segunda-feira, 4 de maio de 2009

A vida espectacular de


Já se adivinhava. Il Divo, prémio do júri em Cannes no ano passado, é um belo filme. Giulio Andreotti é um personagem e tanto: foi primeiro-ministro de Itália por sete vezes, protagonista de vários escândalos políticos, suspeito de ligações à Máfia e de financiamento ilegal de partidos, entre outras coisas menores. O realizador, Paolo Sorrentino, é júri no festival de Cannes este ano.

Não sendo novo, foi o melhor filme que vi no Indie Lisboa 2009.

domingo, 12 de abril de 2009

O Benicio é um belo Che
Em mais de quatro horas de fita não há, que me recorde, um grande plano de Che. Há, isso sim, Che fora de plano, de costas cortado pela cabeça, porque o que interessa é mostrar o que envolve e como envolve Che. Não se vê um combate espectacular e não se vê a tomada de Havana, antes a sobriedade e dureza da luta de guerrilha. O que mais surpreende é a expressividade deste Che.

Do actor
Sério, pensativo e ponderado. Doente e em sofrimento por causa da asma — é que até inspiras mais fundo e procuras sentar-te melhor na cadeira. Irado, excitado em combate, frio no fuzilamento, poderoso em Nova Iorque. Motivador, desalentado e amedrontado perante a morte.

Da cor
O jovem Che encontra-se com outros exilados no México e adere ao movimento: em tons azulados. O médico, o professor, o soldado, o estratega, o braço direito de Fidel — que pena não vermos mais de Demián Bichir, impressionante de tão parecido — e o subalterno de Fidel nos dois anos passados nas montanhas, o impiedoso que ordena os fuzilamentos: em tons de verde. O comandante e ministro, homem poderoso e da confiança de Castro, a recepção em Nova Iorque, as entrevistas, o discurso nas Nações Unidas: a preto e branco. O sonho boliviano que se desmorona — aprendeu-se com a derrota de Batista, os Estados Unidos intervieram, a Bolívia não é Cuba e também os homens eram menos e pior preparados; e faltaria o estrega Fidel e o apoio do PC? —, o cerco nas montanhas, a morte: em tons de amarelo. Se o olhar de Che era como o olhar deste Che, então percebe-se.

Da história
O filme de Steven Soderbergh é muito bom e merece ser visto. Che é um personagem controverso e este é apenas mais um filme — que fique bem claro.

Dos anos em Havana, no poder, nos tribunais sumários, nada se conta. Da captura e da morte, do breve interrogatório, da escolha do seu carrasco, do que com ele conversou, do cadáver presente ao presidente Barrientos, conta-se uma versão, não necessariamente a verdadeira — isso interessa? Tudo é minimalista. Não tem banda sonora, nem sequer tem longos diálogos ou discursos. Tudo é lento.

Da resposta
Entre o herói e o mito — o vilão só aparece no final, quando um oficial cubano aparece em La Higuera, aliado das tropas bolivianas, arquitecto da sua captura, e lhe diz que ele mandara fuzilar o seu pai em Havana e também por isso ele estava ali —, não sei onde fica este filme. O Benicio del Toro, sim, fica na minha galeria de notáveis actores.




Che Guevara na 19ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Dezembro de 1964. United Nations TV.

sábado, 11 de abril de 2009

Ao Zé Manel, ao Henrique e ao João
Da próxima vez que me cruzar convosco vou cravar-vos uma boleia. É que suspeito que vos ando a pagar a gasolina.

Dois meses de jornais, comprados pela malta aqui de casa, foram hoje para reciclar. A bem das árvores e tal.

E depois ficam sempre mais uns quantos pra recortar...

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Pedroso, o maratonista
“Se tiver a confiança dos almadenses, os oito anos que vêm da minha vida serão dedicados a pôr Almada no futuro”, disse Paulo Pedroso na apresentação oficial da sua candidatura à câmara de Almada, o bastião comunista da margem Sul do Tejo.

Faz sentido. Os primeiros quatro como vereador, os outros quatro como presidente da câmara. A corrida de Paulo Pedroso a Almada é uma corrida de fundo, para preparar as eleições de 2013, às quais Maria Emília de Sousa já não pode concorrer.

É “o maior desafio político da minha vida”, diz, e disso não há dúvidas. Está em causa o renascimento de Pedroso para a política, depois da Casa Pia. E o programa, no que toca à “reconquista do rio e do mar”, condiz com o slogan do primeiro cartaz: “terminar a obra que ninguém começou”. Assim de repente só me lembro do Ginjal, da Margueira/Lisnave e da Costa da Caparica que, carecendo de intervenção, recuperação e aproveitamento — é um facto —, me parecem demasiado óbvias fatias de um bolo de cimento que ansiosamente se quer comer. Gulosos.

A oficialização da candidatura, na Incrível Almadense — os 800 e tal lugares da Academia seriam demais e suspeito que o PCP nunca lhe arrendaria o espaço —, teve direito à dramática banda sonora do filme “África Minha”, muita pompa e circunstância, contra as difamações do processo Casa Pia; teve o apoio dos notáveis do partido, Soares em vídeo, Vera Jardim em pessoa, um leque de secretários de Estado e até a eurodeputada-em-tempos-desalinhada Ana Gomes; e o financiamento de Jorge Coelho (?), que afinal não esteve presente (Ferro Rodrigues também não apareceu, porquê?). O empenho do PS em ganhar Almada em 2013 é muito sério. E o peso de Pedroso no partido também.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Regalias de um deputado
Com um vencimento base mensal que é metade do que recebe o Presidente da República, e com café a 25 cêntimos na Assembleia da República, onde uma sandocha também custa 40 cêntimos de euro, o deputado dispõe do único bar que permanece aberto no parlamento depois das seis e meia da tarde.

Para que não haja dúvidas, a letras douradas na parede branca lê-se “bar dos deputados”. No horário, a vermelho, afixado à porta, lê-se “bar dos deputados”. Na porta, numa folha colada com fita cola, a verde e em maiúsculas, “exclusivo para deputados”.

Repórter parlamentar só come depois das seis e meia se tiver levado merenda. É a casa da democracia.

terça-feira, 10 de março de 2009

Twitter
No dia em que desbloqueei o meu Twitter comecei a ser seguido por uma taróloga de Almada, por dois deputados (um do centro, outro da direita), por um pretenso líder partidário, por uma blogger muito cor-de-rosa e pela RTP.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Engraçado
Ontem foi Dia Internacional da Mulher. Hoje ouvi duas vezes na TSF um spot publicitário — que não sei se do Governo, se da Comissão Nacional de Eleições — que fala das mulheres na política, como são necessárias mais mulheres, e da paridade. Ontem o PS elegeu um novo Secretariado Nacional que desrespeita as quotas internas de paridade. É ler o que escrevi ontem, lá na rádio...

PS
Socialistas não cumprem quotas
O novo Secretariado Nacional do PS, eleito este domingo, Dia Internacional da Mulher, não respeita a quota mínima de 33 por cento de membros de cada sexo. Entre 11 elementos estão apenas três mulheres.

De acordo com o artigo 116º dos Estatutos do partido, os órgãos partidários e as listas a votação para esses órgãos “devem garantir uma representação não inferior a um terço de militantes de qualquer dos sexos”. Mas três mulheres entre os 11 lugares electivos do Secretariado correspondem a uma quota de 27 por cento. Com mais uma mulher a quota subiria para 36 por cento.

Vitalino Canas, porta-voz do PS, rejeita qualquer incumprimento dos Estatutos e diz que “a regra interna das quotas” é “cumprida integralmente”. Vitalino acrescenta que “em relação ao órgão executivo [o Secretariado Nacional], na nossa perspectiva as quotas também são preenchidas”.

Nos Estatutos está escrito que a representação de um terço de militantes de qualquer dos sexos só é dispensada em “condições excepcionais de incumprimento como tal caracterizadas pela Comissão Nacional”. Mas aos jornalistas e perante várias perguntas nesse sentido, Vitalino Canas não esclareceu se esta foi declarada uma situação excepcional.

Duas secretárias de estado e uma eurodeputada

As mulheres que compõem o Secretariado Nacional do PS hoje eleito são Ana Paula Vitorino, secretária de Estado dos Transportes, Idália Moniz, Secretária de Estado Adjunta e da Reabilitação, e Edite Estrela, eurodeputada, que já integravam este órgão. Do anterior secretariado fazia parte Maria Manuela Augusto, deputada em situação de suplente, e reeleita em Fevereiro no cargo de Presidente do Departamento Nacional das Mulheres Socialistas.

Uma novidade neste órgão executivo do PS é André Figueiredo, chefe de gabinete de José Sócrates no partido, deputado municipal em Seia e vice-presidente da federação do PS da Guarda.

sábado, 7 de março de 2009

De volta à redacção, treze dias depois
Ia jurar que tinha ido de férias, mas afinal...

- Mário Nogueira: “Está tudo em aberto, até a greve à avaliação dos alunos”
- Primeiro-ministro palestiniano demite-se
- Car bomb kills eight in Pakistan
- Karzai agrees to delay elections
- Clashes in Sweden at Israel march
- Rusia reconoce que con Obama se puede ahora avanzar en el desarme
- Zapatero afirma que no va a permitir que la crisis afecte más a las mujeres

Tudo está na mesma.

terça-feira, 3 de março de 2009

Fiquei convencido
Avisaram-me que isto poderia acontecer. Convivi com a malta do Sócrates durante quase três dias e de tanto ouvir falar em novas oportunidades, melhorar as qualificações dos portugueses, escolaridade obrigatória de mais três anos, etc, decidi voltar aos bancos da escola. Quero ser como o Mário Vicente ou como o Jorge Silva. Já me inscrevi nos exames. Engenharia Civil here I go.

segunda-feira, 2 de março de 2009

O Pudim foi ao congresso do PS
Sócrates “é o maior”, um congresso vazio de política
A campanha eleitoral do PS começou este fim-de-semana em Espinho, no congresso do partido, um encontro que teve mais de comício do que de congresso.

José Sócrates teve o seu momento de aclamação neste congresso do PS, em Espinho, onde nada foi verdadeiramente discutido. Entre três moções gerais e algumas dezenas de moções sectoriais, nenhuma foi formalmente apresentada, à excepção daquela que Sócrates subscreve e que foi aprovada com mais de mil votos favoráveis e um voto contra. Discussão, nem vê-la.

Foto: Lusa
O secretário-geral foi elogiado por todos os lados, gabado várias vezes pelo presidente Almeida Santos — “o partido merece um líder assim” —, celebrado pelos seus camaradas ditos notáveis, solenizado pelos delegados e militantes de base. É o culto do chefe. Descendo à terra, houve até quem andasse a pedir autógrafos aos homens do partido: Edite Estrela e Augusto Santos Silva foram os primeiros.

A massa socialista chamada a este congresso esteve deslumbrada, apática e desinteressada, aparte os aplausos. Nas intervenções de três minutos, quase impecavelmente intercalando meia dúzia de anónimos e um notável, houve casos sofríveis e discursos que, parecendo encomendados, nem precisavam sê-lo. No púlpito a massa socialista agradece as auto-estradas — as SCUT, entenda-se, que são à borla — que “foram eles que lançaram” e acredita na campanha negra: uma delegada foi ler uns papelinhos e dizer que a crise no sector da comunicação social, com os despedimentos recentes, dita as notícias difamatórias só para vender jornais.

A julgar pela amostra militante, Sócrates vai capitalizar junto do povo a vitimização e as ignomínias em votos. O próprio atacou os jornalistas no discurso de abertura do congresso; frente às câmaras de televisão, Arons de Carvalho foi chamado a complementar e acusar directamente o Público e a TVI; quando intervieram António Costa, Santos Silva, Paulo Pedroso, Ana Gomes, Silva Pereira e tantos outros não se esqueceram de recordar e atacar os orquestradores da campanha, tão negra que culminou no apagão de sábado à noite que obrigou a interromper os trabalhos mais cedo.

Os 1.700 delegados foram escolhidos, bem ou mal, com um propósito: encenar o início da campanha eleitoral. E a “campanha negra” serve o propósito de pedir a maioria absoluta para que Portugal possa ser governado em “estabilidade”, lançando o fantasma da ingovernabilidade ou da indisponibilidade de Sócrates em caso de minoria, aliada àquela lógica perpetuada de que só com maioria se consegue um governo eficaz neste país. Nunca pensei que a democracia fosse um entrave à governação.

Os críticos do partido queixam-se de unanimismo que grassa no PS e as ausências de Alegre e Cravinho ainda entusiasmaram os jornalistas, mas só os jornalistas. Eu não percebo porquê. Num congresso onde não há discussão absolutamente nenhuma, que falta fazem dois militantes desalinhados e críticos da liderança?

A escolha de Vital Moreira para encabeçar a lista do PS às eleições europeias surpreendeu. O professor de Coimbra não milita, ele próprio se afirmou “socialista freelance”, mas é tido como uma figura da esquerda e um homem das ideias e defensor das liberdades e garantias. Uma aproximação à esquerda, pode dizer-se. Mas será um candidato agregador?

E, já agora, interessante será ver se Vital vai manter os espaços de opinião nos dois bastiões da “campanha negra”: o jornal Público, onde escreve há anos, e o TVI 24, onde foi apresentado como comentador — ele lá disse que vai ter de pôr termo a uns compromissos contratuais que tinha assumido recentemente.

Quanto aos outros nomes para as europeias, fica por se saber: Ana Gomes fica em Bruxelas ou vem para Sintra? Jamila Madeira candidata-se para o segundo mandato ou vem para as listas à legislativas? E Assis? E Sérgio Sousa Pinto? Sobre isto nada se soube no congresso — também não ajudou os jornalistas não terem acesso aos delegados.

No encerramento do congresso José Sócrates deixou um recado a Cavaco Silva: as eleições autárquicas devem realizar-se isoladamente. De resto, Sócrates deu a escolher aos portugueses: “Querem manter o rumo reformista ou regressar ao passado? Querem dar condições de estabilidade e governabilidade?” A campanha começou. Vemo-nos em Outubro.

domingo, 1 de março de 2009

O Pudim foi ao congresso do PS
O discurso final de José Sócrates foi de-pri-men-te
Para quem pede uma nova maioria absoluta, para quem é aclamado em total unanimismo, para quem afirma que é neste congresso que começa “a legitimidade democrática” do PS para governar de novo o país, para quem lidera um partido que nos últimos 15 anos apenas não governou durante três e hoje clama ser a “força da mudança”, José Sócrates falou durante 40 minutos e disse nada. Não deveria ter sido um discurso apoteótico? Eu julgava que sim.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

O Pudim foi ao congresso do PS
www.socrates2009.pt
José Sócrates prepara-se para falar às oito, durante os telejornais. Deverá anunciar o cabeça de lista do PS para as eleições europeias.

José Sócrates tem na sua mesa três pequenos monitores portáteis, que seguem os três canais de notícias da SIC, RTP e TVI.

Ainda hoje pode ser apresentado este endereço: www.socrates2009.pt (até agora só tem disponível uma página de registo, para se receber novidades) O designer deve ser primo de quem fez este: www.barackobama.com.
O Pudim foi ao congresso do PS
Aceitam-se apostas: quem é o primeiro a ir para Bruxelas? Vai saber-se no telejornal.
Entre os desconhecidos, durante a tarde discursaram as caras conhecidas do PS, ministros e ex-ministros, deputados e outros que tais. Os anónimos primeiro, aqueles que agradecem as auto-estradas construídas no seu concelho, e os conhecidos na contagem decrescente do telejornal, mas todos em uníssono: o partido está, realmente, unido.

A destoar, apenas um delegado. Foi ao palco dizer que não é normal um cão querer acasalar com outro cão ou “um galo com outro galo”. Foi claro: “não contem comigo” para “destruir a família, a base da sociedade”, e garantiu que foi apenas dar voz ao que muitos militantes pensam, mas não dizem, acerca da proposta de Sócrates para levar à discussão o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ouviram-se alguns tímidos apupos e a intervenção terminou com relativo silêncio na sala.

Mais de oito horas depois de abertos os trabalhos ainda não há um cabeça de lista para as eleições europeias, as primeiras de três a disputar este ano — e não falta muito, aliás, para terminar o prazo em que o Presidente da República pode decidir juntar às europeias alguma outra eleição.

Nos bastidores, isto é, na bancada da imprensa, fala-se de Ferro Rodrigues, António Vitorino e há até quem atire com Freitas do Amaral. Lá em baixo, na sala, onde estão as centenas de delegados, os jornalistas não podem entrar. Só se chega perto dos militantes socialistas à entrada do pavilhão quando eles saem — e se saírem pela porta da frente — para uma pausa para cigarro.

À falta do Tino de Rãs, houve um açoreano que cantou uma canção.
O Pudim foi ao congresso do PS
Ana Gomes: ela move-se
Ana Gomes considera que “é preciso acabar com as suspeitas de corrupção na classe política” e por isso pede que seja retomado o pacote Cravinho, um conjunto de medidas e alterações à lei para prevenir a corrupção, e sobretudo a instituição do crime de enriquecimento ilícito.

Numa das primeiras intervenções da tarde, à medida que os congressistas vão regressando muito lentamente do almoço, a eurodeputada socialista afirmou que a “campanha de ataque político e pessoal” a Sócrates demonstra que é precisa uma reforma da justiça. “Não podemos ignorar o estado e a morosidade da justiça”, disse.

O plano do antigo ministro João Cravinho, cuja rejeição, em 2007, coincidiu com a sua nomeação pelo Governo para administrador do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento, em Londres, propunha alterações ao Código Penal, nomeadamente o fim da distinção entre corrupção para acto lícito e ilícito, e que os superiores hierárquicos de funcionários acusados de corrupção pudessem ser responsabilizados penalmente pelo crime.

Tal como o líder do partido, Ana Gomes pediu o fim dos off-shore a nível europeu e nacional, incuindo na Madeira. O mundo está perigoso e está a mudar, afirmou, e em Portugal o PS é necessário para liderar esta mudança.

Em três minutos foi assim, e o futuro aconselha contenção nas palavras. Entre Bruxelas e Sintra, Ana Gomes já não está tão não-alinhada.
O Pudim foi ao congresso do PS – dia dois
Eu adoro o meu secretário-geral, eu sei quem são os malandros das campanhas negras
O congresso foi para o almoço, até às três da tarde estão interrompidas as intervenções de três minutos que qualquer congressista pode usar. Dezenas de caras vão desfilar durante a tarde e vão falar de tudo: saudar o líder do partido, malhar nas campanhas negras, partilhar os combates travados nas autarquias e lembrar o programa e as prioridades para os próximos quatro anos. Tipo desfile para as listas. Sócrates, na mesa atrás do púlpito, de mangas arregaçadas — e suspeito que de jeans —, assiste. Todos sorriem, todos estão felizes.

António Costa, número dois na linha de sucessão, pediu esta manhã em Espinho uma nova maioria absoluta, porque não há possibilidade de alianças à direita nem à esquerda. O Bloco de Esquerda, pessoalizou, e julgando pela experiência na câmara de Lisboa, é um partido parasita. A direita, essa, nem vê-la. Resta, por isso, um PS “responsável”, disse Costa.

O deputado e ex-secretário de Estado com a tutela dos meios de comunicação social, Alberto Arons de Carvalho, às câmaras da TVI 24, em directo, resolveu chamar os bois pelos nomes e apontou os orquestradores das sucessivas campanhas negras de que Sócrates tem sido vítima. Os opositores do regime são o jornal Público e o seu director, o noticiário das sextas-feiras da TVI, e as jornalistas da estação Manuela Moura Guedes e Ana Leal. Na minha agenda já apontei: em 2012 renova-se a licença de emissão em sinal aberto.

Alegre ainda não apareceu. Ana Gomes fala esta tarde.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O Pudim foi ao congresso do PS – dia um
Contra os malandros e pelos portugueses, maioria absoluta, se faz favor
Apesar das campanhas negras, José Sócrates quer governar Portugal durante mais quatro anos, manter a tendência reformista apoiada por uma maioria absoluta, que pediu, e travar um duro combate pela “decência democrática”.

foto: Estela Silva, Lusa
“Quem governa é quem o povo escolhe, e não um qualquer director de jornal com as suas campanhas, nem nenhuma televisão com as suas manipulações, nem nenhum cobarde que se entretenha a escrever cartas anónimas”. Arrumados os casos Freeport e declarada a urgência de “um combate decisivo a travar pela decência da democracia”, a abrir o congresso do PS, e depois de agradecer o apoio dos socialistas, foi neste tom que José Sócrates repetiu que desde que governa o país tem sido vítima de várias campanhas difamatórias, promovidas por aqueles que ao longo de quatro anos não conseguiram vencê-lo e por isso atacaram a sua honra e dignidade através de “campanhas negras” que foram “desmascaradas e desmentidas”. E que disto “os portugueses sabem bem”.

Ataques pessoais à parte e porque a crise económica mundial é o principal desafio do presente, tal como está na sua moção e como já havia dito no parlamento, Sócrates afirmou que a Europa deve liderar a eliminação dos off-shore, a bem de uma maior transparência e regulação nos mercados. A prioridade no combate à crise, disse, é o desemprego e por isso prometeu fazer tudo o que estiver ao seu alcance para proteger o emprego dos portugueses.

As grandes orientações do PS para a próxima legislatura passam por medidas que promovam a justiça social e o alargamento da escolaridade mínima obrigatória para 12 anos, como forma de adequar as qualificações dos portugueses às exigências da economia actual. Sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo Sócrates rejeitou, novamente, tratar-se de oportunismo político ou de uma proposta virada para as minorias, preferindo dizer que é uma “convicção” do partido que “o país ficará melhor sem mais esta discriminação”.

O PS, disse o seu secretário-geral, é o grande representante da “esquerda moderna, moderada e progressista”, e criticou a actuação da oposição pelo que classificou de demagogia de quem “não tem responsabilidade governativa”. No PS, aliás, não há excluidos, nem perseguidos, nem silenciados, disse.

Volvidos 43 minutos de um discurso sem novidades, Sócrates, limpando o suor da testa com a mão, renovou o pedido de uma nova maioria absoluta, o que lhe valeu uma longa ovação de pé.

Manuel Alegre, a voz mais crítica do partido e representante da ala esquerda do PS, não esteve na abertura do congresso. Pode ser que, depois dos prestigiantes apelos, venha amanhã às dez da manhã, que é quando, afinal, isto começa.
Fantasporto, dia dois — em busca do Castelo do Queijo, fui a Leixões e acabei em Ramalde
A ponte Dom Luís I pode atravessar-se a pé. Ela estremece à passagem do eléctrico no tabuleiro superior, vagaroso, e nós a caminhar ali mesmo ao lado num passadiço em chapa de aço que se precipita não sei quantas dezenas de metros no Douro. Afinal, Gaia e o Porto têm sol e esta é a primeira vez que venho cá nesta altura do ano e não apanho chuva. Mas isso não quer dizer que não se apanhe banhos: vai um mergulhinho no “Delta”?



Esta fita do húngaro Kornél Mundruczó, premiada pela crítica em Cannes, obrigou-me a sair da sala em menos de quarenta dos cem minutos — um festival de cinema é mesmo assim, para mim. A narrativa desenvolve-se de forma lenta, a sobre-representação, quase teatral, fez-me mexer demasiado na cadeira e as trocas de olhar cheias de desejo, carnais e silenciosas, entre irmão e irmã, nem me apoquentavam assim tanto, não fossem elas tantas e tão longas. Acredito na minha intolerância, dado não ter dormido na noite anterior, mas nem o início com a matança do porco me provocou fosse o que fosse. E as sinopses do Fantasporto continuam a ser escritas com os pés: “Na beleza selvagem e tranquila, um labirinto de pequenas ilhas e de canais. O rio, esse, pertence aos aldeãos de uma aldeia isolada do mundo. Um jovem que dali saíra na infância, busca o que resta da família. Descobre a mãe e uma irmã que desconhecia e decide construir uma casa junto ao delta. Um conto belo e trágico de rejeição mas também de amor.” Justiça seja feita: granda banda sonora.

Porto sem chuva é de aproveitar e porque de cada vez que venho cá acima me cinjo sistematicamente aos mesmos lugares, a baixa, a ribeira, a foz e Serralves, desta vez descobri a praça do Marquês de Pombal. É que está mesmo ali, ajardinada e com uma bonita e modernaça igreja, e há lá uma tendinha que não recordo o nome onde a diária, ou o prato do dia para os lisboetas, custa três euros e meio, é grande e muito saborosa, a julgar pelos rojões que comi.

Matosinhos e Leixões conheço como a palma da minha mão... A seca que tu apanhaste é que, enfim... Lá se resolveu depois, entre covas e sinais.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Fantasporto, dia um — terror, só no meu quarto
O cinema sul-coreano vive de umas narrativas muito lentas e explicadinhas até ao detalhe, às voltas e às voltas, como o Hansel & Gretel, do Pil-Sung Yim, que com menos uns quarenta minutinhos até teria sido muito bom. Como o hostel que marquei. Poderia ter sido bom, mas há alturas na vida de um homem em que partilhar um quarto de beliches com quatro francesas mochileiras que afinal eram só duas, que francês só havia mais um e tinha barba, e a outra era japonesa, há alturas em que partilhar um quarto de beliches cheirando a suor e mofo até se faz. Mas há alturas em que não. Já fiz o meu interrail.



Por isso às sete da manhã ainda foi uma meia de leite escura e um croissant com queijo, ali no Bella Roma, depois de termos corrido e fechado, uma a uma, as capelinhas todas da baixa do Porto, onde a mini ainda custa cinquenta cêntimos e há umas coisas que são os Panikes: com ovo, chocolate ou queijo e fiambre. Eu e o Filipe, os resistentes; o Rui, o Lino e a Inês, os meninos, por esta ordem. Quase dois anos sem ver alguma desta malta e logo se fica com todos uns dois anos de produção cinematográfica para pôr em dia em conversa com estes tipos que, falando muito a sério, são uns verdadeiros especialistas na matéria.

Às oito e pouco li o jornal na sala de convívio. Ainda pensei em me estender por um pedaço, mas ao abrir a porta do quarto veio o bafo bafiento e então saí e não paguei. O hostel até tinha umas casas de banho e duches limpos, pessoal simpático, quartos temáticos, um chão que não rangia e paredes que vão ficar de pé mais uns bons anos, além de estar a cinco metros do Rivoli. A companhia é que, enfim. Logo me cheirou a esturro quando me apresentei e “desculpa lá mas há aqui um problema com a reserva e não temos o quarto individual”. Resultado: já tomei o duche na residencial Conga, duas estrelas — e sem mais comentários, que não espero deitar-me cem por cento sóbrio, de qualquer forma.

E Gaia, pelo que se vê da Avenida da República, é feia.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Ele há coisas que nunca mudam
Um gajo chega ao Rivoli para o Fantasporto e dá de caras com o Filipe :)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Eu até que podia podia trabalhar na cidade onde o miúdo faz xixi
O sumo de laranja do parlamento europeu vem da Oxfam, para um mundo mais justo e sustentável. E não sabe tanto a casca como alguns sumos 100 por cento que se vendem nos supermercados, à base de concentrados onde é a casca da laranja, e não a polpa, quem está em maior concentração. As moças jeitosas também: algumas são jornalistas correspondentes e outras são funcionárias, entre os milhares de pessoas que trabalham nestes dois enormes complexos, a comissão e o parlamento europeus. Há imensas loiras.

É unânime que a União Europeia não chega aos cidadãos e que o principal desafio dos jornalistas que tratam os assuntos europeus é convencer os leitores, os ouvintes e os telespectadores a gastarem o seu tempo lendo, ouvindo e vendo as nossas peças sobre a Europa. Foi isso que me trouxe a Bruxelas e a resposta é apenas uma: só se consegue fazê-lo sendo “muito bom” e com “enorme criatividade”. Isto dito por um correspondente espanhol que ao fim de quatro anos quis deixar de o ser, quando toda a gente está preocupada com o decréscimo da participação nas eleições europeias nos últimos 20 anos.

Nas conversas de alto nível que o grupo manteve com alguns eurodeputados (socialistas) portugueses ficou bem claro que às onze da noite é difícil encontrar aberto um bar minimamente aceitável. Diz que há um, ali à Grand Place, que fica na antiga cave de um banco, onde foi o cofre-forte. Também não há dúvidas que as listas do partido para o parlamento europeu já estão, se não fechadas, pelo menos muito orientadas. Mas foi só sorrisos.

A noite foi de mexilhões, no La Côtelete, que estava vazio de clientes às dez da noite e por isso o empregado nos abordou na rua com uma proposta irrecusável: por doze euros comemos duas entradas diferentes, uma panela de mexilhões com batatas fritas, um gauffre com chocolate para compor e estava tudo bom. A água é que custa o mesmo que a cerveja, ou seja, cinco euros. A bandeirada no táxi, com chamada e na tarifa de dia, é de dois euros e sessenta, menos vinte cêntimos do que em Lisboa — é só esquecer que aqui se ganha três vezes mais do que em Portugal.

À Europa esperam grandes desafios, neste e nos próximos cinco anos. Responder ao apelo norte-americano de cooperação: chegou a hora de os 27 provarem o merecimento da aliança. Resolver a crise económica: as políticas proteccionistas a nível nacional não podem nunca ser a solução, dizem os populares europeus. Barroso reúne um elevado consenso para dirigir a comissão durante mais cinco anos, não obstante os três chumbos que levou, com os referendos à reforma e depois com o “não” de Dublin a Lisboa. Mas o impasse institucional deve, no entanto, ser resolvido em breve, com as concessões já feitas aos irlandeses.

No plenário, sobre Gaza, o liberal democrata — ? — Graham Watson pede, sob aplausos, que o seu compatriota Tony Blair visite Gaza — a guerra já terminou há um mês — e em nome do Quarteto tome uma posição. Ou simplesmente que diga qualquer coisa.

De Bruxelas vi muito pouco. Choveu, fez frio, o hotel era afastado do centro. Passeei pela Grand Place, vi o que vi das janelas do táxi, do autocarro, da comissão e do parlamento. Não comprei, nem comi, chocolates. E o miúdo continua a fazer xixi.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Afinal, porque são importantes as eleições em Israel para quem vive em Lisboa?
Gostava ter resposta pronta para esta pergunta.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

A malvada da crise deixou-me a pele muito mais seca
Isto da crise económica mundial é um bocado sério. Ainda não percebi como é que começou — alguém percebeu? — mas não tenho dúvidas de que é bem real. Sinto-o na pele, da cara.

Contudo, sou um privilegiado: ainda tenho emprego. É que isto da crise pode trazer vantagens para aqueles que tiverem trabalho, com a inflação a cair, o petróleo a embaratecer e os bancos centrais a cortar nos juros. Mesmo assim, para mim a crise chegou em má altura. Há um punhado de meses mudei-me de uma zona barata, barulhenta e suja da cidade para um bairro burguês, organizado, sossegado e caro. A casa nova estava vazia, o meu rendimento disponível diminuiu e deixei actividades paralelas, não fui aumentado e não pertenço sequer à geração dos mil euros. Mas eu não desanimo: tenho a receita para vencer a crise.

Durante anos ouvimos apelos à poupança. Pois agora chegou a altura de gastar dinheiro. Se não o fizermos então as fábricas vão mesmo fechar todinhas. Consuma-se — mas procurando o bom e barato, para acautelar o mealheiro, que não sabemos quem é que vai ficar em casa amanhã.

Esta é a história da minha espuma de barbear “hidratante e dermoprotectora com aroma a lavanda”, Ach. Brito. É portuguesa e vem de Vila do Conde, por oposição à L’Oréal “men expert mousse anti-irritação para peles sensíveis com perfume neutro, sem álcool, de alta protecção, com película hidra protectora active defense system que reforça a resistência natural da pele”, que nem sei onde é feita e vinha usando até agora, com excelentes resultados epidérmicos. Mas o combate à crise exige homens de barba rija e não meninos.

A espuma de barbear portuguesa tem o saber e a tradição de pelo menos cento e vinte anos a amolecer o pêlo ao pessoal e ela mesma já está a fazer a sua parte para vencer a crise: a Ach. Brito arregaçou as mangas e comprou no mês passado a concorrente Confiança, de Braga, a segunda mais antiga saboneteira da península ibérica. Agora quer duplicar o volume de negócios e aumentar as exportações, que actualmente já chegam a quarenta países. E não despediu uma pessoa, que se saiba.

Mas a espuma de barbear portuguesa tem mais argumentos. Por exemplo, tem mais glamour. Enquanto a estrangeira está cheia de letras miudinhas difíceis de ler, bonecos a explicar os efeitos especiais e tiradas de marketing como “a L’Oréal aplica toda a sua experiência do tratamento da pele nesta mousse de barbear”, a portuguesa, embora seja espuma e não mousse, não está pejada de frases em grego que ninguém percebe. A rude espuma, e não mousse, está numa lata verde garrafa e é muito mais cosmopolita: as indicações estão na língua de Pessoa, de Shakespeare e de Voltaire. Por fim, cada duzentos mililitros de mousse importada vende-se a cinco euros e trinta e nove cêntimos, enquanto a Ach. Brito traz mais cinquenta mililitros, o que ainda dá umas barbas, e custa apenas três euros e oitenta.

É um facto que a espuma de barbear me deixa as bochechas bem esticadinhas, ardentemente frescas e cheirosas a lavanda, enquanto que a mousse era mais gentil. Mas a L’Oréal gasta balúrdios em anúncios com o Pierce Brosnan e com aquele gajo da série Lost. Uma parte dos quase dois euros que custa a mais vai para o bolso deles e isso não me parece uma atitude correcta em tempos de crise.

A crise é económica, não de valores. Pelo menos até acabar o frasquinho do creme hidratante L’Oréal men expert hydra energetic que uso depois de me cortar todo.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

“Fingir que estás no pensamento sem razão”
Croissants do Careca. Sol e praia. Tu, porra. A estrada para o Algarve em duas rodas ao final da tarde de sexta-feira com o céu cor de laranja. Nós, todos juntos sem o que pensar, simplesmente a passar o tempo às gargalhadas. Ou apenas uma noite de sono bem dormido.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Diferenças

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Já me lixaste, Fisk
Escrevi que Robert Fisk veio a Lisboa falar de quão mau é o jornalismo hoje. Eu estou na profissão há um ano e também acho que o jornalismo dos meus dias vai deixando muito a desejar. Há razões para isso. Na impossibilidade de mais, deixo uns exemplos concretos sobre o que acho que é um desses motivos.

Ninguém dirá que há jornalistas suficientes na sua redacção, seja um jornal, uma rádio ou uma televisão, para o volume de informação que é produzido e tratado diariamente. Um número limitado de mãos exige que cada par produza mais do que uma coisa, uma notícia, uma história, durante um dia de trabalho — em cada redacção são raros os que não têm de o fazer. Por aí se percebe que a especialização hoje não existe e a prática declarada em vários órgãos de comunicação foi mesmo acabar com as editorias, os supostos especialistas. Mantêm-se o desporto e a política, com equipas mais ou menos definidas, e os jornalistas que habitualmente e pela antiguidade tratam a justiça e a economia, e pouco mais. Sem especialização os conhecimentos de uma temática são superficiais, os erros e as imprecisões são comuns, e é com facilidade que se aceita o discurso oficial por não se possuir o conhecimento necessário a que num segundo se faça luz e se nos perguntemos “epá, espera, então e?...”.

Imagine-se isto.

Às nove da noite de um domingo o senhor Secretário de Estado da Educação liga para as redacções das rádios nacionais oferecendo-se para anunciar e explicar um despacho assinado naquele dia e que altera o Estatuto do Aluno. A conversa tem de ser gravada já, não pode ser daqui a uma hora. O despacho não pode ser fornecido previamente porque só amanhã vai ser tornado público e, afinal, é para isso que o senhor Secretário de Estado está a ligar.

A um domingo à noite a redacção de uma rádio está reduzida ao mínimo indispensável, com o editor de serviço e um ou dois jornalistas mais, e talvez um estagiário curricular de uma universidade qualquer. Não há ninguém especialista ou que trate habitualmente os temas de Educação para poder questionar convenientemente o senhor Secretário de Estado, que assim acaba por dizer o que bem entender durante cinco minutos sem questões lá pelo meio. Na hora seguinte a “notícia” já está no ar, a não ser que tenha embargo até às sete da manhã, que é quando começa o horário nobre da rádio. O modus operandi é o mesmo para as obras públicas que são inauguradas ou lançadas à segunda-feira de manhã.

À noite nenhum editor de serviço vai recusar gravar o senhor Secretário de Estado se ele não aceitar fornecer previamente os documentos e ainda esperar uma hora para que a redacção tenha tempo de ligar ao colega que costuma tratar aqueles assuntos e perguntar “ouve lá, isto é novo? isto é bem assim? isto é notícia?” Nenhuma rádio vai deixar de gravar o governante porque não pode correr o risco de, na manhã seguinte, a concorrência ter o senhor Secretário de Estado no ar, gravado da noite, e nós não.

Na manhã de segunda-feira a rádio não conseguiu evitar ser um veículo de informação governamental sem questionamento, sem análise, sem profundidade, apenas a mensagem original, pura e dura. Neste caso será de esperar que nessa noite as televisões tragam o assunto já dissecado, e no dia seguinte os jornais ainda acrescentam mais alguma coisa. Mas o que se assiste é que na segunda-feira à noite a televisão replica a mensagem original e o jornal do dia seguinte não faz qualquer análise ou contraditório. Isto não é bom jornalismo.

Imagine-se outro caso que, há uns dias rezou assim.

Chegado à rádio antes das 13h, o dia começou com um problema informático que me apagou tudo o que pertencia à minha área na rede, emails, agenda, ficheiros, etc. Os técnicos demoram uma hora para resolver o meu problema e repor o meu computador como estava na sexta-feira passada, paciência, enfim, mas finalmente posso trabalhar. Perdi uma hora, aquela que uso para olhar a imprensa estrangeira e passar em revista o que a manhã e a imprensa produziram nas minhas áreas de interesse. Paciência e enfim outra vez, bebi um café, olhei os jornais em papel, conversei com uns colegas.

Às 14h falta uma hora para o primeiro noticiário da minha equipa. Escrevo duas notícias de internacional e a cinco minutos da hora vou a correr gravar uma peça de uma repórter que está numa reunião do Governo com sindicatos, pelo meio a secretária da redacção vem dizer-me que tenho a engenheira da DECO ao telefone para a entrevista marcada de véspera, peço-lhe que adie a coisa por 20 minutos, continuo com a repórter em linha, ao telefone, e ela engana-se e eu tenho de editar o som, corro de novo para a redacção e escrevo os dois parágrafos que vão dar entrada à peça, imprimo e corro para o estúdio onde o noticiário está a começar, peço para alinhar a peça que recebi pelo telefone, entro com o texto estendido na mão e dou-o ao editor. Começou.

Às 15h10 estou de volta ao meu posto, tiro um café, reúno as folhas que vou levar para o estúdio e às 15h15, mais coisa menos coisa, já estou à conversa com a minha entrevistada. A entrevista dura uns 10 minutos, não preciso mais, o assunto é muito concreto, e regresso à redacção onde tenho que escrever uma síntese de notícias para ler às 16h, quatro andares acima, noutra rádio do grupo. Pelo meio ainda actualizo as notícias de internacional da hora anterior e quando faltam oito minutos tenho que pegar nas folhas e arrancar para o microfone. A entrevista que fiz é para uma peça para a manhã seguinte.

Regresso a tempo de ouvir o final do noticiário das 16h na rádio principal e até às 17h tenho que tentar ligação com um Ministro que está no estrangeiro para conversarmos sobre o Conselho Europeu que decorre em Bruxelas, o que consigo apenas já perto das cinco da tarde. A entrevista demora uns 15 minutos e traz novidades, uma suposta antecipação ao que Bruxelas vai anunciar mais logo, e preciso perceber melhor e avaliar, o que me vai obrigar a reler algumas peças que fiz nos últimos tempos sobre o assunto, ligar ao nosso repórter em Bruxelas para ele me dar um olhar pelo que se discute, acerca daquele assunto, lá no Conselho e nos corredores do Conselho, e ainda discutir com o editor. Mas antes das 17h é-me pedido que escreva um texto para recuperar um material de cultura que passou de manhã, pelo que tenho de ouvir os sons, ler o texto da manhã e arranjar uma nova abordagem.

Não vou ao estúdio ouvir o noticiário das 17h porque a próxima hora vai ser muito apertada. Começo por adiantar uma nova síntese de notícias que vou ter de ir ler às 18h ao quarto andar, enquanto espero feedback do nosso homem em Bruxelas vou cortando dois sons de um bruto que gravei na véspera para uma peça de cultura que me tinha sido pedida para as 19h de hoje, Bruxelas demora e tenho tempo de terminar a peça e ir gravá-la ao estúdio e entregar ao editor, pego novamente e termino a tal síntese, a cinco minutos de ter de subir ao quarto andar pedem-me que dobre um inglês para montar numa peça que veio de não sei onde, vou para o estúdio e faço-o e só me resta tempo para chegar ao computador e dar ordem de impressão da tal síntese, agarrar nas folhas e subir.

Regresso a meio do noticiário das 18h da rádio principal, mas mais uma vez não o vou ouvir. Começo a tentar perceber onde vou cortar o Ministro, o que vou retirar da entrevista que lhe fiz, dois sons não muito extensos, 40 segundos cada um no máximo, espalho as folhas com o contexto em cima da secretária, corto e colo, corto e colo, ligo para Bruxelas e recebo algumas indicações, telefono a um editor que trata aqueles assuntos há dez anos para me ajudar a perceber as implicações da questão que tenho em mãos, corto e colo, escrevo e reescrevo, peço que um par de olhos frescos reveja o texto rapidamente, dou por fechado o trabalho e entrego ao editor. Em poucos minutos tenho de escrever uma nova síntese de notícias para ler no quarto andar e é quando estou a terminar que me pedem que faça uma nova dobragem, não há mais ninguém?, pergunto, é que tem de ser um homem e o coiso está ocupado e o outro não sei quê, respondem-me, e pego nas folhas e mecanicamente dobro os 30 segundos do mesmo inglês da hora passada. Corro para o quarto andar quando faltam poucos minutos para as 19h e gravo a síntese, não fico para a conversa com aqueles meus colegas que vejo todos os dias, com quem trabalho todos os dias, os do quarto andar, porque tenho de descer rapidamente para a redacção e o editor está a entrar para o estúdio.

Às 19h o técnico está ocupado a resolver um problema com a ligação em directo para um repórter entrar no noticiário e eu entro em estúdio com o editor e faço no computador o alinhamento dos sons que ele vai usar naquele jornal, termino já ele começou, saio para a cabine técnica, o técnico agradece-me o jeito, “ora essa”, respondo, “estamos cá é para isto” e pego numa folha e numa caneta para apontar e anotar este noticiário. É que daqui a pouco mais de 20 minutos sou eu que faço a síntese de notícias das 19h30 neste mesmo canal.

O noticiário acaba e a peça de cultura que me tinha sido pedida para as 19h caiu. Na redacção escrevo a síntese, termino a dois minutos de entrar no ar. Quando regresso a editora do turno seguinte, da noite, diz-me “ouvi dizer que tens um Ministro para mim?”, e ouviu bem. A pouco menos de meia hora para terminar o meu turno tenho de reescrever o material do Ministro e recortar um novo som para as 21h. Parte da minha equipa vai embora, há sempre quem saia mais tarde, hoje eu também sou um deles, saio das 21h30, e sinto que um comboio me passou por cima. Fiz muito, mas será que fiz bem? Isto não é bom jornalismo.

E isto é apenas um pauzinho do Mikado.
Três, dois, um
A lua está mais perto, trinta mil quilómetros. Se tomarmos bastante balanço conseguimos.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Natasha Savatsky não me parece um nome sueco
“ir visitar o elefante salomão neste dia é, como talvez se venha a dizer no futuro, um acto poético, Que é um acto poético, perguntou o rei, Não se sabe, meu senhor, só damos por ele quando aconteceu” S.

É. Já estava de costas quando percebi que tinha tropeçado num enquanto descia a avenida, de um metro e oitenta de altura, as calças pretas justas por dentro das botas de cano alto, o casaco vermelho de fazenda, o cabelo castanho-alourado que esvoaçava ao vento, os olhos verdes, a pele branca, e na mão, apertados ao peito, uns papéis numa capa plástica roxa. Se não foi poesia não quero sequer saber o que terá sido.



quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Se me queixei de que “houve um tempo em que as pessoas faziam coisas”... Toma!, duas novas revistas
“Num ano em que se comemoram os 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa, os dez anos da entrega do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago e o centenário do mais antigo realizador de cinema no activo, Manoel de Oliveira, acreditamos ter motivos de sobra para comemorar.”

Assim nasce a Magnética, revista virtual, mas a primeira que conheço no formato. Sobre cultura, arte, moda, design e arquitectura, nacional e internacional. | www.magneticamagazine.com

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“A revista Aula Magna é um órgão de imprensa estudantil. Feita por nós e para ser lida por nós, os estudantes. Vem para falar de nós, do que fazemos, do que procuramos, do que nos rodeia. Vem fazer tudo isso por dentro, não como algo que nos é oferecido, mas como algo que nos pertence. A Aula Magna é um órgão de informação sobre todo o ensino superior, um meio de propagação de ideias e de correntes de pensamento, um espaço de debate e reflexão livre, responsável e civilizado.”

Uma nova publicação num sector que já teve tradição, a imprensa estudantil. O número zero da revista Aula Magna já está em distribuição e lá se pode encontrar Ricardo Araújo Pereira falando do seu regresso às aulas, textos sobre o novo regime jurídico do ensino superior e o seu impacto para os estudantes, e um trabalho sobre aquelas que foram bandas estudantis e hoje andam por aí a vender (alguns bons) discos.

Em Janeiro haverá número um. Por agora podem consultar aqui.
O Pedro foi para Belgrado
E resolveu criar um blogue onde vai dando conta dos dias que passa por lá, enquanto investiga para a tese de mestrado.

Conheci o Pedro em Praga no Verão de 2006, quando frequentámos um curso de curta duração para jornalistas correspondentes. Éramos os únicos a falar português entre cerca 30 pessoas de vinte e poucas nacionalidades. Ele conheceu Belgrado nesse mesmo Verão, eu apenas um ano depois, mas parece que ambos ficámos apaixonados pela cidade. Há algo de estranho em Belgrado.

“A marca que a Iugoslávia deixou na História, principalmente para os países que lutam pelo desenvolvimento, como o Brasil, foi a de que vale o embate por vias autônomas, de que a sujeição a uma potência estrangeira ou a outra é sempre um tiro no pé, e de que a única saída para a emancipação é a cooperação entre todos que têm interesse nela – seja no âmbito local, como os conselhos comunitários, ou no âmbito global, como a ação internacional conjunta dos países pobres. A lição do país que nasceu 90 anos atrás é a de que compensa o empenho dos que investem na transformação da sociedade por esforço da própria sociedade.”

Podem seguir o Pedro aqui.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A mesa quarenta e dois tem um tampo de madeira que já foi vermelho, a tinta foi descascada pelo uso, pelos anos e pela ponta da tua colher de chá, agora.

Foste tu quem notou. Debaixo do grande espelho aparado por uma moldura foleiramente trabalhada em flores e ondinhas ainda se lê em letras vermelhas meio apagadas pelo tempo “fabrico próprio”. Acho que isto foi uma padaria, hoje é uma taberna moderna e a tua gargalhada ecoou e o casalinho de assistentes de bordo, mesmo ali ao lado, fitou-nos com desdém. Teriam demorado mais se não lhes tivesses atirado a tua careta séria de gozo, ficaram intimidados. Vamos?, mal disfarçando o riso. Vamos, vamos.

(levantar sem arrastar cadeiras, vestir casacos, pagar e receber, abrir a porta para ela passar, apertar casacos que está frio, descendo a travessa)

Vou-te levar a um sítio que tenho a certeza vais gostar. É longe? Não, vai-se bem a pé, porquê? Não quero ir. Então? Então... (passou para a frente como quem barra caminho e atirou-se-lhe ao pescoço) Não podia esperar mais. Ah... Não repitas a graça, se me voltas a morder sem avisar espeto-te a estaca no coração enquanto dormes. (seguiram)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Nem tudo o que parece, é.



Mas ele há coisas.
E este disco é. Aqui e aqui também.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

“Vamos cada vez mais sentir-nos perdidos. Perdidos em primeiro lugar de nós próprios. Em segundo lugar perdidos na relação com o mundo. Acabamos por circular aí sem saber muito bem, nem o que somos, nem para que servimos, nem que sentido tem a existência.” S.

O meu cachecol de pura lã virgem
Não teria sido possível mais frio naquela noite de Novembro, a sétima. Como na primeira. Novembro não é mais frio do que na sétima ou na primeira noite. Não é.

Chora-se, no entanto, mais numa do que noutra. Nós o vimos. As lágrimas correm pelo teu rosto e não sei, não sabe, não sabemos, alguém sabe?, o que fazer para as parar. Abraços apertados, o calor que passa através dos casacos fortes de fazenda escura, abraços demorados. As mãos no rosto e os olhos nos olhos, as palavras de amparo ou os silêncios de gargantas doridas, ou sufocadas? Casas fortes que agora balançam sem equilíbrio, como? como? ......... .........Não há como. Também não existe porquê. Como se o amor fosse só isso, e porque o amor não é só isso, porque o amor é. Não duvides nunca, nunca!, que o amor é e não acaba, esse não se esgota. O resto são parvoíces misturadas. Aquelas que fazem sorrir e rir. Sorrir e rir. Como tu.

...

Ver, ouvir, tocar e sentir, dar. Foi o que fizemos e é o que fazes. Conheci o que não sabia, revelei o que não poderias saber. Agora somos menos estranhos na rua.

...

Quando é que vou deixar de querer beijar-te?
Quando é que vou querer deixar de te beijar?
Vou deixar de querer?
Vou querer deixar?
Quer-se deixar?
Deixa-se?
- Vamos dormir.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Sócrates: tira notas, se fazes favor
A uma semana das eleições presidenciais norte-americanas parece inevitável que Barack Obama seja o vencedor. Lidera nas sondagens, nos fundos angariados para a campanha, nos apoios da imprensa doméstica e estrangeira. And ‘if the world could vote’ (.com), o próximo inquilino da Casa Branca seria democrata, à excepção de 12 albaneses e de uns quantos macedónios — aliás, Obama seria também presidente de Portugal, já que somos o terceiro país que mais tem votado nesse website (e quantos não estão sequer recenseados?).

Obama vencerá pelas suas qualidades, ou porque oito anos de Bush resultam na urgência insofismável de mudança, ou ainda porque McCain cometeu um erro irreversível com a escolha da vice-presidente Sarah Palin?

Mais do que a expectativa sobre quem será e como será o próximo presidente dos Estados Unidos, ou como será dirigido o planeta nos próximos quatro anos, é a forma como o mundo é organizado nas cabeças que vivem do outro lado do Atlântico que me preocupa.

Para o Washington Post, dito de centro-esquerda, um dos mais prestigiados jornais do país, que apoia Barack Obama, as duas guerras que empenham milhares de soldados num enorme esforço social e orçamental, são a principal das preocupações. Compreendo, não sabendo eu, no quotidiano, o que significa uma guerra.

Depois da guerra, o mundo, que é feito de um “Paquistão nuclear e instável”, de uma “Rússia ressurgente e que ameaça os seus vizinhos”, de um “Irão que apoia o terrorismo e está na corrida nuclear”, de um “Médio Oriente em turbulência”, e de uma “China que procura o seu lugar no Mundo”.

Em seguida, a ameaça nuclear ou biológica, terrorista certamente, o fardo da pobreza global e as doenças, e as alterações climáticas em crescente aceleração. E por fim, no campo doméstico, a estagnação dos salários, a falência do sistema público de educação, e a possibilidade de uma grave crise económica.

A reforma do sistema de saúde não é esquecida, nem a justiça e o papel do Supremo Tribunal, onde para a manutenção dos direitos, liberdades e garantias só as escolhas de Obama, quaisquer que sejam, podem garantir uma melhor administração do poder judicial e protecção dos direitos civis, mas sem nunca esquecer que é imperativo “to keep America safe in a dangerous world”.

terça-feira, 29 de julho de 2008

I'm ready to go right now

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Bandas sonoras para filmes perfeitos
Um dia sonhei que estavas apaixonada por mim. Nesse mesmo dia comprei um frasco de água de colónia, a mais cheirosa da drogaria. Fiz a barba à navalha, no barbeiro. Vesti a minha melhor camisa branca e a caminho passei na praça e levei fiado um molho de margaridas brancas.

Um dia sonhei que estava apaixonado por ti. Nesse mesmo dia não te vi.

(outra página)

Foi a mão na parede que me segurou de pé,

(outra página)

Conceição era muito bonita. Tinha um sorriso que desarmava qualquer um. Sincero, rasgado, e de lhe fechar os olhos castanhos. O sobrolho esquerdo levantava cada vez que se intrigava. As unhas vermelhas e a pele morena

(outra página)

Tenho saudades tuas e da naturalidade com que te deitavas na cama a folhear o suplemento das artes. De te abraçar.

(outra página)

Às oito menos um quarto de terça-feira Fernando Peixinho ainda não sabia que ia morrer. Como sempre, comprou o jornal: cinco tostões. Que leu ao balcão da leitaria, em pé: na conta. Que deixou cair na corrida para apanhar o carro eléctrico do amigo Alfredo Espenica, o único da carreira onde não pagava bilhete. “Foi pouca sorte, doutor”, disse o homem que o ajudou a subir pelo braço. Antes o jornal que o manuscrito, foi o que pensou, agradecendo, enquanto compunha o fato e sacudia o pó das calças pretas. Fernando Peixinho era um respeitado colunista do Diário Popular, escritor sem obra publicada,

(outra página)

Maria

(outra página)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Talvez.
Talvez?

domingo, 27 de abril de 2008

Houve um tempo em que as pessoas faziam coisas – v2.0
O que me atrai no 25 de Abril e faz com que dias antes vá vivendo mais imbuído do espírito, conversando sobre a data, recordando canções da época e recuperando documentários, e desafiando alguns compinchas para uma caminhada de hora e um quarto até ao Largo do Carmo ao amanhecer; o que me atrai e seduz é precisamente o facto de ter havido quem quisesse fazer coisas, naquele tempo que foi de fazer coisas. Não é saudosismo, mas reconhecer isso mesmo. Tampouco é “esquerdice” ou “partidarice” — “comunice”, sejamos claros, porque não é inocentemente que ano após ano me atiram um “comuna” embrulhado em sorrisos; não podiam estar mais enganados. É, inevitavelmente, fruto de uma educação dada por quem já era sujeito adulto crescido e político na altura. O 25 de Abril não é dia de festa, nem dia de luto, nem de endeusamento ou do que se lhe parecer. É o meu dia de Portugal, do meu Portugal em que venho vivendo.

1. Terá tido muito pouco de acaso ou coincidência que Cavaco Silva tenha escolhido o alheamento dos jovens da política como alvo para o seu discurso de 25 de Abril; que o Governo tenha escolhido esta semana para apresentar as suas propostas de revisão da legislação laboral; que (mais uma vez) as associações militares tenham vindo a público descontentar-se com as intenções de aplicação de um renovado Regimento de Disciplina Militar a aposentados e reservistas, que classificam de ataque à Constituição e à instituição.

O estudo citado pelo Presidente da República acerca da relação dos jovens com a política, encomendado à Universidade Católica e datado de Janeiro, não trazendo grandes novidades, traz confirmações pertinentes, para mim, que me dispus a lê-lo (tive acesso ao documento) e não a recebê-lo pelos média.

Quando mais de 68 por cento dos inquiridos se interessa «pouco» ou «nada» com a política, e sendo unânime (mais de 94 por cento) que a sociedade actual «pode melhorar», ou «necessita de reformas profundas», ou «deve ser radicalmente mudada», surpreende que 61 por cento seja favorável a uma alteração do sistema eleitoral, que permita votar mais pelos candidatos e menos pelos partidos — este um aspecto menos surpreendente: os círculos uninominais, ao que parece, estão para regressar à discussão pública? Cerca de 56 por cento afirma que a população deve ser consultada mais vezes em referendo e mais de 90 por cento não hesita em atribuir extrema importância ao acto de votar. Olhando para a última vez que os portugueses foram chamados às urnas, aquando do “refendo ao aborto” em Fevereiro do ano passado, de acordo com o estudo 71 por cento dos inquiridos diz ter votado. No entanto, os resultados oficiais recordam uma abstenção de 56 por cento. A informação de política chega diariamente a 55 por cento dos inquiridos pela televisão, sendo que através da rádio e dos jornais há 50 por cento de inquiridos que respondem recebê-la menos de uma vez por semana. Nada de novo: a televisão é, então, o principal meio de informação. Mas, então e ao que parece, o consumo de televisão não contribui em nada para a cultura política dos cidadãos nem para o interesse pela política. Confuso? Linear. E com responsabilidades para os jornalistas: é preciso dizê-lo. E é preciso que a classe profissional se consciencialize disso e que, a bem do respeito pela profissão, faça alguma coisa — touchez.

2. É que os média têm um papel fundamental nas sociedades democráticas. É neles e através deles, com os jornais como nobres representantes, que se constrói e joga o jogo da democracia — nas colunas de opinião, nos editoriais, e depois na abordagem e tratamento dos assuntos. Não é inocente, e ainda bem que é assim, que o editorial do Expresso de 25 de Abril de 2008 advirta para que não se “endeuse” a revolução e se esqueça a necessidade de adaptação e actualização ao tempo contemporâneo. Não é por acaso que o obituário de Francisco Martins Rodrigues, aquele que terá sido o verdadeiro militante comunista sem partido, tenha tido três linhas no Expresso e duas páginas no Público, honras de editorial e mais duas páginas de Pacheco Pereira no dia seguinte — curioso? Os órgãos de comunicação social são as pessoas que neles trabalham, que os dirigem e os seus proprietários — não necessariamente por esta ordem —, e ainda bem que são assim, diversos.

3. «Eu até poderia encarar com alguma tranquilidade o futuro do meu país se pudesse dizer assim: ‘As pessoas com mais de 50 anos são para deitar fora. Mas o que vem aí é muito bom…’ O problema é que não. Não é muito bom», é a opinião do general Garcia Leandro, que me toca pessoalmente. Não sou, portanto, muito bom? O general apela a um «movimento de indignação civil». Anotado.

É neste contexto que vai nascer um novo partido, o Movimento Mérito e Sociedade (MMS), que esta semana entrega as 7.500 assinaturas ao Tribunal Constitucional, e que há um outro na calha, o Movimento Esperança Portugal (MEP). Em comum têm no nome “movimento”, e não “partido”, com o que isso pode significar de objectivos e capacidade de mobilização; e a recusa em situar-se à esquerda ou à direita, com o que isso pode querer dizer de salvaguarda da possibilidade de flutuar no espectro político-partidário. Haverá espaço para intervenção política para além dos partidos? Acredito que hoje existe um espaço privilegiado para os movimentos cívicos.

Lisboa, 27 de Abril de 2008
João Pedro Correia

Ficha do estudo da Católica:
O estudo da Católica contempla quase duas mil entrevistas válidas a cidadãos com 15 ou mais anos de idade residentes no território continental, levadas a cabo entre o final de Outubro e o início de Novembro do ano passado, com um grau de confiança de 95 por cento com margem de erro de 2,2 por cento.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Podia ser doutra maneira. Doutra maneira? Doutra maneira! Doutra maneira...
Apaixonei-me por ti e pelo teu casaco vermelho. Até porque a farmácia de serviço tinha ser aquela ao lado de tua casa, onde também está sempre aquele Mercedes desportivo clássico estacionado. Ainda bem que o “sérvio” chegou rouco a Lisboa e não tínhamos jantado ainda. Como noutros dias.

Não é que não queira escrever. Apenas entre as últimas semanas não sei bem onde tenho andado e parece-me cada vez mais que, não estando seco, não consigo é dar forma a seja o que for e falta-me sempre uma música. Ou então não consigo é fazer o filme. Onde ponho a terceira rosa?

Já nem me desculpo com o tempo. Nos últimos dias tenho recordado tanta gente, caramba. E a notícia da partida da mulher dele, a mulher que o fez vir para Portugal há mais de 40 anos e acabou fazendo com que nos cruzássemos, abalou-me pelo estrago que lhe causou — preciso dar-lhe um abraço e agradecer-lhe. É preciso agradecer.

Que saudades. E daqueles que estão no mesmo fuso horário.

Entre certezas e dúvidas. Entre as horas e o sol em dias de aguaceiro.

O teu casaco vermelho. Mas nem tudo resulta como num sintetizador.

domingo, 23 de março de 2008

Pasteis de Belém

domingo, 16 de março de 2008

Houve um tempo em que as pessoas faziam coisas – v1.0
Vive-se hoje no País um momento muito especial. Tão especial que exige tomadas de posição.

1. «Isto desde as guerras liberais são sempre as mesmas 150 famílias», disse um dia o historiador Fernando Rosas (e deputado pelo BE). E são mesmo, a começar por ele, que é neto de Dias Rosas, ministro das Finanças de Marcelo Caetano. E passando pelo colégio São João de Brito, de onde têm saído os políticos e cargos institucionais dos últimos 30 anos, numa proporção enorme. Quem lá estuda acaba amigo de infância de não sei quem que o vai nomear para algum sítio, 20 ou 30 anos mais tarde — meter lá um filho é um investimento. «Se calhar foi por isto que não houve sangue no 25 de Abril, alguém é primo de alguém», li de Abel Pinheiro (herdeiro do grupo Grão-Pará, fundador do CDS-PP).

Se não for primo, pode ser associado. O senso comum e até a natureza dizem que a união faz a força e é claro o papel de influência, em sentido lato, das comunidades enquanto grupos de pressão sobre terceiros e protecção dos seus. A Igreja, os partidos políticos, o Opus Dei, a Maçonaria — e a propósito da maçonaria, disse também Abel Pinheiro: «Quando o PS vai para o Governo, ela cresce; com maioria absoluta ela não cresce, incha». E os círculos mais ou menos fechados ou coesos em que se podem mover as pessoas interessadas, e com interesses, tornam-se núcleos fortes.

Em Fevereiro jornais e telejornais abriram com uma tomada de posição da SEDES, a Associação para o Desenvolvimento Económico e Social, que alertava para «um mal-estar difuso, que alastra e mina a confiança essencial à coesão nacional»; que apelava para a necessidade de defender a democracia e regenerar os partidos políticos, quando hoje é «preocupante assistir à tentacular expansão da influência partidária, quer na ocupação do Estado, quer na articulação com interesses da economia privada»; que apontava o dedo à degradação de valores na comunicação social e à inabilidade da justiça; e terminava com um apelo generalizado ao desbloqueamento da eficácia do regime, disponibilizando-se a SEDES para «alimentar esses canais e frequentar as esferas de reflexão e diálogo». Ainda bem, haja alguém que se disponha a dar o corpo às balas.

Mas, quem é a SEDES? Quem são as pessoas que compõem aquela associação cívica formada em 1970, cujos «fundadores eram oriundos de diferentes formações académicas, estratos sociais, actividades profissionais e opções políticas», unidos pela «vontade de mudança e uma prática de militância social diversificada no associativismo académico, prática de contestação política contra o sistema, participação em organizações cristãs e actividade sindical»? Quem são os notáveis de tão creditada associação? Podemos somente e a título de exemplo olhar para o perfil de Rui Vilar, o Presidente da Assembleia Geral:
- É Presidente do Conselho de Administração da Fundação Gulbenkian desde 2002, foi Administrador desde 1996;
- É Presidente da Partex Oil & Gas (Holdings) Corporation desde 2002. É Vice-Presidente do Governing Council do European Foundation Centre e Presidente do Steering Committee do projecto Europe In the World;
- É Presidente do Conselho de Auditoria do Banco de Portugal desde 1996;
- Entrou para a Função Pública em 1966, onde esteve até 1969, ano em que assumiu funções directivas no Banco Português do Atlântico, onde permaneceu até 1973;
- No início dos anos setenta faz parte do grupo de cidadãos que viria a fundar a SEDES, de que foi o primeiro presidente;
- A sua carreira política começa em 1974 como Secretário de Estado do Comércio Externo e Turismo do I Governo Provisório, depois Ministro da Economia dos II e III Governos Provisórios (1974/75), foi eleito Deputado em 1976, entre 1976 e 1978 foi Ministro dos Transportes e Comunicações do I Governo Constitucional e entre 1986 e 1989 foi Director-Geral da Comissão das Comunidades Europeias, em Bruxelas;
- Como gestor foi Vice-Governador do Banco de Portugal, entre 1975 e 1984, Presidente do Conselho de Gestão do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa (1985/86), Presidente do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos (1989-1995), presidiu ao Grupo Europeu dos Bancos de Poupança (1991-94) e foi Presidente do Conselho de Administração da Galp Energia, entre 2001 e 2002;
- Presidiu ainda à Comissão de Fiscalização do Teatro Nacional de São Carlos (1980-86) e foi Comissário-Geral para a Europália, entre 1989 e 1992;
- Entre 1989 e 1990 foi Vice-Presidente da Fundação de Serralves. Foi Administrador da Porto 2001, em 1999;
Um currículo impressionante, sem qualquer desprimor para o senhor. Mas quanto dele é de nomeação política?

E depois há outros nomes conhecidos na SEDES:
- João Salgueiro (Presidente Associação Portuguesa de Bancos);
- Luís Valente de Oliveira (ex-Ministro da Educação, ex-Ministro do Planeamento e Ordenamento do Território, agora professor universitário);
- Fernando Faria de Oliveira (recentemente escolhido para Presidente do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos);
- António Bagão Félix (ex-Ministro das Finanças e da Segurança Social, não sei o que faz agora);
- Guilherme d'Oliveira Martins — e este é o meu preferido (Presidente do Tribunal de Contas, Presidente do Centro Nacional de Cultura, é ainda descrito como ensaísta e professor universitário, e nos dois governos de Guterres foi Secretário de Estado da Administração Educativa, Ministro da Educação, Ministro da Presidência, Ministro das Finanças — o homem certo para tapar o buraco, seja ele qual for);
- João Carlos Espada (Consultor para Assuntos Políticos do Presidente da República, já o tinha sido para Mário Soares (1986-1990), é Director do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, é director da revista trimestral Nova Cidadania e pertence ao Conselho Editorial da revista Journal of Democracy);
- Fernando Ulrich (actual presidente executivo do BPI), e isto só para recuar ao início da década de 90.

São sempre as mesmas 150 famílias. Nos cargos, nas instituições, nos espaços de opinião dos jornais, das televisões e das rádios. Se formos aos seus passados, veremos que militaram juntos em partidos, em acções católicas, em universidades ou escolas.

Em comum estas pessoas terão, pelo menos, ainda mais um aspecto das suas vidas. Eram jovens, tinham vinte e poucos ou andavam na casa dos trinta anos, quando se deu uma das principais mudanças estruturais no País, o 25 de Abril, com tudo o que isso significou de urgência na tomada de posições e consciências — ou inconsciências, apetece brincar — políticas. Nós, a nossa geração, temos vinte e poucos e menos de trinta anos, hoje.


2. O declínio das referências, da família ao poder. Acabou o serviço militar obrigatório, o sítio para onde se receava ir quando se permanecia na escola sem progredir de ano para além de uma determinada idade, pelo menos no nosso tempo.

Ficando-se mais tempo na escola, crescendo o insucesso, decresce o respeito por aquela instituição e daí a bater-se nos professores é um instante.

A escola em geral, nos seus diversos graus de ensino, perdeu exigência.

A família também perdeu peso. Perdeu uma dimensão de autoridade, desde os filhos que vivem fechados nos quartos e nem comem à mesa com os pais — isto quando os pais, ou algum dos membros da família, ainda fazem refeições em casa —, aos pais que despejam os filhos na escola e nos ATL e esperam que uns anos depois eles apareçam educados. Perdeu coesão, com o crescimento dos divórcios. E perdeu a continuidade, com os velhos a deixarem de envelhecer com os filhos e os netos, fruto de imensos factores, como as migrações, algo que vejo manter-se hoje somente “naquelas 150 famílias”.

A inegável melhoria das condições de vida da sociedade, na generalidade e comparando não mais longe do que com o início do período democrático do País, retirou das gerações mais novas um peso, uma responsabilidade de excelência precoce ou preocupação futura como meio para prosseguir objectivos claros e além da simples subsistência. E criou uma imagem de facilidade e de facilitismo — e se estão mais fáceis as coisas hoje, do que estiveram para os nossos pais. Mas que estamos melhor, estamos, senão, note-se, a título de exemplo: quando é que a generalidade dos velhotes tiveram possibilidade de almoçar num restaurante, mesmo que de bairro? E agora basta ir a um e ver.

O poder é hoje um fim em si mesmo. Os homens do poder já não estão ao serviço do público, mas da manutenção do poder. Estão enrolados em corrupção, são desonestos e amorais. Vencem a justiça, quando lhes são presentes, mas raramente por trânsito em julgado e sim pelo arrastamento dos casos através de manobras processuais. As escutas do processo Portucale, o célebre dos sobreiros e do Governo PSD-CDS, estão a revelar-se fonte de abertura de numerosos inquéritos. Deve ser divertidíssimo consultar o processo.

Concursos e legislação feitos por medida para casos concretos são demasiado frequentes e passam impunes. O floreiro do cemitério de Carnide, o tal que foi instalado num terreno que não cumpre as funções, não vende uma flor e paga 1200 euros de renda por mês à Câmara de Lisboa, enquanto o restaurante Eleven no topo do Parque Eduardo VII apenas paga 500 e ainda há quem não tenha a vergonha de dizer perante as câmaras da televisão que o concurso público para o espaço é que ditou as condições, ninguém pediu favores — e este é só um exemplo.


3. «Os nossos pais deram-nos mais do que tiveram, mas nós temos menos do que eles», declarou à Visão um rapaz com menos de trinta anos, licenciado e com trabalho precário, a propósito de uma reportagem sobre a “geração em saldo” ou a “geração dos mil euros”. Mas onde é que está a geração dos mil euros?

No meu ramo de actividade, como em tantos outros, para quem está em início de carreira a norma é uma das seguintes: um estágio, não remunerado, que frequentemente deriva em mais um estágio; ou um contrato verbal de prestação de serviços, com pagamento por meio de recibos verdes; e mesmo que o contrato de trabalho seja a termo certo, embora bem mais raro, a prática comum é um salário baixo. Aliás, ultra-baixo. Na nova Grelha Salarial Única da Administração Pública, ao lugar mais baixo da tabela de qualificação, o de operário não qualificado (um cantoneiro, para dar um exemplo), corresponde um salário na ordem dos 400 euros. Eu fui esta semana a uma entrevista onde procuravam um profissional com habilitações superiores e com experiência profissional, a que se propunham pagar os mesmos 400 euros líquidos, em regime de contrato a termo certo com pagamento contra recibo verde e sem opção de retenção das prestações sociais na fonte — o que, para quem estiver no primeiro ano de actividade e isento de pagar à Segurança Social faz ascender o salário a uns astronómicos 600 euros; mas quem com experiência é que está no primeiro ano de actividade? E isto acontece igualmente na advocacia e na indústria. Os serviços, esses, são a selva.

A generalizada opção dos empregadores pelos recibos verdes só tem uma justificação: a economicista. A lei contempla contratos de trabalho a termo certo entre 6 meses e 3 anos, renováveis duas vezes. Então porque não fazem as empresas contratos de seis meses com aqueles que querem a trabalhar para si, se é um trabalhador temporário que procuram? Quantos de nós não conhecemos casos de falsos trabalhadores independentes, que há anos estão a recibos verdes? E porque não tomam os empregadores em mãos as prestações sociais? E nem desco ao valor do salário oferecido, que é baixo, baixíssimo — e uma economia assente em salários baixos não vai, não pode ir, longe. Porquê o recibo? Porquê? É a perpetuação da precariedade. E chamar a um trabalhador de colaborador não é “descomunizar”: é “eufemizar” e retirar valor facial. Um subordinado não colabora, trabalha. E por dizê-lo não sou comunista, mas rigoroso, porque o colaborador não trabalha a tempo inteiro nem em continuidade. Ou estarei errado?

Sendo assim, como é que é possível que a nossa geração tenha sequer o mesmo que os nossos pais tinham entre 1968 e 78, por exemplo? Algum de nós consegue hoje arrendar um apartamento somente com o seu ordenado? Quantos de nós não tiveram, pelo menos a tempos, somente um dos pais a sustentar o lar, muitas vezes já com um filho ou dois? Como é que isso será possível hoje, à nossa geração. É o retrato do retrocesso social.


4. «Nós nunca vivemos tanto na Caverna de Platão como hoje. Porque as próprias imagens que nos mostram a realidade, de alguma maneira substituem a realidade. Nós estamos a repetir a situação das pessoas aprisionadas na Caverna de Platão, olhando em frente, vendo sombras e acreditando que essas sombras são a realidade». E é muito fácil perdermo-nos neste mundo audiovisual, especialmente quando alguém deita óleo na curva — o que acontece todos os dias. Como no dia em que José Sócrates diz não ao referendo ao Tratado de Lisboa, para no dia seguinte anunciar a a preferência de Alcochete para o novo aeroporto. Ou na manhã em que surge nos media um relatório que envolve o País na transferência de prisioneiros para Guantánamo, os afamados vôos da CIA, e ao início da tarde e durante o que se aguardava que fosse mais um discurso crítico do Bastonário dos Advogados na abertura do ano judicial, Sócrates anunciar a remodelação de Correia de Campos e Isabel Pires de Lima.

«Neste mundo audiovisual onde os sons se multiplicam, onde as imagens se multiplicam e onde nós vamos cada vez mais sentir-nos perdidos. Perdidos, em primeiro lugar, de nós próprios. E em segundo lugar perdidos na relação com o mundo. Acabamos por circular aí sem saber muito bem o que somos, nem para que servimos, nem que sentido tem a existência.» As palavras são de José Saramago. E digam-me lá se não é assim que, mais ou menos, vamos andando.

E estas são de um candidato à presidência dos Estados Unidos:
«It was whispered by slaves and abolitionists as they blazed a trail toward freedom. It was sung by immigrants as they struck out from distant shores and pioneers who pushed westward against an unforgiving wilderness. It was the call of workers who organized; women who reached for the ballots; a President who chose the moon as our new frontier; and a King who took us to the mountaintop and pointed the way to the Promised Land. Yes we can to justice and equality. Yes we can to opportunity and prosperity. Yes we can heal this nation. Yes we can repair this world. Yes we can. We know the battle ahead will be long, but always remember that no matter what obstacles stand in our way, nothing can stand in the way of the power of millions of voices calling for change. We have been told we cannot do this by a chorus of cynics... They will only grow louder and more dissonant… We've been asked to pause for a reality check. We've been warned against offering the people of this nation false hope. But in the unlikely story that is America, there has never been anything false about hope. (…) We will remember that there is something happening in America; that we are not as divided as our politics suggests; that we are one people; we are one nation; and together, we will begin the next great chapter in the American story».

Nenhumas são palavras de incentivo. São apenas palavras de alerta.

Houve um tempo em que as pessoas faziam coisas.

Lisboa, 16 de Março de 2008
João Pedro Correia