado, que podiam até ir beber um café e voltar logo para buscar, afinal não havia. Nem uma garrafa. «Eu sei que é desagradável perguntar, mas então e na concorrência? Pode indicar alguém aqui perto?...» Visivelmente melindrada, a mulher lá deu um número. «Pode ligar daqui», disse, virando o telefone do balcão na direcção de Joaquim. «Ora essa, não é necessário…» Quando ele saiu já Clara se ria, como aliás só ela, dona de um sorriso e de um riso encantadores, de tão genuínos.

Clara Menezes de Andrade, ou «Clara, como a água», que foi como se apresentou da primeira vez. Clara era da altura de Joaquim, tinha olhos castanhos e cabelo curto acima dos ombros, de uma cor acobreada, que Joaquim lamenta não conseguir descrever melhor, porque é manifestamente ignorante no assunto e as suas três irmãs têm todas o cabelo preto, a mãe é loira pintada, e mais longe que isso ele não vai. Acobreado, portanto. O corpo era robusto, pelo que Joaquim já tinha visto, embora não hoje, que Clara vestia um casaco cinzento até aos joelhos. Robusto no sentido oposto àqueles corpos franzinos de miúdas magras, mas não robusto de peso excessivo, nada disso. Seria mais na categoria de “ossos largos”, e por aqui se vê que Joaquim não é nenhum Eça e mete os pés pelas mãos nesta coisa das descrições. Contudo, não se duvide: era sensual, e não somente pelos seios pronunciados, como o Bernardo e outros dos seus amigos notavam, como que hipnotizados e bastante primários. As mãos — e Joaquim é um homem de mãos — eram grandes com dedos longos e para ele, numa palavra, bonitas. O resto, que era ainda o início, resumia-se assim: extrovertida, obstinada, noctívaga e louca a conduzir.

Antes tinham passado tempo numa pastelaria, de que nenhum recorda o nome, mas que tem um toldo verde e que fica numa esquina junto a um jardim. Que tem apenas três mesas com duas cadeiras cada, duas delas junto a janelas e a outra encostada a uma parede dos fundos. Dois balcões avançados até mais de meio da casa, duas senhoras e dois senhores atendendo, e reformados habituais comendo rapidamente e em pé. Bolos ou especialidades, não se sabe. Joaquim bebeu um café, cheio, e Clara um galão, que veio tão quente que escaldava os dedos e teve que ser mudado de copo. À mesa, falaram de percursos passados e da relação com os pais. Em boa verdade, falou sobretudo Joaquim, entusiasmado com as perguntas empenhadas que Clara lhe fazia. Aliás — e que fique registado —, foi ela quem puxou a conversa dos “ex” sem saber se havia alguma, porquanto não se conheciam tão bem, o que Joaquim interpretou, com bastante agrado, tratar-se de uma pergunta interessada.

Depois de caminhar pela rua e enquanto ele descobria ao telefone que a concorrência indicada pela mulher mal disposta também não tinha o vinho, Clara olhava modelos e fazia perguntas numa sapataria. No bairro há muitas e os sapatos são uma das suas predilecções. «Porque não tenho pezinhos de princesa é difícil encontrar o que me sirva e que eu goste», explicou. Não precisava, porque não aborrecia Joaquim. A paciência para compras com mulheres só lhe faltava em centros comerciais e quando a visita tinha esse único objectivo, que aí elas parecem sempre ligar um modo de funcionamento cego ao resto e magnetizado em provadores e coisas assim. «Tenho de voltar cá» foi a deixa que confirmou: ela tinha gostado.

«Disseram-me que na João XXI há uma boa garrafeira e é possível que tenham. Vamos lá?» Ela, mais prática, preferia telefonar a perguntar. Mas acedeu. Mais do que uma garrafa de Apitiv, um Porto branco seco da casa Sandeman, que Joaquim agora já sabe que deixou de ser produzido e a haver será apenas em fundos de stock, o que ambos procuravam era passar um bom pedaço de tempo.

Pelo caminho, no carro, e para além do susto que Clara apanhou quando um sujeito recuou incauto do mau estacionamento para o meio da rua e Joaquim guinou para a esquerda buzinando, mesmo entalado por um Audi prateado que vinha desejoso de o ultrapassar, falaram de música. O Rui Veloso é que escreveu que «não se ama alguém que não ouve a mesma canção» e se fossem por aí, Clara e Joaquim estavam tramados. Mas quem é que falou em amor? Por agora, esse é como o vinho: não há em lado nenhum.

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Koop @ Casino Lisboa
A proposta era atraente: os suecos Koop, em Lisboa, para rodar o novíssimo terceiro disco, “Islands”. Lá fui, ontem.

O espaço Arena Lounge do Casino Lisboa é muito acanhado e encheu rapidamente, por certo pela entrada gratuita. O que pôs a nú as más condições do local: a circulação de pessoas era extremamente difícil, como sardinhas em lata, sendo impossível mexer-se fosse para que lado fosse (óptimo, contudo, para engatar gajas… eu e a quarentona afiançamo-lo… e tenho testemunhas! :P), deixando antever que em caso de alguma emergência serão muitos os espezinhados e esmagados — num edifício moderno, senhores? caramba!... O som também estava baixo e mal ajustado às características dos instrumentos acústicos, sobretudo do contrabaixo. Mas lá ultrapassámos o desconforto, vendo a banda por detrás de uma escadaria, meio agachados…

Ao longo de hora e meia ouviram-se temas dos três álbuns, “Sons of Koop” (1997), “Waltz for Koop” (2002) e “Islands” (Nov 2006), numa performance muito equilibrada, quiçá sem grandes rasgos. Yukimi Nagano esteve muito bem, quase sem diferença vocal para os discos, entrando e saindo de palco conforme os temas. O baterista ainda solou, e bem. O homem do vibrafone foi preponderante. O contrabaixo perdeu pela má afinação do som. O trombonista prestou um bom serviço. A dupla de maestros Oscar Simonsson e Magnus Zingmark, não obstante os vestidinhos de alças e a maquilhagem à Conde Redondo, fez o que se lhe pedia: sem pregos, os samples foram entrando à hora certa, tudo bem equalizado e irrepreensível.

Ficam, no entanto, duas impressões. Primeira, falta aos Koop alguma garra de palco, não descartando a hipótese de o espaço esquisito (um palco elevado, como uma varanda) e a audiência dispersa por dois pisos e um bar, ter causado desconforto e impedido a ligação a recinto e público. Segundo, ter um conjunto de metais em palco, em vez de ter os segundos instrumentos samplados, seria sem qualquer dúvida uma grande mais-valia para o grupo.

Os Koop são mais um nome que reforça o que venho dizendo há anos: as escolas de jazz, música electrónica e experimentações fusionistas do Norte da Europa são do mais interessante que o jazz do velho continente tem para oferecer.

P.S.: Alguém exige que eu refira que ficou apaixonado pela Yukimi Nagano...

domingo, 10 de dezembro de 2006

«Arrastão mantém-se submerso em Setúbal»
Público, 07Dez2006

Depois de Carcavelos, os tipos estão só à espera que chegue o bom tempo e que a Trói(k)a do Belmiro esteja concluída, para atacarem de novo. Espertos.

sábado, 9 de dezembro de 2006

«Vendo-me manietada pelo capanga, deu-me dois estalos»
(…) Jorge e Carolina conheceram-se no Calor da Noite, casa de alterne do Porto onde a mulher de 22 anos tentava arranjar sustento para os dois filhos. Apaixonaram-se ao som de Sting, passaram a primeira noite juntos num hotel em Espanha e Carolina mostra no livro os bilhetes de amor que o presidente lhe escreveu: “Giorgio love Carolina”. E revela que gostava de frango com ovos e ‘cafuné’ para adormecer.

Só gostava de saber como foi possível a Rui Gustavo escrever isto (Expresso, 08Dez2006) por entre os espasmos de gargalhadas daquelas de rebolar no soalho. Ou não? Eu, pelo menos, dei espectáculo no café…

domingo, 3 de dezembro de 2006

Assim como quem assinala o terceiro aniversário do Pudim, que foi algures em Novembro, há novidades aí à direita. Poucas, mas há...

sábado, 2 de dezembro de 2006

Volta Pierce Brosnan, estás perdoado
Fui ver o «007 - Casino Royale» desprendido de preconceitos, sem expectativas e sem ter lido críticas. Resultado? Fraquinho.

Por muito que se tenha esforçado, Daniel Craig não conseguiu ser um Bond. Achei-o demasiado musculado, com um rosto muito duro, uma expressão de severidade — ou pretensa severidade? — muito marcada, com um puro sotaque inglês inexistente e um fato que simplesmente não lhe assenta. E a Bond girl também não me encheu as medidas... É gira e tal...

Por outro lado, os argumentistas e o realizador (?) deixaram cair trechos fundamentais num 007: então o James não quer saber se o seu Martini é mexido ou agitado? então a deixa “Bond, James Bond” aparece só no final? então o Aston Martin fica destruido — e muito bem destruido, diga-se, que a cena do capotamento é fenomenal — sem fazer uma perseguição digna desse nome? Pá...

Contudo, tenho que reconhecer que houve momentos em que o filme me prendeu. Mas... Pois.

Para mim há dois Bond: o Sean Connery e o Pierce Brosnan. E daqui não saio.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

«É como um turbilhão, Fazendo uma miséria...»
Ainda hoje não me entendo, não sei porque acordei assim uma manhã que não teve nada de especial, além de assinalar isto. «Vivo», pensei, sorrindo.

Hoje, que já passou tempo, perco o sorriso de cada vez que leio o que escreveste. E entristece-me que assim seja, pois devia ficar feliz.

Não há explicação para me sentir cheio ao olhar-te. Não há explicação para querer tocar-te. Não há explicação para querer fazer-te sorrir. Não há explicação para o aperto no estômago quando chegavas. Não há explicação para o nervoso miudinho quando ias. Não há explicação para as falhas de comunicação disparatadas. Não há explicação para ficar chateado com elas. Só há explicação para isto, agora. E é tremendamente simples. De uma linearidade incómoda.

É como diz o Chico.

sábado, 18 de novembro de 2006

Detesto que os senhores que gerem a rede wireless da universidade bloqueiem o Messenger e o streaming de rádio (queria ouvir o Álvaro) ou de TV (queria recuperar a Paula), ou seja lá do que for! Nos computadores fixos da instituição, tudo bem. Mas se existe wireless para usar com os computadores pessoais de cada um, não metam o bedelho, ok? F***-se!
Detesto não conseguir escrever.

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

Perdidos na cidade
A porta está colocada a meio da parede da sala rectangular. Em frente as janelas e portadas de madeira escura estão fechadas. O cheiro é húmido, a mofo, do tempo que tudo esteve fechado? O tecto de estuque bem acabado e à antiga está amarelecido e remendado. No soalho encontram-se, à esquerda e à direita, conjuntos de sapatos usados, dispostos em pares, geometricamente. De mulheres, homens e crianças. Nas paredes de topo, imagens. À esquerda um televisor mostra vídeos institucionais de promoção ao recrutamento militar — canadianos (os tipos que não trancam a porta de casa), israelitas, paquistaneses (ritmo marcha militar com arranjo bollywood), de empresas privadas de armamento norte-americanas, tudo sonorizado. À direita uma tela amarrotada reflecte sequências mudas de bombardeamentos, manobras de aviões, desembarques aéreos de tanques blindados, o icónico verde da CNN naqueles dias em 1991. À esquerda e à direita, o elogio do belicismo. No chão, as vítimas.

Encontrámos a Casa d’Os Dias da Água no final de um dia que me foi cinzento. O pretexto? “Teatros de Guerra”, de Thomas Walgrave, até 12 Nov. Da instalação de três salas, destaco — e acho que tu também — a segunda. Esta. Mas Walgrave também compõe «alguns dos paradoxos que decorrem das situações de guerra, utilizando para isso textos (convenções, resoluções da ONU, tratados de paz) e material de vídeo (spots publicitários do construtor aéreo Macdonald-Douglas, imagens de bombardeamentos de precisão), que depois relaciona com meios populares de marketing, como t-shirts

A Casa d’Os Dias da Água fica no n.º 175 da rua D. Estefânia e é um espaço de utilizações múltiplas pela companhia Sensurround e outras. Hoje teve problemas de energia e as luzes apagaram-se a espaços, mas não fez mal. Ao lado e nas traseiras, o Basta – café jardim, muito curioso.

A ti, gostava de lá te ter levado. Quando?

terça-feira, 31 de outubro de 2006


Se soprar muito o balão amarelo rebenta na cara com um estalo seco. Sem aviso. E não como as bolas de sabão, que fazem ‘puf’. É com um estalo seco.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Três quartos que ontem sairam da sala sorrindo
ou a continuação do (meu) DocLisboa
Há filmes que têm o dom de nos fazer sair da sala sorrindo. “La Consultation” é um deles. O clínico geral Luc Perino é tão mais que um médico e a medicina, como ele diz, é o bocal do funil onde desemboca toda a sociedade. Por isso ele é urologista, psicólogo, obstetra, ginecologista, pai e mãe, filho, conselheiro.

Com um sentido de humor refinado, Luc Perino dá vida ao que podiam ser histórias banais e algumas vezes tristes. A do esquizofrénico, a do jovem casal que vai ter um filho: «Está grávida? Então parabéns! Ou… ou não?». A da rapariga que chega com os sintomas e o diagnóstico e o tratamento já na ponta da língua: «Então adeus. Porque veio cá?». A da senhora de 76 anos que pensa em suicidar-se desde que foi viver para um lar de idosos, a do alcoólico que não tem na mulher o incentivo que diz precisar para parar de beber, a da rapariga que a uma semana das férias do call-center vai pedir um atestado de doença para semanas porque não aguenta mais o ritmo de trabalho: «Trabalha há um ano… Então e como vão ser os próximos 40?» A da mulher que o consulta para “ir às compras” com a sua extensa lista de prescrições: «Mais alguma coisa?».

O filme de Hélène de Crécy, incluido na competição internacional, foi visionado por um auditório a três quartos. Três quartos que ontem sairam da sala sorrindo. E isso é certo.

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Três bons filmes ou o (meu) DocLisboa até agora
DocLisboa 2006 termina no próximo domingo, 29 Out. Decorre na Culturgest.

“The Emperor’s Naked Army Marches On” foi a primeira agradável surpresa do DocLisboa. Neste documentário do japonês Kazuo Hara, filmado entre 1982 e 1987, somos levados a entrar na vida de Okuzaki Kenzo, soldado sobrevivente da II Guerra Mundial, do teatro de operações da Nova Guiné, e na sua obsessiva busca de provas que responsabilizem o império japonês por mortes obscuras de soldados seus compatriotas.

Na Nova Guiné, já no final do conflito, as tropas japonesas foram deixadas a morrer à fome, cenário que deu origem a episódios de canibalismo entre camaradas militares — os soldados rasos eram sacrificados. Ou então, dias depois de finda a guerra, soldados dados como desertores eram executados sem julgamento.

Kenzo procura oficiais na reforma, envelhecidos como ele, e arranca-lhes — sim, arranca, porque chega a usar a violência — depoimentos que confirmam as suas suspeitas.

São vários os aspectos que acho interessantes na fita. Por um lado os factos escabrosos que apresenta, e que eu desconhecia. Por outro, relembra o que é a guerra, qualquer guerra: horror indescritível. É também um estimulante retrato da complexa sociedade japonesa, embebida numa cultura imperial há milénios, complexidade essa que encontro na relação e respeito pelos espaços privados, ou na honradez dos extensos cumprimentos, ou no brio com que Kenzo pede desculpa àquele que momentos antes agrediu, ou na cuidadosa e respeitadora acção das autoridades quando são chamadas a intervir nos desacatos e manifestações solitárias que Kenzo promove.


“Logo Existo”, de Graça Castanheira, apresentou-se em estreia absoluta num Grande Auditório que creio ter esgotado. A minha expectativa pessoal acerca da fita era elevada. De facto, desde as declarações pretensiosas e arrogantes — e francas e realistas? — que ouvi da realizadora aquando do festival Panorama – Mostra de Documentário Português, em Janeiro último, que vinha esperando que as corroborasse com trabalho vivo. E isso aconteceu ontem, com “Logo Existo”. Tecnicamente excelente e irrepreensível, interessante na abordagem ao tema, maduro na realização, ao filme bati palmas com prazer.

“Logo Existo” parte de histórias de renascimento após acidente vascular cerebral e toca assuntos relacionados com o estudo da mente e a relação que com ele têm a religião e filosofia, incluindo ainda algumas notas informativas — à falta de melhor palavra… — sobre neurobiologia.

Pessoalmente, a fita agoniou-me em vários momentos. A possibilidade real de um AVC aos 30 anos assusta qualquer um, e a quem, por vezes, salta noites, bebe mais café que o estritamente necessário ao gosto, corre em horários, etc e tal, ainda dá mais motivos para pensar. Merece ser visto. (acredito que passe na TV em breve)


“Sisters in Law” chegou premiado a Lisboa. Prémio do público no festival de cinema documental de Amesterdão, prémio CICAE em Cannes, e nomeação para melhor documentário britânico nos British Independent Film Awards, tudo em 2005.

O filme de Florence Ayisi e Kim Longinotto retrata duas juristas camaronesas que executam a lei e a justiça num contexto marcado pela tradição, abuso e violência, sobre as mulheres e as crianças.

Agradou-me o olhar pelo emaranhado cultural (social, religioso), que espelha muitos dos países africanos, a questão do poder nas mãos das mulheres — não tendo ainda chegado à política, são elas que tocam o país para a frente nos cargos de poder que ocupam —, e o relembrar da desestruturação transversal que grassa em África.


O DocLisboa continua amanhã.

sábado, 21 de outubro de 2006

Uma semana
Daquelas que são para esquecer ou recordar. Como a revista, que vai ficar na memória, sem qualquer dúvida. Um fecho improvável, trabalho violento, um gozo tremendo e uma aprendizagem de valor incalculável. Foi sempre assim, caramba. E a vós devo tudo isso.

Já à chuva quero cobrar o cinzentismo dos dias e do humor. Caraças, tinhas que chegar?! Ao menos o almoço com vista sobre o Tejo, num recanto bem catita da parte alta da baixa da cidade. E os doces algarvios, não os têm? Caricato, no mínimo.

“Paraíso Agora”, que já saiu das salas, foi um belo murro no estômago. Recorda-me um título que escrevi há dias: olhar de frente as contradições de Israel. Não esperei que aqueles suicidas tivessem o fim que tiveram, nem que o episódio da última ceia de Cristo fosse caricaturado, nem de achar a Lubna Azabal tão gira, nem que no final todos os intervenientes questionassem o acto em silêncio, nem que não houvesse qualquer sonorização aí, nem esperei que fossemos cinco na sala. Nem que a companhia fosse tão agradável. A repetir.

Não sei se gosto ou não daqueles cafés metidos burgueses, mas a esplanada coberta daquele à Guerra Junqueiro deu bastante jeito, não deu? Tínhamos tomado banho, não precisasses de comprar tabaco e falar das dúvidas. E eu sempre saciei o desejo com um falso pastel de nata.

Tu foste embora. Os meus horários, não é?... És um belo enigma.

Antes, a tua clarividência. Sempre pertinente e que sempre procuro. Há pessoas que amo, tu és uma delas. A sensação de possuir tal privilégio há já anos é muito, muito boa.

Para jantar desaconselho vivamente o Maio. A casa vem nos guias e isso dá direito a receber a conta que não foi pedida, para vagar mesa. E se há coisa que detesto é isso. Tudo estava impecavelmente confeccionado, e a torta de amêndoa é mesmo paradisíaca, mas tais preços por tal serviço, não. Perderam este cliente em estreia e todos os que conseguir demover. O euro acompanhado de “goodbye” sabe melhor que aquele acompanhando o “obrigado”? Bardamerda…

De microfone em punho, o fado no Bairro Alto. Todas, mas mesmo todas as casas, que a chuvinha miúda não meteu medo. Até porque, caramba, estávamos com a Tété. É, realmente, um mundo à parte.

No início da maratona no estúdio, o teu gesto. Surpreendeste-me. E deixaste-me curioso. Além de que me salvaste, verdadeiramente. E agora?

Mozart, em esforço para não adormecer sentado, e um quinteto de sportinguistas que se achava engraçado. Não, não me leiam mal: Mozart foi bom.

O Expresso chega-me, finalmente, às mãos. Gosto do papel e do formato. A Única parece-me, mais que nunca, uma Caras. E isso chateia-me. Vamos ao filme japonês?

quinta-feira, 28 de setembro de 2006

Foi há 15 anos

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

As roupas de Jorge
Este é um dos mais bonitos poemas de Jorge Ben Jor. Nele encontro uma lição de força, perseverança e coragem. Aqui pela voz de Caetano Veloso, que lhe confere uma grandeza diferente e arrepiante (excerto de “Prenda Minha”, 1999).


Jorge sentou praça, na cavalaria
Eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia

Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Para que meus inimigos tenham mãos e não me toquem
Para que meus inimigos tenham pés e não me alcancem
Para que meus inimigos tenham olhos e não me vejam
E nem mesmo pensamento eles possam ter, para me fazerem mal

Armas de fogo, meu corpo não alcançarão
Facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar
Cordas e correntes arrebentem sem o meu corpo amarrar
Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge

Jorge é de Capadócia
(…)



Também quis vestir as roupas de Jorge. Para não deixar que te levassem, porque o tempo que cá estiveste não foi longo nem curto, foi pouco. Assim que foste, muito se desmoronou, como se fosses tu quem nos envolvesse, mesmo apesar de as tuas mãos não conseguirem abrir um frasco de mel.

Não eras propriamente corajosa, até pelo contrário. Mas só nas insignificâncias. Trovejasse e sussurrarias. Fosse noite muito tarde e faltasse alguém, já não descansarias. Estivesses muito alto e não olharias. Visses infelicidade nos teus e chorarias, às escondidas.

Vi-te limpar os olhos por detrás dos óculos muitas vezes. Mas vi-te destemida entrar naquela sala fria. Não percebi quando te recusaste, julguei eu, a descansar. Mas soube logo porque querias voltar. E por isso me ofereci prontamente.

Aquela manhã foi como a de hoje: muito chuvosa e muito cinzenta. Disse-me ela: «não somos só nós que…». Conforta-me pensar nisso. Assim como crer na promessa silenciosa que te fiz; que compreendeste bem demais o que ele te disse que chegará dentro de semanas; e que não estarás sozinha a ler isto, agora.

E então te digo: não te apoquentes mais, já foi suficiente. Tudo se resolverá pelo melhor. Somos todos capazes. Da mesma forma que tu foste, lembras-te?

Também hoje eu quero vestir as roupas de Jorge.

Porque duvido muito.

terça-feira, 19 de setembro de 2006

O gajo da almofada, o Nuno e os 10eur que custa
Não sou leitor assíduo deste senhor, nem ouvinte matinal — pois que, bem haja, agora os meus dias não começam tão cedo —, mas mesmo assim faço-lhe publicidade, assim como quem não quer a coisa. Mas não é por ele. É para ler o que ele escreveu — e agora estou a gabar-lhe o trabalho, hein? — sobre a peça The Pillowman, em cena no Maria Matos. Convenceu-me.

domingo, 17 de setembro de 2006

Não é para se perceber
Grande parte da obra de Almodôvar é de elogio à mulher. “Volver” é mais um. Sim, não é tão bom quanto outros. Mas, ainda assim, é. E tu que o digas, porque gostaste. E se não conheces mais nenhum Almodôvar, resolveremos isso em breve. Basta o mesmo arrojo que teve Raimunda para ensacar Paco. Porque é disso que se trata, é dessa firmeza que são feitas algumas das mulheres que conheço, e é isso que me faz gostar tanto delas. Que têm nos olhos algo mais que já convicção, uma profundidade que não precisa ser literal mas é o caminho mais franco para o coração. Que têm na boca a doçura ou aspereza, tanto faz, de quem saboreia limão sorrindo. Que têm nas mãos, mais do que a beleza ou o aprumo ou por vezes a falta de ambos, um toque suave e sempre cheio, por mais frio que esteja lá fora, que raio. Não é para se perceber.

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

Se Al Gore fosse eleito Presidente, ratificaria Quioto?
É esta a questão que se coloca, depois de “Uma Verdade Inconveniente”.

domingo, 3 de setembro de 2006

“Voo 93” ou a propaganda da war on terror
Apesar da minha resistência, fui convencido a assistir ao filme “Voo 93” (“United 93”, na versão original), fita que aborda o quarto voo desviado a 11 de Setembro de 2001, e que desapareceu nos céus da Pensilvânia. Quem me convenceu deve-me os 4,20eur do bilhete.

A fita de Paul Greengrass não me seduz, cinematograficamente falando. Filmada com câmara ao ombro, de resto como o seu outro “Bloody Sunday”, torna-se incomoda. A técnica pretenderá dar ao espectador a perspectiva de quem está nos locais, seja no avião ou nas múltiplas salas de controlo de tráfego aéreo, partilhando os diferentes dramas. Aliás, todo o filme vive deste pretenso voyeurismo e creio que as audiências se farão disto mesmo.

A insistência no relato do que supostamente se passou nos vários centros de controlo de tráfego aéreo, que sucessivamente foram perdendo contacto com os quatro voos, quando em simultâneo tinham lugar os acontecimentos nas torres do WTC e no Pentágono, poderá querer demonstrar os efeitos da surpresa e uma possível descoordenação entre instituições, desde as autoridades aéreas aos militares.

Mas mesmo aí, como no filme no seu todo, encontro as premissas que aos meus olhos fazem “Voo 93” um folheto de propaganda. Propaganda para a legitimação da “war on terror” que o presidente George W. Bush vem apregoando desde então. Sobre a qual semanalmente discursa — e aqui vale a pena ler a imprensa americana ou inglesa, ver a CNN, BBC ou Sky News para se ouvir os discursos na íntegra, ao invés dos 30 segundos do telejornal português.

“Voo 93”, da mesma forma que “World Trade Center” de Oliver Stone, que nos chegará brevemente, são propaganda.

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

Por aí...
Tem sido assim, e vai continuar sendo.


quarta-feira, 24 de maio de 2006

quarta-feira, 26 de abril de 2006

Uma ópera chata e um cigano loiro
«És muito sério», disseste-me. Não foi a primeira vez que o ouvi, mas nem por isso começámos mal. Gostei bastante da conversa. E do teu sorriso, o mesmo com que me atiraste essa à cara. Hoje, agora, não estou cansado, esse estado sobre que te insurges. Mas porque não sou pedra, e sem contudo me conhecer hipocondríaco, dói-me ligeiramente a cabeça, um latejar ritmado dos dois lados, como que uma prensa. E o dia nem começou cedo, pelo que não é da acumulação de horas. É de muito e do que te falei, daquilo, do que aqui se passa. E isso, sim, é extenuante, agastante e muito destruidor. A minha última pergunta, ontem, saiu trocada: como nos vemos outra vez?, é que está certa.

Quando uma criança grita que vai morrer porque tem SIDA, o impacto é maior. Quando o exterior familiar oferece o contrário da protecção, ao ponto de se querer voltar a uma reclusão institucional, paramos para pensar. Quando o João e a Bilú vêem reduzido o valor do cartão que recolheram e vendem para reciclagem por estar molhado, ou a cotação do alumínio baixar porque o dólar também emagreceu, ou o pneu furado do carro alugado por cinco reais reduzir em outros cinco a receita do dia, mas voltam para casa com o amor fraterno e a promessa de que amanhã sim conseguirão mais e o tal bife com batatas fritas, não podemos deixar de sorrir. Quando o Ciro se suicida na parede com a sombra das suas mãos em arma de cano enfiado na boca, e cai redondo em dança no chão, recordamos a sua expressão de felicidade no carrossel e a simétrica quando escuta os gritos da mãe à porta de casa. E tudo isto muito bem sonorizado.

«All The Invisible Children» teve hoje antestreia em Portugal, no festival Indie Lisboa, no Fórum Lx. Premiada em Veneza em 2005, a obra compõe-se de sete curtas-metragens realizadas por oito realizadores, renomados ou nem por isso. Genericamente retrata a posição frágil das crianças no mundo, pelo mundo, em contextos de guerra, pobreza e desestruturação, nos seus sentidos alargados.

Ficaram-me na retina, e no ouvido: «Blue Gypsy», de Emir Kusturica, filme que conjuga humor e dramatismo, com a ironia habitual e muito boa música, além de personagens por demais fotográficos; «Jesus Children Of America», de Spike Lee, cru na forma como oferece a realidade dos filhos da SIDA e a discriminição dos seropositivos que, se incomoda nos adultos, perturba nas crianças; «João And Bilú», de Kátia Lund, enternece; «Ciro», de Stefano Veneruso, é um bailado. Quando passar nas salas, procurem-no: «All The Invisible Children».

Hoje, no dia em que se assinalaram 32 anos sobre o golpe de Estado que devolveu a democracia e liberdade a este país; hoje, que o sol perdeu a timidez e o dia pediu mar; hoje, que debaixo de um céu alaranjado desejei em brincadeira ter um descapotável para não fazer figura de parvo — e sim figura de rico — com a cabeça quase totalmente de fora da janela a apanhar o vento quase frio e tão revigorante.

E ainda olhei em volta, a ver se te via.

terça-feira, 18 de abril de 2006

O rabinho da Anabela
É difícil encontrar um café — e já nem falo de bar — que tenha jornais diários para consulta dos clientes. O Magnólia Café do cinema Londres tem, dois generalistas e um económico e revistas. É o que vale, embora valha pouco. Porque, realmente, falta-lhe a luz natural, sem o que é impossível fugir à sensação do buraco em que efectivamente se está. Suba, músico compatriota dos empregados lá do sítio, que há muito não ouvia, dava o ambiente electrónico-urbano pretendido. Mas não gostei do Café.

Talvez porque estava distante. É que, momentos antes, cruzei-me com a Anabela Mota Ribeiro e fiquei apaixonado. Pelo rabo dela. Foi na livraria Barata — podia ser noutro sítio? —, enquanto esperava para pagar o meu livro, que ouvi aquela voz adocicada, colocada, e logo me sobressaltei. Quase chocámos, depois, e trocámos um olhar. E um sorriso. Afinal ela é mais baixinha do que parece na TV, pouco mais baixinha que eu, é gira desmaquilhada, tem o cabelo muito engraçado e favorável, os olhos escuros realmente profundos, e os lábios cheios. Estava toda desportiva, com calça e sapatilha de treino. O que muito lhe realçava o rabo, que, redondinho, proeminente, e de aspecto firme, me prendeu o olhar. Que belo rabinho.

segunda-feira, 10 de abril de 2006

O que tem de bom a Itália...
...além da arte; das pizzas e pastas; de algumas italianas; e de mais um punhado de coisas; é isto:

- [Itália] afluência às urnas nas legislativas 2006: 83%
- [Portugal] afluência às urnas nas legislativas 2005: 65,2%
- [Portugal] afluência às urnas nas presidenciais 2006: 62,6%

Se Berlusconi for reeleito não se poderá dizer que foi por desinteresse ou desleixo dos italianos.

quarta-feira, 5 de abril de 2006

Desconhecidos ou anónimos?
Pelos jornais se lê, e pelas televisões se ouve, que as primeiras queixas-crime por partilha ilegal de música na internet apresentadas à Polícia Judiciária em Portugal pela Associação Fonográfica Portuguesa e a Federação Internacional da Indústria Fonográfica visam desconhecidos:

«As 28 queixas-crime contra desconhecidos ‘uploaders’ foram ontem dadas a conhecer pela Associação Fonográfica Portuguesa (AFP) e referem-se à partilha de ficheiros musicais nas redes de P2P...»
Correio da Manhã

«Para já, as queixas-crime visam desconhecidos, mas os responsáveis da AFP e da IFPI garantem que não será difícil chegar aos utilizadores em causa.»
DN

«28 é o número de queixas-crime instauradas ontem contra utilizadores desconhecidos.»
Público

Acontece que ninguém me explica como se apresenta uma queixa-crime contra um... desconhecido?!

Será desconhecido? Ou anónimo? Sabe-se quem é, mas não se divulga? Ou a queixa é apresentada contra um endereço de IP, identificação virtual de um computador na rede do seu servidor de serviço de internet? [e isto já é outra história: E perseguindo o IP é que se chega ao indivíduo? E como se sabe quem é o indivíduo que manipula o computador?]

Nem jornais, nem telejornais, tentaram explicar isto...

terça-feira, 21 de março de 2006

“The Blue Notebooks” (2004), de Max Richter
O filme de Till Franzen, “Die Blaue Grenze”, que vi num Porto frio, cinzento e chuvoso.

A frase de alguém que passou pela minha vida, faz por agora um ano: «o tempo também é uma predisposição do coração».

A minha Maria, que partiu debaixo de chuva porque não eramos só nós quem por ela chorava, e que agora me parece à distância de um telefonema daqueles que fazemos de olhos fechados e sem linhas de cobre.

Uma reportagem aúdio que tenho vindo a pensar.

Poesia.

O que quero — o que quero.

domingo, 5 de março de 2006

@ Porto, Fantasporto - 7
Acabou o Fantas 2006. A ressaca já se sente nos músculos e no colchão da cama, com quem finalmente nos reconciliamos, mas sobretudo na retina e naquele pedaço do córtex, cinéfilo, que pulula enquanto digere todos os estímulos de um Fantas, das películas às discussões posteriores, no foyer/bar do Rivoli — uma verdadeira casa — ou à mesa da tasca onde fomos ingerir qualquer coisa muito rápida.

A cerimónia de encerramento do Fantasporto correu no seu registo habitual, formal quanto baste. O Governo fez-se representar pelo Secretário de Estado da Educação (???), que presenteou a plateia com um discurso bastante (…) e recebeu de volta várias ovações, sabe-se lá porquê — não havia mais ninguém, Sócrates?

Os pontos altos da entrega de prémios foram três. Primeiro, a atribuição de um Prémio Carreira ao fotojornalista catalão José Maria, com quem privámos, freelance que acompanha o Fantas desde 1994, e que não esperava nada pela distinção — estava a fotografar a cerimónia, de repente vê-se chamado ao palco e foi com visível emoção e embaraço que recebeu o prémio. Depois, aquando do levantamento do segundo prémio da noite, o de Melhor Argumento, uma pouco ovacionada Roselyne Bosch (“Animal”) começou por agradecer com um «oh my God» e ouviu-se na sala um «olha, eu digo o mesmo!». Finalmente, e pelo filme “Quiet Love”, quando o realizador Till Franzen subiu ao palco para receber a segunda distinção, Melhor Fotografia, telefonou ao colega director de fotografia e a sala não se poupou em aplausos — justiça seja feita a “Quiet Love”.

O filme que encerrou o Fantasporto estreará brevemente nas salas: “Fragile”, do catalão Jaume Balageró, é a estória de uma enfermeira recém chegada a um hospital pediátrico em encerramento, e de como ela tenta proteger os miúdos de uma série de estranhos e misteriosos ataques. A enfermeira é Calista Flockhart, mais conhecida por Ally McBeal. O filme tem bons momentos de suspense, conseguiu fazer saltar das cadeiras algumas pessoas, mas não vai muito longe.

É favor apontar na agenda: de 23 de Fevereiro a 3 de Março de 2007 há mais Fantasporto.

Este foi o diário possível de um Fantasporto que não segui na totalidade — em 2007 estarei por lá os nove dias completos —, de mim para os amigos que gostariam de ter ido mas não puderam.

sábado, 4 de março de 2006

@ Porto, Fantasporto - 6
Já são conhecidos os vencedores do Fantasporto 2006, e há algumas surpresas. Uma delas é a atribuição de Melhor Argumento a Roselyne Bosch pelo filme “Animal” (secção oficial de Cinema Fantástico), o tal com Diogo Infante e integralmente rodado em Portugal, e para o perceber é ler o que escrevi lá em baixo ou atentar nas opiniões da imprensa generalista (para não dizerem que lá estou eu com o meu mau feitio):

«...o thriller de ficção científica da estreante Roselyne Bosch, co-produção França/Portugal orçada em 15 milhões de euros, foi uma senhora desilusão (...) É verdade que o débil argumento, que invoca com ingenuidade de principiante "O silêncio dos inocentes", de Jonathan Demme, e "A outra face", de John Woo, não ajuda, mas o actor português é manso de mais para "vender" a personagem. E ainda assim, consegue ser o melhor do filme (...) Da filosofia de pacotilha subjacente à trama, mais vale não falar...» (Manuel Menano, JN)

«...o filme que encerrou a secção oficial de cinema fantástico aborda com ligeireza a questão da manipulação genética (...) sem nunca ir demasiado ao fundo do que quer que seja - e é pena, porque o tema até se prestava. Quanto mais não seja porque, como frisou Roselyne Bosch em mensagem enviada ao festival, "Animal é um thriller de antecipação, não é ficção científica: estas experiências já foram testadas em animais". O problema é que aqui não se testa nada, nem em humanos nem em animais: a intriga é demasiado convencional para permitir experiências e o filme acaba por não levantar questões, antes por fugir delas.» (Inês Nadais, Público)

Outra surpresa é o galardão de melhor realizador para Pieter Kuijpers, por “Offscreen” (secção Semana dos Realizadores), filme que me foi tão indiferente que nem escrevi sobre ele.

Surpreende também que a “Quiet Love”, de Till Franzen, só tenha sido atribuído o prémio de Melhor Fotografia (secção oficial de Cinema Fantástico), pois o filme merecia mais ou melhor gratificação. No entanto, o Júri da Crítica, composto pela imprensa e convidados, fez justiça ao atribuir-lhe o seu prémio.

Os principais prémios do Fantasporto 2006 são:
Grande Prémio: “Frostbiten”, de Anders Banke (Suécia)
Prémio Especial do Júri: “Johanna”, de Kornél Mundruczó (Hungria)

Prémio Semana dos Realizadores: “Adam’s Apples”, de Anders Thomas Jensen (Dinamarca)
Prémio Especial do Júri: “Be With Me”, de Eric Khoo (Singapura)

Grande Prémio Orient Express: “Simpathy For Lady Vengeance”, de Chan Woo Park (Coreia do Sul)
Prémio Especial do Júri: “The Bow”, de Kim Ki Duk (Coreia do Sul)


O dia de ontem terminou por volta das três da madrugada, com “Hostel”, de Eli Roth e produzido por Quentin Tarantino. A fita, que não deve tardar nas salas portuguesas, entretêm ao bom estilo Fantas: sangue a jorrar de dedos e cabeças cortadas com bisturi ou moto-serra, atropelamentos sucessivos para ter a certeza de matar a vítima, berbequins Black & Decker furando coxas, tudo isto é acompanhado de gargalhada e aplauso geral. Sinopse oficial: «Paxton e Josh andam em viagem pela Europa e vão ser atraídos para uma estalagem numa remota aldeia eslovaca cheia de mulheres deslumbrantes».

sexta-feira, 3 de março de 2006

@ Porto, Fantasporto - 5
“Animal”, ou a estória do mau projeccionista, fechou o dia de ontem no Fantas. A longa metragem da francesa Roselyne Bosch, em co-produção portuguesa, inglesa e francesa, vive daquelas estórias que todos já vimos adaptadas umas dez vezes por Hollywood, ou seja, é mesmo desinteressante. Um jovem cientista descobre uma forma de suprimir o gene da malvadez — sim, porque é genética —, e depois de testes bem sucedidos em lobos, o cientista — actor tão inexpressivo e desguarnecido de qualquer tipo de valências, que nem o nome recordo — resolve testar o soro num assassino aguardando execução, e depois em si mesmo. Resultado? O mau fica bom e o bom fica mau, e tudo fica uma merda. E o começo já augurava isso mesmo: o filme começou com mais de meia-hora de atraso (00h33), a curta que o antecedia começou a ser projectada ao contrário e teve que se interromper largos minutos para tentar concertar o erro (00h46), e finalmente “Animal” foi interrompido numa cena de sexo, sem se ter percebido se a película partiu, saiu da guia ou foi pura censura de alguma imagem mais explícita (ah ah ah).

Do filme só se retém a interpretação de Diogo Infante (o assassino), cujo talento, riqueza de recursos, maleabilidade e adaptabilidade se reconfirmam. Igualmente fica o facto de a fita ter sido captada integralmente em Portugal, e a graça que vem de vermos alguns locais nossos conhecidos transformados em grandes laboratórios científicos.

Ainda ontem ante-estreou o mais recente filme de Manoel de Oliveira, “Espelho Mágico”, motivo de enchente no Rivoli. Imprensa, jet-set, e público, estiveram cá todos, numa sessão que durou, durou e durou…

E a chuva continua a cair no Porto.

quinta-feira, 2 de março de 2006

@ Porto, Fantasporto - 4
Tinha que chover, no Porto. E tinha que haver mais filmes de treta. Acabo de deixar a meio na sala um penoso “Looking for Alexander”, do canadiano Francis Leclerc. Bah…

Decorre agora uma conferência de imprensa com o realizador de “El Desenlace”, o espanhol Juan Pinzás, na qual o único interlocutor é um membro da organização do festival. Acho estranho que o público não acorra a estes encontros com os realizadores, porque podem fazê-lo. E também não distingo espectadores — são aqueles que não andam com o cartão pendurado ao pescoço — a procurar os intervenientes aqui pelo foyer. Mas eles estão todos aqui!!

Dos jornalistas não falo. A imprensa diária vem fazer crítica — somente crítica — e só as publicações especializadas, como a Fest Forward, andam por cá a ver fitas e falar com realizadores. A imprensa estrangeira vem acompanhar os seus representantes.

O Fantas tem tão bom ambiente que aqui no foyer do Rivoli, onde está o bar, há quem peça para gravar os CD que vão sendo tocados, à descarada. Boa onda.
@ Porto, Fantasporto - 3
«That’s very christian», disse-me o Till Franzen depois da conferência de imprensa, ontem, sobre o filme dele. Que raio. Não sou católico, mas a matriz cultural cristã veio à tona, hã? Isto acerca de uma interpretação que fiz da relação entre um personagem e outros dois: vi ali, primeiro, um amor homossexual; e depois um amor cego, corrosivo, nefasto, que persiste apesar de o outro nos fazer mal, porque o tipo, no final, mostra compaixão por esses seus apaixonados e os “perdoa”. Ah e tal dar a outra face. Não era por aí Till…

A noite de ontem foi rica em bom cinema. “The Bow”, do coreano Kim Ki Duk, e cuja foto promocional fez a capa da Fest Forward #2 — num excelente golpe de premonição do seu director, Filipe Pedro, que arriscou a capa sem ter a confirmação da estreia do filme no Fantas — foi ontem visionado, para um auditório quase cheio. O filme, sério concorrente na secção competitiva “Orient Express”, é uma obra de arte. Num barco de pesca, em alto mar, um homem de 60 anos tem vindo a educar uma jovem desde a sua infância. Está combinado que eles vão casar, quando ela fizer 17 anos. A subsistência do casal é garantida por pescadores que se deslocam ao barco, estacionado ao largo, para pescar. E cada um deles que se deixa encantar pela jovem, e tenta algum avanço, é surpreendido por um tiro de flecha em arco. O mesmo arco que o velho usa para tocar uma música recorrente, mas bela, como se de violino se tratasse. Um dia, um jovem rapaz vem ao barco e tudo estremece: o amor da rapariga pelo velho, o amor do velho pela rapariga, o amor da rapariga pelo rapaz, o amor do rapaz pela rapariga, e o ódio do velho pelo rapaz.

Todo o filme se passa sem que os protagonistas, a rapariga e o velho, digam uma só palavra. Só os outros falam. Mas diz-se tanto. “The Bow” é, especialmente, um objecto estético — se dúvidas houvessem, depois de olhar a capa da Fest Forward. A fotografia é excelente, a filmagem é muito boa, o cenário (um velho barco de madeira estacionado ao largo) é muito bem explorado. A banda sonora é… inexplicável.

Em seguida, e para descer à terra, a sessão das 23h15 começou com a muito falada e anunciada na TV, curta portuguesa forjada pela ETIC, “Sombras de Thule”. Hmmm… Foi terrível. Senhores: para fazer bons filmes é necessário ter boas ideias, boas estórias, bons actores e só depois bons meios. A ETIC conseguiu dinheiro e um alto patrocínio técnico da Sony, que forneceu os meios de captação e projecção na tecnologia de ponta HD, mas ficou com um péssimo filme. Triste.

A terminar a noite viu-se “Saints-Martyrs-des-Damnés”, de Robin Aubert, «um cruzamento de William Castle ("A Casa Assombrada") com David Lynch ("Twin Peaks")». O filme, que abre com belíssimos planos em grande angular de 20mm — projectado em 16:9, felizmente —, está repleto de referências, do terror à comédia, do thriller ao (cheirinho de) gore. «Um exemplo do melhor cinema canadiano de terror», e um dos melhores filmes do festival. E um dia no Fantas com dois bons filmes é um dia fora do vulgar.


Já hoje o dia começou com o Fantas Social (para convidados internacionais, júri e imprensa): um passeio de barco pelas cinco pontes do rio, e uma visita às Caves do Douro, com direito a prova. Passo o Vintage tinto, fico-me pelo único branco Porto, o Apitiv, para mim surpreendentemente agradável. E foi à mesa, nas caves, que se reforçou o que o Fantas tem de melhor: o convívio com gente de todo o mundo. Till (realizador), da Alemanha; Magnus (realizador), da Suécia; Taru (júri; produtora), da Finlândia; Chozin (júri; director do festival de cinema de Pifan e realizador), da Coreia do Sul; José Maria (jornalista), de Espanha; um outro cujo nome não apanhei (realizador), da Bélgica; e mais se verá. É hora de almoçar.

(Foto: o Fantas nas caves Sandeman, em V.N.Gaia, discutindo vinho, e não cinema)

quarta-feira, 1 de março de 2006

@ Porto, Fantasporto - 2
Dificilmente almoçava bem em Lisboa pelo preço que paguei hoje no Porto. A cidade é, historicamente, de salários mais baixos e nível de vida inferior, não obstante a burguesia portuense que desde o século XIX tratou de patrocinar as bonitas construções da baixa da cidade. Gosto da opulência da pedra cinzenta nos edifícios, num dia de sol forte e céu limpo e azul como o de hoje. E Lisboa está inflacionada, em muitos sentidos.

Depois do casal de velhotes pedintes que me recebeu aqui na cidade, à noite foi a vez de um tipo me abordar e pedir dinheiro, explicando como tinha saído há um mês do «estabelecimento prisional», não conseguia arranjar trabalho, provavelmente porque também não conseguia largar a droga, que o pôs lá dentro e que esperou por ele cá fora. Pela sinceridade, dei-lhe 50 cêntimos. Mas não devia.

"Quiet Love", do alemão Till Franzen, encerrou o dia no Fantasporto, sessão das 23h15 — antecedido de uma triste curta de Luís Galvão Telles, "Glamour", apupada em belo estilo («mas que merda! buuuuuuuuuu...») por alguns dos presentes. Em "Quiet Love" entrelaçam-se várias estórias de amor, que juntas fazem um filme denso e difícil, mas capaz de entreter nas fintas que os falsos finais — fui enganado duas vezes — fazem aos espectadores, apesar da extensão da fita. Ali há amor fraterno, por quem morre; amor passional — isto diz-se? — pela mulher; amor cego, por quem nos faz mal. Ali há morte, natural e inexplicada; acidental e inesperada; e há dúvida de morte — o inspector morreu?

Muito bem filmado, com uma fotografia belíssima, uma banda sonora muito bem conseguida, dos Lambchop a dramáticos e introspectivos trechos de piano, e com desempenhos soturnos mas terrivelmente adequados à intensidade da fita, "Quiet Love" é um bom filme. A conferência de imprensa com o realizador é mais logo, às 15h.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

@ Porto, Fantasporto - 1
Porque é que chego ao Porto e um casal de velhotes sem-abrigo me pede moedas?

O expresso, que de expresso tem pouco, chega à Garagem Batalha, um tipo de barracão de tecto muito alto e muito apertado, demasiado pequeno para o tamanho dos autocarros, que se acotovelam em manobras de estacionamento e inversão de sentido, porque só existe uma porta, a de entrada e saída, para carros e passageiros.

Está sol, quando chego, e a cidade está ocupada daquele movimento de feriado, acrescendo a miudagem mascarada e as fitas pelo chão. Há menos carros a circular.

Depois de me instalar no hotel, a cinco minutos da Avenida dos Aliados, vou para o Rivoli — afinal, o que me traz aqui é cinema. À entrada percebe-se porque tem o Fantasporto o epíteto de festival internacional: é mesmo um festival internacional. Boa organização, patrocínios/parcerias que bastem e dinheiro a rodos, é o que deixa transparecer a entrada do Rivoli: a Super Bock, a SIC, a Fossil, you name it. A capacidade de atrair dinheiro constrói-se com qualidade. E o Fantasporto é um excelente exemplo.

No foyer, dois pisos acima, ouve-se falar inglês, castelhano, francês e alemão. O convívio é agradável, nesta sala com vidraças até ao tecto e vistas deitando para mais uma das praças da baixa, a D. João I, um espaço onde se distribuem mesas de madeira, um recanto para conferâncias de imprensa e puffs coloridos. Por aqui deambulam realizadores, jornalistas e elementos do júri, entre cervejas, aconchegos para o estômago e conversas sobre cinema, das técnicas às fitas, dos géneros aos estilos.

Na sala passa uma fita bem ao estilo old school — zombies. Passo esta e retomo para um olhar pela cinematografia russa, mais logo.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

A tragédia televisiva
1) É a sociedade que caracteriza os acontecimentos como trágicos, e não a televisão.

2) As tragédias são «factos sociais totais» (Mauss), fenómenos simultaneamente jurídicos, económicos, religiosos e mesmo estéticos, que abalam as instituições e instalam o conceito de crise, tudo isto numa unidade de tempo, acção e lugar.

[este conceito de «tragédia» aplica-se, então, aos acontecimentos de Timor em 1999, queda da ponte de Entre-os-Rios em 2001, 11 de Setembro de 2001 e 11 de Março de 2003]

[os acontecimentos de 7 de Julho de 2005, em Londres, não foram analisados]

3) Esta situação de crise poderá ter expressão directa e clara no campo político: o ministro Jorge Coelho demitiu-se cinco horas depois da queda da ponte de Entre-os-Rios (e ainda há que pensar se o acontecimento não influenciou o mau resultado do PS nas autárquicas pouco tempo depois, após as quais o primeiro-ministro António Guterres se demitiu); nos EUA, porque o contexto sociocultural é diferente, Bush legitimou-se e reforçou-se (e foi re-eleito) após o 11 de Setembro.

4) O centro dos acontecimentos desloca-se: Entre-os-Rios passou a ser o centro, com o poder político, a Igreja e os media diariamente no local; a mesma lógica nos EUA, cujo centro se deslocou para Nova Iorque.

5) A sociedade transforma-se em comunidade.

6) As tragédias têm um desfecho: a portuguesa terminou com a imagem simbólica do primeiro-ministro vendo pelos binóculos o resgate do autocarro submerso; a norte-americana terminou com a missa religiosa proferida na sexta-feira seguinte ao acontecimento, na presença do Presidente Bush e restante poder político.

Desta forma se pode olhar para a queda da ponte de Entre-os-Rios, o 11 de Setembro de 2001 e o 11 de Março de 2003 como «tragédias televisivas».

Estes foram os ensinamentos que retirei da palestra hoje proferida por Eduardo Cintra Torres, na Universidade Católica Portuguesa (UCP) em Lisboa, sob o tema «A tragédia televisiva: um género dramático da informação audiovisual», tese de mestrado de Cintra Torres e o assunto do seu livro agora chegado aos escaparates.

O 2º Ciclo de Seminários de Investigação em Ciências da Comunicação da UCP vai-se revelando interessante.

sábado, 11 de fevereiro de 2006

Novidades...
...na barra aqui do lado. Espreite-se Celofane, Transistores, Jota e Barriguita; noutra prateleira estão Elas e nós, Estudos, Ele digital, Da Invicta, Paragem diária, António, Da Beira e Travessias; a Tasca mudou a gerência, há já algum tempo, e perdeu um cliente. Azareco.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

O libertino

Johnny Deep, actor. Ou Luíz Pacheco, escritor?

Ai o frio e a falta de chuva
Há um ano também era assim. Confirmem aqui.

domingo, 22 de janeiro de 2006

Fodam-se todos!
Isto foi suficientemente "validamente expresso"?

Tenho vergonha de viver num país onde um voto branco vale tanto como um nulo, num país em que um voto branco não é "validamente expresso".

Votar branco é o mesmo que um voto com uma cruz mal colocada, fora do quadrado, possivelmente feita por um idoso? Ou com cruzes em todos, como protesto? Ou é o mesmo ainda que um recado escrito no boletim, do estilo "vocês querem é poleiro"? Um voto branco é o mesmo que isto? Um voto branco não é a expressão individual do não reconhecimento do eleitor em nenhuma das candidaturas apresentadas? Caramba!...

Nas eleições de 1969 votavam os homens maiores de 21 anos, ou casados, e as mulheres que fossem proprietárias ou tivessem curso superior. Os analfabetos, nem recenseados estavam. Nos meios rurais, delegados recolhiam os boletins de voto, a fim de serem posteriormente depositados em urna, e a mesa dava-se ao direito de impedir a entrada em urna de votos cujo boletim estivesse sujo. Alguns mais esclarecidos lutavam e acabavam por depositar o boletim, que o lugar para anulações é aquando da contagem, e não antes.

Estamos em 2006. Tenho vergonha de viver num país onde um voto branco não é "validamente expresso".

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Revista Fest Forward à venda nas bancas
Janeiro traz consigo mais uma novidade: o segundo número da Fest Forward - "a revista de todos os festivais" tem distribuição nacional e está disponível em mais de 2400 pontos de venda, como qualquer jornal.


Os conteúdos são:

Fest Forward n.2 — Inverno 2006 (Jan-Mar)
Fest Apresenta
Primeiro filme português na Coreia do Norte / Phono'05 — Serviço público a precisar de apoio público

Destaque
Fantasporto 2006, c/entrevistas a Beatriz Pacheco Pereira e Mário Dorminsky / Agenda Fantasporto 2006

Forward Cinema
Sundance / Premiers Plans d'Angers / Doc Point Helsinki / Tampere / International Short Film Festival / Festival de Gérardmer — Fantastic'Arts Berlinale / ZagrebDox / Animac / Sofia International Film Festival / RAF / Panorama / Festival de Cinema de Las Palmas

Forward Teatro
Santiago a Mil / Escena Contemporanea

Forward BD
Angouleme

Forward Artes Plásticas
Arco / Arte Fiera / Feira Internacional de Arte Contemporânea de Innsbruck, Áustria / Bienal Whitney de Arte Contemporânea / The Armory Show / Bienal de Arte Contemporânea de Berlim

Forward Música
Big Day Out / Baja Prog

Rec — Entrevistas
Carlos Matos — Fade In / Wraygunn / Ilse van Velzen — documentarista holandesa / Costa Gavras — realizador

Stop — CDs
Boedekka / Cat Power / Lupanar / Carlos Bica
Stop — DVDs
Wal Mart / Mind My Gap — Rosto / Live 8 / The Ross McElwee DVD Collection
Stop — Livros
Roteiro Breve da BD em PortugalDádá-Zen — Pintura-Escrita

Rewind Cinema
Imago / Festa do Cinema Francês / Sitges / Doc Lisboa / Cinanima / FIKE / Nippon Koma / L'Alternativa / Kosmopolis

Rewind Design
ExperimentaDesign

Rewind Pluridisciplinar
Temps D'Images

Rewind BD
FIBDA

Rewind Dança
Quinzena de Dança de Almada

Rewind Artes Plásticas
Arte Lisboa

Rewind Música
Número Festival / Seixal Jazz / Wintercase / Trans Musicales / Festival Best Off

Play
Agenda de Festivais para Janeiro, Fevereiro e Março

Tudo isto em 68 páginas, formato A5 e a cores, por apenas dois euros.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

(fazer) jornais, jornalismo e jornalistas
«São três da manhã do dia 30 de Dezembro. Cabe-me fechar o DNA com a mesma satisfação e amor com que tive o privilégio de o conceber e “abrir”. Não quero lágrimas nem choros — porque sei bem que um suplemento de jornal não é mais do que isso mesmo: um suplemento, um complemento. Mas também não quero passar ao lado de tudo o que o DNA significou para dezenas de pessoas que o concretizaram, ou para as dezenas de milhar que o leram. Que o amaram ou odiaram. Que nunca lhe foram indiferentes. (…) Tudo o que começa tem um fim. O DNA começou — vai para dez anos — e chega hoje ao fim.»
Pedro Rolo Duarte, DNA, 6 Jan 2006

Fui leitor do DNA durante alguns anos e o DNA foi o meu suplemento de imprensa favorito.

Durante esses anos acompanhei os editoriais do Pedro Rolo Duarte, aqueles em que ele falava dos primeiros passos na profissão, das férias na Zambujeira do Mar, das vicissitudes de fazer jornalismo, das noites que reservava à escrita daqueles mesmos editoriais. Aqueles editoriais a que tantas vezes ele levou o filho, que, descobri hoje, foi o bebé da primeira capa do DNA e é o miúdo da última. Há dias a Diana deu-me um papelinho, onde tinha anotado esta citação: «o jornalismo é frequentemente vivido como uma paixão, tende a preencher todo o espaço da existência, a colonizar a vida familiar e os lazeres». Agora compreendo o Pedro. Agora espero que a Joana, a Diana, o Tiago, o Ricardo, a Ana, a Celeste, a Lília, a Lena, a Maria, o Zé, o Paulo, a outra Ana, o Luís, a Margarida, e todos os outros, para não me esquecer de nenhum, me compreendam também, quando recuso os desafios e os convites, quando desapareço durante semanas.

Construir um produto de imprensa é muito mais intenso do que trabalhar num. Mas, é também algo apenas acessível a uns poucos privilegiados. O Pedro foi um desses. Eu sou um desses.

Levantar, tijolo a tijolo, uma edição de jornal ou revista é um prazer peculiar. Recolher e escolher temas. Distribui-los pelos redactores, hierarquizá-los no plano de edição, página a página, o que fica onde, com que espaço e se terá imagem. Receber as primeiras versões dos textos e ser surpreendido com sua a qualidade (má, publicável, boa, muito boa). Receber as segundas, já modificadas. Tentar titular, disciplina difícil. Acompanhar a revisão e fazer cumprir as convenções. Porque ainda não temos um livro de estilo terminado e adoptado, discutir marcações de discurso, itálicos, aspas subidas ou normais, pelicas ou simplesmente redondo. Procurar e escolher fotografias. Fechar a edição. Ter que optar e deixar “cair” alguns textos. Maquetizar e fazer caber tudo no espaço disponível, passando horas sentado ao lado do grafista. Introduzir correcções no material já paginado. Imprimir as páginas para revisão gráfica. Construir a capa, e para tal escolher a fotografia, redigir a manchete e optar pelos destaques. Juntar tudo num só ficheiro final, que viajará num CD até um armazém em Rio de Mouro. Voltar ao armazém um dia depois para olhar os fotolitos. Regressar passadas outras 24 horas para olhar as primeiras folhas enormes, cuspidas pela “plana” ruidosa — ainda não cheguei à rotativa — e acompanhar o ajuste das cores. Mais um dia e nova fase, com dobragem, corte e montagem. No dia seguinte, a distribuidora recolherá os milhares de revistas para iniciar a distribuição pelo país. Só é pena que, mais tarde, quando for um profissional na verdadeira acepção da palavra, me limite(m) a escrever e perca tudo isto.

No princípio disto tudo está o prazer de fazer uma revista para os leitores, a nossa razão de existir.

Para mim, à data presente, tenho o privilégio de já ter ajudado a construir três revistas, duas em papel e uma electrónica: uma estudantil, outra de informação desportiva e a terceira, a presente, a primeira no género em Portugal. Além destas, já tive a oportunidade de trabalhar para outras duas, igualmente em papel e bits e bytes.

O melhor que retiro destas experiências é a aprendizagem, todo o manancial de informação e conhecimentos, a prática, errar e aprender com os erros, perceber e aplicar o que os teóricos da arte escreveram sobre as técnicas, a conduta, a ética e a deontologia.

A cada número que passa, erro. A cada número que passa, tento cometer um erro diferente.

Hoje percebo porque é que «um jornal sem gralhas é como um jardim sem flores», mas continuo a preferir que as provas sejam revistas por tantos quantos não tenham lido os textos, e continuo a detestar palavras truncadas em finais de parágrafos. Hoje percebo porque são incompatíveis actividades de assessoria e jornalismo, porque senti na pele a dificuldade do distanciamento e imparcialidade, ou tão somente pelo receio de comprometimento por usar ou excluir determinada palavra. Hoje percebo porque é que o jornalismo é «a disciplina da verificação», porque apercebi-me, depois de publicado, que um texto contemplou algumas informações imprecisas, cuja correcção estava ao meu alcance.

Hoje percebo que não quero fazer outra coisa na vida. Hoje acho que o Pedro também não.

Hoje sinto que amanhã estarei em condições de pedir o cartãozinho vermelho. Só que o Pedro já o tem.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

«Na véspera de não partir ao menos não há que arrumar malas, nem que fazer planos em papel»
Queria escrever-te, mas doem-me os olhos e a cabeça não pára de latejar. É tarde, como de costume. E tu desapareceste.