Johnny Deep, actor. Ou Luíz Pacheco, escritor?
instantâneos; sem quaisquer pretensões;

Tenho vergonha de viver num país onde um voto branco vale tanto como um nulo, num país em que um voto branco não é "validamente expresso".
Votar branco é o mesmo que um voto com uma cruz mal colocada, fora do quadrado, possivelmente feita por um idoso? Ou com cruzes em todos, como protesto? Ou é o mesmo ainda que um recado escrito no boletim, do estilo "vocês querem é poleiro"? Um voto branco é o mesmo que isto? Um voto branco não é a expressão individual do não reconhecimento do eleitor em nenhuma das candidaturas apresentadas? Caramba!...
Nas eleições de 1969 votavam os homens maiores de 21 anos, ou casados, e as mulheres que fossem proprietárias ou tivessem curso superior. Os analfabetos, nem recenseados estavam. Nos meios rurais, delegados recolhiam os boletins de voto, a fim de serem posteriormente depositados em urna, e a mesa dava-se ao direito de impedir a entrada em urna de votos cujo boletim estivesse sujo. Alguns mais esclarecidos lutavam e acabavam por depositar o boletim, que o lugar para anulações é aquando da contagem, e não antes.
Estamos em 2006. Tenho vergonha de viver num país onde um voto branco não é "validamente expresso".

O chanceler Bismarck foi só mais um…
…filho da puta.
Três ficções que vi nas últimas semanas lembraram-me o que penso de África. As guerras, a pobreza, a fome e a morte; os vírus da sida e do ébola; as riquezas naturais, diamantes e petróleo; povos que não conseguem, por mais que queiram, vencer a seca fatal de tantas restrições naturais; a corrupção; o saque de há séculos e depois a partilha de Bismarck; os testes de medicamentos de hoje; um Portugal que reclamava, há semanas, a barragem levantada no Zambeze. E tanto mais.

Imagem roubada ao Indústrias Culturais
Hoje vi: Bolívar Soy Yo, fita colombiana, de 2002, ganhadora de um belo rol de prémios internacionais.
Mostra de cinema latino-americano, no Fórum Lisboa, até 24 Set (sáb). Bilhetes a 3 euros.
Mais info aqui: www.mostra-americalatina.web.pt

O Português Emigrante, 1911, Braque
O Kunstmuseum é o ponto de partida para qualquer périplo museológico pela cidade. Porque é o maior, porque a sua exposição permanente reúne todos os grandes nomes da história da pintura do velho continente, como Kandinsky, Picasso, Magritte, Chagall, Munch – onde pára O Grito? –, Gaugin, Van Gogh, Monet, Renoir, Manet, Cézanne, Degás, Delacroix, Bruegel – que assina um perturbador mas belíssimo O Triunfo dos Mortos, de 1569 (imagem grande) –, Miró, Dali e Matisse, entre outros.
O Triunfo dos Mortos, 1569, Bruegel
Foi lá que encontrei a exposição Covering the Real – art and the press picture, from Warhol to Tillmans, uma mostra sobre os media e a forma como é feita a cobertura de eventos que são notícia. Uma pérola.
Um trabalho de Sarah Charlesworth mostrava 45 primeiras-páginas de todo o mundo, do dia 21 de Abril de 1978, data em que o primeiro-ministro italiano Aldo Moro, que havia sido raptado e se cria morto, aparecia, afinal, vivo. Nas páginas tinha sido apagado todo o texto, ficando somente a fotografia alusiva ao evento e outras referentes a outras notícias (se as houvesse), bem como o título do jornal. O trabalho mostrava os diferentes enquadramentos feitos à mesma fotografia de agência, as diferentes localizações na página, tamanhos e destaque. Somente a imagem, sem contexto – para quem, como eu, a data nada dizia, só descobriria lendo o guia da exposição ou pesquisando. O que introduz uma série de questões, desde o mais imediato “porquê assim” do tratamento da imagem em cada periódico, até ao valor da imagem de imprensa por si só.

Neste mesmo tema, numa outra sala, eram projectadas fotografias recebidas em tempo real pela agência suíça Keystone. Somente as imagens, sem qualquer legenda, pela ordem aleatória em que chegavam à redacção. Sucediam-se sem intervalo de tempo predeterminado, que poderia durar dois minutos ou 30 segundos. As minhas notas:
- uma feira de livro algures num país asiático; pessoas folheiam livros numa longa banca, provavelmente de saldos;
- uma mulher vasculha caixotes numa venda de garagem ou mudança; América do Norte ou Latina;
- aviões da British Airways; uma porta de porão de carga aberta mostra apenas “british …ways”;
- incêndios num país tropical (é tudo verdejante); ou uma plantação de droga sul-americana que levou fogo;
- polícia indiana ou indonésia escolta um Volvo, em motas Suzuki de baixa cilindrada (250 ou 500 cm3);
- soldados… Kalashnikovs em punho;
- Durão Barroso :) na Comissão Europeia;
- (bandeira preta, branca e verde com um triângulo vermelho) uma coluna militar em carros civis;
- jovens turistas numa estação de comboio; nacionalidade imperceptível, dada a ausência de referências; os desenhos nas mochilas sugerem um encontro religioso;
- novamente a coluna militar em carros civis; Índia, Paquistão, Iraque?
A fotografia de imprensa, sem legenda, não tem valor? Não passa de uma fotografia banal? A verdade é que, sem legenda de qualquer espécie, apenas pude supor sobre o que ali via retratado. Acertei que os jovens turistas se deslocavam para o encontro religioso de Colónia, porque já havia ouvido falar disso. Mas os meus palpites sobre a nacionalidade dos soldados da coluna militar falharam em grande: a bandeira é da Jordânia. Tudo o resto e mesmo esta última não passou de imagens banais, sem qualquer significado. Quando vemos uma fotografia sem legenda tendemos a olhá-la demorada e atentamente; se a fotografia tiver legenda, acabamos por dar mais atenção à frase que à própria imagem, passando por ela como uma mera ilustração de suporte.
Para descortinar o seu significado, a fotografia de imprensa precisa, sempre, de texto: seja a peça/reportagem ou a legenda.
Porém, logo à entrada da exposição, no hall do terceiro piso do museu estava montada uma instalação de René Pulfer, artista da cidade. Sob o nome News, no chão estavam espalhados 24 pequenos ecrãs LCD, transmitindo a emissão de outras de tantas estações televisivas noticiosas, de diferentes continentes e fusos horários – sem SIC Notícias ou RTP-N.
Mas muito interessante e até engraçado era o trabalho do israelita Omer Fast. CNN Concatenated isolava dez mil palavras ditas por repórteres da estação, construindo-se um novo texto. O vídeo tendia a exprimir e questionar a autoridade – e o controlo, manipulação? – das notícias de televisão. «What the viewer realises is that news reports are riddled with stereotyped, endlessly repeated components that may not be immediately apparent but severely impair the media’s claim to impartiality, objectivity and adequacy.» As transcrições estão aqui.

Um pouco diferentes eram os trabalhos de Martha Rosler. Em Bringing the War Home: House Beautiful e In Vietnam, a nova-iorquina escolheu fotografias de guerra publicadas na revista Life, fazendo fotomontagens com cenas do quotidiano norte-americano.

O francês Bruno Serralongue cobriu o Encontro Intergaláctico contra o Neoliberalismo e para a Humanidade (1996), antecessor do Fórum Social Europeu, e a Cimeira Mundial para a Sociedade de Informação (2003) com uma câmara fotográfica de fole de formato 10x12cm.
De Andy Warhol estavam patentes quatro trabalhos de reprodução mecânica e alteração de fotografias de imprensa: Nine Jackies [Kennedy], Red Race Riot, Five Deaths Seventeen Times in Black and White e Suicide/Silver Jumping Man (tudo entre 1963 e 64).
No fim fica o arrependimento por não ter comprado o álbum/catálogo da exposição, por 60 francos suíços.
Enquanto terminava esta mostra, abria ao público na Fundação Beyeler a exposição René Magritte, a chave dos sonhos. Na mesma casa já se podia ver Picasso surrealista, 1924-1939. Do primeiro impressionaram-me especialmente The Titanic Days (1928), o cachimbo que não o é, The Treachery of Images (1928), The Ignorant Fairy (1950) – de que fiz uma leitura diferente: “a fé ignorante”; a vela é a fé; a fé não ilumina – e The Month of the Grape-harvest (1959) – tão actual: a janela da casa está aberta, todos nos olham lá de fora.

The Titanic Days
The Treachery of Images
The Ignorant Fairy
The Month of the Grape-harvest
De Picasso, para não me estender, apenas O Beijo (1931).

The Kiss

Nem mesmo uma área de actividade desqualificada como a segurança as nossas empresas conseguem/querem agarrar? Mas, e os ‘tugas? Ah, claro, andam a construir [obviamente... saberão fazer mais alguma coisa?] em África e no Brasil, onde há dinheiro fácil. Mais fácil ainda que o nosso.
Como escreve, e bem, Nicolau Santos, os espanhóis estão a tomar posições em cinco áreas bem definidas: telecomunicações, energia, água, banca e media. «Perceberam ou é preciso explicar?» As páginas do Expresso deste fim-de-semana fazem o retrato.
Banca
A banca espanhola controla directamente cerca de 15% do sector financeiro português (Santander comprou o Totta a Champalimaud; Banco Popular comprou o BNC a Américo Amorim; BBVA analisa compra de um banco português de «média dimensão») e indirectamente a catalã La Caixa detém 16% do BPI e o Banco Sabadell é o maior accionista do Millenium BCP.
Construção
As construtoras espanholas controlam cerca de 30% do mercado português. A Sacyr comprou a Somague; ACS, número-um em Espanha, detém 10% do Grupo A. Silva&Silva e 45% da Sopol e da CME; Ferrovial detém a Ramalho Rosa; FCC é dona da Cobetar.
Imobiliário e Hotelaria
O Grupo Prasa tem interesses no Algarve e em Loures, além de ter comprado interesses da Lusotur em Vilamoura. No imobiliário português operam ainda as espanholas Hercesa, Aguirre Newmann, WLAR e Reália.
Na hotelaria, as cadeias NH e AC já têm unidades em Lisboa; a Sol Hott soma 11 unidades no país; a Hotusa já inaugurou o primeiro de três hotéis em Portugal, além de deter a gestão de cerca de uma centena de unidades; o Grupo Pransor controla os hotéis AS e as lojas de conveniência ARS.
Combustíveis
A Repsol é a segunda maior distribuidora em Portugal, depois da Galp e após ter comprado a rede Shell. A Cepsa, com 150 postos, está em quarto lugar.
[A Galp quer acabar com a refinação, para se dedicar ao gás natural (mais rentável, porque mais barato de operar - afinal, são só tubos, não é?). Se o fizer, deixa Portugal dependente não da matéria prima petróleo (como já é), mas também (e mais grave) do produto acabado!]
Energia
A Endesa está no capital da Tejo Energia e Central Termoeléctrica do Pego, além de ter comprado a Finerge (ramo eólico; comprou à Somague). A Iberdrola e a Gamesa são concorrentes (com a Galp) ao concurso de atribuição da energia eólica em Portugal. A Iberdrola detém 4% e 5,7% na Galp e na EDP.
Pronto-a-vestir
O Grupo Inditex controla a Zara, Massimu Dutti, Pull&Bear, Stradivarius, Oysho, Zara Home, somando 250 lojas. O Grupo Cortefiel, além das mega-lojas com o seu nome, detém as Springfield, Women's Secret, Pedro del Hierro, Douglas e Milano, totalizando mais de 50 unidades.
Alimentar
No sector alimentar os espanhóis têm uma quota não inferior a 15%. Panrico, Campofrio, Nutrexpa, La Menorquina e a líder mundial nos ultracongelados de peixe, Pescanova - são todas nossas conhecidas.
Media
O Grupo Prisa comprou a Media Capital (TVI; revistas Lux, Maxmen; jornal Metro; publicidade exterior e conteúdos para internet, como os portais Agência Financeira, Portugal Diário, Mais Futebol e IOL; rádios Comercial, Best Rock, Cidade e Rádio Clube Português). A Recoletos domina a imprensa económica, detendo o Diário Económico e o Semanário Económico. A Prensa-Ibérica fechou A Capital e O Comércio do Porto, na falta de comprador. Na distribuição, a Logista (ex-Midesa) reparte o mercado com a VASP - uma distribui o Público e outra o Expresso, por exemplo, além de dezenas de outros títulos.
(sublinhados meus)
Página seis, com o título «Baile de finalistas», soltei o primeiro suspiro. «A primeira banda do reggae branco deleita um coliseu cheio de público nostálgico» era o sub-título ou super-lead (?), de um texto que passei à frente. Aparte o erro e a imprecisão do super-lead (?), pergunto ao Gonçalo Frota: não havia título mais vazio?
Na página oito, encimado pelo título vazio, morto e nada apelativo «A tua presença», e pelo super-lead «A verdadeira diva da MPB conquistou o Coliseu dos Recreios na primeira de três noites para lançar o novo álbum», estava um texto sobre um concerto de Maria Bethânia. Da peça destaco «…estava rendido a Bethânia desde que ela entra em palco ao som da…», além de duas referências a uma MPB não explicada – apesar de facilmente se conjecturar que seja Música Popular Brasileira – e de duas frases começadas por «E, …». Belo trabalho, Jorge Mourinha.
Na página 10 havia uma reportagem sobre o Festival Tejo. Um redundante «Noites do Tejo» abriu um trabalho de Tiago Carvalho, uma reportagem que tentou ser madura e focar o carácter inter-geracional dos festivais de música da época de Verão. Daí as imensas referências que o jornalista fez à idade dos veraneantes com quem falou: Alexandra, 40 anos; uma senhora de 61 anos; Francisco, 45; Rita, 17; Telma, 21. Pena que o texto não deite uma gota, quando espremido. Lá no meio, assim como que caída do céu, esta construção: «Antes da entrada em palco dos Xutos…».
Na página 20, com o título «O mundo num castelo», que já não comento, encontrei uma peça sobre o Festival Músicas do Mundo e no lead um FMM caído de pára-quedas, mais uma vez.
Parei no cinema, à página 29, num texto de Jorge Mourinha, bem redigido e interessante. Somente saltaram à vista o título rebuscadíssimo «Sexo, drogas e rock’n’roll» e – logo na primeira linha, isto é que é pontaria – uma «Antárctica». Nota positiva, pá. Mas, ou é Antártica ou Antárctida.
É esta a imprensa portuguesa de «música e cultura jovem». Oh dona Rosa, tome lá o jornal de volta e dê-me antes um pacote de pastilhas, se faz favor...

Fest Forward Magazine é pioneira no género: uma revista em forma de guia dedicada a festivais, sejam eles de música, dança, teatro, cinema, fotografia e demais correntes artísticas. Uma lufada de ar fresco no mercado. Aliás, qual mercado?! A Fest Forward Magazine custa nicles, é trimestral e o número-zero já anda a circular por aí, com a promessa do número-um para Setembro (abordando o trimestre Out/Nov/Dez). Procurem-na (para já, à porta do festival mais próximo), porque vale a pena.
Filipe Pedro é o Director, Gonçalo Guedes-Cardoso o Director-Adjunto e Ana Serafim a Editora, que dirigem um leque de jovens escribas.
Já eu, assim a modos que vejo as coisas de forma diferente. E vou falar somente do tecido privado, supostamente – ou “preconceituosamente” – de melhor e mais longa formação, mais competitivo em todas as unidades da sua verticalidade e horizontalidade – porquanto está sujeito à concorrência, dos lugares e dos outros –, mais preparado e mais “século XXI”. Ora quando o tecido privado não sabe usar a internet, estamos bonitos. Quando um email demora dias a ser respondido (quando é), e quando a resposta não tem nada do que se solicitou, estamos um bocado verdes. Quando a internet deveria servir para diminuir custos e tempo, mas nos pedem que, ou «envie por correio ou por fax», ou ainda que telefonemos, estamos a achar pouca graça. Quanto, pronto ‘tá bem, optámos por telefonar e nos dão o «número directo» ao invés de passar a chamada, ou ainda quando se justificam que é melhor ligar e perguntar «porque senão eu tenho de procurar isso aqui no “sistema” e ‘tá a ver, não é?», então estamos… com cara de parvos, concerteza.
Por isto e muito mais, eu proponho o choque eléctrico. Sim, esse mesmo, em cadeira de carvalho ou pinho, à moda do Texas. Porque de outra forma não vamos lá. Ou melhor, vamos sim, e vão os que têm dois dedinhos de testa, para outro lado – leia-se, para um país civilizado. Portugal é o melhor sítio para se viver, sem dúvida. Mas se se quer trabalhar, é de fugir.
Como se tratou de interpretar pautas alheias, não houve espaço para improvisos ecletistas, somente para muita melodia. E nisso teve especial responsabilidade o trio de saxofonistas-alto, que bem aproveitou e muito agradou. Vincent Herring, repetente no Estoril, mais uma vez não deixou ninguém indiferente, porquanto o seu talento parecia sair em chamas do seu saxofone – admirável. Jesse Davis, natural do sítio onde tudo começou, Nova Orleães, também sobressaiu, apaixonado, cheio, estupendo. Wess Anderson, o mais jovem, foi porventura o mais fraco, contudo irrepreensível.
No conjunto, um nome saltava à vista. O veteraníssimo Jimmy Cobb, nascido no ano em que Wall Street “crashou”, baterista de formação que ao longo da sua carreira tocou com tantos e tão dotados músicos de jazz que só menciono um – Cobb é o último dos homens que gravaram o histórico Kind of Blue, de Miles Davis. Ontem, Cobb encantou e os seus solos fizeram-me perceber que até então eu vinha sendo intrujado por sucessivos bateristas. E confirmaram que o epíteto “lenda viva” serve, unicamente, aqueles que além de tocar há muito tempo, tocam muito, realmente muito bem.
A prestação de Ray Drummond, o baixista, foi a melhor que já vi no meu parco trajecto de jazz in loco. Nas mãos de Drummond – “lenda júnior”, nas palavras de Herring – o baixo não é um acessório, não está só lá no fundo, não passa despercebido e, acima de tudo, “percebe-se”.
Embora discreto, o pianista Ronnie Matthews foi peça essencial em todo o espectáculo, uma enorme bússola.
No final, era visível a satisfação estampada no rosto de quem descia o macadame rumo ao mar, ainda trauteando um “Quasimodo” ou “Parker’s Mood”. Que raio, nem o vento apareceu!