segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Já me lixaste, Fisk
Escrevi que Robert Fisk veio a Lisboa falar de quão mau é o jornalismo hoje. Eu estou na profissão há um ano e também acho que o jornalismo dos meus dias vai deixando muito a desejar. Há razões para isso. Na impossibilidade de mais, deixo uns exemplos concretos sobre o que acho que é um desses motivos.

Ninguém dirá que há jornalistas suficientes na sua redacção, seja um jornal, uma rádio ou uma televisão, para o volume de informação que é produzido e tratado diariamente. Um número limitado de mãos exige que cada par produza mais do que uma coisa, uma notícia, uma história, durante um dia de trabalho — em cada redacção são raros os que não têm de o fazer. Por aí se percebe que a especialização hoje não existe e a prática declarada em vários órgãos de comunicação foi mesmo acabar com as editorias, os supostos especialistas. Mantêm-se o desporto e a política, com equipas mais ou menos definidas, e os jornalistas que habitualmente e pela antiguidade tratam a justiça e a economia, e pouco mais. Sem especialização os conhecimentos de uma temática são superficiais, os erros e as imprecisões são comuns, e é com facilidade que se aceita o discurso oficial por não se possuir o conhecimento necessário a que num segundo se faça luz e se nos perguntemos “epá, espera, então e?...”.

Imagine-se isto.

Às nove da noite de um domingo o senhor Secretário de Estado da Educação liga para as redacções das rádios nacionais oferecendo-se para anunciar e explicar um despacho assinado naquele dia e que altera o Estatuto do Aluno. A conversa tem de ser gravada já, não pode ser daqui a uma hora. O despacho não pode ser fornecido previamente porque só amanhã vai ser tornado público e, afinal, é para isso que o senhor Secretário de Estado está a ligar.

A um domingo à noite a redacção de uma rádio está reduzida ao mínimo indispensável, com o editor de serviço e um ou dois jornalistas mais, e talvez um estagiário curricular de uma universidade qualquer. Não há ninguém especialista ou que trate habitualmente os temas de Educação para poder questionar convenientemente o senhor Secretário de Estado, que assim acaba por dizer o que bem entender durante cinco minutos sem questões lá pelo meio. Na hora seguinte a “notícia” já está no ar, a não ser que tenha embargo até às sete da manhã, que é quando começa o horário nobre da rádio. O modus operandi é o mesmo para as obras públicas que são inauguradas ou lançadas à segunda-feira de manhã.

À noite nenhum editor de serviço vai recusar gravar o senhor Secretário de Estado se ele não aceitar fornecer previamente os documentos e ainda esperar uma hora para que a redacção tenha tempo de ligar ao colega que costuma tratar aqueles assuntos e perguntar “ouve lá, isto é novo? isto é bem assim? isto é notícia?” Nenhuma rádio vai deixar de gravar o governante porque não pode correr o risco de, na manhã seguinte, a concorrência ter o senhor Secretário de Estado no ar, gravado da noite, e nós não.

Na manhã de segunda-feira a rádio não conseguiu evitar ser um veículo de informação governamental sem questionamento, sem análise, sem profundidade, apenas a mensagem original, pura e dura. Neste caso será de esperar que nessa noite as televisões tragam o assunto já dissecado, e no dia seguinte os jornais ainda acrescentam mais alguma coisa. Mas o que se assiste é que na segunda-feira à noite a televisão replica a mensagem original e o jornal do dia seguinte não faz qualquer análise ou contraditório. Isto não é bom jornalismo.

Imagine-se outro caso que, há uns dias rezou assim.

Chegado à rádio antes das 13h, o dia começou com um problema informático que me apagou tudo o que pertencia à minha área na rede, emails, agenda, ficheiros, etc. Os técnicos demoram uma hora para resolver o meu problema e repor o meu computador como estava na sexta-feira passada, paciência, enfim, mas finalmente posso trabalhar. Perdi uma hora, aquela que uso para olhar a imprensa estrangeira e passar em revista o que a manhã e a imprensa produziram nas minhas áreas de interesse. Paciência e enfim outra vez, bebi um café, olhei os jornais em papel, conversei com uns colegas.

Às 14h falta uma hora para o primeiro noticiário da minha equipa. Escrevo duas notícias de internacional e a cinco minutos da hora vou a correr gravar uma peça de uma repórter que está numa reunião do Governo com sindicatos, pelo meio a secretária da redacção vem dizer-me que tenho a engenheira da DECO ao telefone para a entrevista marcada de véspera, peço-lhe que adie a coisa por 20 minutos, continuo com a repórter em linha, ao telefone, e ela engana-se e eu tenho de editar o som, corro de novo para a redacção e escrevo os dois parágrafos que vão dar entrada à peça, imprimo e corro para o estúdio onde o noticiário está a começar, peço para alinhar a peça que recebi pelo telefone, entro com o texto estendido na mão e dou-o ao editor. Começou.

Às 15h10 estou de volta ao meu posto, tiro um café, reúno as folhas que vou levar para o estúdio e às 15h15, mais coisa menos coisa, já estou à conversa com a minha entrevistada. A entrevista dura uns 10 minutos, não preciso mais, o assunto é muito concreto, e regresso à redacção onde tenho que escrever uma síntese de notícias para ler às 16h, quatro andares acima, noutra rádio do grupo. Pelo meio ainda actualizo as notícias de internacional da hora anterior e quando faltam oito minutos tenho que pegar nas folhas e arrancar para o microfone. A entrevista que fiz é para uma peça para a manhã seguinte.

Regresso a tempo de ouvir o final do noticiário das 16h na rádio principal e até às 17h tenho que tentar ligação com um Ministro que está no estrangeiro para conversarmos sobre o Conselho Europeu que decorre em Bruxelas, o que consigo apenas já perto das cinco da tarde. A entrevista demora uns 15 minutos e traz novidades, uma suposta antecipação ao que Bruxelas vai anunciar mais logo, e preciso perceber melhor e avaliar, o que me vai obrigar a reler algumas peças que fiz nos últimos tempos sobre o assunto, ligar ao nosso repórter em Bruxelas para ele me dar um olhar pelo que se discute, acerca daquele assunto, lá no Conselho e nos corredores do Conselho, e ainda discutir com o editor. Mas antes das 17h é-me pedido que escreva um texto para recuperar um material de cultura que passou de manhã, pelo que tenho de ouvir os sons, ler o texto da manhã e arranjar uma nova abordagem.

Não vou ao estúdio ouvir o noticiário das 17h porque a próxima hora vai ser muito apertada. Começo por adiantar uma nova síntese de notícias que vou ter de ir ler às 18h ao quarto andar, enquanto espero feedback do nosso homem em Bruxelas vou cortando dois sons de um bruto que gravei na véspera para uma peça de cultura que me tinha sido pedida para as 19h de hoje, Bruxelas demora e tenho tempo de terminar a peça e ir gravá-la ao estúdio e entregar ao editor, pego novamente e termino a tal síntese, a cinco minutos de ter de subir ao quarto andar pedem-me que dobre um inglês para montar numa peça que veio de não sei onde, vou para o estúdio e faço-o e só me resta tempo para chegar ao computador e dar ordem de impressão da tal síntese, agarrar nas folhas e subir.

Regresso a meio do noticiário das 18h da rádio principal, mas mais uma vez não o vou ouvir. Começo a tentar perceber onde vou cortar o Ministro, o que vou retirar da entrevista que lhe fiz, dois sons não muito extensos, 40 segundos cada um no máximo, espalho as folhas com o contexto em cima da secretária, corto e colo, corto e colo, ligo para Bruxelas e recebo algumas indicações, telefono a um editor que trata aqueles assuntos há dez anos para me ajudar a perceber as implicações da questão que tenho em mãos, corto e colo, escrevo e reescrevo, peço que um par de olhos frescos reveja o texto rapidamente, dou por fechado o trabalho e entrego ao editor. Em poucos minutos tenho de escrever uma nova síntese de notícias para ler no quarto andar e é quando estou a terminar que me pedem que faça uma nova dobragem, não há mais ninguém?, pergunto, é que tem de ser um homem e o coiso está ocupado e o outro não sei quê, respondem-me, e pego nas folhas e mecanicamente dobro os 30 segundos do mesmo inglês da hora passada. Corro para o quarto andar quando faltam poucos minutos para as 19h e gravo a síntese, não fico para a conversa com aqueles meus colegas que vejo todos os dias, com quem trabalho todos os dias, os do quarto andar, porque tenho de descer rapidamente para a redacção e o editor está a entrar para o estúdio.

Às 19h o técnico está ocupado a resolver um problema com a ligação em directo para um repórter entrar no noticiário e eu entro em estúdio com o editor e faço no computador o alinhamento dos sons que ele vai usar naquele jornal, termino já ele começou, saio para a cabine técnica, o técnico agradece-me o jeito, “ora essa”, respondo, “estamos cá é para isto” e pego numa folha e numa caneta para apontar e anotar este noticiário. É que daqui a pouco mais de 20 minutos sou eu que faço a síntese de notícias das 19h30 neste mesmo canal.

O noticiário acaba e a peça de cultura que me tinha sido pedida para as 19h caiu. Na redacção escrevo a síntese, termino a dois minutos de entrar no ar. Quando regresso a editora do turno seguinte, da noite, diz-me “ouvi dizer que tens um Ministro para mim?”, e ouviu bem. A pouco menos de meia hora para terminar o meu turno tenho de reescrever o material do Ministro e recortar um novo som para as 21h. Parte da minha equipa vai embora, há sempre quem saia mais tarde, hoje eu também sou um deles, saio das 21h30, e sinto que um comboio me passou por cima. Fiz muito, mas será que fiz bem? Isto não é bom jornalismo.

E isto é apenas um pauzinho do Mikado.
Três, dois, um
A lua está mais perto, trinta mil quilómetros. Se tomarmos bastante balanço conseguimos.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Natasha Savatsky não me parece um nome sueco
“ir visitar o elefante salomão neste dia é, como talvez se venha a dizer no futuro, um acto poético, Que é um acto poético, perguntou o rei, Não se sabe, meu senhor, só damos por ele quando aconteceu” S.

É. Já estava de costas quando percebi que tinha tropeçado num enquanto descia a avenida, de um metro e oitenta de altura, as calças pretas justas por dentro das botas de cano alto, o casaco vermelho de fazenda, o cabelo castanho-alourado que esvoaçava ao vento, os olhos verdes, a pele branca, e na mão, apertados ao peito, uns papéis numa capa plástica roxa. Se não foi poesia não quero sequer saber o que terá sido.



quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Se me queixei de que “houve um tempo em que as pessoas faziam coisas”... Toma!, duas novas revistas
“Num ano em que se comemoram os 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa, os dez anos da entrega do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago e o centenário do mais antigo realizador de cinema no activo, Manoel de Oliveira, acreditamos ter motivos de sobra para comemorar.”

Assim nasce a Magnética, revista virtual, mas a primeira que conheço no formato. Sobre cultura, arte, moda, design e arquitectura, nacional e internacional. | www.magneticamagazine.com

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“A revista Aula Magna é um órgão de imprensa estudantil. Feita por nós e para ser lida por nós, os estudantes. Vem para falar de nós, do que fazemos, do que procuramos, do que nos rodeia. Vem fazer tudo isso por dentro, não como algo que nos é oferecido, mas como algo que nos pertence. A Aula Magna é um órgão de informação sobre todo o ensino superior, um meio de propagação de ideias e de correntes de pensamento, um espaço de debate e reflexão livre, responsável e civilizado.”

Uma nova publicação num sector que já teve tradição, a imprensa estudantil. O número zero da revista Aula Magna já está em distribuição e lá se pode encontrar Ricardo Araújo Pereira falando do seu regresso às aulas, textos sobre o novo regime jurídico do ensino superior e o seu impacto para os estudantes, e um trabalho sobre aquelas que foram bandas estudantis e hoje andam por aí a vender (alguns bons) discos.

Em Janeiro haverá número um. Por agora podem consultar aqui.
O Pedro foi para Belgrado
E resolveu criar um blogue onde vai dando conta dos dias que passa por lá, enquanto investiga para a tese de mestrado.

Conheci o Pedro em Praga no Verão de 2006, quando frequentámos um curso de curta duração para jornalistas correspondentes. Éramos os únicos a falar português entre cerca 30 pessoas de vinte e poucas nacionalidades. Ele conheceu Belgrado nesse mesmo Verão, eu apenas um ano depois, mas parece que ambos ficámos apaixonados pela cidade. Há algo de estranho em Belgrado.

“A marca que a Iugoslávia deixou na História, principalmente para os países que lutam pelo desenvolvimento, como o Brasil, foi a de que vale o embate por vias autônomas, de que a sujeição a uma potência estrangeira ou a outra é sempre um tiro no pé, e de que a única saída para a emancipação é a cooperação entre todos que têm interesse nela – seja no âmbito local, como os conselhos comunitários, ou no âmbito global, como a ação internacional conjunta dos países pobres. A lição do país que nasceu 90 anos atrás é a de que compensa o empenho dos que investem na transformação da sociedade por esforço da própria sociedade.”

Podem seguir o Pedro aqui.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A mesa quarenta e dois tem um tampo de madeira que já foi vermelho, a tinta foi descascada pelo uso, pelos anos e pela ponta da tua colher de chá, agora.

Foste tu quem notou. Debaixo do grande espelho aparado por uma moldura foleiramente trabalhada em flores e ondinhas ainda se lê em letras vermelhas meio apagadas pelo tempo “fabrico próprio”. Acho que isto foi uma padaria, hoje é uma taberna moderna e a tua gargalhada ecoou e o casalinho de assistentes de bordo, mesmo ali ao lado, fitou-nos com desdém. Teriam demorado mais se não lhes tivesses atirado a tua careta séria de gozo, ficaram intimidados. Vamos?, mal disfarçando o riso. Vamos, vamos.

(levantar sem arrastar cadeiras, vestir casacos, pagar e receber, abrir a porta para ela passar, apertar casacos que está frio, descendo a travessa)

Vou-te levar a um sítio que tenho a certeza vais gostar. É longe? Não, vai-se bem a pé, porquê? Não quero ir. Então? Então... (passou para a frente como quem barra caminho e atirou-se-lhe ao pescoço) Não podia esperar mais. Ah... Não repitas a graça, se me voltas a morder sem avisar espeto-te a estaca no coração enquanto dormes. (seguiram)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Nem tudo o que parece, é.



Mas ele há coisas.
E este disco é. Aqui e aqui também.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

“Vamos cada vez mais sentir-nos perdidos. Perdidos em primeiro lugar de nós próprios. Em segundo lugar perdidos na relação com o mundo. Acabamos por circular aí sem saber muito bem, nem o que somos, nem para que servimos, nem que sentido tem a existência.” S.

O meu cachecol de pura lã virgem
Não teria sido possível mais frio naquela noite de Novembro, a sétima. Como na primeira. Novembro não é mais frio do que na sétima ou na primeira noite. Não é.

Chora-se, no entanto, mais numa do que noutra. Nós o vimos. As lágrimas correm pelo teu rosto e não sei, não sabe, não sabemos, alguém sabe?, o que fazer para as parar. Abraços apertados, o calor que passa através dos casacos fortes de fazenda escura, abraços demorados. As mãos no rosto e os olhos nos olhos, as palavras de amparo ou os silêncios de gargantas doridas, ou sufocadas? Casas fortes que agora balançam sem equilíbrio, como? como? ......... .........Não há como. Também não existe porquê. Como se o amor fosse só isso, e porque o amor não é só isso, porque o amor é. Não duvides nunca, nunca!, que o amor é e não acaba, esse não se esgota. O resto são parvoíces misturadas. Aquelas que fazem sorrir e rir. Sorrir e rir. Como tu.

...

Ver, ouvir, tocar e sentir, dar. Foi o que fizemos e é o que fazes. Conheci o que não sabia, revelei o que não poderias saber. Agora somos menos estranhos na rua.

...

Quando é que vou deixar de querer beijar-te?
Quando é que vou querer deixar de te beijar?
Vou deixar de querer?
Vou querer deixar?
Quer-se deixar?
Deixa-se?
- Vamos dormir.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Sócrates: tira notas, se fazes favor
A uma semana das eleições presidenciais norte-americanas parece inevitável que Barack Obama seja o vencedor. Lidera nas sondagens, nos fundos angariados para a campanha, nos apoios da imprensa doméstica e estrangeira. And ‘if the world could vote’ (.com), o próximo inquilino da Casa Branca seria democrata, à excepção de 12 albaneses e de uns quantos macedónios — aliás, Obama seria também presidente de Portugal, já que somos o terceiro país que mais tem votado nesse website (e quantos não estão sequer recenseados?).

Obama vencerá pelas suas qualidades, ou porque oito anos de Bush resultam na urgência insofismável de mudança, ou ainda porque McCain cometeu um erro irreversível com a escolha da vice-presidente Sarah Palin?

Mais do que a expectativa sobre quem será e como será o próximo presidente dos Estados Unidos, ou como será dirigido o planeta nos próximos quatro anos, é a forma como o mundo é organizado nas cabeças que vivem do outro lado do Atlântico que me preocupa.

Para o Washington Post, dito de centro-esquerda, um dos mais prestigiados jornais do país, que apoia Barack Obama, as duas guerras que empenham milhares de soldados num enorme esforço social e orçamental, são a principal das preocupações. Compreendo, não sabendo eu, no quotidiano, o que significa uma guerra.

Depois da guerra, o mundo, que é feito de um “Paquistão nuclear e instável”, de uma “Rússia ressurgente e que ameaça os seus vizinhos”, de um “Irão que apoia o terrorismo e está na corrida nuclear”, de um “Médio Oriente em turbulência”, e de uma “China que procura o seu lugar no Mundo”.

Em seguida, a ameaça nuclear ou biológica, terrorista certamente, o fardo da pobreza global e as doenças, e as alterações climáticas em crescente aceleração. E por fim, no campo doméstico, a estagnação dos salários, a falência do sistema público de educação, e a possibilidade de uma grave crise económica.

A reforma do sistema de saúde não é esquecida, nem a justiça e o papel do Supremo Tribunal, onde para a manutenção dos direitos, liberdades e garantias só as escolhas de Obama, quaisquer que sejam, podem garantir uma melhor administração do poder judicial e protecção dos direitos civis, mas sem nunca esquecer que é imperativo “to keep America safe in a dangerous world”.

terça-feira, 29 de julho de 2008

I'm ready to go right now

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Bandas sonoras para filmes perfeitos
Um dia sonhei que estavas apaixonada por mim. Nesse mesmo dia comprei um frasco de água de colónia, a mais cheirosa da drogaria. Fiz a barba à navalha, no barbeiro. Vesti a minha melhor camisa branca e a caminho passei na praça e levei fiado um molho de margaridas brancas.

Um dia sonhei que estava apaixonado por ti. Nesse mesmo dia não te vi.

(outra página)

Foi a mão na parede que me segurou de pé,

(outra página)

Conceição era muito bonita. Tinha um sorriso que desarmava qualquer um. Sincero, rasgado, e de lhe fechar os olhos castanhos. O sobrolho esquerdo levantava cada vez que se intrigava. As unhas vermelhas e a pele morena

(outra página)

Tenho saudades tuas e da naturalidade com que te deitavas na cama a folhear o suplemento das artes. De te abraçar.

(outra página)

Às oito menos um quarto de terça-feira Fernando Peixinho ainda não sabia que ia morrer. Como sempre, comprou o jornal: cinco tostões. Que leu ao balcão da leitaria, em pé: na conta. Que deixou cair na corrida para apanhar o carro eléctrico do amigo Alfredo Espenica, o único da carreira onde não pagava bilhete. “Foi pouca sorte, doutor”, disse o homem que o ajudou a subir pelo braço. Antes o jornal que o manuscrito, foi o que pensou, agradecendo, enquanto compunha o fato e sacudia o pó das calças pretas. Fernando Peixinho era um respeitado colunista do Diário Popular, escritor sem obra publicada,

(outra página)

Maria

(outra página)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Talvez.
Talvez?

domingo, 27 de abril de 2008

Houve um tempo em que as pessoas faziam coisas – v2.0
O que me atrai no 25 de Abril e faz com que dias antes vá vivendo mais imbuído do espírito, conversando sobre a data, recordando canções da época e recuperando documentários, e desafiando alguns compinchas para uma caminhada de hora e um quarto até ao Largo do Carmo ao amanhecer; o que me atrai e seduz é precisamente o facto de ter havido quem quisesse fazer coisas, naquele tempo que foi de fazer coisas. Não é saudosismo, mas reconhecer isso mesmo. Tampouco é “esquerdice” ou “partidarice” — “comunice”, sejamos claros, porque não é inocentemente que ano após ano me atiram um “comuna” embrulhado em sorrisos; não podiam estar mais enganados. É, inevitavelmente, fruto de uma educação dada por quem já era sujeito adulto crescido e político na altura. O 25 de Abril não é dia de festa, nem dia de luto, nem de endeusamento ou do que se lhe parecer. É o meu dia de Portugal, do meu Portugal em que venho vivendo.

1. Terá tido muito pouco de acaso ou coincidência que Cavaco Silva tenha escolhido o alheamento dos jovens da política como alvo para o seu discurso de 25 de Abril; que o Governo tenha escolhido esta semana para apresentar as suas propostas de revisão da legislação laboral; que (mais uma vez) as associações militares tenham vindo a público descontentar-se com as intenções de aplicação de um renovado Regimento de Disciplina Militar a aposentados e reservistas, que classificam de ataque à Constituição e à instituição.

O estudo citado pelo Presidente da República acerca da relação dos jovens com a política, encomendado à Universidade Católica e datado de Janeiro, não trazendo grandes novidades, traz confirmações pertinentes, para mim, que me dispus a lê-lo (tive acesso ao documento) e não a recebê-lo pelos média.

Quando mais de 68 por cento dos inquiridos se interessa «pouco» ou «nada» com a política, e sendo unânime (mais de 94 por cento) que a sociedade actual «pode melhorar», ou «necessita de reformas profundas», ou «deve ser radicalmente mudada», surpreende que 61 por cento seja favorável a uma alteração do sistema eleitoral, que permita votar mais pelos candidatos e menos pelos partidos — este um aspecto menos surpreendente: os círculos uninominais, ao que parece, estão para regressar à discussão pública? Cerca de 56 por cento afirma que a população deve ser consultada mais vezes em referendo e mais de 90 por cento não hesita em atribuir extrema importância ao acto de votar. Olhando para a última vez que os portugueses foram chamados às urnas, aquando do “refendo ao aborto” em Fevereiro do ano passado, de acordo com o estudo 71 por cento dos inquiridos diz ter votado. No entanto, os resultados oficiais recordam uma abstenção de 56 por cento. A informação de política chega diariamente a 55 por cento dos inquiridos pela televisão, sendo que através da rádio e dos jornais há 50 por cento de inquiridos que respondem recebê-la menos de uma vez por semana. Nada de novo: a televisão é, então, o principal meio de informação. Mas, então e ao que parece, o consumo de televisão não contribui em nada para a cultura política dos cidadãos nem para o interesse pela política. Confuso? Linear. E com responsabilidades para os jornalistas: é preciso dizê-lo. E é preciso que a classe profissional se consciencialize disso e que, a bem do respeito pela profissão, faça alguma coisa — touchez.

2. É que os média têm um papel fundamental nas sociedades democráticas. É neles e através deles, com os jornais como nobres representantes, que se constrói e joga o jogo da democracia — nas colunas de opinião, nos editoriais, e depois na abordagem e tratamento dos assuntos. Não é inocente, e ainda bem que é assim, que o editorial do Expresso de 25 de Abril de 2008 advirta para que não se “endeuse” a revolução e se esqueça a necessidade de adaptação e actualização ao tempo contemporâneo. Não é por acaso que o obituário de Francisco Martins Rodrigues, aquele que terá sido o verdadeiro militante comunista sem partido, tenha tido três linhas no Expresso e duas páginas no Público, honras de editorial e mais duas páginas de Pacheco Pereira no dia seguinte — curioso? Os órgãos de comunicação social são as pessoas que neles trabalham, que os dirigem e os seus proprietários — não necessariamente por esta ordem —, e ainda bem que são assim, diversos.

3. «Eu até poderia encarar com alguma tranquilidade o futuro do meu país se pudesse dizer assim: ‘As pessoas com mais de 50 anos são para deitar fora. Mas o que vem aí é muito bom…’ O problema é que não. Não é muito bom», é a opinião do general Garcia Leandro, que me toca pessoalmente. Não sou, portanto, muito bom? O general apela a um «movimento de indignação civil». Anotado.

É neste contexto que vai nascer um novo partido, o Movimento Mérito e Sociedade (MMS), que esta semana entrega as 7.500 assinaturas ao Tribunal Constitucional, e que há um outro na calha, o Movimento Esperança Portugal (MEP). Em comum têm no nome “movimento”, e não “partido”, com o que isso pode significar de objectivos e capacidade de mobilização; e a recusa em situar-se à esquerda ou à direita, com o que isso pode querer dizer de salvaguarda da possibilidade de flutuar no espectro político-partidário. Haverá espaço para intervenção política para além dos partidos? Acredito que hoje existe um espaço privilegiado para os movimentos cívicos.

Lisboa, 27 de Abril de 2008
João Pedro Correia

Ficha do estudo da Católica:
O estudo da Católica contempla quase duas mil entrevistas válidas a cidadãos com 15 ou mais anos de idade residentes no território continental, levadas a cabo entre o final de Outubro e o início de Novembro do ano passado, com um grau de confiança de 95 por cento com margem de erro de 2,2 por cento.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Podia ser doutra maneira. Doutra maneira? Doutra maneira! Doutra maneira...
Apaixonei-me por ti e pelo teu casaco vermelho. Até porque a farmácia de serviço tinha ser aquela ao lado de tua casa, onde também está sempre aquele Mercedes desportivo clássico estacionado. Ainda bem que o “sérvio” chegou rouco a Lisboa e não tínhamos jantado ainda. Como noutros dias.

Não é que não queira escrever. Apenas entre as últimas semanas não sei bem onde tenho andado e parece-me cada vez mais que, não estando seco, não consigo é dar forma a seja o que for e falta-me sempre uma música. Ou então não consigo é fazer o filme. Onde ponho a terceira rosa?

Já nem me desculpo com o tempo. Nos últimos dias tenho recordado tanta gente, caramba. E a notícia da partida da mulher dele, a mulher que o fez vir para Portugal há mais de 40 anos e acabou fazendo com que nos cruzássemos, abalou-me pelo estrago que lhe causou — preciso dar-lhe um abraço e agradecer-lhe. É preciso agradecer.

Que saudades. E daqueles que estão no mesmo fuso horário.

Entre certezas e dúvidas. Entre as horas e o sol em dias de aguaceiro.

O teu casaco vermelho. Mas nem tudo resulta como num sintetizador.

domingo, 23 de março de 2008

Pasteis de Belém

domingo, 16 de março de 2008

Houve um tempo em que as pessoas faziam coisas – v1.0
Vive-se hoje no País um momento muito especial. Tão especial que exige tomadas de posição.

1. «Isto desde as guerras liberais são sempre as mesmas 150 famílias», disse um dia o historiador Fernando Rosas (e deputado pelo BE). E são mesmo, a começar por ele, que é neto de Dias Rosas, ministro das Finanças de Marcelo Caetano. E passando pelo colégio São João de Brito, de onde têm saído os políticos e cargos institucionais dos últimos 30 anos, numa proporção enorme. Quem lá estuda acaba amigo de infância de não sei quem que o vai nomear para algum sítio, 20 ou 30 anos mais tarde — meter lá um filho é um investimento. «Se calhar foi por isto que não houve sangue no 25 de Abril, alguém é primo de alguém», li de Abel Pinheiro (herdeiro do grupo Grão-Pará, fundador do CDS-PP).

Se não for primo, pode ser associado. O senso comum e até a natureza dizem que a união faz a força e é claro o papel de influência, em sentido lato, das comunidades enquanto grupos de pressão sobre terceiros e protecção dos seus. A Igreja, os partidos políticos, o Opus Dei, a Maçonaria — e a propósito da maçonaria, disse também Abel Pinheiro: «Quando o PS vai para o Governo, ela cresce; com maioria absoluta ela não cresce, incha». E os círculos mais ou menos fechados ou coesos em que se podem mover as pessoas interessadas, e com interesses, tornam-se núcleos fortes.

Em Fevereiro jornais e telejornais abriram com uma tomada de posição da SEDES, a Associação para o Desenvolvimento Económico e Social, que alertava para «um mal-estar difuso, que alastra e mina a confiança essencial à coesão nacional»; que apelava para a necessidade de defender a democracia e regenerar os partidos políticos, quando hoje é «preocupante assistir à tentacular expansão da influência partidária, quer na ocupação do Estado, quer na articulação com interesses da economia privada»; que apontava o dedo à degradação de valores na comunicação social e à inabilidade da justiça; e terminava com um apelo generalizado ao desbloqueamento da eficácia do regime, disponibilizando-se a SEDES para «alimentar esses canais e frequentar as esferas de reflexão e diálogo». Ainda bem, haja alguém que se disponha a dar o corpo às balas.

Mas, quem é a SEDES? Quem são as pessoas que compõem aquela associação cívica formada em 1970, cujos «fundadores eram oriundos de diferentes formações académicas, estratos sociais, actividades profissionais e opções políticas», unidos pela «vontade de mudança e uma prática de militância social diversificada no associativismo académico, prática de contestação política contra o sistema, participação em organizações cristãs e actividade sindical»? Quem são os notáveis de tão creditada associação? Podemos somente e a título de exemplo olhar para o perfil de Rui Vilar, o Presidente da Assembleia Geral:
- É Presidente do Conselho de Administração da Fundação Gulbenkian desde 2002, foi Administrador desde 1996;
- É Presidente da Partex Oil & Gas (Holdings) Corporation desde 2002. É Vice-Presidente do Governing Council do European Foundation Centre e Presidente do Steering Committee do projecto Europe In the World;
- É Presidente do Conselho de Auditoria do Banco de Portugal desde 1996;
- Entrou para a Função Pública em 1966, onde esteve até 1969, ano em que assumiu funções directivas no Banco Português do Atlântico, onde permaneceu até 1973;
- No início dos anos setenta faz parte do grupo de cidadãos que viria a fundar a SEDES, de que foi o primeiro presidente;
- A sua carreira política começa em 1974 como Secretário de Estado do Comércio Externo e Turismo do I Governo Provisório, depois Ministro da Economia dos II e III Governos Provisórios (1974/75), foi eleito Deputado em 1976, entre 1976 e 1978 foi Ministro dos Transportes e Comunicações do I Governo Constitucional e entre 1986 e 1989 foi Director-Geral da Comissão das Comunidades Europeias, em Bruxelas;
- Como gestor foi Vice-Governador do Banco de Portugal, entre 1975 e 1984, Presidente do Conselho de Gestão do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa (1985/86), Presidente do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos (1989-1995), presidiu ao Grupo Europeu dos Bancos de Poupança (1991-94) e foi Presidente do Conselho de Administração da Galp Energia, entre 2001 e 2002;
- Presidiu ainda à Comissão de Fiscalização do Teatro Nacional de São Carlos (1980-86) e foi Comissário-Geral para a Europália, entre 1989 e 1992;
- Entre 1989 e 1990 foi Vice-Presidente da Fundação de Serralves. Foi Administrador da Porto 2001, em 1999;
Um currículo impressionante, sem qualquer desprimor para o senhor. Mas quanto dele é de nomeação política?

E depois há outros nomes conhecidos na SEDES:
- João Salgueiro (Presidente Associação Portuguesa de Bancos);
- Luís Valente de Oliveira (ex-Ministro da Educação, ex-Ministro do Planeamento e Ordenamento do Território, agora professor universitário);
- Fernando Faria de Oliveira (recentemente escolhido para Presidente do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos);
- António Bagão Félix (ex-Ministro das Finanças e da Segurança Social, não sei o que faz agora);
- Guilherme d'Oliveira Martins — e este é o meu preferido (Presidente do Tribunal de Contas, Presidente do Centro Nacional de Cultura, é ainda descrito como ensaísta e professor universitário, e nos dois governos de Guterres foi Secretário de Estado da Administração Educativa, Ministro da Educação, Ministro da Presidência, Ministro das Finanças — o homem certo para tapar o buraco, seja ele qual for);
- João Carlos Espada (Consultor para Assuntos Políticos do Presidente da República, já o tinha sido para Mário Soares (1986-1990), é Director do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, é director da revista trimestral Nova Cidadania e pertence ao Conselho Editorial da revista Journal of Democracy);
- Fernando Ulrich (actual presidente executivo do BPI), e isto só para recuar ao início da década de 90.

São sempre as mesmas 150 famílias. Nos cargos, nas instituições, nos espaços de opinião dos jornais, das televisões e das rádios. Se formos aos seus passados, veremos que militaram juntos em partidos, em acções católicas, em universidades ou escolas.

Em comum estas pessoas terão, pelo menos, ainda mais um aspecto das suas vidas. Eram jovens, tinham vinte e poucos ou andavam na casa dos trinta anos, quando se deu uma das principais mudanças estruturais no País, o 25 de Abril, com tudo o que isso significou de urgência na tomada de posições e consciências — ou inconsciências, apetece brincar — políticas. Nós, a nossa geração, temos vinte e poucos e menos de trinta anos, hoje.


2. O declínio das referências, da família ao poder. Acabou o serviço militar obrigatório, o sítio para onde se receava ir quando se permanecia na escola sem progredir de ano para além de uma determinada idade, pelo menos no nosso tempo.

Ficando-se mais tempo na escola, crescendo o insucesso, decresce o respeito por aquela instituição e daí a bater-se nos professores é um instante.

A escola em geral, nos seus diversos graus de ensino, perdeu exigência.

A família também perdeu peso. Perdeu uma dimensão de autoridade, desde os filhos que vivem fechados nos quartos e nem comem à mesa com os pais — isto quando os pais, ou algum dos membros da família, ainda fazem refeições em casa —, aos pais que despejam os filhos na escola e nos ATL e esperam que uns anos depois eles apareçam educados. Perdeu coesão, com o crescimento dos divórcios. E perdeu a continuidade, com os velhos a deixarem de envelhecer com os filhos e os netos, fruto de imensos factores, como as migrações, algo que vejo manter-se hoje somente “naquelas 150 famílias”.

A inegável melhoria das condições de vida da sociedade, na generalidade e comparando não mais longe do que com o início do período democrático do País, retirou das gerações mais novas um peso, uma responsabilidade de excelência precoce ou preocupação futura como meio para prosseguir objectivos claros e além da simples subsistência. E criou uma imagem de facilidade e de facilitismo — e se estão mais fáceis as coisas hoje, do que estiveram para os nossos pais. Mas que estamos melhor, estamos, senão, note-se, a título de exemplo: quando é que a generalidade dos velhotes tiveram possibilidade de almoçar num restaurante, mesmo que de bairro? E agora basta ir a um e ver.

O poder é hoje um fim em si mesmo. Os homens do poder já não estão ao serviço do público, mas da manutenção do poder. Estão enrolados em corrupção, são desonestos e amorais. Vencem a justiça, quando lhes são presentes, mas raramente por trânsito em julgado e sim pelo arrastamento dos casos através de manobras processuais. As escutas do processo Portucale, o célebre dos sobreiros e do Governo PSD-CDS, estão a revelar-se fonte de abertura de numerosos inquéritos. Deve ser divertidíssimo consultar o processo.

Concursos e legislação feitos por medida para casos concretos são demasiado frequentes e passam impunes. O floreiro do cemitério de Carnide, o tal que foi instalado num terreno que não cumpre as funções, não vende uma flor e paga 1200 euros de renda por mês à Câmara de Lisboa, enquanto o restaurante Eleven no topo do Parque Eduardo VII apenas paga 500 e ainda há quem não tenha a vergonha de dizer perante as câmaras da televisão que o concurso público para o espaço é que ditou as condições, ninguém pediu favores — e este é só um exemplo.


3. «Os nossos pais deram-nos mais do que tiveram, mas nós temos menos do que eles», declarou à Visão um rapaz com menos de trinta anos, licenciado e com trabalho precário, a propósito de uma reportagem sobre a “geração em saldo” ou a “geração dos mil euros”. Mas onde é que está a geração dos mil euros?

No meu ramo de actividade, como em tantos outros, para quem está em início de carreira a norma é uma das seguintes: um estágio, não remunerado, que frequentemente deriva em mais um estágio; ou um contrato verbal de prestação de serviços, com pagamento por meio de recibos verdes; e mesmo que o contrato de trabalho seja a termo certo, embora bem mais raro, a prática comum é um salário baixo. Aliás, ultra-baixo. Na nova Grelha Salarial Única da Administração Pública, ao lugar mais baixo da tabela de qualificação, o de operário não qualificado (um cantoneiro, para dar um exemplo), corresponde um salário na ordem dos 400 euros. Eu fui esta semana a uma entrevista onde procuravam um profissional com habilitações superiores e com experiência profissional, a que se propunham pagar os mesmos 400 euros líquidos, em regime de contrato a termo certo com pagamento contra recibo verde e sem opção de retenção das prestações sociais na fonte — o que, para quem estiver no primeiro ano de actividade e isento de pagar à Segurança Social faz ascender o salário a uns astronómicos 600 euros; mas quem com experiência é que está no primeiro ano de actividade? E isto acontece igualmente na advocacia e na indústria. Os serviços, esses, são a selva.

A generalizada opção dos empregadores pelos recibos verdes só tem uma justificação: a economicista. A lei contempla contratos de trabalho a termo certo entre 6 meses e 3 anos, renováveis duas vezes. Então porque não fazem as empresas contratos de seis meses com aqueles que querem a trabalhar para si, se é um trabalhador temporário que procuram? Quantos de nós não conhecemos casos de falsos trabalhadores independentes, que há anos estão a recibos verdes? E porque não tomam os empregadores em mãos as prestações sociais? E nem desco ao valor do salário oferecido, que é baixo, baixíssimo — e uma economia assente em salários baixos não vai, não pode ir, longe. Porquê o recibo? Porquê? É a perpetuação da precariedade. E chamar a um trabalhador de colaborador não é “descomunizar”: é “eufemizar” e retirar valor facial. Um subordinado não colabora, trabalha. E por dizê-lo não sou comunista, mas rigoroso, porque o colaborador não trabalha a tempo inteiro nem em continuidade. Ou estarei errado?

Sendo assim, como é que é possível que a nossa geração tenha sequer o mesmo que os nossos pais tinham entre 1968 e 78, por exemplo? Algum de nós consegue hoje arrendar um apartamento somente com o seu ordenado? Quantos de nós não tiveram, pelo menos a tempos, somente um dos pais a sustentar o lar, muitas vezes já com um filho ou dois? Como é que isso será possível hoje, à nossa geração. É o retrato do retrocesso social.


4. «Nós nunca vivemos tanto na Caverna de Platão como hoje. Porque as próprias imagens que nos mostram a realidade, de alguma maneira substituem a realidade. Nós estamos a repetir a situação das pessoas aprisionadas na Caverna de Platão, olhando em frente, vendo sombras e acreditando que essas sombras são a realidade». E é muito fácil perdermo-nos neste mundo audiovisual, especialmente quando alguém deita óleo na curva — o que acontece todos os dias. Como no dia em que José Sócrates diz não ao referendo ao Tratado de Lisboa, para no dia seguinte anunciar a a preferência de Alcochete para o novo aeroporto. Ou na manhã em que surge nos media um relatório que envolve o País na transferência de prisioneiros para Guantánamo, os afamados vôos da CIA, e ao início da tarde e durante o que se aguardava que fosse mais um discurso crítico do Bastonário dos Advogados na abertura do ano judicial, Sócrates anunciar a remodelação de Correia de Campos e Isabel Pires de Lima.

«Neste mundo audiovisual onde os sons se multiplicam, onde as imagens se multiplicam e onde nós vamos cada vez mais sentir-nos perdidos. Perdidos, em primeiro lugar, de nós próprios. E em segundo lugar perdidos na relação com o mundo. Acabamos por circular aí sem saber muito bem o que somos, nem para que servimos, nem que sentido tem a existência.» As palavras são de José Saramago. E digam-me lá se não é assim que, mais ou menos, vamos andando.

E estas são de um candidato à presidência dos Estados Unidos:
«It was whispered by slaves and abolitionists as they blazed a trail toward freedom. It was sung by immigrants as they struck out from distant shores and pioneers who pushed westward against an unforgiving wilderness. It was the call of workers who organized; women who reached for the ballots; a President who chose the moon as our new frontier; and a King who took us to the mountaintop and pointed the way to the Promised Land. Yes we can to justice and equality. Yes we can to opportunity and prosperity. Yes we can heal this nation. Yes we can repair this world. Yes we can. We know the battle ahead will be long, but always remember that no matter what obstacles stand in our way, nothing can stand in the way of the power of millions of voices calling for change. We have been told we cannot do this by a chorus of cynics... They will only grow louder and more dissonant… We've been asked to pause for a reality check. We've been warned against offering the people of this nation false hope. But in the unlikely story that is America, there has never been anything false about hope. (…) We will remember that there is something happening in America; that we are not as divided as our politics suggests; that we are one people; we are one nation; and together, we will begin the next great chapter in the American story».

Nenhumas são palavras de incentivo. São apenas palavras de alerta.

Houve um tempo em que as pessoas faziam coisas.

Lisboa, 16 de Março de 2008
João Pedro Correia

sexta-feira, 14 de março de 2008

Não sei quantos postais te escrevi
Sei, isso sei, que é quando o Sol bate dourado nas paredes dos prédios desta cidade e os carris do eléctrico brilham no empedrado de granito escuro, sei que é aí que tenho de procurar ruas que descem ingremes só para ficar a olhar o pedacinho de rio lá ao fundo, enquanto tento encontrar um quiosque para turistas; sei que é aí que tenho de procurar uma mesa de café na rua, para não perder pitada destes minutos fogazes, as paredes de amarelo fogo e os reflexos nos vidros; sei que é assim que te penso, que te lembro, sei que é aqui que me lembro dos teus olhos molhados, o teu sorriso envergonhado, o teu rubor, sei que é aí que tenho a coragem para te dizer aquilo que nunca te disse, que não sei porque nunca te disse.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O nascimento de um país (ou talvez não)

00h31
Kosovo awaits recognition, and Serb challenge
China “deeply concerned” over Kosovo independence
Sri Lanka says Kosovo decision a threat to nations
Germany’s Merkel says EU unity on Kosovo a priority
Russia’s Chechen rebels hail Kosovo independence
EU calls for calm, unity over Kosovo
Spain says won’t recognise Kosovo independence

10h34
Kosovo expects recognition within minutes – Thaci
Vietnam says against Kosovo independence
Azerbaijan says not recognising Kosovo independence
US officially recognizes Kosovo independence – BBC
Bush says people of Kosovo are independent
France recognises Kosovo independence – Kouchner
EU united on Kosovo, presidency says
Britain to recognise Kosovo – Miliband
Italy says recognises Kosovo independence
Germany to recognise Kosovo – Steinmeier
Spain confirms won’t recognise Kosovo

16h32
Germany sees 17 EU states in quick Kosovo move
US recognises Kosovo’s independence – Rice
Turkey says to recognise Kosovo independence – Formin
Separatist fears stoke opposition to Kosovo move
Serbia recalls ambassador after US recognises Kosovo
Georgia not planning to recognise Kosovo – minister
Romania will not recognise Kosovo independence

22h07
Serbia urges UN council to block Kosovo secession
Reuters, 18 Fevereiro 2008

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Podia ser uma carta de amor

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Palma(da) de Ouro
“4 meses, 3 semanas, 2 dias” de Cristian Mungiu.
Mais um belo filme romeno.
Está no King.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Procura-se mulher tão apaixonada quanto esta

a partir do primeiro minuto...

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Há gajos com razão


«Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo. Morre lentamente quem destrói o seu amor próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajecto, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor, ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru. Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro ao branco e os pontos sobre os “ii” em detrimento de um remoinho de emoções, justamente as que roubam o brilho dos olhos, os sorrisos dos bocejos, os corações das desilusões e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva que cai incessante. Morre lentamente quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples acto de respirar.» P. Neruda

Eu conheço um punhado deles.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

“Eastern Promises”
Ou como o último filme de David Cronenberg é mauzote e o Viggo Mortensen mostra o rabo e algo mais — para gáudio de algumas senhoras — enquanto leva uma carga de porrada, mas depois ganha. Podia ser. Mas não é.

O Leste anda a prometer muito. Mesmo.

Vladimir Putin é o novo primeiro-ministro eleito da Rússia. Eleito com mais de 64 por cento dos votos nas mesmas eleições que os observadores da OSCE e da UE criticaram pelo clima pouco democrático e de coerção à liberdade de expressão e reunião. Talvez porque uma semana antes as manifestações em Moscovo e São Petersburgo tinham dado confrontos com a polícia e a detenção de 200 opositores de Putin, entre os quais Boris Nemtsov e Nikita Belykh, líderes do partido SPS (Union of Right Forces, segundo a Reuters) e candidatos às eleições legislativas — só a detenção do “axadrezado” Garry Kasparov é que passou nas TV e nos jornais.

O novo-primeiro ministro russo já foi primeiro-ministro russo, entre Agosto de 1999 e Maio de 2000, a convite de Boris Yeltsin. O novo primeiro-ministro russo ainda é Presidente russo, até Março de 2008, que é quando termina o segundo mandato. Os métodos russos são qualquer coisa...

A Duma tem, agora, um novo deputado. Chama-se Andrei Lugovoi, foi o segundo eleito pelo partido LDPR (Liberal Democratic Party of Russia, segundo a Reuters), um de quatro a conseguir assentos no parlamento. É ex-agente do FSB e é o principal suspeito da morte de Aleksander Litvinenko. Se antes o Reino Unido pedia a extradição e a Rússia recusava, agora com a imunidade diplomática o problema está resolvido. Curiosa foi a resposta de Lugovoi à pergunta da Reuters sobre se iria chefiar o Comité de Segurança: «As everybody knows I have a lot of experience in security issues...»

Antes, a 4 de Novembro de 2007, podia ler-se no The Times: «At first the police thought the two bodies found in a ditch near St Petersburg last weekend were those of drunks who had passed out and died of hypothermia. The case turned out to be far more disturbing. Both men were from Russia’s Federal Drug Control Service, a powerful force of former KGB officers, and they had been poisoned.» A mim soa-me familiar. E estas notícias são frequentes, basta andar atento.

Um olhar mais demorado a alguma imprensa internacional ajuda a explicar as guerras internas na Rússia, guerras por poder e por dinheiro, envolvendo altas patentes dos serviços secretos, o FSB, do tal departamento de narcóticos (chame-se-lhe assim) e do departamento de alfândega. Em jogo estão serviços de segurança, lavagem de dinheiro e ajuda ao tráfico de tudo um pouco.

Os métodos russos de manutenção do poder podem muito facilmente ser exportados e a Guerra Fria pode muito bem regressar, menos mediática que outrora, porque já não se trata de bombas nucleares ou escudos anti-míssil quase intergalácticos — não obstante a questão do sistema anti-míssil norte-americano na Rep. Checa ou Polónia, mesmo às portas da Grande Rússia. E mesmo que ainda se vá ouvindo isto: «Quase meio quilo de material radioactivo foi apreendido anteontem na fronteira da Eslováquia com a Hungria (...) O urânio poderia ser utilizado no fabrico de "bombas sujas", assim chamadas por resultarem da mistura de explosivos comuns com elementos nucleares (...) Acredita-se que os 481 gramas de urânio apreendidos sejam provenientes da Ucrânia (...) Desde os anos 90, quando a União Soviética se desmantelou, a Agência Internacional de Energia Atómica já registou mais de 1250 casos de contrabando de material nuclear.» (Público, 30Nov2007)

Agora o jogo é jogado ao nível dos peões, da pequena espionagem, da pequena informação, sobretudo na grande economia da energia, petróleo e gás. E Putin gosta demasiado do poder. Esta novela está para durar.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Não sei como te explicar.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Então é assim: harder, better, faster, stronger





Daft Punk, exactamente...

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Quatro anos de Pudim

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Era mesmo e só uma história
Ponto.
Um dia (destes) vou (aí) a Paris

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Porque encerrou definitivamente no dia 31 Out a maior sala de cinema do país, a Academia Almadense, deixo aqui a reportagem que fiz sobre o cinema em Maio de 2006, quando ameaçou fechar pela primeira vez.

Academia Almadense
O meu cinema já foi grande

A maior sala de cinema do país, e a última na cidade de Almada, está em risco de fechar. As dificuldades financeiras são muitas e os espectadores são poucos. Até o serviço de bar deixa de estar garantido já a partir do final do mês.

Quinta-feira é dia de estreia nacional. O filme é o mais recente episódio de “Missão Impossível”, e às três e meia da tarde, a primeira sessão do dia, estão apenas dez pessoas na sala da Academia Almadense. «Ontem, com o outro filme, fizemos matiné para uma pessoa sozinha. Isto assim não pode ser», comenta com desalento o senhor Lourenço, encarregado do pessoal e funcionário da Academia há 21 anos. «Este filme é bom. Vamos ver como se safa logo à noite e no fim-de-semana», diz com uma esperança ténue, enquanto olha a rua, encostado a uma das portas de vidro que deixam entrar a única luz que ilumina o amplo átrio do cinema. «Desligo as luzes uns dez minutos depois da hora, porque à tarde não vale a pena estar a gastar», explica.

Ao cimo de vários lanços de escadas abre-se a porta da cabine de projecção. António Dias, projeccionista da Academia há três anos, divide a sua atenção entre a vigia que deita para a sala de 830 lugares e por onde controla, curvado, a projecção do filme, e a vontade em falar dos meandros da «melhor profissão do mundo», que é a sua, há já três décadas. O ruído e o calor que estão na sala são produzidos pelo projector, um Victoria com lâmpada de 7500 watts, adquirido em 2003 e três vezes mais potente que o anterior. «Só com uma máquina assim é que se consegue aquela qualidade de imagem», esclarece, apoiado na máquina antiga, ainda ali ao lado. «Se isto acabar é uma pena. Ainda por cima com uma máquina nova, está a ver?»

A verificar-se o encerramento da Academia, o centro de Almada fica despovoado de cinemas, 14 anos depois do encerramento da sala da Incrível Almadense. Em 2003, com o centro comercial Almada Fórum, abriram 14 novas salas de cinema. Mas a verdade é que o centro comercial está bastante desviado da cidade, junto à auto-estrada A2, e dependente de deslocação em viatura própria ou autocarros específicos. O que são condições muito diferentes da Academia, situada numa das principais artérias de Almada, a rua Capitão Leitão. É lá que se concentra muito e variado comércio tradicional, a antiga igreja que alberga os Paços do Concelho, o antigo e desactivado hospital, cafés e restaurantes para múltiplos gostos, e os mais conhecidos bares, sempre com constante movimento de carros e pessoas.

À noite a rua ganha outro brilho, com os néons encarnados que realçam “Academia Cine-Teatro” e também as luzes coloridas que na fachada do cinema assinalam mais um aniversário da instituição, o 111º — a Academia Almadense é uma associação cultural e recreativa, e o cinema é apenas uma das suas valências, dispondo também de serviços de desporto e música (ver caixa). Mas, na sessão das 21h30 o cenário não era melhor: estavam vendidos cerca de 90 bilhetes.

Ao entrar na sala, a visão daquele volume amplo quase vazio impressiona, pelo que deve ser arrebatadora quando lotado. São 26 filas de cadeiras em couro verde-escuro, divididas em balcão e plateia, numa sala em forma de concha, e muito bem iluminada. Tudo está limpo e não há sinais de degradação, chão e paredes estão forrados a alcatifa castanha, e nos degraus brilham as letras de cada fila, de A a Z, em luz violeta. Das paredes relevam as diversas colunas de som, pequenas caixas negras, e concavidades acústicas. A tela branca, que se veste de tons vermelhos antes da sessão, mede uns módicos 19 metros de comprimento por sete de altura, e está emoldurada por duas filas de pesados cortinados. Porque construída originalmente para ser um cine-teatro, a sala tem um grande palco em meia-lua, de soalho igualmente verde, que invade a plateia até junto dos primeiros assentos e se estende por detrás da tela, e sob o qual existe um fosso de orquestra. Maior que a Academia Almadense só a primeira sala do ainda encerrado cinema S. Jorge, com mais 18 lugares, propriedade da Câmara Municipal de Lisboa, o que faz da sala almadense a maior do país de gestão privada.

«Não vem ninguém depois da hora»

«Antigamente éramos quatro arrumadores, mais um ou dois a cortar bilhetes». Agora são quatro rotativos, dois por semana, um na entrada e outro sozinho na sala, informa José Marreiros, reformado, arrumador de sala na Academia há 11 anos. A maior enchente de que se lembra foi o “Titanic”, que esteve 15 dias esgotado e mesmo depois de sair de cena as pessoas ainda vinham à procura de bilhete, conta, enquanto separa pelo picotado os talões dos bilhetes já cortados. Depois disso, só filmes como os da série “O Senhor dos Anéis”, o primeiro episódio da trilogia “Matrix” e um outro de “A Guerra das Estrelas” provocaram enchentes.

Com a redução de pessoal e dos espectadores somente uma das cinco portas de acesso à sala está em funcionamento, o que é motivo de lamento para o senhor Marreiros. «Antes indicávamos às pessoas o caminho mais próximo, “ao cimo à esquerda, ao cimo à direita”» e agora «quem tem lugar mais à esquerda entra pela mesma porta e tem que andar aquilo tudo», explica com um profissionalismo encantador, que vai muito além da farda, uma camisa de riscas encarnadas e o colete de algodão azul escuro, onde ao peito está o brasão da casa. Se a Academia fechar «fico triste, pois claro», não tanto por perder o trabalho, dado que «isto é mais uma entretenha» e que não são os sete euros que ganha por sessão que fazem grande diferença. Quando lhe peço para ver a lanterna prateada, dispara: «e tínhamos que alumiar o caminho aos espectadores atrasados, quando agora não vem ninguém depois da hora».

Talvez mais gente se sentisse atraída pelo cinema se lá pudesse encontrar todas as semanas daquelas estreias sobejamente divulgadas e aguardadas. Contudo, isso nem sempre é possível. «Só os filmes com mais de 35 cópias é que chegam à Academia, porque as distribuidoras privilegiam as suas salas», explica Arménio Silva, responsável de programação da Academia desde a sua abertura, acerca das fitas com a etiqueta da Lusomundo. De potenciais grandes êxitos como “Missão Impossível” ou “O Código Da Vinci” chegam a Portugal entre 60 e 80 cópias, «e esses conseguimos agarrar». Quanto a outros filmes, simplesmente «respondem-nos que não há cópias para a Academia», o que se tem verificado com maior frequência desde a abertura do Almada Fórum.

Mesmo que o cinema continue a laborar, a partir do final do mês não está assegurado o serviço de bar. Ao fim de 12 anos a explorar o espaço e a manter o bengaleiro da Academia, Afonso Miranda já comunicou à Direcção a vontade de extinguir o contrato de concessão. O abandono deve-se a uma «reorganização interna do negócio», explica, referindo-se ao café de que é proprietário, há 25 anos, e que fica do outro lado da rua. Com menos funcionários Afonso Miranda tem que dar mais atenção ao seu negócio principal, não negando, porém, por detrás do ruído do moinho de café, que as receitas do bar também «já não são o que eram».

A pedido de memórias, recorda com um sorriso que em dias de lotação esgotada, ou mesmo com mais de 500 espectadores, abriam os dois bares, referindo-se a um segundo espaço, no topo e à direita da escadaria do átrio de entrada — as sessões da Academia têm intervalo. Ou lembra ainda a introdução das pipocas no cinema, quando tomou em mãos o bar, e de quanto essa novidade incomodou o encarregado da sala.

José Amorim, de 54 anos, escolheu a Academia Almadense para ver a estreia de “Missão Impossível”, em família. Porquê? Precisamente porque ali não encontra a confusão de outros sítios nas estreias, mas também porque o bilhete é mais barato. O Almada Fórum, diz, é cómodo pelo estacionamento fácil e gratuito, pela variedade de filmes que oferece e por tudo o resto extra-cinema. «A nossa filha mais nova está lá, a ver o mesmo filme, com os amigos», revela.

Andreia e Guilherme, ela psicóloga e ele engenheiro civil, ambos a caminho dos 30 anos de idade, escolheram a Academia «pela tradição», pelo preço reduzido dos bilhetes — 2,50 euros contra mais de cinco na generalidade dos cinemas — e para não correr o risco de encontrar a lotação esgotada. Por seu turno, Jorge, 29 anos, e Sónia, de 28, salientam a qualidade da sala e a existência de intervalo. Já Manuel e Elsa, de 30 e 25 anos, explicam que pesou na decisão o facto de residirem nas imediações, o preço baixo e a qualidade de som e imagem da sala.

De facto, desde a sua abertura, há 32 anos, foram realizadas várias intervenções e melhoramentos na sala da Academia, para a manter sempre actualizada. Na década de 90 substituíram-se as cadeiras e alcatifas, melhoraram-se as condições acústicas e introduziu-se o som Dolby Digital Surround, marca de pioneirismo do cinema na altura, além de um novo ecrã. Isto sem esquecer o último investimento, com o actual projector, uma despesa que rondou os 60 mil euros, realizada já numa altura de quebra financeira. Mas a noite de quinta-feira continuava muito tímida.

Prejuízos nos últimos seis anos

«O máximo agora são 200 pessoas», diz a bilheteira Maria Luísa, de 62 anos e há 43 na Academia — é das funcionárias mais antigas. «Não adianta baixar o preço dos bilhetes», afiança, um mês depois da decisão da Direcção em reduzir os ingressos de 3,80 para 2,50 euros durante a semana, mantendo-se o preço ao sábado, domingo e feriados. É certo que os filmes anteriores não foram do estilo desta estreia nacional, mas Luísa garante que muitos dos frequentadores do cinema são residentes nas proximidades, ou os miúdos que não têm carro para se deslocar ao centro comercial. «Dantes, nas estreias, formavam-se filas enormes que iam até à esquina» do edifício, comenta, depois de interromper o tricot para vender bilhete a um espectador tardio. «Este não é de cá, perguntou se ainda havia bilhetes», graceja.

Osvaldo Azinheira não pode partilhar a boa disposição, mesmo que momentânea. Para o Presidente cessante da Direcção da Academia Almadense a realidade é dura e muito triste. «Temos vindo a adiar, desde há anos, o encerramento do cinema», confessa. Na sua opinião são vários os responsáveis pelo decréscimo de espectadores do cinema, mas sobretudo a falta de estacionamento nas proximidades e a supressão, no passado, de duas carreiras de autocarros que passam naquela rua, para Cacilhas, depois das 21 horas. Por fim, as outras condicionantes são comuns à crise geral do cinema: a TV por cabo, a internet, o DVD e «a grande diminuição do poder de compra das pessoas».

Pelo menos desde 1999 que o cinema não apresenta um exercício positivo. E os números são bastante elucidativos das dificuldades que a Academia atravessa: se em 2001 as receitas do cinema foram de 391 mil euros, com despesas um pouco superiores, em 2003 apenas entraram nos cofres cerca de 129 mil euros (saíram 244 mil), sendo que em 2004 o valor não chegou aos 102 mil euros (com despesas de mais do dobro). Ou seja, em três anos registou-se uma quebra das receitas superior a 74 por cento — não foram disponibilizados dados referentes a número de espectadores. «São as piscinas que evitam a derrocada total» da Academia, afirma resignado, enquanto o cinema sempre tinha sido a principal fonte de receita da instituição.

«Tenho a consciência de que vou passar o testemunho de um barco a afundar», desabafa, claramente emocionado, de olhar evasivo por detrás dos óculos, e ajeitando a gravata. Azinheira, de 72 anos e assessor da presidência da autarquia, vem sendo sucessivamente eleito Presidente da Direcção há um quarto de século, mas assume-se algo cansado e desgastado. Conforta-o saber que quem lhe sucederá é um homem da casa há tantos ou mais anos que ele, que conhece os problemas e é de sua inteira confiança — é, aliás, o seu Vice-Presidente, que agora encabeçou a única lista apresentada a sufrágio.

É, então, nas mãos de Domingos Torgal, professor do primeiro ciclo reformado e profundamente ligado e activo no associativismo almadense, que reside o futuro do cinema da Academia. Para já, o que pretende fazer é «ouvir os jovens, chamá-los a dar a sua opinião sobre o que se deve fazer para dinamizar o cinema e a sala». Na sua opinião, a principal pecha da Academia são os problemas de estacionamento. E pelo menos uma solução existe. É que o edifício do cinema foi construído com estacionamento subterrâneo. Apenas essa cave alberga, desde 1976, as actividades desportivas da Academia. «Eu gostava de poder devolver a garagem à garagem», diz, «porque ainda cabem lá umas 60 ou 70 viaturas». Mas isso depende da construção de um pavilhão gimno-desportivo para a Academia, em terrenos a disponibilizar pela autarquia, algo ainda dependente de projecto e que num curto prazo não passa de um desejo. «E a Academia também não tem esse dinheiro, diga-se».

De cabelo e bigode brancos, divertido ao longo da conversa, o professor Torgal não evita que o rosto se lhe feche perante a questão, a que responde, com séria inevitabilidade: se a crise subsistir «não ponho de parte a hipótese de fechar o cinema».

Um problema sem solução

O problema da falta de público na Academia Almadense não parece ter resolução possível. A crise do cinema é geral, como atestam os dados do Instituto do Cinema Audiovisual e Multimédia: em 2005 os cinemas nacionais perderam quase um milhão e 400 mil espectadores (menos 8,1 por cento), face ao ano passado. E para as salas únicas e de elevada capacidade, como é o caso, não há forma de responder à crescente oferta de fitas, pois a escolha é só uma. Em bom rigor, nos dias de hoje uma sessão com mais de 150 espectadores é um óptimo resultado para a generalidade dos cinemas, cujas lotações não vão muito mais além. Apenas quando se tem 830 cadeiras para preencher e as dimensões e custos que lhes estão associados, obviamente esse número não chega.

Também os hábitos de consumo dos portugueses se modificaram e os centros comerciais se afirmaram, oferecendo uma multifuncionalidade sem paralelo: convívio, compras, comida e cinema, tudo no mesmo espaço. Concretamente, o centro comercial Almada Fórum impôs-se não só pela novidade — o primeiro e único do género no concelho —, mas por toda uma reconfiguração de hábitos que proporcionou, a que serve de exemplo a deslocação (e expansão) do único hipermercado da cidade para a nova infra-estrutura. E não pode ser ignorado o facto de o estacionamento ser gratuito.

Por fim, transformar o cinema da Academia numa sala multiusos, uma das soluções de rentabilização do espaço, não é tão fácil quanto aparenta. É que ao cancelar uma sessão para acolher, por exemplo, um espectáculo musical, o cinema não só tem que cumprir as obrigações negociais para com a distribuidora, como pode estar a contribuir para que esta privilegie com cópia outra sala concorrente na próxima estreia.

Apesar do cenário pouco optimista verificado com “Missão Impossível”, o próximo filme a estrear na Academia é “O Código Da Vinci” e as expectativas do cinema numa boa receita são elevadas. De tal forma que o filme ficará duas semanas em exibição. Depois, e com a chegada do calor, tudo é uma incógnita.

Em Agosto do ano passado a Academia Almadense fechou as portas pela primeira vez na sua história. Este Verão, e na ressaca do campeonato mundial de futebol, teme-se que, a encerrar de novo, seja por tempo indeterminado. Que as fitas não voltem a passar, que não haja mais espectadores boquiabertos pelo gigantismo da imagem, que não mais se salte assustado pelo som daquela bala que passou rasando a cabeça. Porque um cinema fechado só se pode deteriorar e acaba por se esquecer. E as memórias não alimentam cinéfilos. | João Pedro Correia (texto e fotos; Maio 2006)

domingo, 4 de novembro de 2007

«Para poder avaliar bem coisas que talvez nos esclarecessem, e nos abrissem novos caminhos»



Novos caminhos. Caminhos mais actuais. Uma orientação nova.

sábado, 3 de novembro de 2007

Exactamente. Que sabes tu?

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

O fusilamento de Torrijos e seus companheiros nas praias de Málaga (1888), por Antonio Gisbert

domingo, 28 de outubro de 2007

Real Pudinsky, ou teorias da conspiração, ou exercícios de dedução, ou simplesmente porque é tão importante perceber a Rússia hoje, vivendo em Lisboa
É. Foi a semana quase perfeita para Vladimir Putin vir a Portugal passear o colete à prova de bala e a limusina Mercedes, para Marina Litvinenko e Alex Goldfarb lançarem o livro “Morte de um Dissidente” e para Andrei Nekrasov apresentar o documentário “Rebellion, The Litvinenko Case”. A história podia muito bem fazer um filme de 007. Mas é demasiado real.

A União Soviética desintegrou-se oficialmente em Dezembro de 1991. Boris Yeltsin demitiu-se oficialmente no último dia de 1999. Nesse dia o preço do barril de petróleo não chegava sequer a 30 dólares e já tinha batido num mínimo histórico de 11 dólares no início do ano. A Rússia tinha e tem petróleo e gás a rodos — quase na mesma proporção em que tem corrupção. A Europa é cliente e dependente da Rússia para esse abastecimento energético, tão dependente como os EUA dos combustíveis do Alasca ou do Médio Oriente, pelo que uma ameaça de fecho da torneira é ameaça grande demais para ser ignorada. Com o barril tão barato, Yeltsin não tinha, não teve, margem de manobra para desenvolver o paupérrimo e gigantesco país, então pós-comunista, pós-Perestroika de Gorbachev, e então democrático, mas sempre monumentalmente assimétrico e onde sempre existiram oligarcas, com que nomes fosse.

Vladimir Putin chegou a Presidente da Rússia enquanto desejado do embriagado Yeltsin e com 40 milhões de votos, que passariam a 70 por cento do eleitorado para a recondução em 2004. E chegou depois de menos de um ano como primeiro-ministro (Agosto 1999 a Maio de 2000), a que, por sua vez, chegou depois de outra breve passagem pela direcção do FSB (Julho 1998 a Agosto 1999, a convite de Yeltsin), a secreta russa substituta do KGB soviético, organização esta para onde foi primeiro recrutado ou se voluntariou — as fontes divergem — no ano de 1975, quando ingressou na universidade, e da qual esteve afastado entre 1991 e 1998.

A 8 e 13 de Setembro de 1999 ocorreram os Atentados de Moscovo. Primeiro, um prédio de habitação de nove andares/108 apartamentos é arrasado por 300 ou 400 quilos de explosivos detonados no piso térreo, matando 94 pessoas e ferindo 150, numa autêntica implosão demasiado incaracterística de atentado. Depois, outro edifício igualmente grande é arrasado da mesma forma, vitimando 118 e ferindo mais de 200. Pode-se acrescentar à contabilidade os 64 mortos em Buynaksk, no dia 4 do mesmo mês e ao estilo de carro-bomba em zona residencial, e mais quase duas dezenas no dia 16, em Volgodonsk.

Na sequência destes acontecimentos o primeiro-ministro Putin ordena um ataque à Chechénia, cujos nacionalistas estariam por detrás dos atentados em solo russo, dando início ao que se conhece como a Segunda Guerra da Chechénia.

Existe uma tese de que os Atentados de Moscovo terão sido uma operação negra do FSB, a secreta russa, para legitimar o ataque à Chechénia e precipitar a queda de Yeltsin e a tomada do poder por Putin.

Aleksander Litvinenko, agente do FSB desde a década de 80 até aos anos 2000, e obviamente durante a direcção de Putin, sustentou essa mesma tese pouco depois dos acontecimentos — anos mais tarde escreverá dois livros sobre isso, a corrupção generalizada no serviço e a agência enquanto máquina de poder pessoal do Poder. Para além de, juntamente com outros oficiais do FSB, ter denunciado outras acções, procedimentos e operações daquela agência à moda soviética, com muita corrupção e assassinatos pelo meio. Como a encomenda do assassinato de Boris Berezovsky — que não é nenhum santo, mas isso fica para depois —, um milionário russo que Litvinenko teve a incumbência de proteger enquanto aquele esteve no cargo de Secretário do Conselho de Segurança, e personalidade próxima do então presidente Yeltsin, passando-se isto no ano de 1998 e sob a direcção de Putin no FSB.

Não tendo cumprido a ordem, obviamente Litvinenko foi expulso do FSB, preso, julgado, absolvido e preso novamente na sala de audiência no momento seguinte à leitura da sentença da absolvição, sob acusações de ter agredido prisioneiros de guerra e roubado explosivos na primeira campanha da Chechénia. Após um mês na prisão foi libertado mediante a assinatura de um compromisso de não sair do país, que não cumpriu.

Andou fugido pela Turquia, Ucrânia, Turquia novamente e até chegar a Londres, onde pediu asilo político em pleno aeroporto de Gatwick no dia 1 de Novembro de 2000, o que lhe foi concedido em Maio do ano seguinte.

Em Outubro de 2006 tornou-se cidadão britânico e no dia 5 de Novembro foi envenenado por uma substância radioactiva extremamente rara, Polónio 210, vaporizado para a loiça de chá que lhe foi servido num conhecido hotel londrino, num encontro com outros supostos dissidentes russos do FSB, entre os quais Andrei Lugovoi, que o Reino Unido quer ver extraditado para o poder acusar e julgar, sem contudo pressionar muito os calos porque isso é chato, e que a Rússia protege e cuja extradição recusa. Litvinenko definhou lentamente durante 18 dias, até morrer sem se conhecer a causa concreta, descoberta apenas semanas depois.

Tudo isto é, no mínimo, interessante. E tem contornos que calham bem à lógica da dedução. Como mais este facto: a jornalista russa Anna Politovskaya, que escreveu sobre a dissidência de Litvinenko, sobre as guerras da Chechénia, sobre o massacre de Beslam, sobre o caso Kursk, etc etc, apareceu morta com quatro tiros no peito, à porta de casa, em Moscovo, no dia 7 daquele Novembro. Mas há muitos outros casos de jornalistas ou simples críticos ou opositores assassinados, à laia de, como diz um general soviético em sessão de doutrinação, em “Rebellion, The Litvinenko Case”, que «os traidores do regime devem ser abatidos como cães raivosos». É que a Rússia ocupa o 144º lugar da lista sobre liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras, entre 169 países. E ditaduras assumidas na Europa só conheço a da Bielorrússia, que aparece mais mal classificada.

Porque Vladimir Putin esteve esta semana em Lisboa, com o coletinho de kevlar por debaixo do fato e a sua limusina Mercedes blindada. Porque vi “Rebellion, The Litvinenko Case”. Porque conversei com o realizador, Andrei Nekrasov. Porque essa sessão pública pós-projecção no Doc Lisboa foi muitíssimo participada e interessante. Porque esta semana, curiosamente, me deparei com detalhes do caso que não conhecia. Porque ontem um jornal inglês também veio deitar mais umas achas na fogueira — que Litvinenko terá sido sustentado pelo MI6 enquanto em Londres.

Porque o futuro da Europa joga-se, efectivamente, a Leste no continente e não na prevenção infundada de uma ameaça de mísseis e bombas nucleares por Estados muçulmanos. Porque a Rússia parece terrivelmente congelada, há já mais de cem anos, a fazer lembrar a passividade do feudalismo, sem querer puxar ao argumento da “predisposição genética para a servidão e escravatura”, que ouvi algures, e não obstante reconhecer que é dos movimentos populares aparentemente adormecidos que brotam as revoluções enquanto mudanças estruturais. Porque os tiques autoritários são mais do que tiques — isso é o que temos por cá, com a polícia a visitar sindicatos na véspera de manifestações. Ou simplesmente porque esta semana, tendo começado a dar notícias ao país, me tenha visto na obrigação de compreender melhor estes assuntos, todos os assuntos. Porque há alguma responsabilidade nisto tudo, não há? Há. Só espero que o José Manuel Fernandes, no Ípsilon desta semana, esteja enganado.

Sobre o caso Litvinenko.
Sobre o documentário.
E o resto está no Google...

Aleksander Litvinenko, por uma TV holandesa

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Sem filosofia




“Janela da Alma” (2001), de João Jardim e Walter Carvalho.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007



Well it's been a long time, long time now
Passava pouco das duas da manhã quando decidiste vir, afinal, e eu abri a porta para ficarmos num abraço demorado, sem palavras, tu soluçando e apertando-me com os braços a toda a volta do meu tronco, eu passando a mão no teu cabelo comprido e afagando as tuas costas por cima do casacão vermelho, mudo.

Trouxe água morna num pequeno alguidar de plástico azul escuro, e uma toalha. Descalcei-te as sabrinas brancas sem que reagisses e só te senti um breve arrepio quando passei a toalha humedecida no teu pé de menina, as unhas pintadas de vermelho, a tua pele morena de chocolate, para tentar aliviar-te a dor e um dia longo demais, duro demais, em que não andaste nas nuvens ou sobre algodão, como deverias, e como sempre parece de cada vez que te vejo ao longe a caminhar para mim ou naquela noite em que passei no eléctrico pachorrento ali à curva da geladaria e tu descias a rua num passo apressado, e o teu casacão vermelho.

Primeiro um, depois o outro, pela palma, do calcanhar aos dedos, pequeninos, do peito ao tornozelo, subi-te um pouco as calças com duas dobras e olhavas o vazio, imóvel, quando te beijei a pele muito levemente e disse, levantando-me com a toalha numa mão e o pequeno alguidar de plástico azul escuro na outra, “Deita-te na cama, descansa. Mesmo que não tires essa roupa, recosta-te e fecha os olhos”.

Deixei apenas a luz ténue do foco de leitura do candeeiro alto à cabeceira, sentei-me contigo e peguei no livro, naquela indiferença falseada que queria somente era que adormecesses. “Não sei se quero dormir”, disseste sem me olhar, com uma voz de garganta dorida por um dia longo demais, duro demais, mas recheado de poucas palavras. “Não faz mal. Chega-te perto de mim, logo se vê”, e encostaste a cabeça à minha anca e a tua mão na minha perna, as tuas ligeiramente arqueadas, as calças de ganga acinzentada da luz e os teus pés morenos com as unhas pintadas de vermelho no contraste com o edredão.

«A população queixa-se da dureza das condições de vida — verdadeiramente espartanas. Os traços de miséria são visíveis. A emigração da área agravou-se e, por toda a parte, vêem-se aldeias e terras abandonadas. Agentes de Belgrado percorrem, após o assalto croata, as aldeias de Plaski, tentando convencer a população a abandonar essa zona e a “colonizar” as áreas limpas de muçulmanos no Noroeste ou no Leste da Bósnia.», que foi quando te deixaste dormir, eu te cobri com um lençol fino e peguei no telefone para escrever ao Pieter, sentado no pufe castanho junto à parede do fundo da sala, do outro lado do corredor pequeno, a porta aberta olhando o quarto: “hoje não vou à agência, trabalho a partir de casa, liga-me de manhã”.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Da doutrina do choque

É também o título do último livro de Naomi Klein, jornalista canadiana, que sumariza nesta curta-trailer, com o mexicano Alfonso Cuarón. Diz que anda a ser mostrada por aí, em festivais e coisas. A dica foi deste senhor.

domingo, 14 de outubro de 2007

Ela tinha água, mas só lhe dava melancia
Vejo cinema japonês pela mesma razão que vejo português, francês ou alemão: à procura de algo diferente de Hollywood. Por isso fui ver “O Sabor da Melancia”, de um profícuo cineasta de Taiwan, de que não conheço mais nada, Tsai Ming-Liang. E fui sem ler mais do que a sinopse: «Erótico, musical e lúbrico (...) uma história de amor em tempo de seca e de uma obsessão por melancias. Taiwan sofre uma terrível falta de água. Os canais de televisão aconselham a população a economizar e a beber sumo de melancia (...)» O que encontrei foi diferente de tudo o que havia visto até então. E a senhora que estava a umas cadeiras de mim, escondia-se com embaraço; o rapaz à minha frente não se movia; no casal atrás, ela fazia perguntas parvas — «onde é que é isto?» «que água é aquela?» — e ele tentava responder; o grupo lá de trás falava alto.

A solidão é um dos temas da fita e as personagens estão sempre sozinhas no ecrã e desencontradas entre si. O aspecto cómico é dado pelos momentos musicais, coloridos e divertidos nas coreografias e nas temáticas erótico-pornográficas, bem como na questão da escassez de água e forma como é explorada ao longo de todo o filme, e pontualmente no papel que é dado à melancia. Não tendo a pornografia nada de cómico, consegue fazer-nos rir, até à trágica cena final, em que somos esbofeteados. Há, portanto, uma pornografia não explícita (?).

Ela recolhe garrafas plásticas do lixo, para armazenar água. Ele é actor pornográfico. Encontram-se e apaixonam-se. Não se envolvem fisicamente, apenas cozinham juntos. Ela mata a sede com água, que esconde, e só lhe oferece sumo de melancia. Ele sofre uma “crise de vocação”, deixando de conseguir desempenhar o seu papel com as colegas actrizes. Uma delas morre, supõe-se de sede — recordem-se da seca em Taiwan —, e é encontrada por Ela. Mesmo morta, continua-se o filme. Ela descobre, finalmente, o que Ele faz para ganhar a vida, e assiste à cena. Ele vai fazendo-o, a custo. Os olhares cruzam-se e Ele ganha fôlego. O filme, a cena, e a cena, terminam com um longo e trágico abocanhamento — pessoalmente, acho que Ela morre sufocada.

“O Sabor da Melancia” não é mau. É muito diferente.

Desilusão, desilusão
A curta-metragem “China China”, de João Pedro Rodrigues (realizador de “Odete”) e João Rui Guerra da Mata, «conta a história de uma rapariga chinesa que vive em Lisboa e sonha com Nova Iorque, no microcosmos que é o Martim Moniz», e embora se diga que é «uma das mais belas curtas da produção portuguesa recente, apresentada nos festivais de Cannes, Vila do Conde e Indie Lisboa», é extraordinariamente vazia e má. A história conta-se num monólogo; a encenação é excessiva; «Olá piolho», para além de ser uma das quatro ou cinco frases que ouvimos da protagonista, não será o que uma mãe chinesa imigrante diga pela manhã ao seu filho nascido em Lisboa. E depois tudo termina com o miúdo matando a mãe acidentalmente, com um tiro certeiro no peito. Não havia necessidade de isto ter financiamento estatal.

Afinal tem miolo
Gastei dois euros na revista Time Out Lisboa e não me arrependo. O aspecto gráfico não se coaduna com a pretensão urbana/life style/na moda que a revista encerra, chega a ser enfadonho e a remeter para a Pública ou Notícias Magazine do princípio da década. O registo de linguagem oscila entre o descontraído/metido-jovem e pretenso cómico/Gato Fedorento. O conteúdo é leve, levezinho nalgumas páginas. Tem a melhor fotografia que vi nas dezenas de entrevistas feitas a Paul Auster na semana passada. Mas, caramba, parece ter verdadeira crítica de restaurantes!
Apreciador confesso do género, embora não consuma títulos dedicados, durante anos li as apologéticas e exaustivas-da-entrada-ao-charuto críticas gastronómicas de João Gobern no DN; depois, os tesouros de bom português com restaurantes pelo meio, de Miguel Esteves Cardoso, também no DN; a espaços compro a edição de fim-de-semana do Financial Times e leio sobre onde nunca irei jantar; mas tudo isto sempre muito elogioso e gabatório. Até chegar ao texto de Lourenço Viegas sobre o Vinotinto, neste terceiro número da Time Out.

«O Vinotinto, na nova praça de touros do Campo Pequeno, é o reino do parecer. Parece uma enoteca, mas o vinho ficou esquecido no nome e nas paredes; parece um restaurante espanhol, mas mistura comida de Espanha com entradas de Itália e saladas de aeroporto; parecem simpáticos, mas nunca nos deixam sentar nas mesas que nos apetece; parece agradável e confortável, mas saímos cansados e com o rabo a doer dos bancos. (...) O que me parece é que é tempo de deixar de haver restaurantes de franchising a trinta euros por pessoa. E, por favor, para a próxima não me obriguem a ficar na mesa ao lado da casa de banho tendo mais de meio restaurante vazio. Vá lá.»

Não é por estar a botar abaixo que gosto desta crítica. É por ser sincera e directa. Por ser simples, sem as notas de prova dos vinhos ou análise microscópica dos pratos e dos paladares. E por apontar para o que é novo e — pelo menos neste número — “de massas”, sem mais critérios, ao invés de preferir o que é de requinte e apenas para alguns, ou de assinatura mais do que reconhecida, naquele nacional porreirismo de palmadinha nas costas e são sempre os mesmos. Para ver se se mantém assim nos próximos números.

sábado, 6 de outubro de 2007

Ao Santana Lopes


















O que tu queres sei eu...

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Maratonas de Outono