quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Uma paixão em Montpellier – dia 2
Montpellier não estava nos planos de ninguém, mas só chegaríamos a Nice muito tarde pela noite e ficámos por ali. Sem conseguir encontrar o hostel que o gabinete de turismo da estação nos tinha marcado no mapa e quando as mochilas já pesavam, a Joana perguntou à Charléne onde podíamos dormir e fomos atrás dela e da amiga até à Pousada de Juventude. Afinal era fácil.

Para aumentar um pouco a tensão de não termos ainda dormido desde que entrámos no primeiro comboio, e de na estação o fulano não nos ter marcado a viagem até Florença, a etapa seguinte, porque “não tinha sistema”, coisa bem portuguesa, na pousada a recepcionista também não tinha cama para todos, só para a Joana. Olhámo-nos, cansados, tentando não desesperar, o que nem foi preciso porque meia-hora depois estávamos hospedados, nós com três austríacos e a Joana com três alemãs badalhocas, uma freak de cabelo verde, uma brasileira e mais três.

Doridos e maçados, jantámos pasta numa esplanada ali perto, como a noite abafada exigia. A baixa de Montpellier é acolhedora, com as suas ruas estreitas cheias de pequenas lojas e restaurantes, praças escondidas com bancos de jardim, e muita gente a circular. Deitámo-nos relativamente cedo com os planos para a manhã seguinte escritos na toalha de papel do restaurante.

A esplana onde jantámos. Tirar fotos é um trabalho chato, mas alguém tem de o fazer...

Então, na terça-feira eu e o Rui descobrimos a Charléne na bilheteira da estação de comboios para onde fomos encaminhados porque só ela falava inglês e eu não confiei no meu francês para me explicar. Era ela quem nos tinha levado à pousada na noite anterior, aqueles olhos azul-claro não nos enganaram e ela reconheceu-nos assim que perguntámos para confirmar. Devíamos ter voltado à uma e meia e tê-la convidado para almoçar, mas com a reserva para Florença finalmente nas mãos quisemos voltar para dar a notícia ao grupo. O Rui ficou triste.

Foi durante a manhã e parte da tarde que gastámos a passear pela cidade que começou a exasperante — pelo menos para a Joana — vaga de “gabanço” às mulheres francesas. Parecíamos miúdos pequenos que vêem maminhas pela primeira vez, mas as mulheres bonitas e com pouca roupa faziam questão de se cruzar connosco a espaços de cinco minutos, o que só aumentará de intensidade para níveis nunca antes imaginados oito dias mais tarde, na Croácia, onde a Joana já estará também familiarizada com o termo “setas”.

A praia a trinta minutos de Montpellier, onde nos fomos refrescar ao final do dia, não era paradisíaca como nos postais da Côte d’Azur, mas tinha água morna e o espaço entre toalhas estava ao nível da Caparica, talvez para nos fazer sentir em casa. Mesmo assim, soube muito bem e foi ali que o Rui me explicou como é que o pessoal da Praia da Rocha tonifica os braços e os peitorais na praia e sem pagar ginásio, e que soube que o Pedro depila o peito. O Pedro é de Vila Viçosa e vai a Espanha abastecer-se de tabaco, porque fuma muito e lá é mais barato. Para a viagem trouxe o seu volume de dez maços, obviamente. E anotem isto: daqui a uns tempos será jornalista para a televisão. Depois rimo-nos dos meus sete solitários pêlos e rumámos ao autocarro, onde o fã número um do Colin McRae esperava para nos dar uma lição de rali urbano em veículo pesado de passageiros, cheio. A viagem de meia-hora ficou-se pela metade do tempo e ainda hoje o Pedro e o Rui devem acreditar que eu tenho carta de condução de pesados e que um dia fui fazer testes à Carris. Desculpem rapazes, mas soube-me tão bem pregar-vos esta peta; é, contudo, verdade tudo o resto, só não tenho mesmo a carta; e foi muito engraçado ver a forma respeitosa como desde então me trataram e consideraram as minhas opiniões sobre sistemas integrados de transportes públicos.

Regressados e devidamente banhados, saímos para jantar e para espanto meu e da Joana descobrimos o deslumbramento do Rui e do Pedro pelo MacDonalds, onde praticamente exigiram jantar, algo que se repetirá em Ljubljana, onde os acompanharei e bombardearei com perguntas na tentativa de compreender aquele quase-vício.

Na pousada reencontrámos o Julian e o outro, alemães que conhecêramos na noite anterior e que, eles sim, não arranjaram alojamento e foram dormir ao jardim da cidade com os sem-abrigo. De manhã acordaram com o sistema de rega e agora, à noite, convidaram-nos para um copo. O Julian estuda Direito e ficou contente por saber que eu partilho com ele a ideia de que é o Direito que melhor prepara um jornalista, profissão que ambos desejamos seguir. Mas mesmo com tema de conversa garantido não fui com eles bebê-las e assistir a uma prostituta levar uma tareia de um barman, não se sabe porquê. Como também não se sabe muito bem quem era o búlgaro que vivia lá na pousada e que os acompanhou, e que — palavras dele, que mal falava inglês — era procurado pela polícia na Bulgária.

Fiquei, então, na rua a ouvir a Joana conversar com a sua nova amiga holandesa de que ainda hoje não recorda o nome, e timidamente a entrar na conversa, algo que não era fácil porque elas estavam eléctricas e eu deslumbrado. Rendido. Apaixonado. E nunca tinha estado na Holanda.

Ela era de Haia, tinha feito Erasmus em Sevilha, e estava a fazer praia no sul de França. Por isso tinha a pele morena, uma combinação explosiva com o cabelo loiro pelos ombros e os olhos azuis. Era muito divertida e engraçada na forma como falava de tudo com uma voz semi-rouca e quente, e tinha um detalhe que me deitou por terra, qual estocada final, e que desde já alerto para a impossibilidade de descrever convenientemente. Quando falava formava-se-lhe na boca uma espuminha — eu avisei... — extremamente sensual, e que para os que sabem do que falo é muito parecido ao que acontece a uma outra mulher muito bonita que conheço. O vestidinho azul pelo joelho, as sabrinas brancas e as pernas apetitosamente bem desenhadas são a última coisa que recordo, em suspiro.

Doze horas depois partiríamos para Florença, mas não sem antes tomar um croissant e um café por um euro e meio, para alegria geral dados os preços franceses, e de o Rui ter finalmente comprado fiambre às fatias no mercado da cidade. Da mesma forma que a Joana não come carne e que o Pedro fuma cigarros, o Rui só come pão se tiver fiambre.

Antes de entrar no comboio para Nice, que nos deixará num outro para Florença, durante toda a noite, e de almoçar conservas ou sanduíches sentados no chão da estação, a Joana sobressaltou-nos com uma má notícia: o siso rebelde continuava a dar luta e a massa que o dentista tinha colocado para remendar a incompetência e um pedaço partido, caíra e fora pelo lavatório abaixo, deixando-a com dores insuportáveis.

7 comentários:

JAC disse...

que saudades... passou tudo tão depressa! E parece que cada paragem dista imenso das anteriores ou das seguites. Montpellier foi especial, pelo menos para mim. Foi quando eu senti que estava a avançar e não ia voltar para trás. Foi quando me apeguei a vocês e senti que começámos a ser uma espécie de família: tudo o que cada um fazia, tinha consequências no resto do grupo de certa forma. Mesmo que na altura isto tenha sido mais inconsciente e menos pensado, agora consigo perceber q para mim houve neste sítio uma espécie de viragem. Bons momentos... a praia não era magnífica mas fez-nos tão bem, foi o primeiro momento em que senti mesmo: Ahhhh... e o maravilhoso pormenor do café a 1,70... mal sabiamos nós o que estava para vir!
quanto à holandesa... pois é meu amigo, muito eu gosto daquele povo, e percebo esse encanto, ela era demais :)
os primeiros beliches, as baguetes, os croissants, o monhé do CABRIOLET, as lojinhas escondidas, as bolas de cristal do dragonball, a lista de cidades na recepção que nos mostrava de onde vinhamos e para onde iamos para a qual eu olhei tantas vezes e percebi: ja estou mesmo longe, mas muito bem acompanhada!

bj*

Anónimo disse...

disseste "apetitosamente desenhadas"? :)

JPC disse...

Desmentes? Ou não concordas? :)

Anónimo disse...

não desminto, concordo e abençoo a acutilância!

John Abreu disse...

É mentira! O Rui não come só pães com fiambre.

Ponto 1. O Rui só come 'pãos'! Eis a palavra-chave de 4 anos de curso: «PÃOS»

Ponto 2. Ele come mesmo SÓ «PÃOS» com «PÃOS»...

Pronto, de resto, gostei da cena da espuminha na boca da outra.. E já agora, posso dizer-te que escreves muito bem? És interessante.. posso-te conhecer? Queres ir beber um café? lol Mas é verdade: belo relato =)

PS: Vê lá se tiras esta coisa da "word verification". Eu a querer comentar e a ter de gastar tempo com qualquer coisa como «rgnpjyfm» .. Pilzens também para eles

JPC disse...

(É pra evitar o SPAM, pá...)
(hmafkwxm)

JPC disse...

A outra, a outra...