Basileia ao jantar, Chimarrão ao almoço – dias 19 e 20 – o fim
Para chegar a Basileia, de onde voaríamos para Lisboa, tínhamos de atravessar a Alemanha em três etapas que durariam onze horas, a primeira das quais de Praga até Dresden. Às quatro e dezassete da madrugada subimos a bordo e tentámos procurar um compartimento livre sem incomodar demasiado quem já estava em viagem e a dormir, abrindo as portas com cuidado e afastando as cortinas somente o suficiente para perceber se havia quatro lugares disponíveis. Foi aí que a cabeça de um fulano meio careca, usando sandálias com meias cinzentas e óculos de lentes e armação grossas, apareceu de repente por entre as portas que tínhamos fechado e acenou para que entrássemos, que foi o que fizemos.
Com as luzes do compartimento sempre apagadas, arrumámos as mochilas, preenchemos o bilhete e sentámo-nos para descansar os olhos. Eu fiquei à janela, no sentido da marcha do comboio; à minha frente o passageiro; ao lado dele com uma cadeira de intervalo ficou o Rui; ao meu lado a Joana e o Pedro. O fado repetiu-se e eu fui ouvindo música repisada no meu leitor de MP3 portátil manhoso e com pouco por onde escolher durante as primeiras duas horas, enquanto todos dormiam e eu ia trocando as pernas com ginástica, para não tocar e acordar o senhor. Com a primeira claridade do dia, o passageiro puxou d’O Livro e começou a ler, intercalando os parágrafos com olhadelas à Joana. Ninguém me diz que ele não estava a combater uma tentação... Depois rezou. Depois comeu. E depois nós saímos e ele continuou, sempre sem trocarmos uma palavra.
Em solo germânico, dividimo-nos novamente. Eles foram espreitar as imediações da estação de Dresden, eu e a Joana preferimos tomar o pequeno almoço sentados na estação e aproveitar para escrever mais um pouco. O comboio para Frankfurt sairia às nove menos cinco e reencontrámo-nos já na linha, perto do modernaço ICE 1640 que, perante o frio insistente durante toda a viagem, valeu ao Rui uma boa pergunta: “sir, why is it so cold?” e uma bonita resposta do comissário de bordo: “it’s not cold, it’s the air conditioning”. Mas a coisa pioraria pouco depois, com a chegada de uma nova equipa de comissários e o anúncio de que o comboio seguia com meia hora de atraso. Um comboio atrasado no país do rigor? No país do espaço Schengen que valeu uma análise minuciosa e com direito a lupa ao meu passaporte, que não é o novíssimo electrónico, por parte do pastor alemão na fronteira da Checa com a Germânia? Perguntei à senhora quais eram as alternativa para chegarmos a Basileia e percebi que teríamos de esperar uma hora em Frankfurt e ainda fazer um transbordo extra em Mannheim, o que nos arrastaria a chegada a casa da Ana lá para as cinco ou seis da tarde. A Ana é a minha irmã do meio, temos dez anos de diferença.
Em Frankfurt dirigi-me à bilheteira para confirmar o novo plano de viagem e pedir o reembolso dos trinta e oito euros que tinham custado as quatro reservas do comboio que acabáramos de perder — tudo é caro na Alemanha. Aparentemente, para receber o dinheiro de volta só teria de preencher um formulário, deixar que copiassem a reserva e fornecer o meu número de conta internacional. Mas passar-se-ão semanas em Lisboa sem que o dinheiro tenha regressado, e passar-se-á a fase em que a cada dois dias eu olhava a cópia do pedido de reembolso para confirmar que não tinha errado nenhum dígito no meu IBAN.
Até Mannheim foi um tirinho e daí a Basileia mais três ou quatro horas, que também passaram rápido. Ou então estávamos todos tão fartos — mas mesmo fartos — de comboios que a amnésia tomou conta dessas horas. Viajámos separados, porque o comboio estava quase cheio e não conseguimos lugar para todos na mesma carruagem. Mas nem por isso nos enganámos na saída, porque em Basileia há a estação alemã e a estação suíça e principal, e era esta que queríamos, a Basel SBB. Das duas vezes que estive na cidade aquela estação sempre me pareceu extremamente movimentada para a dimensão das instalações — era perto das seis da tarde —, mas curiosamente gostei, gosto, do ambiente. Porque tem um mini Coop, o supermercado que se encontra a cada esquina, porque tem lojas de chocolates, de electrodomésticos, de roupa, e vendedores ambulantes de queijo, asseados. Comprar queijo na Suíça é diferente de o fazer em qualquer outra parte do mundo — excepto Paris, talvez, mas nunca lá estive —, porque a oferta é imensa, há queijos de tudo e com tudo, e o cliente pode e deve provar antes de decidir levar, e se forem dois não há problema, dá-se a provar duas falhinhas do produto. Falhinha é o diminutivo de um termo algarvio para fatia. O Rui sabe do que falo.
Depois de trocar o que restava de dinheiro croata e checo por francos suíços, e não conseguir trocar os dinares sérvios, chegámos a casa da Ana, que fica a menos de dez minutos da estação, numa zona de moradias e prédios de apenas dois andares. Feitas as apresentações e tomados os banhos, jantámos frango assado, arroz branco, batatas fritas de pacote, salada de espinafres, um tinto alentejano de reserva e gelados Mövenpick, provavelmente os melhores do planeta. A minha irmã Ana foi como uma mãe e recebeu-nos muito bem. Em troca, falámos pouco ou nada, não tirámos nenhuma fotografia juntos, demos uns poucos abraços para esquecer a saudade de seis meses, e depois ainda a fomos levar a casa de uma amiga, onde dormiria aquela noite — até isso ela fez por nós: deixou-nos à vontade na sua casa.
Depois levei os rapazes a ver as correntes fortíssimas que o Reno tem ali, a espreitar as pontes, passar pela zona dos bares que estavam vazios ou fechados, e a andar um bom pedaço, porque no regresso a casa me enganei e meti por umas ruas que não eram as que eu queria. Mas chegámos. Bastante tarde, caímos todos no sono logo de imediato e quando às seis da matina os despertadores começaram a tocar, ninguém quis acreditar. Era cedo demais, ainda estava escuro, lá fora tinha acabado de chover e tínhamos que nos apressar para chegar ao aeroporto de Basileia, curiosamente em solo alemão.
Feito o check-in, tomámos o pequeno almoço nos bancos do aeroporto para gastar as últimas moedas. E tudo passou muito rápido. Quando demos por nós tínhamos embarcado; o Pedro estava ansioso pela sua estreia nos ares; o Rui comentava comigo a assistente de bordo morena de olhos azuis; o Pedro debruçava-se sobre o assento para me ver, na fila da direita, e perguntar se aqueles barulhos eram normais; eu debruçava-me em resposta e acenava que sim; vimos a Costa da Caparica e o Cristo Rei; aterrámos e houve quem batesse palmas; esperámos uma boa meia hora pelas malas; deixámos a Joana com a família, que a tinha ido buscar, no dia de aniversário do pai; e eu, o Pedro e o Rui fomos para o único sítio onde poderíamos ir, o Chimarrão, onde entrámos ainda antes do meio-dia. Depois de nos fazermos de coitadinhos e esfomeados, que vimos de tão longe com a mochila às costas, de provar cerveja a sério pela primeira vez em vinte dias e nove países, e de eu esquecer a carta que prometera escrever ao Inter-Rail, reclamando por não explicarem com seriedade que não são “só alguns” comboios que combram taxas extra, mas a maioria, separámo-nos no metro. Eles foram para os expressos em Sete Rios, eu segui para o Cais do Sodré. Atravessar o rio num ferry ao sol de mais de trinta graus, a ouvir o barulho do casco a cortar o Tejo, foi quanto bastou: estava, estávamos todos, em casa.
quarta-feira, 3 de outubro de 2007
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
Praga, o reencontro (e com as calças também) – dias 16, 17 e 18
Pareceu-me ver passar a Anna na estação, à chegada. Mas também é muito provável que tenha sido do cansaço. Afinal, eram cinco e quanto da manhã? Desde o ano passado, quando nos conhecemos em Praga, que lhe tinha prometido um reencontro quando fosse a Budapeste, mas dias antes trocámos mensagens e eu logo avisei que afinal estaria só de passagem pela estação. A Anna é russa, loira e branquinha como as russas, e trabalha como jornalista na televisão húngara.
Descemos do comboio sem pressa, à conversa com o finlandês solitário a quem tinha calhado uma couchette cheia de malta jovem e faladora, e passámos por aquele que seria o nosso comboio de ligação a Praga, estacionado na linha, do qual demos conta pelo pequeno quadro electrónico à porta de uma das carruagens, com a indicação do destino e a hora de partida. Puxei da bolsa a folha onde tinha apontado os horários dos comboios e percebi o erro: a ligação era duas horas mais cedo do que eu vinha assegurando, e dali a cinco minutos. Procurámos um pica junto à composição, que era enorme, mas não encontrámos nenhum e segundo a cábula aquele Euro City requeria reserva. Honestos, fomos à bilheteira internacional e depois de esperar bastante na fila, o bilheteiro feio, antipático e com cabelo à tigela lambido, anunciou que os húngaros são uns mãos largas e não cobram taxas nenhumas a quem viaja por inter-rail, respondendo à nossa desconsolada pergunta “so, we missed the train?” com um sarcástico “yes, you missed the train”.
Profundamente chateados por saber que chegaríamos a Praga perto das seis da tarde e não à uma, encontrámos uma casa de banho para a Joana mudar de roupa e agasalhar as pernas, tentámos trocar os meus dois mil e seiscentos dinares sérvios num balcão da Western Union, onde perante a antipatia da gaja que estava para lá do vidro do guichet, a Joana perdeu a cabeça e quase lhe quis bater, e depois fomos para o MacDonalds em frente da estação, para aceder à internet. A cem forints por cada vinte minutos, consultámos o email, reservámos um hostel no centro de Praga e eu escrevi no blogue pela primeira vez desde o início da viagem, sobre aquelas horas terroríficas em Budapeste.
Ao nosso lado no MacKiosk estava um homem vestido de preto, que tresandava a perfume e por isso o apelidei de “o cheiroso”. Eu não tinha nada contra o cheiroso. Até precisar ir à casa de banho do restaurante para um chichi, porque seguramente estaria mais limpa que a da estação. À entrada reparei na porta aberta de um dos cubículos, onde estava encostada uma mochila, e ouvi o que não queria ouvir: alguém estava desarranjado e a borrar-se, repetidamente. Fiz o que tinha a fazer e enquanto estava debruçado a lavar as mãos, olhei o espelho em frente e vi o cheiroso sair daquele preciso cubículo e colocar-se atrás de mim, mas porque eu devo ter demorado mais cinco segundos do que ele estaria disposto a esperar, saiu sem lavar as manápulas. As mesmas que, quando saí dos lavabos, já estavam a teclar novamente num dos computadores do MacKiosk. Nojento.
No comboio para Praga eu e a Joana estávamos de rastos. Eu, que não durmo em transportes, não conseguia manter-me acordado e com ela foi igual, até chegar aquela fase da viagem em que as sete horas do percurso pareciam não acabar e tivemos de passear pelas carruagens para nos entretermos e manter acordados. Foi aí que decidimos contar ao Pedro e ao Rui em Praga a segunda e última mentira da viagem, de que teríamos visto o Nuno Markl naquele comboio — perante a qualidade do sósia e uma prova material, não resistimos. Quem não acreditaria?
Para a Joana, ir a Praga significava regressar à “sua” cidade, oito meses depois de a ter deixado, e isso via-se no desembaraço e exigência em ser ela a comprar os bilhetes para o metro e a liderar o caminho, nos olhos húmidos e no sorriso tímido mas apaixonado, que lhe conheço, ao ler e ouvir a indicação de cada uma das paragens. Para mim, que também conhecia a cidade por lá ter passado umas três semanas no último Agosto, quando toda a Europa foi varrida por uma vaga de calor que nada tinha que ver com os vinte e poucos graus que sentiríamos durante os três dias de estadia, o que ditou que não mais andássemos de pernas ao léu e que o Pedro adoptasse de vez os ténis, era o início do regresso a casa, numa cidade que me era familiar. Desde a Croácia que eu perdia o alento de cada vez que reconhecia ter de viajar noutro comboio, em campanhas nunca inferiores a cinco horas, e por estar constantemente afastando-me de Lisboa.
Por outro lado, e como tínhamos planeado tratar-nos bem na última etapa, foi tempo de descanso e de passar em revista as três semanas de viagem e recordar alguns pormenores. Como aquele supermercado em Hvar que nalguns sítios tinha menos de trinta centímetros entre as estantes com os produtos e os pilares da casa. Como eu ter acumulado, sem querer, quase todos os postais que comprei e escrevi durante a viagem, para enviar a partir de Praga — talvez pelos selos colados por cima de outros, alguns nunca tenham chegado ao destino. Como aquela noite, já não me lembro onde, em que formulei a teoria de que o turismo inglês na Praia da Rocha é de “pé descalço” e que as “bifas” que por lá andam são em grande percentagem feias e a atirar para o gordo, axioma a que chamei “as inglesas da Praia da Rocha são as filhas dos motoristas da Carris de Londres”, que valeu ao Pedro um daqueles seus ataques de riso estranhos em que ele solta um guincho, fica vermelho e de boca aberta, e despenteia-se descontroladamente. Ou como o Rui, que tinha vindo para a viagem com uma bola de futebol, que pacientemente transportou à mão dentro de um saco plástico do Continente durante três semanas, ter deixado de tentar jogar à bola nas estações de comboio logo depois de tentativas frustradas pelos vigilantes de serviço em Badajoz, Madrid, Barcelona, Cerbere e Montpellier — ao cabo de três dias, portanto.
Depois de jantar com a Joana num restaurante que ela conhecia perto do Museu Nacional, fomos esperar o Rui e o Pedro à estação, com o Pavel, um checo amigo. O comboio deles chegou com mais de quarenta minutos de atraso, perto das dez da noite, e não me espantou ver o Pedro descer a sorrir e o Rui acompanhado de uma rapariga loira com um vestido bastante curto — reforço: bastante curto. A Carol era irlandesa, tinha apenas 18 anos e um sorriso mesmo de menina. Havia deixado os amigos com quem viajava para ver Praga, e perante aquela candura solitária no comboio, o Rui achou por bem poupá-la ao desconhecido e levá-la para o nosso quarto no hostel, onde havia pelo menos mais três camas livres. Para mim e para o Pedro foi quanto bastou para nos divertirmos o resto da noite a gozar com ele, depois de passear pela baixa da cidade, levar os rapazes a uma casa de pizzas à fatia, olhar o relógio na praça central da baixa, passar a Ponte de Carlos para a outra margem, regressar e perder imenso tempo procurando um bar onde beber umas canecas de cerveja.
Quando acordámos já a Carol tinha ido embora sem se despedir, nem mesmo do Rui. Então fomos almoçar goulash num restaurante onde a empregada ficou furiosa ao recusarmos o menu inglês, porque a Joana queria recordar o checo, o suficiente para a tipa e os checos em geral acharem que assim o turista vai é escolher os pratos mais baratos e poupar nas coroas. Enganaram-se e enganam-se redondamente, porque nós queríamos gastar algum dinheiro e porque a República Checa é um destino relativamente barato para um português, o que dispensa comentários para norte-americanos ou ingleses. Os empregados de mesa checos não gostam de quem não deixa gorjeta, o que até se percebe porque os salários deles são baixos e eu acho que em Portugal é que esse comportamento social não está assim tão enraizado — deixámos trocos. E por falar em salários baixos, ainda encontrarei quem confirme que aqueles acompanhamentos típicos dos pratos checos, umas fatias de massa de pão ou de batata, os knedliky, são uma herança histórica dos tempos de fome, em que o que importava era encher a barriguinha.
O resto do dia foi passado a caminhar pela baixa da cidade, pelo bairro judeu, pela Ponte de Carlos repleta de gente, pelo castelo e numa subida à pequena réplica da torre Eiffel, no cimo de um morro de onde se vê toda a cidade até ao horizonte. Eles subiram ao topo, eu fiquei-me pelo primeiro piso. Foi por essa altura que o Pedro e o Rui elegeram Praga como a cidade mais bonita onde tinham estado, o que se percebe. A cidade mistura a monumentalidade a cada esquina com a funcionalidade — da planície em que foi construída, propícia à caminhada, do bom sistema de transportes públicos, e de uma aparente vida própria alheia ao turismo — e tudo parece fluir. E estar de passagem durante poucos dias com alguém que lá viveu uma temporada foi uma vantagem. Só assim pudemos passar umas horas descontraídas no Bohemian Bagels, uma casa com óptimos bagels, um brownie de chocolate divinal e café expresso digno desse nome para os padrões da Europa de Leste, ao som de boa música embalando a conversa ou a escrita no meu caderninho castanho. Esta história, que agora se aproxima do final, começou sendo escrita num pequeno Moleskine de bolso com trinta e duas folhas pautadas cozidas com um fio de linho castanho claro a uma capa de cartão fino e mole da mesma cor, onde escrevi com a minha Lakubo preta de ponta zero-sete, a única que não borra o papel daquela marca.
Nessa noite jantámos num dos restaurantes mais concorridos de Praga, de que não recordamos o nome nem, muito sinceramente, o que comemos. O Rui partilhou comigo um vinho branco francês mediano e no final passou um quarto de hora cheirando o pouquíssimo Porto Tawny que lhe serviram num balão. O Pedro gostou do tabaco checo que comprou. E a Joana bebeu mais uma San Pellegrino, a melhor água gasocarbónica do planeta — não se encontrar San Pellegrino nos supermercados portugueses é uma heresia.
Na prática passámos só dois dias em Praga e o segundo teve ainda mais de ócio e repouso que o primeiro. Não para as pernas, porque continuámos andando muito, mas para o resto do corpo. Nestas vinte e quatro horas finais acho que pouco mais fizemos do que procurar uma tshirt de turista para o Pedro, jantar pizzas no Tesco, o supermercado onde a Joana tentou comprar as coisinhas todas a que tinha sido habituada e de que queria levar um pequeno carregamento para Lisboa, e convencer o dono de um sports bar a ceder a televisão mais pequenina que tinha, à entrada do bar, para o Benfica 1 – Copenhaga 0, no dia em que todos os bares do género estavam cheios com jogos dos dois clubes da cidade, o Sparta e o Slavia. O Pedro e o Rui são doentes por futebol. Sempre que usámos a internet ao longo da viagem a primeira paragem de qualquer um deles foi o site d’A Bola. Para além das mensagens diárias de amigos e pais com as mais frescas das lesões ou a novela “Fernando Santos sai, José António Camacho regressa”. Por isso não se estranhou o grito do Pedro quando o Benfica marcou. Mas bem que podiam ter mostrado alguma iniciativa na marcação de dormidas ou pesquisa de horários de comboios.
Depois do jogo passámos tempo no hostel até a sala de convívio fechar, à meia-noite, altura em que rumámos ao MacDonalds 24h para passar mais tempo até cerca das quatro da madrugada, quando partiria o comboio que nos levaria a Dresden, para finalmente terminarmos na Suíça. A discussão sobre as normas de vestuário em contextos institucionais, ou simplesmente sobre por que razão a Joana tinha sido impedida de entrar na igreja em Padova, ou por que raio é que eu acho que não se deve ir para a universidade em calção (de banho ou similar) e chinelo, azedou e deu direito a amuo do Rui, até Frankfurt.
Pareceu-me ver passar a Anna na estação, à chegada. Mas também é muito provável que tenha sido do cansaço. Afinal, eram cinco e quanto da manhã? Desde o ano passado, quando nos conhecemos em Praga, que lhe tinha prometido um reencontro quando fosse a Budapeste, mas dias antes trocámos mensagens e eu logo avisei que afinal estaria só de passagem pela estação. A Anna é russa, loira e branquinha como as russas, e trabalha como jornalista na televisão húngara.
Descemos do comboio sem pressa, à conversa com o finlandês solitário a quem tinha calhado uma couchette cheia de malta jovem e faladora, e passámos por aquele que seria o nosso comboio de ligação a Praga, estacionado na linha, do qual demos conta pelo pequeno quadro electrónico à porta de uma das carruagens, com a indicação do destino e a hora de partida. Puxei da bolsa a folha onde tinha apontado os horários dos comboios e percebi o erro: a ligação era duas horas mais cedo do que eu vinha assegurando, e dali a cinco minutos. Procurámos um pica junto à composição, que era enorme, mas não encontrámos nenhum e segundo a cábula aquele Euro City requeria reserva. Honestos, fomos à bilheteira internacional e depois de esperar bastante na fila, o bilheteiro feio, antipático e com cabelo à tigela lambido, anunciou que os húngaros são uns mãos largas e não cobram taxas nenhumas a quem viaja por inter-rail, respondendo à nossa desconsolada pergunta “so, we missed the train?” com um sarcástico “yes, you missed the train”.
Profundamente chateados por saber que chegaríamos a Praga perto das seis da tarde e não à uma, encontrámos uma casa de banho para a Joana mudar de roupa e agasalhar as pernas, tentámos trocar os meus dois mil e seiscentos dinares sérvios num balcão da Western Union, onde perante a antipatia da gaja que estava para lá do vidro do guichet, a Joana perdeu a cabeça e quase lhe quis bater, e depois fomos para o MacDonalds em frente da estação, para aceder à internet. A cem forints por cada vinte minutos, consultámos o email, reservámos um hostel no centro de Praga e eu escrevi no blogue pela primeira vez desde o início da viagem, sobre aquelas horas terroríficas em Budapeste.
Ao nosso lado no MacKiosk estava um homem vestido de preto, que tresandava a perfume e por isso o apelidei de “o cheiroso”. Eu não tinha nada contra o cheiroso. Até precisar ir à casa de banho do restaurante para um chichi, porque seguramente estaria mais limpa que a da estação. À entrada reparei na porta aberta de um dos cubículos, onde estava encostada uma mochila, e ouvi o que não queria ouvir: alguém estava desarranjado e a borrar-se, repetidamente. Fiz o que tinha a fazer e enquanto estava debruçado a lavar as mãos, olhei o espelho em frente e vi o cheiroso sair daquele preciso cubículo e colocar-se atrás de mim, mas porque eu devo ter demorado mais cinco segundos do que ele estaria disposto a esperar, saiu sem lavar as manápulas. As mesmas que, quando saí dos lavabos, já estavam a teclar novamente num dos computadores do MacKiosk. Nojento.
No comboio para Praga eu e a Joana estávamos de rastos. Eu, que não durmo em transportes, não conseguia manter-me acordado e com ela foi igual, até chegar aquela fase da viagem em que as sete horas do percurso pareciam não acabar e tivemos de passear pelas carruagens para nos entretermos e manter acordados. Foi aí que decidimos contar ao Pedro e ao Rui em Praga a segunda e última mentira da viagem, de que teríamos visto o Nuno Markl naquele comboio — perante a qualidade do sósia e uma prova material, não resistimos. Quem não acreditaria?
Para a Joana, ir a Praga significava regressar à “sua” cidade, oito meses depois de a ter deixado, e isso via-se no desembaraço e exigência em ser ela a comprar os bilhetes para o metro e a liderar o caminho, nos olhos húmidos e no sorriso tímido mas apaixonado, que lhe conheço, ao ler e ouvir a indicação de cada uma das paragens. Para mim, que também conhecia a cidade por lá ter passado umas três semanas no último Agosto, quando toda a Europa foi varrida por uma vaga de calor que nada tinha que ver com os vinte e poucos graus que sentiríamos durante os três dias de estadia, o que ditou que não mais andássemos de pernas ao léu e que o Pedro adoptasse de vez os ténis, era o início do regresso a casa, numa cidade que me era familiar. Desde a Croácia que eu perdia o alento de cada vez que reconhecia ter de viajar noutro comboio, em campanhas nunca inferiores a cinco horas, e por estar constantemente afastando-me de Lisboa.
Por outro lado, e como tínhamos planeado tratar-nos bem na última etapa, foi tempo de descanso e de passar em revista as três semanas de viagem e recordar alguns pormenores. Como aquele supermercado em Hvar que nalguns sítios tinha menos de trinta centímetros entre as estantes com os produtos e os pilares da casa. Como eu ter acumulado, sem querer, quase todos os postais que comprei e escrevi durante a viagem, para enviar a partir de Praga — talvez pelos selos colados por cima de outros, alguns nunca tenham chegado ao destino. Como aquela noite, já não me lembro onde, em que formulei a teoria de que o turismo inglês na Praia da Rocha é de “pé descalço” e que as “bifas” que por lá andam são em grande percentagem feias e a atirar para o gordo, axioma a que chamei “as inglesas da Praia da Rocha são as filhas dos motoristas da Carris de Londres”, que valeu ao Pedro um daqueles seus ataques de riso estranhos em que ele solta um guincho, fica vermelho e de boca aberta, e despenteia-se descontroladamente. Ou como o Rui, que tinha vindo para a viagem com uma bola de futebol, que pacientemente transportou à mão dentro de um saco plástico do Continente durante três semanas, ter deixado de tentar jogar à bola nas estações de comboio logo depois de tentativas frustradas pelos vigilantes de serviço em Badajoz, Madrid, Barcelona, Cerbere e Montpellier — ao cabo de três dias, portanto.
Depois de jantar com a Joana num restaurante que ela conhecia perto do Museu Nacional, fomos esperar o Rui e o Pedro à estação, com o Pavel, um checo amigo. O comboio deles chegou com mais de quarenta minutos de atraso, perto das dez da noite, e não me espantou ver o Pedro descer a sorrir e o Rui acompanhado de uma rapariga loira com um vestido bastante curto — reforço: bastante curto. A Carol era irlandesa, tinha apenas 18 anos e um sorriso mesmo de menina. Havia deixado os amigos com quem viajava para ver Praga, e perante aquela candura solitária no comboio, o Rui achou por bem poupá-la ao desconhecido e levá-la para o nosso quarto no hostel, onde havia pelo menos mais três camas livres. Para mim e para o Pedro foi quanto bastou para nos divertirmos o resto da noite a gozar com ele, depois de passear pela baixa da cidade, levar os rapazes a uma casa de pizzas à fatia, olhar o relógio na praça central da baixa, passar a Ponte de Carlos para a outra margem, regressar e perder imenso tempo procurando um bar onde beber umas canecas de cerveja.
Quando acordámos já a Carol tinha ido embora sem se despedir, nem mesmo do Rui. Então fomos almoçar goulash num restaurante onde a empregada ficou furiosa ao recusarmos o menu inglês, porque a Joana queria recordar o checo, o suficiente para a tipa e os checos em geral acharem que assim o turista vai é escolher os pratos mais baratos e poupar nas coroas. Enganaram-se e enganam-se redondamente, porque nós queríamos gastar algum dinheiro e porque a República Checa é um destino relativamente barato para um português, o que dispensa comentários para norte-americanos ou ingleses. Os empregados de mesa checos não gostam de quem não deixa gorjeta, o que até se percebe porque os salários deles são baixos e eu acho que em Portugal é que esse comportamento social não está assim tão enraizado — deixámos trocos. E por falar em salários baixos, ainda encontrarei quem confirme que aqueles acompanhamentos típicos dos pratos checos, umas fatias de massa de pão ou de batata, os knedliky, são uma herança histórica dos tempos de fome, em que o que importava era encher a barriguinha.
O resto do dia foi passado a caminhar pela baixa da cidade, pelo bairro judeu, pela Ponte de Carlos repleta de gente, pelo castelo e numa subida à pequena réplica da torre Eiffel, no cimo de um morro de onde se vê toda a cidade até ao horizonte. Eles subiram ao topo, eu fiquei-me pelo primeiro piso. Foi por essa altura que o Pedro e o Rui elegeram Praga como a cidade mais bonita onde tinham estado, o que se percebe. A cidade mistura a monumentalidade a cada esquina com a funcionalidade — da planície em que foi construída, propícia à caminhada, do bom sistema de transportes públicos, e de uma aparente vida própria alheia ao turismo — e tudo parece fluir. E estar de passagem durante poucos dias com alguém que lá viveu uma temporada foi uma vantagem. Só assim pudemos passar umas horas descontraídas no Bohemian Bagels, uma casa com óptimos bagels, um brownie de chocolate divinal e café expresso digno desse nome para os padrões da Europa de Leste, ao som de boa música embalando a conversa ou a escrita no meu caderninho castanho. Esta história, que agora se aproxima do final, começou sendo escrita num pequeno Moleskine de bolso com trinta e duas folhas pautadas cozidas com um fio de linho castanho claro a uma capa de cartão fino e mole da mesma cor, onde escrevi com a minha Lakubo preta de ponta zero-sete, a única que não borra o papel daquela marca.
Nessa noite jantámos num dos restaurantes mais concorridos de Praga, de que não recordamos o nome nem, muito sinceramente, o que comemos. O Rui partilhou comigo um vinho branco francês mediano e no final passou um quarto de hora cheirando o pouquíssimo Porto Tawny que lhe serviram num balão. O Pedro gostou do tabaco checo que comprou. E a Joana bebeu mais uma San Pellegrino, a melhor água gasocarbónica do planeta — não se encontrar San Pellegrino nos supermercados portugueses é uma heresia.Na prática passámos só dois dias em Praga e o segundo teve ainda mais de ócio e repouso que o primeiro. Não para as pernas, porque continuámos andando muito, mas para o resto do corpo. Nestas vinte e quatro horas finais acho que pouco mais fizemos do que procurar uma tshirt de turista para o Pedro, jantar pizzas no Tesco, o supermercado onde a Joana tentou comprar as coisinhas todas a que tinha sido habituada e de que queria levar um pequeno carregamento para Lisboa, e convencer o dono de um sports bar a ceder a televisão mais pequenina que tinha, à entrada do bar, para o Benfica 1 – Copenhaga 0, no dia em que todos os bares do género estavam cheios com jogos dos dois clubes da cidade, o Sparta e o Slavia. O Pedro e o Rui são doentes por futebol. Sempre que usámos a internet ao longo da viagem a primeira paragem de qualquer um deles foi o site d’A Bola. Para além das mensagens diárias de amigos e pais com as mais frescas das lesões ou a novela “Fernando Santos sai, José António Camacho regressa”. Por isso não se estranhou o grito do Pedro quando o Benfica marcou. Mas bem que podiam ter mostrado alguma iniciativa na marcação de dormidas ou pesquisa de horários de comboios.
Depois do jogo passámos tempo no hostel até a sala de convívio fechar, à meia-noite, altura em que rumámos ao MacDonalds 24h para passar mais tempo até cerca das quatro da madrugada, quando partiria o comboio que nos levaria a Dresden, para finalmente terminarmos na Suíça. A discussão sobre as normas de vestuário em contextos institucionais, ou simplesmente sobre por que razão a Joana tinha sido impedida de entrar na igreja em Padova, ou por que raio é que eu acho que não se deve ir para a universidade em calção (de banho ou similar) e chinelo, azedou e deu direito a amuo do Rui, até Frankfurt.
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
Aos vinte e sete dias do mês de Setembro do ano de dois mil e sete
1. Acordei tarde e a pensar em assinaturas para empreendimentos imobiliários de hiper-luxo.
4. O vizinho deixou de ser bom vizinho e acabou o wireless à borla.
5. Não almocei.
6. Disse ao Fernando que três meses era tempo demais à espera sem ver resultados e que os exigia até ao final da semana — ligou-me quatro horas depois.
7. Cheguei à versão final da assinatura para o empreendimento imobiliário de hiper-luxo.
11. Pedi desculpa à Raquel, mas não ia dar.
12. Não consegui falar com o Paulo.
13. Falei com a Helena.
14. Confirmei o jantar com o João.
15. Fui comprar os espinafres, o alho moído e o vinagre balsâmico para a salada, antes de seguir para casa.
16. Fui alvo de um crime.
16.1. Não acreditei.
16.2. Era mesmo verdade.
19. Desmarquei o jantar com o João.
21. Conheci uma morena de olhos verdes, cabelo comprido, mãos bonitas de mulher e um sorriso daqueles que desarmam e contagiam — perante a situação caricata que me tinha acontecido, ela só ria e eu também.
24. Jantei, ou melhor, comi...
25. O João ligou-me e expliquei com mais detalhe o que se tinha passado.
27. Apresentei a minha primeira queixa-crime, por danos ao património e bens semi-públicos.
28. Estive quase para fazer como fez o Santana Lopes na SIC Notícias e sair a meio — mas estava a prestar um depoimento, e não a dar uma entrevista —, de tão ridícula que foi a situação.
29. Cheguei à conclusão que Portugal é um país de merda, por causa dos portugueses.
i) Porque estive numa esquadra da PSP,
a) onde só algumas luzes estão acesas, para poupar;
b) o Chefe confirma duas vezes as horas no seu Casio digital de pulseira metálica (cerca das 23h40), demora cinco minutos a arrumar as folhas brancas e em branco que estão em cima da secretária, e depois diz que posso entrar (o serviço dele acaba à meia-noite);
c) o computador encrava a cada ordem;
d) o Chefe esmurra o teclado de cada vez que o computador encrava a cada ordem;
e) o Chefe é o beirão barrigudo que já não aguenta o giro e por isso vai para a secretária;
f) diz que o Chefe é o “Graduado de Serviço”;
g) não quero imaginar como seria se não fosse “Graduado”;
h) o Chefe não sabe escrever português;
i) o Chefe não responde a estímulos simples, como perguntas;
j) o Chefe pára a olhar com muita atenção para menus que surgem no ecrã, como este: “Pretende gravar o registo? Sim, Cancelar”;
k) e tudo o que aparecer na série da RTP “Polícias”, algures da década de 90.
ii) Mas também porque fui alvo de um crime ridículo e ignóbil.
30. Conduzi até casa, do outro lado (deste lado) do rio, a sessenta quilómetros por hora e nem me chateei de percorrer o túnel do Marquês a quarenta.
31. Consegui um lugar em frente de casa.
35. Arrumei os espinafres no frigorífico, na gaveta, por detrás dos tomates; e o alho moído e o vinagre balsâmico no armário de cima à esquerda do lava-louça, depois de reparar que, afinal, tinha em casa por abrir um frasco de alho moído do Continente.
39. O vizinho continuou sendo mau vizinho.
40. Escrevi ao João, mais uma vez, a pedir desculpa pelo cancelamento do repasto e convívio.
43. Puta da insónia.
51. Na rua para onde deitam as janelas do meu quarto três polícias de giro interceptaram um Renault Express beige com três agarrados a bordo, não percebi porquê, dado que só fui à janela quando o barulho me incomodou.
52. O polícia careca e encorpado disse: “Eu só me apetece virá-lo!, pá...”
56. Os soldadinhos de chumbo regressaram à esquadra, ali na outra rua, depois de esperarem uns dez minutos pelo carro patrulha que não veio, e sem sequer identificarem os suspeitos.
57. Os agarrados seguiram viagem e gritaram, no cruzamento, a dobrar a esquina, “’LHA DA PUUUUTA!”
63. Um táxi estacionou em cima do passeio, na outra esquina, e o motorista e as três senhoras entraram no número cinquenta e qualquer coisa ímpar, porque não consigo ver daqui.
74. O relógio assinala 05h39 quando escrevo isto.
1. Acordei tarde e a pensar em assinaturas para empreendimentos imobiliários de hiper-luxo.
4. O vizinho deixou de ser bom vizinho e acabou o wireless à borla.
5. Não almocei.
6. Disse ao Fernando que três meses era tempo demais à espera sem ver resultados e que os exigia até ao final da semana — ligou-me quatro horas depois.
7. Cheguei à versão final da assinatura para o empreendimento imobiliário de hiper-luxo.
11. Pedi desculpa à Raquel, mas não ia dar.
12. Não consegui falar com o Paulo.
13. Falei com a Helena.
14. Confirmei o jantar com o João.
15. Fui comprar os espinafres, o alho moído e o vinagre balsâmico para a salada, antes de seguir para casa.
16. Fui alvo de um crime.
16.1. Não acreditei.
16.2. Era mesmo verdade.
19. Desmarquei o jantar com o João.
21. Conheci uma morena de olhos verdes, cabelo comprido, mãos bonitas de mulher e um sorriso daqueles que desarmam e contagiam — perante a situação caricata que me tinha acontecido, ela só ria e eu também.
24. Jantei, ou melhor, comi...
25. O João ligou-me e expliquei com mais detalhe o que se tinha passado.
27. Apresentei a minha primeira queixa-crime, por danos ao património e bens semi-públicos.
28. Estive quase para fazer como fez o Santana Lopes na SIC Notícias e sair a meio — mas estava a prestar um depoimento, e não a dar uma entrevista —, de tão ridícula que foi a situação.
29. Cheguei à conclusão que Portugal é um país de merda, por causa dos portugueses.
i) Porque estive numa esquadra da PSP,
a) onde só algumas luzes estão acesas, para poupar;
b) o Chefe confirma duas vezes as horas no seu Casio digital de pulseira metálica (cerca das 23h40), demora cinco minutos a arrumar as folhas brancas e em branco que estão em cima da secretária, e depois diz que posso entrar (o serviço dele acaba à meia-noite);
c) o computador encrava a cada ordem;
d) o Chefe esmurra o teclado de cada vez que o computador encrava a cada ordem;
e) o Chefe é o beirão barrigudo que já não aguenta o giro e por isso vai para a secretária;
f) diz que o Chefe é o “Graduado de Serviço”;
g) não quero imaginar como seria se não fosse “Graduado”;
h) o Chefe não sabe escrever português;
i) o Chefe não responde a estímulos simples, como perguntas;
j) o Chefe pára a olhar com muita atenção para menus que surgem no ecrã, como este: “Pretende gravar o registo? Sim, Cancelar”;
k) e tudo o que aparecer na série da RTP “Polícias”, algures da década de 90.
ii) Mas também porque fui alvo de um crime ridículo e ignóbil.
30. Conduzi até casa, do outro lado (deste lado) do rio, a sessenta quilómetros por hora e nem me chateei de percorrer o túnel do Marquês a quarenta.
31. Consegui um lugar em frente de casa.
35. Arrumei os espinafres no frigorífico, na gaveta, por detrás dos tomates; e o alho moído e o vinagre balsâmico no armário de cima à esquerda do lava-louça, depois de reparar que, afinal, tinha em casa por abrir um frasco de alho moído do Continente.
39. O vizinho continuou sendo mau vizinho.
40. Escrevi ao João, mais uma vez, a pedir desculpa pelo cancelamento do repasto e convívio.
43. Puta da insónia.
51. Na rua para onde deitam as janelas do meu quarto três polícias de giro interceptaram um Renault Express beige com três agarrados a bordo, não percebi porquê, dado que só fui à janela quando o barulho me incomodou.
52. O polícia careca e encorpado disse: “Eu só me apetece virá-lo!, pá...”
56. Os soldadinhos de chumbo regressaram à esquadra, ali na outra rua, depois de esperarem uns dez minutos pelo carro patrulha que não veio, e sem sequer identificarem os suspeitos.
57. Os agarrados seguiram viagem e gritaram, no cruzamento, a dobrar a esquina, “’LHA DA PUUUUTA!”
63. Um táxi estacionou em cima do passeio, na outra esquina, e o motorista e as três senhoras entraram no número cinquenta e qualquer coisa ímpar, porque não consigo ver daqui.
74. O relógio assinala 05h39 quando escrevo isto.
quinta-feira, 27 de setembro de 2007
Segunda parte
Budapeste e Belgrado, dois para cada lado – dias 14 e 15
O ar da cidade junto à estação era quase irrespirável, por causa do calor húmido e da poluição. Ainda circulam muitos Yugo em Belgrado e boa parte dos táxi são estes pequenos automóveis com motores a dois tempos, pelo menos os mais antigos, como as motoretas Casal Boss, que fazem muito fumo com um cheiro característico, incómodo. Há uns autocarros a gasóleo e outros eléctricos, os troleicarro, e não fossem esses e os eléctricos sobre carris e eu não sei como seria o ar.
Ao subir uma das principais avenidas em frente à estação, a Nemanjina, com duas faixas para cada sentido, carris ao meio, passeios largos em cimento e edifícios altos, vimos os últimos vestígios dos bombardeamentos da NATO em 1999. De ambos os lados da avenida jazem os imponentes prédios da polícia federal e do exército jugoslavo, revestidos a tijoleira, esburacados pelos mísseis disparados nas noites de 29 e 30 de Abril, o ataque mais severo dos setenta e oito dias de ofensiva. Eu sorri e disse “foi por isto que vim cá”, a Joana foi apanhada de surpresa.
Depois de encontrar o hostel, de receber uns quinze minutos de sugestões de visita pela rapariga recepcionista, e de tomar um duche, saímos para comer qualquer coisa. Era sábado e andámos muito tempo perdidos à procura de uma casa de pizzas e sanduíches famosa em Belgrado, a Toma. Esfomeados demais, cedemos perante o MacDonalds — e a Toma ali a cinquenta metros, como descobriríamos depois — e foi aí que a Inga veio ao nosso encontro.
A Inga era amiga da Joana desde que partilharam a mesma residência de estudantes em Praga, e trocaria Belgrado por Budapeste na segunda-feira seguinte, após um semestre trabalhando numa organização não-governamental. Norueguesa de cabelo preto curto e olhos claros, baixinha, muito faladora, para além de muito interessante e mais rápida a caminhar, em cinco horas a Inga mostrou-nos o centro da cidade, por onde se movem as pessoas, os principais eixos, as zonas de recreio e as residenciais. Foi essencial para perceber rapidamente por onde andar, o que observar e como olhar para a cidade no dia seguinte.
De volta ao hostel, depois de um jantar barato numa esplanada à luz de uma vela, em que falámos das razões para os atritos e maus-humores da viagem até então, já estava de serviço o patrão do albergue, o Chillton Hostel, que logo me ofereceu a welcome drink, um brandy de ameixa típico da Sérvia, o sljivovica, bebida tradicionalmente tomada pelas comunidades judias da Europa de Leste. Com a slivovits na mão — é como se pronuncia — fomos para a sala de convívio, onde estava mais gente e um gajo de camisola de manga-cava preta que falava inglês muito depressa e me perguntou se ia sair ou ter uma “quiet one”. Enquanto a Joana chegava e tomávamos lugar junto ao computador, expliquei-lhe que não dormia havia mais de quarenta e oito horas e que só pensava em estender-me ao comprido. Pouco tempo depois, e quando eu já tinha topado a coisa, ele fez a derradeira pergunta de despiste: “so, are you uni-buddies?” Sim, pá, eu e a Joana somos amigos. E então eu deixei de existir e o australiano achinesado, ou Kevin, tornou-se setas. A mini-saia da Joana ajudou e ele bem que a cortejou e insistiu para que ela fosse sair com o grupo: “I wanna talk to you more, I wanna talk to you more”, implorando e segurando-lhe as mãos. De rir, que foi o que ela fez e continuou fazendo, deitada, com o ego devidamente massajado.
O único problema do hostel era a dimensão dos quartos, diminuta, para a quantidade de camas, seis. Connosco estavam uma francesa que ressonava, uma australiana badalhoca a atirar para o gordo e que tinha espalhados pelo chão junto ao beliche sutiãs amarrotados e a escova e pasta de dentes, um personagem que não recordo e um rasta nauseabundo, cujo fedor atravessava a porta e chegava à recepção, em frente, onde estávamos depois de ele se despir para dormir a sesta. Só conseguimos dormir ali à noite porque havia ar-condicionado para aliviar o ar de seis pessoas respirando e porque o porco já lá não estava.
No dia seguinte pela manhã saímos cedo e depois de um pequeno-almoço enorme que meteu mostarda, ketchup e batatas assadas, iogurte natural espesso servido numa caneca de vidro meio porca que não devolvi porque o iogurte regressaria o mesmo, com a probabilidade acrescida de trazer brinde, e porque assumi que seria tradicional e que na Sérvia eu teria de ser sérvio; e de uma paragem de duas horas numa esplanada à sombra para fintar o calor insuportável e avançar na escrita, passeámos até à noite, noite dentro, porque o próximo comboio seria, outra vez, nocturno.
Belgrado tem poucos turistas, porque tem pouco que ver, turisticamente falando e em comparação com a vizinha Budapeste, por exemplo. O principal e quase único monumento da cidade é a Catedral de Sava, a maior igreja cristã ortodoxa do mundo, em permanente construção por donativo desde a década de trinta. Até os postais da cidade são amadores, e isto não sou eu falando, porque o salta à vista na fraca qualidade das fotografias, da impressão e da apresentação do produto: é evidente que não se sabe como e que imagem da cidade e do país vender ao exterior, pois isso do turismo é ainda muito recente.
O que eu retive da cidade foi o ambiente de tensão e alguma euforia que se fazia sentir. É quase um milhão e meio de pessoas e enormes assimetrias. Em contraste com os transportes públicos velhos e degradados e os Yugo igualmente antigos e ruidosos, há carros recentes, pois claro, e topos-de-gama germânicos atravessando as avenidas principais a grande velocidade, de janela aberta e música alta, assim como motas de grande cilindrada que rasgam os semáforos sem capacete. No parque da cidade, o Kalemegdan, que é o que resta da antiga Belgrado amuralhada, junto ao cotovelo onde se encontram os rios e de onde se vê a última das quatro torres de marcação do império austro-húngaro, e local de intenso convívio aos domingos, os polícias advertem com tiques de autoritarismo quem pisa o relvado e desrespeita as placas — já na estação tinha visto um homem ser autuado por quatro agentes, que parecem soldados, não percebi porquê.
O nacionalismo sérvio sente-se nas bandeiras hasteadas em todos os edifícios do Estado, e nas pessoas. Coexiste com um desejo de ocidentalização, eventualmente de adesão àquela Europa da União, certamente pelo sérvio comum, embora o governo do país não se diga disposto a isso em troca de jogos diplomáticos e passe uma imagem de “orgulhosamente sós”. Um desejo de ocidentalização de liberdade individual, esquecendo o jugo do comunismo. E não pode deixar de causar estranheza que tudo isto exista a par da mais recente e sucessiva redução do território, com a independência do Montenegro há um ano — cuja capital se chamou no passado Titograd, algo revelador —, e agora com a questão do Kosovo, sendo que neste assunto governo e povo parecem estar alinhados: o Kosovo é território sérvio, mesmo com uma população maioritariamente albanesa, e um sérvio que abandone o Kosovo não é patriota, como perceberei na viagem para Praga. Mas, para além de tudo isto, caramba, o território vai diminuindo e os sérvios continuam chamando-lhe “a grande Sérvia”.
O regime de Milosevic, que isolou a Sérvia durante uma década, e cujas acções militares com vista à manutenção do Kosovo provocaram a intervenção da NATO em 1999, ainda vive na saudade de alguns e em tiques de propaganda, que lhe eram típicos, e que hoje fazem com que se vendam postais com imagens das noites de bombardeamentos. Qualquer vendedor de postais, mesmo num inglês rudimentar, explicará que a Sérvia foi “agredida pela NATO” — e foi, não se duvide.
A moeda, o dinar sérvio, vale tão pouco que mesmo num país vizinho como a Hungria as casas de câmbios não a negoceiam — e eu, que troquei dinheiro a mais à chegada, e porque a saída foi de noite, haverei de regressar a Lisboa com mais de dois mil e seiscentos dinares sérvios, cerca de trinta e cinco euros, não sem contudo tentar trocá-los em cada um dos balcões de câmbios com que me cruzarei, inclusivamente já em Portugal, mas sempre sem sucesso.
Por tudo isto, Belgrado pulsa imensa vida — e os bares junto ao rio prolongam-na até o sol nascer. Senti-me bem em Belgrado, viveria uma temporada ali. Por essas razões este relato até parece de alguém que viajou sozinho — a Joana esteve sempre comigo —, mas é incontornável que me marcou e que parti com um enorme desejo de voltar, para sentir mais, melhor e para perceber.
Noite dentro e um bocado à pressa, depois comprar comida e água para a longa jornada que nos levaria de Belgrado a Praga, por Budapeste, fomos ao hostel recolher as mochilas, receber a notícia de que o Pavel não poderia, afinal, acolher nenhum dos quatro em Praga dali a menos de vinte e quatro horas, e apanhar o finlandês solitário que viajava há semanas com uma mochila ridiculamente pequena, e que nos acompanharia até à Hungria.
O comboio pareceu-nos bem, embora o bulício denunciasse que ia cheio. A Joana e eu tínhamos comprado duas camas num compartimento que a mulher da bilheteira nos tinha dito de duas, mas que era de seis. Nas nossas camas, as de baixo, estava sentado um casal kosovar idoso, e haveria de chegar ainda uma rapariga sérvia dos seus vinte e poucos anos e com uma mala de viagem de cor-de-laranja gigante, de cabelo loiro, gira, e na opinião da Joana com uns pés bonitos. Demoraremos a explicar aos senhores quais as camas de cada um, até que eu oferecerei a minha à mulher, que lhe dava mais jeito. Demorará até que fechemos os olhos. Não demorará a que a polícia sérvia chegue para o controlo de passaportes e assedie e intimide o casal, exigindo ver o que traziam vestido, saber para onde iam e porque iam, assentando num pequeno bloco de folhas quadriculadas os nomes, números de passaporte, de compartimento e de cama de cada um deles, que por serem sérvios do Kosovo têm dois passaportes, um interno e o internacional, e que não são bem vistos por saírem do território. Demorará a que eles caiam no sono e parem de tossir. Não demorará a que a Joana se queixe do calor. Demorará a aceitar trocar de cama comigo, passando para a do meio, o que não melhorou nada. Demorará uma eternidade, para mim, que só caí no sono perto das seis da manhã e quando o pica nos veio acordar, batendo vigorosamente à porta, que estava trancada, dizendo que nós que sairíamos em Budapeste chegaríamos dali a vinte minutos. Já?
Para perceberem parte do meu fascínio por aquela zona da Europa, ouçam a reportagem de André Cunha para a TSF, “Kosovo, à procura do beijo impossível”. André Cunha é jornalista português, radicado em Belgrado.
Budapeste e Belgrado, dois para cada lado – dias 14 e 15
O ar da cidade junto à estação era quase irrespirável, por causa do calor húmido e da poluição. Ainda circulam muitos Yugo em Belgrado e boa parte dos táxi são estes pequenos automóveis com motores a dois tempos, pelo menos os mais antigos, como as motoretas Casal Boss, que fazem muito fumo com um cheiro característico, incómodo. Há uns autocarros a gasóleo e outros eléctricos, os troleicarro, e não fossem esses e os eléctricos sobre carris e eu não sei como seria o ar.
Ao subir uma das principais avenidas em frente à estação, a Nemanjina, com duas faixas para cada sentido, carris ao meio, passeios largos em cimento e edifícios altos, vimos os últimos vestígios dos bombardeamentos da NATO em 1999. De ambos os lados da avenida jazem os imponentes prédios da polícia federal e do exército jugoslavo, revestidos a tijoleira, esburacados pelos mísseis disparados nas noites de 29 e 30 de Abril, o ataque mais severo dos setenta e oito dias de ofensiva. Eu sorri e disse “foi por isto que vim cá”, a Joana foi apanhada de surpresa.
Depois de encontrar o hostel, de receber uns quinze minutos de sugestões de visita pela rapariga recepcionista, e de tomar um duche, saímos para comer qualquer coisa. Era sábado e andámos muito tempo perdidos à procura de uma casa de pizzas e sanduíches famosa em Belgrado, a Toma. Esfomeados demais, cedemos perante o MacDonalds — e a Toma ali a cinquenta metros, como descobriríamos depois — e foi aí que a Inga veio ao nosso encontro.A Inga era amiga da Joana desde que partilharam a mesma residência de estudantes em Praga, e trocaria Belgrado por Budapeste na segunda-feira seguinte, após um semestre trabalhando numa organização não-governamental. Norueguesa de cabelo preto curto e olhos claros, baixinha, muito faladora, para além de muito interessante e mais rápida a caminhar, em cinco horas a Inga mostrou-nos o centro da cidade, por onde se movem as pessoas, os principais eixos, as zonas de recreio e as residenciais. Foi essencial para perceber rapidamente por onde andar, o que observar e como olhar para a cidade no dia seguinte.
De volta ao hostel, depois de um jantar barato numa esplanada à luz de uma vela, em que falámos das razões para os atritos e maus-humores da viagem até então, já estava de serviço o patrão do albergue, o Chillton Hostel, que logo me ofereceu a welcome drink, um brandy de ameixa típico da Sérvia, o sljivovica, bebida tradicionalmente tomada pelas comunidades judias da Europa de Leste. Com a slivovits na mão — é como se pronuncia — fomos para a sala de convívio, onde estava mais gente e um gajo de camisola de manga-cava preta que falava inglês muito depressa e me perguntou se ia sair ou ter uma “quiet one”. Enquanto a Joana chegava e tomávamos lugar junto ao computador, expliquei-lhe que não dormia havia mais de quarenta e oito horas e que só pensava em estender-me ao comprido. Pouco tempo depois, e quando eu já tinha topado a coisa, ele fez a derradeira pergunta de despiste: “so, are you uni-buddies?” Sim, pá, eu e a Joana somos amigos. E então eu deixei de existir e o australiano achinesado, ou Kevin, tornou-se setas. A mini-saia da Joana ajudou e ele bem que a cortejou e insistiu para que ela fosse sair com o grupo: “I wanna talk to you more, I wanna talk to you more”, implorando e segurando-lhe as mãos. De rir, que foi o que ela fez e continuou fazendo, deitada, com o ego devidamente massajado.
O único problema do hostel era a dimensão dos quartos, diminuta, para a quantidade de camas, seis. Connosco estavam uma francesa que ressonava, uma australiana badalhoca a atirar para o gordo e que tinha espalhados pelo chão junto ao beliche sutiãs amarrotados e a escova e pasta de dentes, um personagem que não recordo e um rasta nauseabundo, cujo fedor atravessava a porta e chegava à recepção, em frente, onde estávamos depois de ele se despir para dormir a sesta. Só conseguimos dormir ali à noite porque havia ar-condicionado para aliviar o ar de seis pessoas respirando e porque o porco já lá não estava.
No dia seguinte pela manhã saímos cedo e depois de um pequeno-almoço enorme que meteu mostarda, ketchup e batatas assadas, iogurte natural espesso servido numa caneca de vidro meio porca que não devolvi porque o iogurte regressaria o mesmo, com a probabilidade acrescida de trazer brinde, e porque assumi que seria tradicional e que na Sérvia eu teria de ser sérvio; e de uma paragem de duas horas numa esplanada à sombra para fintar o calor insuportável e avançar na escrita, passeámos até à noite, noite dentro, porque o próximo comboio seria, outra vez, nocturno.
Belgrado tem poucos turistas, porque tem pouco que ver, turisticamente falando e em comparação com a vizinha Budapeste, por exemplo. O principal e quase único monumento da cidade é a Catedral de Sava, a maior igreja cristã ortodoxa do mundo, em permanente construção por donativo desde a década de trinta. Até os postais da cidade são amadores, e isto não sou eu falando, porque o salta à vista na fraca qualidade das fotografias, da impressão e da apresentação do produto: é evidente que não se sabe como e que imagem da cidade e do país vender ao exterior, pois isso do turismo é ainda muito recente.
O que eu retive da cidade foi o ambiente de tensão e alguma euforia que se fazia sentir. É quase um milhão e meio de pessoas e enormes assimetrias. Em contraste com os transportes públicos velhos e degradados e os Yugo igualmente antigos e ruidosos, há carros recentes, pois claro, e topos-de-gama germânicos atravessando as avenidas principais a grande velocidade, de janela aberta e música alta, assim como motas de grande cilindrada que rasgam os semáforos sem capacete. No parque da cidade, o Kalemegdan, que é o que resta da antiga Belgrado amuralhada, junto ao cotovelo onde se encontram os rios e de onde se vê a última das quatro torres de marcação do império austro-húngaro, e local de intenso convívio aos domingos, os polícias advertem com tiques de autoritarismo quem pisa o relvado e desrespeita as placas — já na estação tinha visto um homem ser autuado por quatro agentes, que parecem soldados, não percebi porquê.
O nacionalismo sérvio sente-se nas bandeiras hasteadas em todos os edifícios do Estado, e nas pessoas. Coexiste com um desejo de ocidentalização, eventualmente de adesão àquela Europa da União, certamente pelo sérvio comum, embora o governo do país não se diga disposto a isso em troca de jogos diplomáticos e passe uma imagem de “orgulhosamente sós”. Um desejo de ocidentalização de liberdade individual, esquecendo o jugo do comunismo. E não pode deixar de causar estranheza que tudo isto exista a par da mais recente e sucessiva redução do território, com a independência do Montenegro há um ano — cuja capital se chamou no passado Titograd, algo revelador —, e agora com a questão do Kosovo, sendo que neste assunto governo e povo parecem estar alinhados: o Kosovo é território sérvio, mesmo com uma população maioritariamente albanesa, e um sérvio que abandone o Kosovo não é patriota, como perceberei na viagem para Praga. Mas, para além de tudo isto, caramba, o território vai diminuindo e os sérvios continuam chamando-lhe “a grande Sérvia”.
O regime de Milosevic, que isolou a Sérvia durante uma década, e cujas acções militares com vista à manutenção do Kosovo provocaram a intervenção da NATO em 1999, ainda vive na saudade de alguns e em tiques de propaganda, que lhe eram típicos, e que hoje fazem com que se vendam postais com imagens das noites de bombardeamentos. Qualquer vendedor de postais, mesmo num inglês rudimentar, explicará que a Sérvia foi “agredida pela NATO” — e foi, não se duvide.
A moeda, o dinar sérvio, vale tão pouco que mesmo num país vizinho como a Hungria as casas de câmbios não a negoceiam — e eu, que troquei dinheiro a mais à chegada, e porque a saída foi de noite, haverei de regressar a Lisboa com mais de dois mil e seiscentos dinares sérvios, cerca de trinta e cinco euros, não sem contudo tentar trocá-los em cada um dos balcões de câmbios com que me cruzarei, inclusivamente já em Portugal, mas sempre sem sucesso.
Por tudo isto, Belgrado pulsa imensa vida — e os bares junto ao rio prolongam-na até o sol nascer. Senti-me bem em Belgrado, viveria uma temporada ali. Por essas razões este relato até parece de alguém que viajou sozinho — a Joana esteve sempre comigo —, mas é incontornável que me marcou e que parti com um enorme desejo de voltar, para sentir mais, melhor e para perceber.
Noite dentro e um bocado à pressa, depois comprar comida e água para a longa jornada que nos levaria de Belgrado a Praga, por Budapeste, fomos ao hostel recolher as mochilas, receber a notícia de que o Pavel não poderia, afinal, acolher nenhum dos quatro em Praga dali a menos de vinte e quatro horas, e apanhar o finlandês solitário que viajava há semanas com uma mochila ridiculamente pequena, e que nos acompanharia até à Hungria.
O comboio pareceu-nos bem, embora o bulício denunciasse que ia cheio. A Joana e eu tínhamos comprado duas camas num compartimento que a mulher da bilheteira nos tinha dito de duas, mas que era de seis. Nas nossas camas, as de baixo, estava sentado um casal kosovar idoso, e haveria de chegar ainda uma rapariga sérvia dos seus vinte e poucos anos e com uma mala de viagem de cor-de-laranja gigante, de cabelo loiro, gira, e na opinião da Joana com uns pés bonitos. Demoraremos a explicar aos senhores quais as camas de cada um, até que eu oferecerei a minha à mulher, que lhe dava mais jeito. Demorará até que fechemos os olhos. Não demorará a que a polícia sérvia chegue para o controlo de passaportes e assedie e intimide o casal, exigindo ver o que traziam vestido, saber para onde iam e porque iam, assentando num pequeno bloco de folhas quadriculadas os nomes, números de passaporte, de compartimento e de cama de cada um deles, que por serem sérvios do Kosovo têm dois passaportes, um interno e o internacional, e que não são bem vistos por saírem do território. Demorará a que eles caiam no sono e parem de tossir. Não demorará a que a Joana se queixe do calor. Demorará a aceitar trocar de cama comigo, passando para a do meio, o que não melhorou nada. Demorará uma eternidade, para mim, que só caí no sono perto das seis da manhã e quando o pica nos veio acordar, batendo vigorosamente à porta, que estava trancada, dizendo que nós que sairíamos em Budapeste chegaríamos dali a vinte minutos. Já?
Para perceberem parte do meu fascínio por aquela zona da Europa, ouçam a reportagem de André Cunha para a TSF, “Kosovo, à procura do beijo impossível”. André Cunha é jornalista português, radicado em Belgrado.
terça-feira, 25 de setembro de 2007
Primeira parte
Budapeste e Belgrado, dois para cada lado – dias 14 e 15
Não seguir para Zagreb no comboio rápido das três e tal da tarde foi um golpe para todos, porque significava gastar desnecessariamente uma manhã inteira em viagem e percorrer o mesmo percurso de há quatro dias em nove horas, e não cinco. Para mais, naquela tarde em Split vivia-se uma bela “tosta, moço!... Tu és tolo?” Éramos todos, menos o Ricardo e o amigo cabo-verdiano que conhecemos enquanto aguardávamos pelo catamarã de regresso. Eles estavam em viagem há um mês e meio, tinham visitado Sarajevo — para meu desgosto —, possuíam um guia da Europa de Leste pela Lonely Planet, o mesmo que eu não quis comprar para não ser apelidado de “senhor organizado” pelos meus compinchas, mas que será a minha primeira leitura de cabeceira na casa nova de Lisboa, vinte e um dias mais tarde, e conseguiram ficar com os dois únicos lugares disponíveis no comboio. Nós gastámos umas horas a decidir a etapa seguinte e depois fomos mergulhar na praia mais suja em que alguma vez teríamos estado, a começar na areia acastanhada, que não agradou, e a acabar na água esverdeada com limos, preservativos e outras porcarias, mas onde se vivia um ambiente muito animado.
Naquela praia em Split tinha de andar-se muito até que a água chegasse à cintura, e também quase não havia ondulação. O pessoal jogava um jogo engraçado, que consistia em bater com as mãos uma pequena bola, passando-a entre eles, como se fossem raquetes mas sem raquetes e com mais do que dois jogadores, em ordem aleatória para apanhar os distraídos, sendo que a parte principal do jogo eram os mergulhos de chapão que alguns tinham que dar para conseguir bater aquelas bolas mais difíceis. O objectivo parecia, aliás, ser mesmo esse, de proporcionar ao parceiro um belo mergulho. Era muito giro, principalmente porque quem mais jogava eram os seniores de cabelo grisalho. O que nós nos divertimos a observar e a tentar fotografar vários momentos de voo, com a máquina do Rui, que não terá ainda partilhado as imagens com os restantes, volvido quase um mês sobre o regresso.
Finalmente a caminho de Zagreb, connosco no compartimento do comboio viajava uma freira. A surpresa foi grande e acho que bem visível nas nossas caras quando confirmámos duas vezes o número do compartimento e da reserva. Na tentativa de agir com naturalidade, jogámos umas “suecadas” com o nosso baralho amarelo do atum Bom Petisco, mas não tardou até que ela tentasse comunicar connosco, em croata. Primeiro, sobre o tempo e o calor que se fazia sentir no comboio, novamente com ar-condicionado avariado, comparando o seu hábito cinzento e comprido aos calções verdes curtos da Joana, como quem diz “se achas que tu tens calor”... Depois, entre mais gestos, Fátima Fátima, Portugal Portugal, muitos equívocos, e mais um daqueles silêncios constrangedores de vinte segundos em que todos contávamos quantos lanços de carris o comboio pisava, a irmã quis ver que tipo de fio a Joana trazia ao pescoço. Espantada com a joaninha vermelha e preta de metal, e apesar da explicação da relação entre o nome do bicho e o da miúda, a irmã não perdoou e enquanto brandia o seu crucifixo atirou umas “croatadas”, que o Rui imediatamente traduziu para “eu acho que ela está a dizer que tu não és cristã porque não trazes Cristo ao pescoço”. Para prová-la errada, a Joana puxou da carteira uma imagem de Jesus que a acompanha, mas a irmã acenou que não, não era suficiente. E ficaram por ali.
Foi nessa altura que fui ver como eram as outras carruagens e procurar um bar ou coisa que o substituísse. A caminho da frente da composição arrependi-me de o ter feito logo que passei a primeira porta, tal era o cheiro repugnante a mijo, que quase me fez estacar. Engoli em seco e passei rapidamente pela casa de banho, na esperança de que melhorasse, mas não. Chegado ao corredor estreito, uns dez pares de olhos viraram-se repentinamente para mim, que fui pedindo passagem entre os que estavam sentados em cima das malas e aqueles que fumavam meio debruçados nas janelas abertas. Havia no ar uma mistura densa de cigarros, chão das casas de banho e fumo de gasóleo queimado, da locomotiva, que entrava em lufadas a cada curva para a direita. Por causa do barulho crescente da máquina, falava-se muito alto, tossia-se muito alto e bebia-se vinho directamente de garrafas verdes, sobretudo alguns dos velhos. Foi assim na primeira e nas seguintes, salvo naquela em que seguia o pica, que tinha muitos compartimentos fechados e os cortinados verdes empoeirados corridos. Mas o cheiro, caramba, era uma constante em todas as cinco carruagens — depois de repetir a viagem cheguei à conclusão de que nós tínhamos sido bafejados pela sorte: a nossa era um pequeno oásis de boa vizinhança e asseio, mesmo apesar de sistematicamente as luzes se apagarem e o chefe de composição vir, impotente, religar o disjuntor, por mais quinze minutos. Com tudo isso eles haverão de se arrumar nas cadeiras e dormir, e eu de viajar toda a noite em pé e à janela, já que não dormia, a ver as tábuas dos carris passar devagar, as estrelas ponteando o céu, os montes e o cheiro a campo — desde que o comboio curvasse para a esquerda — e apanhar com vento fresco na cara. O comboio seguia muito lento, numa linha única com muitas curvas e em subida, puxando em esforço mais de dezena e meia de carruagens, de passageiros e carga, mas tão lento que eu aposto que, a pé, conseguia correr ao lado dele.
Mas, regressado, deparo-me com a irmã a sugerir em gestos que a Joana a acompanhasse até ao compartimento do lado, onde viajava uma rapariga sozinha, para assim dormirem as três e os rapazes ficarem igualmente sozinhos e com mais espaço para esticar as pernas. Lá lhe explicámos que não iríamos dormir já, que ainda era cedo e tínhamos mais umas “suecadas” para a desforra, quando na verdade receávamos que a irmã quisesse exorcizar a Joana, e uns dez minutos depois ela abandonou-nos, não sem deixar instalada a dúvida sobre se teríamos sido bem interpretados ou a teríamos expulsado. Viveu-se um misto de vergonha e incredulidade até a irmã regressar, não sei bem quanto tempo depois, trazendo nas mãos um tupperware com uvas pretas. Inicialmente julgámos que vinha pedir água da garrafa de litro e meio que estava na mesinha junto à janela, para as lavar. Depois a Joana achou que ela nos estava oferecendo uvas e então tirou uma, provou, sorriu e agradeceu em inglês, e o Rui imitou-a. Aí a irmã deu-nos a caixa e então não soubemos se, desde início, nos estava oferecendo as uvas, ou se agora que as tínhamos comido ela já não as queria. Que confusão! Mas eram doces. A caixa é que haveria de ficar esquecida no compartimento e nós haveríamos de sair à pressa em Zagreb sem ver a irmã, que sempre tinha ficado a descansar no compartimento ao lado, ou sequer agradecer, porque o comboio estava chegando com quarenta minutos de atraso e eu e a Joana haveríamos de correr para apanhar a ligação para Belgrado, para nossa sorte também atrasada um quarto de hora à partida. Foi por pouco e ao Rui e ao Pedro foi mesmo “tchau aí, vemo-nos em Praga”. O Rui e o Pedro seguiriam para Budapeste, pelo que dessa cidade não reza esta história, porque lá não estive a não ser durante cinco horas, na estação e no MacDonalds em frente, às oito da manhã, quando rumar a Praga, dois dias mais tarde.
A caminho da Sérvia com o sol a levantar-se, eu estava exausto e a Joana parecida. Acho que dormimos e por isso nos recordamos de pouco da viagem. Mas, sem dúvida, lembramos a visão impressionante que tivemos ao atravessar Nova Belgrado, na margem Sul do Danúbio e Este do Sava, uma planície imensa de prédios altos quase padronizados, num horizonte plano de que se destacavam torres ainda mais altas, quarteirões em quadrícula, um dormitório autêntico e gigante, e os letreiros coloridos das fábricas e escritórios da nova indústria ocidental. Em Belgrado encontram-se dois rios, o Danúbio e o Sava, e é nas margens deste, quando se passa a velha ponte ferroviária de aço esverdeado e ferrugento, a dez ou vinte quilómetros por hora, que nos apercebemos dos acampamentos ciganos romenos que ali vivem, e que àquela hora, quase duas da tarde, com cerca de trinta e oito graus à sombra, os miúdos tomavam banho na água suja. O resto do percurso até à estação foi também muito lento e os estaleiros devolutos, as carruagens ferrugentas abandonadas e as barracas ao longo da linha fizeram-nos despertar definitivamente, apreensivos. Não sei o que sentia a Joana, mas eu estava tenso e ao mesmo tempo satisfeito por estar a ver o que via, porque desde o dia em que tinha ponderado juntar-me aos três que eu planeava chegar ao leste da Europa, mesmo aos Balcãs, e respirar um pouco do berço do Velho Continente, da última guerra na Europa, tão recente, embora sabendo naquela manhã que Sarajevo, Mostar e Pristina não poderiam ser, então, incluídas nos planos. Porque a montante decidimos ficar mais tempo em Ljubljana e Hvar, e já tínhamos comprado o voo de regresso para Lisboa a partir de Basileia, pelo que a última semana de viagem estaria programada com datas para cumprir.
Na estação o primeiro impacto foi com o alfabeto cirílico, que tornava a sinalização imperceptível aos nossos olhos. Cirílico é isto: АБВГ¢ДЂ ЃЕЁЄ Ж ЅЗИ І Ї Й Ј К Л Љ М Н Њ О П РСТ Ћ Ќ У Ў Ф Х Ц Ч Џ Ш Щ Ъ Ы Ь Э Ю Я. Portanto, imaginem porque demorou cinco minutos até encontrar a bilheteira ou a saída. Ou horas a orientar-nos nas ruas de Belgrado, quando, apesar de o alfabeto latino ser usado em simultâneo em várias ocasiões — embora “à checa”, com aqueles acentos nas consoantes —, as poucas placas de toponímia estavam em cirílico e o nosso mapa em inglês.
Budapeste e Belgrado, dois para cada lado – dias 14 e 15
Não seguir para Zagreb no comboio rápido das três e tal da tarde foi um golpe para todos, porque significava gastar desnecessariamente uma manhã inteira em viagem e percorrer o mesmo percurso de há quatro dias em nove horas, e não cinco. Para mais, naquela tarde em Split vivia-se uma bela “tosta, moço!... Tu és tolo?” Éramos todos, menos o Ricardo e o amigo cabo-verdiano que conhecemos enquanto aguardávamos pelo catamarã de regresso. Eles estavam em viagem há um mês e meio, tinham visitado Sarajevo — para meu desgosto —, possuíam um guia da Europa de Leste pela Lonely Planet, o mesmo que eu não quis comprar para não ser apelidado de “senhor organizado” pelos meus compinchas, mas que será a minha primeira leitura de cabeceira na casa nova de Lisboa, vinte e um dias mais tarde, e conseguiram ficar com os dois únicos lugares disponíveis no comboio. Nós gastámos umas horas a decidir a etapa seguinte e depois fomos mergulhar na praia mais suja em que alguma vez teríamos estado, a começar na areia acastanhada, que não agradou, e a acabar na água esverdeada com limos, preservativos e outras porcarias, mas onde se vivia um ambiente muito animado.
Naquela praia em Split tinha de andar-se muito até que a água chegasse à cintura, e também quase não havia ondulação. O pessoal jogava um jogo engraçado, que consistia em bater com as mãos uma pequena bola, passando-a entre eles, como se fossem raquetes mas sem raquetes e com mais do que dois jogadores, em ordem aleatória para apanhar os distraídos, sendo que a parte principal do jogo eram os mergulhos de chapão que alguns tinham que dar para conseguir bater aquelas bolas mais difíceis. O objectivo parecia, aliás, ser mesmo esse, de proporcionar ao parceiro um belo mergulho. Era muito giro, principalmente porque quem mais jogava eram os seniores de cabelo grisalho. O que nós nos divertimos a observar e a tentar fotografar vários momentos de voo, com a máquina do Rui, que não terá ainda partilhado as imagens com os restantes, volvido quase um mês sobre o regresso.
Finalmente a caminho de Zagreb, connosco no compartimento do comboio viajava uma freira. A surpresa foi grande e acho que bem visível nas nossas caras quando confirmámos duas vezes o número do compartimento e da reserva. Na tentativa de agir com naturalidade, jogámos umas “suecadas” com o nosso baralho amarelo do atum Bom Petisco, mas não tardou até que ela tentasse comunicar connosco, em croata. Primeiro, sobre o tempo e o calor que se fazia sentir no comboio, novamente com ar-condicionado avariado, comparando o seu hábito cinzento e comprido aos calções verdes curtos da Joana, como quem diz “se achas que tu tens calor”... Depois, entre mais gestos, Fátima Fátima, Portugal Portugal, muitos equívocos, e mais um daqueles silêncios constrangedores de vinte segundos em que todos contávamos quantos lanços de carris o comboio pisava, a irmã quis ver que tipo de fio a Joana trazia ao pescoço. Espantada com a joaninha vermelha e preta de metal, e apesar da explicação da relação entre o nome do bicho e o da miúda, a irmã não perdoou e enquanto brandia o seu crucifixo atirou umas “croatadas”, que o Rui imediatamente traduziu para “eu acho que ela está a dizer que tu não és cristã porque não trazes Cristo ao pescoço”. Para prová-la errada, a Joana puxou da carteira uma imagem de Jesus que a acompanha, mas a irmã acenou que não, não era suficiente. E ficaram por ali.Foi nessa altura que fui ver como eram as outras carruagens e procurar um bar ou coisa que o substituísse. A caminho da frente da composição arrependi-me de o ter feito logo que passei a primeira porta, tal era o cheiro repugnante a mijo, que quase me fez estacar. Engoli em seco e passei rapidamente pela casa de banho, na esperança de que melhorasse, mas não. Chegado ao corredor estreito, uns dez pares de olhos viraram-se repentinamente para mim, que fui pedindo passagem entre os que estavam sentados em cima das malas e aqueles que fumavam meio debruçados nas janelas abertas. Havia no ar uma mistura densa de cigarros, chão das casas de banho e fumo de gasóleo queimado, da locomotiva, que entrava em lufadas a cada curva para a direita. Por causa do barulho crescente da máquina, falava-se muito alto, tossia-se muito alto e bebia-se vinho directamente de garrafas verdes, sobretudo alguns dos velhos. Foi assim na primeira e nas seguintes, salvo naquela em que seguia o pica, que tinha muitos compartimentos fechados e os cortinados verdes empoeirados corridos. Mas o cheiro, caramba, era uma constante em todas as cinco carruagens — depois de repetir a viagem cheguei à conclusão de que nós tínhamos sido bafejados pela sorte: a nossa era um pequeno oásis de boa vizinhança e asseio, mesmo apesar de sistematicamente as luzes se apagarem e o chefe de composição vir, impotente, religar o disjuntor, por mais quinze minutos. Com tudo isso eles haverão de se arrumar nas cadeiras e dormir, e eu de viajar toda a noite em pé e à janela, já que não dormia, a ver as tábuas dos carris passar devagar, as estrelas ponteando o céu, os montes e o cheiro a campo — desde que o comboio curvasse para a esquerda — e apanhar com vento fresco na cara. O comboio seguia muito lento, numa linha única com muitas curvas e em subida, puxando em esforço mais de dezena e meia de carruagens, de passageiros e carga, mas tão lento que eu aposto que, a pé, conseguia correr ao lado dele.
Mas, regressado, deparo-me com a irmã a sugerir em gestos que a Joana a acompanhasse até ao compartimento do lado, onde viajava uma rapariga sozinha, para assim dormirem as três e os rapazes ficarem igualmente sozinhos e com mais espaço para esticar as pernas. Lá lhe explicámos que não iríamos dormir já, que ainda era cedo e tínhamos mais umas “suecadas” para a desforra, quando na verdade receávamos que a irmã quisesse exorcizar a Joana, e uns dez minutos depois ela abandonou-nos, não sem deixar instalada a dúvida sobre se teríamos sido bem interpretados ou a teríamos expulsado. Viveu-se um misto de vergonha e incredulidade até a irmã regressar, não sei bem quanto tempo depois, trazendo nas mãos um tupperware com uvas pretas. Inicialmente julgámos que vinha pedir água da garrafa de litro e meio que estava na mesinha junto à janela, para as lavar. Depois a Joana achou que ela nos estava oferecendo uvas e então tirou uma, provou, sorriu e agradeceu em inglês, e o Rui imitou-a. Aí a irmã deu-nos a caixa e então não soubemos se, desde início, nos estava oferecendo as uvas, ou se agora que as tínhamos comido ela já não as queria. Que confusão! Mas eram doces. A caixa é que haveria de ficar esquecida no compartimento e nós haveríamos de sair à pressa em Zagreb sem ver a irmã, que sempre tinha ficado a descansar no compartimento ao lado, ou sequer agradecer, porque o comboio estava chegando com quarenta minutos de atraso e eu e a Joana haveríamos de correr para apanhar a ligação para Belgrado, para nossa sorte também atrasada um quarto de hora à partida. Foi por pouco e ao Rui e ao Pedro foi mesmo “tchau aí, vemo-nos em Praga”. O Rui e o Pedro seguiriam para Budapeste, pelo que dessa cidade não reza esta história, porque lá não estive a não ser durante cinco horas, na estação e no MacDonalds em frente, às oito da manhã, quando rumar a Praga, dois dias mais tarde.
A caminho da Sérvia com o sol a levantar-se, eu estava exausto e a Joana parecida. Acho que dormimos e por isso nos recordamos de pouco da viagem. Mas, sem dúvida, lembramos a visão impressionante que tivemos ao atravessar Nova Belgrado, na margem Sul do Danúbio e Este do Sava, uma planície imensa de prédios altos quase padronizados, num horizonte plano de que se destacavam torres ainda mais altas, quarteirões em quadrícula, um dormitório autêntico e gigante, e os letreiros coloridos das fábricas e escritórios da nova indústria ocidental. Em Belgrado encontram-se dois rios, o Danúbio e o Sava, e é nas margens deste, quando se passa a velha ponte ferroviária de aço esverdeado e ferrugento, a dez ou vinte quilómetros por hora, que nos apercebemos dos acampamentos ciganos romenos que ali vivem, e que àquela hora, quase duas da tarde, com cerca de trinta e oito graus à sombra, os miúdos tomavam banho na água suja. O resto do percurso até à estação foi também muito lento e os estaleiros devolutos, as carruagens ferrugentas abandonadas e as barracas ao longo da linha fizeram-nos despertar definitivamente, apreensivos. Não sei o que sentia a Joana, mas eu estava tenso e ao mesmo tempo satisfeito por estar a ver o que via, porque desde o dia em que tinha ponderado juntar-me aos três que eu planeava chegar ao leste da Europa, mesmo aos Balcãs, e respirar um pouco do berço do Velho Continente, da última guerra na Europa, tão recente, embora sabendo naquela manhã que Sarajevo, Mostar e Pristina não poderiam ser, então, incluídas nos planos. Porque a montante decidimos ficar mais tempo em Ljubljana e Hvar, e já tínhamos comprado o voo de regresso para Lisboa a partir de Basileia, pelo que a última semana de viagem estaria programada com datas para cumprir.
Na estação o primeiro impacto foi com o alfabeto cirílico, que tornava a sinalização imperceptível aos nossos olhos. Cirílico é isto: АБВГ¢ДЂ ЃЕЁЄ Ж ЅЗИ І Ї Й Ј К Л Љ М Н Њ О П РСТ Ћ Ќ У Ў Ф Х Ц Ч Џ Ш Щ Ъ Ы Ь Э Ю Я. Portanto, imaginem porque demorou cinco minutos até encontrar a bilheteira ou a saída. Ou horas a orientar-nos nas ruas de Belgrado, quando, apesar de o alfabeto latino ser usado em simultâneo em várias ocasiões — embora “à checa”, com aqueles acentos nas consoantes —, as poucas placas de toponímia estavam em cirílico e o nosso mapa em inglês.
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
quarta-feira, 19 de setembro de 2007
sábado, 15 de setembro de 2007
quinta-feira, 13 de setembro de 2007
terça-feira, 11 de setembro de 2007
Hvar, onde o lusco-fusco existe – dias 10, 11, 12 e depois de discutir, 13
Quando vimos o comboio em que seguiríamos de Zagreb para Split ficámos animados. Tinha o formato daqueles comboios rápidos, apenas duas carruagens e muito bom aspecto. Mas foi tão mau. A Croácia é um país pobre e pouco desenvolvido, que tem no turismo a tentativa de amealhar algum dinheiro, embora boa parte desse sistema não pague impostos. Por isso a taxa de IVA é de vinte e dois por cento — eu analisei os talões do supermercado —, porque esse imposto todos pagam, ricos ou não e turistas incluídos. O comboio era movido a diesel, pois grande parte dos caminhos de ferro do país não estão electrificados, e por isso demasiado ruidoso no interior, algo a que os vidros simples ajudaram, e que os bancos duros e inflexíveis do tipo daqueles dos eléctricos novos da Carris ainda contribuíram mais para um monumental desconforto durante cinco horas, entre as onze e as quatro da tarde, o que foi perfeito dada a inexistência de cortinados ou qualquer tipo de protecção contra o sol. Sobrevivemos, a custo e mal-humorados.
Já em Split, debaixo de um sol abrasador, demorámo-nos um pouco mais na estação a verificar quantos comboios teríamos para sair dali, dias depois, o que nos valeu a todos um valente sprint qual Obikuelo até ao catamarã que nos levaria à ilha Hvar e que estava a um minuto de recolher a rampa e zarpar. Depois de perceber o pânico na cara da senhora da bilheteira, o Rui e o Pedro correram à frente, a Joana em seguida e eu arranquei pelo cais depois de pagar os quatro bilhetes. Foi com pouco mais de quinze quilos às costas e uma lancheira cor-de-laranja à tiracolo que percebi que não estava em boa forma física, apesar de ter ultrapassado a Joana e gritado uns “bálábêre”, à moda do outro João, para dar ânimo. Embarcámos todos e a viagem até foi tranquila, sem grande ondulação, mas a miúda acusou o esforço, a fome e o calor, e não demorou a levantar-se e ir andar pelo barco, a ver se ganhava alguma cor no rosto. Pior só o Pedro e o Rui, quatro dias mais tarde, no barco de regresso, onde chegarão a ficar verdes.
Era perto das seis da tarde quando o catamarã atracou em Hvar e assim que se abriram as portas e chegámos à rampa, o cais estava em êxtase para nos receber. O bar Carpe Diem, mesmo em frente, tinha música de dança a tocar altíssimo, muita “gente bonita” pouco vestida, tanto eles como elas verdadeiros party animals, a dançar em cima dos pequenos muros da esplanada e das cadeiras, sem espaço para mais um que fosse. Estávamos perante o lusco-fusco em Hvar — não o dos cinco/sete minutos, mas o das cinco e meia às sete da tarde, um festão de que já as três raparigas portuguesas em Ljubljana nos tinham falado.
Mas isto foi só enquanto descíamos a rampa, porque em terra firme esperava-nos um magote de gente: “need acômôdêxon?” Eram dezenas de leões, novos e velhos mas todos de chinelo no pé, atacando os turistas com mapas e álbuns de fotografias dos apartamentos prontos a mostrar. Depois de fintar um miúdo mais novo entre a multidão, esbarrei numa senhora dos seus quarenta anos, cabelo pintado de loiro, calça vermelha e uma camisola branca com lantejoulas escrevendo Police. Pareceu-me bem e então perguntei-lhe “what are de the conditions?”, ao que me respondeu: “Yes, ar condition! Hundressixty kuna!” E eu, não pá, não é isso: “No, that’s not what I’m asking...” E ela: “Okê, no ar condition! Hundrefifty kuna each! Is good, yes?” Apresento-vos a Anna. Depois de perceber que tinha lugar para os quatro num “apartamento” completo, e de ver as fotografias da vista da varanda, que nos dava a ideia de ser mesmo ali junto à praça central da ilha, seguimo-la.
Por entre ruelas e escadinhas, o apartamento da Anna e do Tony — que eu e o Rui conheceríamos horas mais tarde, em calção e tronco nu de peito cheio, pronto a esclarecer a mulher acerca do nosso pedido de devolução dos passaportes, que eles conservavam enquanto garantia de pagamento, procedimento que não nos agradou — era o segundo andar da casa deles, cujas paredes exteriores não estavam pintadas e a porta da rua sempre aberta. No rés-do-chão e primeiro andar estavam hospedadas umas bifas loiras, em dois quartos e uma casa-de-banho partilhada, por piso. Nós ficámos com aquilo que seria a sala, com a cozinha e as camas no espaço amplo contíguo, e a varanda. Por cima, no sótão, a família de quatro e as paredes por rebocar.
O sol estava a baixar, pintando os telhados, a torre da igreja e o castelo, que era o que víamos da varanda, num tom quente que convidava ao passeio. Foi o que fizemos, num primeiro reconhecimento, até decidir sentar para jantar pizza, pasta e salada — pela enésima vez — numa das três maiores esplanadas da praça central. Ali havia restaurantes, mercearias, a igreja, um supermercado, lojas de souvenirs e comércio tradicional, padarias, um hotel de quatro estrelas e bancas de venda de bijutaria. No limite da praça estava a baía onde os barcos de todos os feitios e tamanhos se arrumavam como que numa marina, incluindo dois enormes iates daqueles com tripulação própria vestida a rigor e placas junto às rampas avisando “private, no boarding”. E foi o que vimos, apesar do crescente movimento na baixa da ilha, depois de fazer umas comprinhas para cozinhar durante a estadia.
No primeiro dia em Hvar o programa foi simples: praia, que ficava a uns dez minutos a pé de casa, tinha cascalho em vez de areia, estava junto a um hotel e onde o aluguer diário de uma espreguiçadeira de plástico branco custava o equivalente a cinco euros. A moeda croata chama-se Kuna e com um euro compram-se sete kunas. A água do Mar Adriático é tépida e muito salgada, que até nos deixou com os olhos vermelhos e a mim, que tinha feito a barba naquela manhã, por qualquer razão que escapa à lógica do Homo Sapiens, com a zona do bigode a arder. “A zona do bigode a arder” é um belo pedaço de Português.
Por causa do cascalho, os meninos da cidade foram ao banho de chinelos. O Rui também. As sandálias do Pedro, a que ele chama sapatilhas, serviram os três, porque tínhamos medo de perder os chinelos na água, excepto a Joana e as suas havaianas avermelhadas. O relógio que o Pedro comprara na loja chinesa em frente de casa, em Vila Viçosa, um bocado de plástico azul a imitar aqueles Swatch grandalhões, depois de ter ficado embaciado no Mediterrâneo e demorar uns três dias até se conseguir ver novamente as horas, não resistiu ao Adriático e meteu água, fatalmente. Já o Rui resolveu mergulhar repetidamente de forma apalhaçada do pequeno pontão, além de tentar “jogar bonito” com a cabeça e os ombros, qual Cristiano Ronaldo, com um pêssego que deu à costa. Rui, “nunca percas essa alegria”.
Nessa noite preparámos um verdadeiro banquete, com magistral repetição e melhoramento na noite seguinte, de maneira que avencemos já para lá. Duas costeletas de porco fritas para cada um — excepto para a vegetariana — e temperadas por mim, com o sal e a pimenta que estavam lá em casa há não se sabe quanto tempo e regadas com um belo vinho branco que eu e o Rui nomearemos de néctar dos deuses, pelo estalo que deu o restante do litro que bebemos ao jantar; massa e uma deliciosa salada com tomate, mozzarella e um molho especial, pelas mãos da Joana; torta 7Days de chocolate e champanhe para sobremesa; duas cigarrilhas e mais uma Zlatorog de meio litro, cerveja aguada, só para rematar, no meu caso. Quando saímos para ver a noite de Hvar, na noite anterior, eu fui rindo, arrastando algumas sílabas e contando umas piadas parvas ao Pedro. Mas na noite seguinte nem tive coragem de abandonar a minha cadeira no escuro da varanda, de tão bem que tinha corrido o apuro do repasto e a segunda garrafa do vinho, finalmente fresco, cuja marca nem eu nem o Rui nos lembrámos de apontar, mas que é engarrafado com uma carica, em vez de rolha de cortiça, com as desculpas de querer avançar na escrita desta mesma história, mais importante para mim do que uns copos, e de que escrever levemente embriagado daria um singular contributo ao relato. Mas uma hora depois de terminar a Zlatorog encostei-me e só acordei com o barulho que eles fizeram ao regressar a casa. Por isso haverei de chegar ao final da viagem, vinte dias depois de ter posto a mochila às costas, inevitavelmente atrasado na narração.
Em Hvar sentimo-nos ricos. É que uma hora de internet em qualquer um dos ciber-quiosques da ilha custava apenas três euros e oitenta cêntimos, que pagámos com gosto, especialmente porque todos os computadores eram pouco mais que pré-históricos, corriam um Linux pouco mais rápido que o Carlos Lopes na actualidade e a largura de banda da internet deveria estar próximo da velocidade de uma linha RDIS, que bem podia ser um acrónimo para “desesperadamente lento”. Mas precisámos consultar e perceber as ligações para as próximas etapas da viagem, comprar um voo baratinho de regresso para Lisboa, a bem da nossa sanidade mental, e discutir até à unanimidade para ficar uma terceira noite em Hvar, aquela do jantar real, embora isso me tenha custado as passagens por Sarajevo e Pristina, algo que muito me incomoda e que desde então me persegue, e onde estive quase para ir a convite do “setas” australiano achinesado de Belgrado, embora eu saiba bem que ele me fez o convite apenas porque a Joana também iria, e assim ele teria hipótese de arrastar a asa para cima dela nas cinco horas que dura a viagem de autocarro.
Às dez da manhã em ponto tocaram os sinos da igreja e a Anna abriu a nossa porta. Estava na hora do chek-out, como combinado na véspera, quando ela nos foi devolver os passaportes do Pedro e da Joana, emigrantes ilegais na Croácia até então, situação que me serviu para exigir ao Pedro que fosse buscar coisas ao frigorífico, ou eu chamava as autoridades; receber o pagamento e deixar o caderninho de capa amarela que servia de livro de visitas, para inscrevermos uma dedicatória. O inglês da Anna era rudimentar e a expressão mais frequente era apenas “is good, yes?” Para ela tudo era “is good, yes?” Como por exemplo: “Here is my book... Write dedication... Good, yes?” Ou quando o Rui resolveu pagar quatrocentas e cinquenta kunas com quatrocentas kunas e cinquenta lipas, os cêntimos lá deles, não se livrando da piada: “You good for working bank... Is good, yes?” E logo no dia em que chegámos ela contou-nos a história de um grupo de bósnios que alojou e que se embebedou e fez muito barulho, o “ten botilla... problem!”, como ficou conhecido esse episódio, por causa das dez garrafas de vodka que terão despachado numa noite, uma vez que “I drink, my husband drink... Ten botilla too much, no? Ten botilla... problem!”, a rir à gargalhada com as mãos na cabeça e nós também. Nessa altura estava longe de adivinhar que lhe deixaríamos de presente no frigorífico uma panela com restos de salada de tomate e mozzarella para ela lavar, tudo porque o Rui disse que comia e não comeu e quem sabe não terá sido por isso que, já lá em baixo, quando arrumávamos as mochilas num canto até à hora do barco para o continente, e o Rui achou que devia usar a casa de banho do rés-do-chão, surgiu a cabeça da Anna nas escadas que, imponente, nos bradou: “No no no! Ten is good, yes?”
Finalmente em Split e depois de perder o comboio rápido de regresso a Zagreb, porque já não havia quatro lugares disponíveis, enquanto esperarmos por uma ligação nocturna que demorará nove horas a chegar ao destino — apenas mais quatro —, decidiremos separar-nos pela metade, com reencontro marcado em Praga, a quatro dias do fim da viagem.
Quando vimos o comboio em que seguiríamos de Zagreb para Split ficámos animados. Tinha o formato daqueles comboios rápidos, apenas duas carruagens e muito bom aspecto. Mas foi tão mau. A Croácia é um país pobre e pouco desenvolvido, que tem no turismo a tentativa de amealhar algum dinheiro, embora boa parte desse sistema não pague impostos. Por isso a taxa de IVA é de vinte e dois por cento — eu analisei os talões do supermercado —, porque esse imposto todos pagam, ricos ou não e turistas incluídos. O comboio era movido a diesel, pois grande parte dos caminhos de ferro do país não estão electrificados, e por isso demasiado ruidoso no interior, algo a que os vidros simples ajudaram, e que os bancos duros e inflexíveis do tipo daqueles dos eléctricos novos da Carris ainda contribuíram mais para um monumental desconforto durante cinco horas, entre as onze e as quatro da tarde, o que foi perfeito dada a inexistência de cortinados ou qualquer tipo de protecção contra o sol. Sobrevivemos, a custo e mal-humorados.
Já em Split, debaixo de um sol abrasador, demorámo-nos um pouco mais na estação a verificar quantos comboios teríamos para sair dali, dias depois, o que nos valeu a todos um valente sprint qual Obikuelo até ao catamarã que nos levaria à ilha Hvar e que estava a um minuto de recolher a rampa e zarpar. Depois de perceber o pânico na cara da senhora da bilheteira, o Rui e o Pedro correram à frente, a Joana em seguida e eu arranquei pelo cais depois de pagar os quatro bilhetes. Foi com pouco mais de quinze quilos às costas e uma lancheira cor-de-laranja à tiracolo que percebi que não estava em boa forma física, apesar de ter ultrapassado a Joana e gritado uns “bálábêre”, à moda do outro João, para dar ânimo. Embarcámos todos e a viagem até foi tranquila, sem grande ondulação, mas a miúda acusou o esforço, a fome e o calor, e não demorou a levantar-se e ir andar pelo barco, a ver se ganhava alguma cor no rosto. Pior só o Pedro e o Rui, quatro dias mais tarde, no barco de regresso, onde chegarão a ficar verdes.
Era perto das seis da tarde quando o catamarã atracou em Hvar e assim que se abriram as portas e chegámos à rampa, o cais estava em êxtase para nos receber. O bar Carpe Diem, mesmo em frente, tinha música de dança a tocar altíssimo, muita “gente bonita” pouco vestida, tanto eles como elas verdadeiros party animals, a dançar em cima dos pequenos muros da esplanada e das cadeiras, sem espaço para mais um que fosse. Estávamos perante o lusco-fusco em Hvar — não o dos cinco/sete minutos, mas o das cinco e meia às sete da tarde, um festão de que já as três raparigas portuguesas em Ljubljana nos tinham falado.
Mas isto foi só enquanto descíamos a rampa, porque em terra firme esperava-nos um magote de gente: “need acômôdêxon?” Eram dezenas de leões, novos e velhos mas todos de chinelo no pé, atacando os turistas com mapas e álbuns de fotografias dos apartamentos prontos a mostrar. Depois de fintar um miúdo mais novo entre a multidão, esbarrei numa senhora dos seus quarenta anos, cabelo pintado de loiro, calça vermelha e uma camisola branca com lantejoulas escrevendo Police. Pareceu-me bem e então perguntei-lhe “what are de the conditions?”, ao que me respondeu: “Yes, ar condition! Hundressixty kuna!” E eu, não pá, não é isso: “No, that’s not what I’m asking...” E ela: “Okê, no ar condition! Hundrefifty kuna each! Is good, yes?” Apresento-vos a Anna. Depois de perceber que tinha lugar para os quatro num “apartamento” completo, e de ver as fotografias da vista da varanda, que nos dava a ideia de ser mesmo ali junto à praça central da ilha, seguimo-la.
Por entre ruelas e escadinhas, o apartamento da Anna e do Tony — que eu e o Rui conheceríamos horas mais tarde, em calção e tronco nu de peito cheio, pronto a esclarecer a mulher acerca do nosso pedido de devolução dos passaportes, que eles conservavam enquanto garantia de pagamento, procedimento que não nos agradou — era o segundo andar da casa deles, cujas paredes exteriores não estavam pintadas e a porta da rua sempre aberta. No rés-do-chão e primeiro andar estavam hospedadas umas bifas loiras, em dois quartos e uma casa-de-banho partilhada, por piso. Nós ficámos com aquilo que seria a sala, com a cozinha e as camas no espaço amplo contíguo, e a varanda. Por cima, no sótão, a família de quatro e as paredes por rebocar.
O sol estava a baixar, pintando os telhados, a torre da igreja e o castelo, que era o que víamos da varanda, num tom quente que convidava ao passeio. Foi o que fizemos, num primeiro reconhecimento, até decidir sentar para jantar pizza, pasta e salada — pela enésima vez — numa das três maiores esplanadas da praça central. Ali havia restaurantes, mercearias, a igreja, um supermercado, lojas de souvenirs e comércio tradicional, padarias, um hotel de quatro estrelas e bancas de venda de bijutaria. No limite da praça estava a baía onde os barcos de todos os feitios e tamanhos se arrumavam como que numa marina, incluindo dois enormes iates daqueles com tripulação própria vestida a rigor e placas junto às rampas avisando “private, no boarding”. E foi o que vimos, apesar do crescente movimento na baixa da ilha, depois de fazer umas comprinhas para cozinhar durante a estadia.
No primeiro dia em Hvar o programa foi simples: praia, que ficava a uns dez minutos a pé de casa, tinha cascalho em vez de areia, estava junto a um hotel e onde o aluguer diário de uma espreguiçadeira de plástico branco custava o equivalente a cinco euros. A moeda croata chama-se Kuna e com um euro compram-se sete kunas. A água do Mar Adriático é tépida e muito salgada, que até nos deixou com os olhos vermelhos e a mim, que tinha feito a barba naquela manhã, por qualquer razão que escapa à lógica do Homo Sapiens, com a zona do bigode a arder. “A zona do bigode a arder” é um belo pedaço de Português.
Por causa do cascalho, os meninos da cidade foram ao banho de chinelos. O Rui também. As sandálias do Pedro, a que ele chama sapatilhas, serviram os três, porque tínhamos medo de perder os chinelos na água, excepto a Joana e as suas havaianas avermelhadas. O relógio que o Pedro comprara na loja chinesa em frente de casa, em Vila Viçosa, um bocado de plástico azul a imitar aqueles Swatch grandalhões, depois de ter ficado embaciado no Mediterrâneo e demorar uns três dias até se conseguir ver novamente as horas, não resistiu ao Adriático e meteu água, fatalmente. Já o Rui resolveu mergulhar repetidamente de forma apalhaçada do pequeno pontão, além de tentar “jogar bonito” com a cabeça e os ombros, qual Cristiano Ronaldo, com um pêssego que deu à costa. Rui, “nunca percas essa alegria”.
Nessa noite preparámos um verdadeiro banquete, com magistral repetição e melhoramento na noite seguinte, de maneira que avencemos já para lá. Duas costeletas de porco fritas para cada um — excepto para a vegetariana — e temperadas por mim, com o sal e a pimenta que estavam lá em casa há não se sabe quanto tempo e regadas com um belo vinho branco que eu e o Rui nomearemos de néctar dos deuses, pelo estalo que deu o restante do litro que bebemos ao jantar; massa e uma deliciosa salada com tomate, mozzarella e um molho especial, pelas mãos da Joana; torta 7Days de chocolate e champanhe para sobremesa; duas cigarrilhas e mais uma Zlatorog de meio litro, cerveja aguada, só para rematar, no meu caso. Quando saímos para ver a noite de Hvar, na noite anterior, eu fui rindo, arrastando algumas sílabas e contando umas piadas parvas ao Pedro. Mas na noite seguinte nem tive coragem de abandonar a minha cadeira no escuro da varanda, de tão bem que tinha corrido o apuro do repasto e a segunda garrafa do vinho, finalmente fresco, cuja marca nem eu nem o Rui nos lembrámos de apontar, mas que é engarrafado com uma carica, em vez de rolha de cortiça, com as desculpas de querer avançar na escrita desta mesma história, mais importante para mim do que uns copos, e de que escrever levemente embriagado daria um singular contributo ao relato. Mas uma hora depois de terminar a Zlatorog encostei-me e só acordei com o barulho que eles fizeram ao regressar a casa. Por isso haverei de chegar ao final da viagem, vinte dias depois de ter posto a mochila às costas, inevitavelmente atrasado na narração.
Em Hvar sentimo-nos ricos. É que uma hora de internet em qualquer um dos ciber-quiosques da ilha custava apenas três euros e oitenta cêntimos, que pagámos com gosto, especialmente porque todos os computadores eram pouco mais que pré-históricos, corriam um Linux pouco mais rápido que o Carlos Lopes na actualidade e a largura de banda da internet deveria estar próximo da velocidade de uma linha RDIS, que bem podia ser um acrónimo para “desesperadamente lento”. Mas precisámos consultar e perceber as ligações para as próximas etapas da viagem, comprar um voo baratinho de regresso para Lisboa, a bem da nossa sanidade mental, e discutir até à unanimidade para ficar uma terceira noite em Hvar, aquela do jantar real, embora isso me tenha custado as passagens por Sarajevo e Pristina, algo que muito me incomoda e que desde então me persegue, e onde estive quase para ir a convite do “setas” australiano achinesado de Belgrado, embora eu saiba bem que ele me fez o convite apenas porque a Joana também iria, e assim ele teria hipótese de arrastar a asa para cima dela nas cinco horas que dura a viagem de autocarro.
Às dez da manhã em ponto tocaram os sinos da igreja e a Anna abriu a nossa porta. Estava na hora do chek-out, como combinado na véspera, quando ela nos foi devolver os passaportes do Pedro e da Joana, emigrantes ilegais na Croácia até então, situação que me serviu para exigir ao Pedro que fosse buscar coisas ao frigorífico, ou eu chamava as autoridades; receber o pagamento e deixar o caderninho de capa amarela que servia de livro de visitas, para inscrevermos uma dedicatória. O inglês da Anna era rudimentar e a expressão mais frequente era apenas “is good, yes?” Para ela tudo era “is good, yes?” Como por exemplo: “Here is my book... Write dedication... Good, yes?” Ou quando o Rui resolveu pagar quatrocentas e cinquenta kunas com quatrocentas kunas e cinquenta lipas, os cêntimos lá deles, não se livrando da piada: “You good for working bank... Is good, yes?” E logo no dia em que chegámos ela contou-nos a história de um grupo de bósnios que alojou e que se embebedou e fez muito barulho, o “ten botilla... problem!”, como ficou conhecido esse episódio, por causa das dez garrafas de vodka que terão despachado numa noite, uma vez que “I drink, my husband drink... Ten botilla too much, no? Ten botilla... problem!”, a rir à gargalhada com as mãos na cabeça e nós também. Nessa altura estava longe de adivinhar que lhe deixaríamos de presente no frigorífico uma panela com restos de salada de tomate e mozzarella para ela lavar, tudo porque o Rui disse que comia e não comeu e quem sabe não terá sido por isso que, já lá em baixo, quando arrumávamos as mochilas num canto até à hora do barco para o continente, e o Rui achou que devia usar a casa de banho do rés-do-chão, surgiu a cabeça da Anna nas escadas que, imponente, nos bradou: “No no no! Ten is good, yes?”
Finalmente em Split e depois de perder o comboio rápido de regresso a Zagreb, porque já não havia quatro lugares disponíveis, enquanto esperarmos por uma ligação nocturna que demorará nove horas a chegar ao destino — apenas mais quatro —, decidiremos separar-nos pela metade, com reencontro marcado em Praga, a quatro dias do fim da viagem.
domingo, 9 de setembro de 2007
Leiria em Ljubljana – dia 7 e mais alguns
Mais uma vez não conseguimos evitar chegar ao destino no final do dia e enquanto o sol se punha pedimos duas vezes a um casal italiano que saiu do comboio com um desamparo parecido ao nosso, porque ali fomos confrontados pela primeira vez com uma escrita diferente, que partilhasse o mapa que tinha, a ver se encontrávamos a Pousada de Juventude, que o Martin havia reservado. Não fosse ele e provavelmente não teríamos visto o que a Eslovénia tem de mais bonito: os lagos no sopé dos Alpes.
O Martin viveu em Lisboa durante um ano, em casa do Rui, saindo de lá a falar um português correcto que ainda hoje mantém, um ano depois, e com saudades de Super Bock. Já em Lisboa, no almoço de boas vindas que nos ofereceremos no Chimarrão, eu proporei aos rapazes enviar-lhe uma caixa de loirinhas, como agradecimento. Finalista de Economia, mede perto de um metro e noventa e trabalha como recepcionista nocturno num hostel próximo da pousada.
Acho que foi logo enquanto fazíamos o check-in na pousada que nos apercebemos de outros portugueses de Lisboa e da nossa universidade. O mundo é pequeno e Ljubljana parece estar nos planos de todos os que viajam pela Europa no Verão. Não recordamos o nome de nenhum deles ou sequer se chegámos a nos apresentar, mas o miúdo brasileiro parecia ter engolido uma pilha Duracell e não parava nem se calava com “ispêtacúlarrr”, “do bagulho”, “pôrra” e outras expressões de contentamento, enquanto partilhava a “mácárrônada” do seu jantar com dois ingleses, cuja história é interessante e se segue.
Aqueles dois viajaram para Ljubljana na mesma carruagem que nós, no melhor e mais luxuoso comboio de toda a viagem, e a Joana achou piada a um deles, o de cabelo castanho assim meio encaracolado e maior, de camisola às riscas horizontais e ténis de lona “da cena” todos rotos e sujos. Era o seu “setas”. O termo “setas” é da autoria do Pedro, que o inventou em Florença quando, gozando com a Joana, lhe perguntou se o jeitoso que metera conversa com ela lá no hostel imundo a tinha “convidado para jogar às setas”, assim nascendo a frase “Joaninha, nós só queremos que tu encontres o teu setas”; e serve para designar “um gajo que a Joana ache engraçado e pelo qual possa interessar-se”, algo que se repetirá sete dias mais tarde, em Belgrado, com um australiano achinesado, embora ela o negue.
Então, o setas e o amigo eram presença regular lá na pousada e no bar do hostel onde trabalha o Martin, que era onde o pessoal costumava começar a noite bebendo uma cerveja e conversando um bocado, porque era perto. Eles viajavam juntos havia já cinco semanas, o que não é fácil, e numa das noites tiveram uma discussão estranhíssima a que eu e a Joana assistimos na primeira fila, de costas. Afirmou o setas, sincero: “I had the feeling you would enter that boat without me”. Disse o amigo do setas, que era branquinho como se exige num inglês, tinha cabelo meio ruivo e aloirado, usava uns óculos pequenos de armação oval e um aparelho auditivo, quando lhe estalou o verniz e a coisa subiu de tom: “You don’t trust me. You’re saying that I would enter that boat without you! You don’t trust me and that is disgusting!” Eu e a Joana, ao computador, olhámo-nos de esguelha e pensámos “isto vai dar estrilho”... Respondeu o setas: “I’m going to get a drink”, levantando-se de rompante. Dez segundos depois voltou e o surdo disparou: “Where’s that drink?!” E saíram um atrás do outro, perturbados.
A Joana acha que foi usada pelo setas e pelo amigo. Ambos foram muito simpáticos para ela lá na pousada, deram o número do quarto para ela lá passar, que eles ajudavam a orientar a nossa etapa na Croácia, de onde tinham vindo, e ela conclui que aquilo foi mas é para fazer ciúmes um ao outro. Porque aquela discussão foi nitidamente uma guerra de casal. E porque de manhã faltaram ao pequeno-almoço mas estavam bastante alegres. Enfim.
Dois dias antes de nós chegarmos o Martin comprara um Renault Clio de três portas azul, porque não quisera esperar por um de cinco e pensou: “Quantas vezes é que vou andar com o carro cheio? Poucas.” Mas a malta aqui é muito oportuna e a estreia foi logo connosco, para testar o bólide. Na Eslovénia, como na Checa, é obrigatório circular com os faróis acesos todo o ano, um acto de segurança rodoviária que aprecio e não evito destacar — daí esta frase —, vivendo num país europeu possuidor de elevadíssima taxa de sinistralidade e morte nas estradas, Portugal.
Mas o que interessa é que fomos os cinco ao lago Bled, a norte de Ljubljana, um sítio lindíssimo. O lago é enorme e no Inverno chega a gelar completamente e pode-se atravessá-lo a pé. Ali tinha água morna e um dia na praia custava quatro euros. Cenário idílico, nele havia patinhos, casalinhos, um cão poeta, geladinhos — comemos todos — e bolinhos, umas especialidades eslovenas que o Martin nos levou a provar e que eram di-vi-nais.
No outro dia fomos visitar Zagreb, a apenas duas horas de distância, e o pica achou que lá por termos o bilhete de inter-rail, que me tirou das mãos com violência e com ele as reservas usadas de outros comboios, tínhamos de lhe pagar qualquer coisa, porque: “Italy reservation, Ljubljana reservation, Zagreb no reservation?”, enquanto remexia nos papéis que eu guardava com o meu bilhete, e então chegou ali a um arranjinho que lhe pareceu bem e algures entre o que tínhamos pago dos bilhetes que ele viu e passa para cá “Eight euro!”, que iam nitidamente para o bolso dele. Depois da tensão, porque ele agia como se o estivéssemos roubando, lá me chateei e até acedi a pagar, porque não conseguia comunicar com ele de forma nenhuma, mas ele amarrou o burrinho e foi-se embora.
Não bastasse isso para me irritar e o Rui também amarrou o dele, mas com nós de marinheiro, enquanto julgou ter perdido a chave do quarto, na única vez que tal monumental tarefa ficou a seu cargo. Afinal tinha-la deixado na recepção, à saída, mas isso não evitou que logo à porta da estação em Zagreb se atirasse para a frente dos carros que atravessavam a passadeira por ordem do polícia sinaleiro, que ainda lhe atirou uma apitadela, mas ele estava demasiado compenetrado naquele amuo infantil e vitimizante de “sou um gnu e perco tudo”, que nem foi atropelado. E Zagreb foi curto demais.
Antes, porém, quando nos preparávamos para sair da pousada cruzaram-se connosco três raparigas giras, que eu sorrateiramente segui pelas escadas acima até confirmar ouvir falar português, que foi quando irrompi com qualquer coisa como “é no andar seguinte”. A portuense, que o Rui assaltou de imediato, recolheu os votos favoráveis da Joana e do Pedro. Mas uma das leirienses, a que tinha feito Erasmus em Florença — as coisas que eu saco em dois minutos de conversa no corredor duma pousada, hein? —, assim morena mesmo natural e achocolatada, com calção pelo joelho, t-shirt vermelha, cabelo preto comprido ondulado com a franja apanhada entre ganchinhos, olhos castanhos bem escuros e um sorriso rasgado, essa sim. Estavam no quarto 53, um daqueles com muitas camas. Combinámos na recepção às dez da noite para ir beber um copo, que era quando esperávamos já ter regressado de Zagreb, mas só chegámos depois da uma da manhã e eu já não dormi. Porque o comboio para Split, onde seguiríamos de barco até à ilha Hvar para quatro dias de praia, comida caseira e descanso, partia às seis e porque a miúda do quarto 53 não me saía da cabeça. O poema que eu e o Rui lhes escrevemos metia rimas parvas e piadas com o Douro e o Lis. Que desespero... Piorará em Hvar, com muita epiderme a descoberto, temperaturas altas e demasiada humidade na atmosfera, ao que o Rui dirá a cada cinco minutos passados fora de casa: “Que tosta, moço!... Tu és tolo?”
Mais uma vez não conseguimos evitar chegar ao destino no final do dia e enquanto o sol se punha pedimos duas vezes a um casal italiano que saiu do comboio com um desamparo parecido ao nosso, porque ali fomos confrontados pela primeira vez com uma escrita diferente, que partilhasse o mapa que tinha, a ver se encontrávamos a Pousada de Juventude, que o Martin havia reservado. Não fosse ele e provavelmente não teríamos visto o que a Eslovénia tem de mais bonito: os lagos no sopé dos Alpes.
O Martin viveu em Lisboa durante um ano, em casa do Rui, saindo de lá a falar um português correcto que ainda hoje mantém, um ano depois, e com saudades de Super Bock. Já em Lisboa, no almoço de boas vindas que nos ofereceremos no Chimarrão, eu proporei aos rapazes enviar-lhe uma caixa de loirinhas, como agradecimento. Finalista de Economia, mede perto de um metro e noventa e trabalha como recepcionista nocturno num hostel próximo da pousada.
Acho que foi logo enquanto fazíamos o check-in na pousada que nos apercebemos de outros portugueses de Lisboa e da nossa universidade. O mundo é pequeno e Ljubljana parece estar nos planos de todos os que viajam pela Europa no Verão. Não recordamos o nome de nenhum deles ou sequer se chegámos a nos apresentar, mas o miúdo brasileiro parecia ter engolido uma pilha Duracell e não parava nem se calava com “ispêtacúlarrr”, “do bagulho”, “pôrra” e outras expressões de contentamento, enquanto partilhava a “mácárrônada” do seu jantar com dois ingleses, cuja história é interessante e se segue.
Aqueles dois viajaram para Ljubljana na mesma carruagem que nós, no melhor e mais luxuoso comboio de toda a viagem, e a Joana achou piada a um deles, o de cabelo castanho assim meio encaracolado e maior, de camisola às riscas horizontais e ténis de lona “da cena” todos rotos e sujos. Era o seu “setas”. O termo “setas” é da autoria do Pedro, que o inventou em Florença quando, gozando com a Joana, lhe perguntou se o jeitoso que metera conversa com ela lá no hostel imundo a tinha “convidado para jogar às setas”, assim nascendo a frase “Joaninha, nós só queremos que tu encontres o teu setas”; e serve para designar “um gajo que a Joana ache engraçado e pelo qual possa interessar-se”, algo que se repetirá sete dias mais tarde, em Belgrado, com um australiano achinesado, embora ela o negue.
Então, o setas e o amigo eram presença regular lá na pousada e no bar do hostel onde trabalha o Martin, que era onde o pessoal costumava começar a noite bebendo uma cerveja e conversando um bocado, porque era perto. Eles viajavam juntos havia já cinco semanas, o que não é fácil, e numa das noites tiveram uma discussão estranhíssima a que eu e a Joana assistimos na primeira fila, de costas. Afirmou o setas, sincero: “I had the feeling you would enter that boat without me”. Disse o amigo do setas, que era branquinho como se exige num inglês, tinha cabelo meio ruivo e aloirado, usava uns óculos pequenos de armação oval e um aparelho auditivo, quando lhe estalou o verniz e a coisa subiu de tom: “You don’t trust me. You’re saying that I would enter that boat without you! You don’t trust me and that is disgusting!” Eu e a Joana, ao computador, olhámo-nos de esguelha e pensámos “isto vai dar estrilho”... Respondeu o setas: “I’m going to get a drink”, levantando-se de rompante. Dez segundos depois voltou e o surdo disparou: “Where’s that drink?!” E saíram um atrás do outro, perturbados.
A Joana acha que foi usada pelo setas e pelo amigo. Ambos foram muito simpáticos para ela lá na pousada, deram o número do quarto para ela lá passar, que eles ajudavam a orientar a nossa etapa na Croácia, de onde tinham vindo, e ela conclui que aquilo foi mas é para fazer ciúmes um ao outro. Porque aquela discussão foi nitidamente uma guerra de casal. E porque de manhã faltaram ao pequeno-almoço mas estavam bastante alegres. Enfim.
Dois dias antes de nós chegarmos o Martin comprara um Renault Clio de três portas azul, porque não quisera esperar por um de cinco e pensou: “Quantas vezes é que vou andar com o carro cheio? Poucas.” Mas a malta aqui é muito oportuna e a estreia foi logo connosco, para testar o bólide. Na Eslovénia, como na Checa, é obrigatório circular com os faróis acesos todo o ano, um acto de segurança rodoviária que aprecio e não evito destacar — daí esta frase —, vivendo num país europeu possuidor de elevadíssima taxa de sinistralidade e morte nas estradas, Portugal.
Mas o que interessa é que fomos os cinco ao lago Bled, a norte de Ljubljana, um sítio lindíssimo. O lago é enorme e no Inverno chega a gelar completamente e pode-se atravessá-lo a pé. Ali tinha água morna e um dia na praia custava quatro euros. Cenário idílico, nele havia patinhos, casalinhos, um cão poeta, geladinhos — comemos todos — e bolinhos, umas especialidades eslovenas que o Martin nos levou a provar e que eram di-vi-nais.
No outro dia fomos visitar Zagreb, a apenas duas horas de distância, e o pica achou que lá por termos o bilhete de inter-rail, que me tirou das mãos com violência e com ele as reservas usadas de outros comboios, tínhamos de lhe pagar qualquer coisa, porque: “Italy reservation, Ljubljana reservation, Zagreb no reservation?”, enquanto remexia nos papéis que eu guardava com o meu bilhete, e então chegou ali a um arranjinho que lhe pareceu bem e algures entre o que tínhamos pago dos bilhetes que ele viu e passa para cá “Eight euro!”, que iam nitidamente para o bolso dele. Depois da tensão, porque ele agia como se o estivéssemos roubando, lá me chateei e até acedi a pagar, porque não conseguia comunicar com ele de forma nenhuma, mas ele amarrou o burrinho e foi-se embora.
Não bastasse isso para me irritar e o Rui também amarrou o dele, mas com nós de marinheiro, enquanto julgou ter perdido a chave do quarto, na única vez que tal monumental tarefa ficou a seu cargo. Afinal tinha-la deixado na recepção, à saída, mas isso não evitou que logo à porta da estação em Zagreb se atirasse para a frente dos carros que atravessavam a passadeira por ordem do polícia sinaleiro, que ainda lhe atirou uma apitadela, mas ele estava demasiado compenetrado naquele amuo infantil e vitimizante de “sou um gnu e perco tudo”, que nem foi atropelado. E Zagreb foi curto demais.
Antes, porém, quando nos preparávamos para sair da pousada cruzaram-se connosco três raparigas giras, que eu sorrateiramente segui pelas escadas acima até confirmar ouvir falar português, que foi quando irrompi com qualquer coisa como “é no andar seguinte”. A portuense, que o Rui assaltou de imediato, recolheu os votos favoráveis da Joana e do Pedro. Mas uma das leirienses, a que tinha feito Erasmus em Florença — as coisas que eu saco em dois minutos de conversa no corredor duma pousada, hein? —, assim morena mesmo natural e achocolatada, com calção pelo joelho, t-shirt vermelha, cabelo preto comprido ondulado com a franja apanhada entre ganchinhos, olhos castanhos bem escuros e um sorriso rasgado, essa sim. Estavam no quarto 53, um daqueles com muitas camas. Combinámos na recepção às dez da noite para ir beber um copo, que era quando esperávamos já ter regressado de Zagreb, mas só chegámos depois da uma da manhã e eu já não dormi. Porque o comboio para Split, onde seguiríamos de barco até à ilha Hvar para quatro dias de praia, comida caseira e descanso, partia às seis e porque a miúda do quarto 53 não me saía da cabeça. O poema que eu e o Rui lhes escrevemos metia rimas parvas e piadas com o Douro e o Lis. Que desespero... Piorará em Hvar, com muita epiderme a descoberto, temperaturas altas e demasiada humidade na atmosfera, ao que o Rui dirá a cada cinco minutos passados fora de casa: “Que tosta, moço!... Tu és tolo?”
sexta-feira, 7 de setembro de 2007
A caminho de Florença, a terra dos gelados – dias 4 e 5
As duas horas que passámos na estação de Nice ficaram marcadas pela lata de polvo em vinha de alhos que a Joana teve de partilhar com o Rui, para não deitar fora. Ele diz que era bom.
A estação era muito mal frequentada e as ruas ali ao lado estavam sujas e malcheirosas, cheias de peep-show’s e chungas seguindo os movimentos dos viajantes, para além de mais confusão criada pelas obras nas calçadas. Ficámos com má impressão, mas dez dias depois, em Belgrado e Budapeste, aprenderemos que não se julga uma cidade pelo local onde se desembarca de um comboio ou autocarro. Portanto, Nice será bem bonita, como diz a Joana com a sua memória gigante e certeza de quem já viajou pela Europa toda, mesmo que em miúda, algo com que não foi fácil conviver nalguns momentos, para quem não conhece, e como contou a senhora italiana que partilhou o compartimento connosco até Florença.
Se ficámos assustados com a estação, ficámos aterrados com a composição da Trenitália onde iríamos passar as próximas nove horas — chegaríamos a Florença às seis da manhã. Nas palavras do Rui, o primeiro comboio nocturno da viagem era “um cangalho”. O chão e os bancos estavam sujos — e “sujos” é eufemismo —, as casas de banho não tinham água, o ar-condicionado desligou-se pouco depois do início da viagem, havia gente muito estranha a bordo e alguns fulanos que viajavam em pé e sem bagagem estavam nitidamente a trabalhar as carteiras alheias. Para melhorar tudo estava connosco uma família italiana, avô, avó e neto, ou seja, como dormiríamos todos ali?
Demorou até arrumarmos tudo no compartimento, mas quando voltámos do jantar volante sentados no corredor, a Joana, que obrigámos a ficar de guarda às nossas coisas, já tinha quebrado o gelo com a senhora e o miúdo italianos, que iam para Roma. O puto dominava várias ligas de futebol e sabia demasiado acerca clubes e jogadores portugueses do que seria de esperar dos seus onze ou doze anos de idade. Cristiano Ronaldo era o ídolo e a avó dizia-lhe que devia era estudar. Não lhe perguntámos o nome, que seria útil para esta história, um erro que cometeremos de novo com o pai de família australiano em viagem há nove meses com a mulher e os dois filhos pequenos, e as três portuguesas, que conheceremos em Ljubljana, entre outros, mas especialmente com estas raparigas, uma das quais me tirou o sono por uma noite. De tal forma que eu e o Rui — mais o Rui que eu — escrevemos um poema que deixámos no quarto delas, com os nossos e-mails, antes de sairmos de madrugada para a Croácia. Até hoje, zero respostas. Falámos de futebol com o miúdo até cansar e a senhora não deixou de notar quão estranho era ver uma rapariga viajar com três rapazes, porque as italianas não vão nisso e querem é ser cortejadas. E realmente eles dizem-lhes na rua a alto e bom som “piu bella!” e elas riem.
Não bastava o comboio ser velho, a noite abafada, a sauna dentro da carruagem e muita gente dormindo pelos corredores, como aquele cangalho ainda parou em quase todas as capelinhas e duas horas só em Génova, para mudar de maquinista ou apenas para o gajo fumar mais um cigarro à conversa com o pica, já suponho tudo, e uma paragem surreal no meio de um canavial, só porque sim. Isto já depois da polícia italiana ter levado uma mulher russa que estava no compartimento ao lado, de o pica ter apanhado e multado um pendura com mau aspecto que tinha demasiado dinheiro no bolso para quem viajava sem bilhete, e de o casal holandês de pé descalço que estava espojado à nossa porta ter acordado em Pisa, por acaso, me ter perguntado onde estavam e depois de um “cool” terem simplesmente saído, ele com a mão no rabo dela por dentro das calcinhas cor-de-rosa sujas que ela vestia.
Eu não dormi a noite inteira — excepto dois minutos e em pé, segundo o Rui —, o que se repetirá nos próximos comboios nocturnos de Split para Zagreb e de Belgrado para Budapeste. O Rui ainda partilhou parte da sentinela comigo, a Joana encostou-se uns pedaços e o Pedro dormiu umas sete horas seguidas, quase como a avó e o neto, que se arrumaram e só acordaram para nos dizer adeus já em Florença, com o sol a nascer — o avô não estava, afinal, no nosso compartimento.
Ver a Santa Maria del Fiore, ou il Duomo, praticamente sozinhos na rua e com aquela luz quente do sol que começou a subir, bem como a Ponte Vecchio e outros sítios por que fomos passear, foi fantástico. Três horas depois já era o caos de norte-americanos e japoneses. E Florença foi mais ou menos assim, passeando, e a Joana a comer três gelados por dia e a parar em todas as barraquinhas para estudar preços e sabores. “Opá, Itália é a terra dos gelados!”, dizia.
Almoçámos pizza a preços portugueses na Piazza della Signoria e depois de caminhar um bocado fomos dormir a sesta no nosso hostel, um dos piores da viagem, mesmo ali ao lado, tão central quanto possível. Mas era muito estranho. Um apartamento em que a suposta estalajadeira vivia ali mas não era a dona do estaminé; as piores camas de sempre com colchões de molas já sem força e onde era impossível dormir direito; zero toalhas e apenas um lençol; e na porta um aviso explicando que, porque alguns hóspedes trazem bed bugs, os colchões estavam envoltos numa ruidosa capa plástica, desculpem lá o barulhinho incómodo, mas que afinal só uma cama tinha e então eu preferi dormir em cima da esteira, por cima do colchão. Pelo meio a tipa nem teve vergonha de nos pedir para trazer a quarta cama do quarto ao lado, e no dia seguinte, quando me vestir, terei a surpresa de encontrar um percevejo na roupa que terei deixado na cadeira. Se puderem, não fiquem no Aily Home pelos vinte e três euros pedidos, mesmo apesar da ultra-centralidade do albergue. É que não vale o dinheiro.
Depois de um jantar volante voltámos à praça para jogar à sueca e beber uma cerveja, entre turistas e fotógrafos nocturnos, nativos veraneantes, réplicas do David e do Rapto de las Sabinas, e o empregado de mesa que nos atendera ao almoço, agora a fumar uma com os amigos de feições magrebinas, que foi mais ou menos quando fiz todos rir à gargalhada após ganhar uma mão de jogo, quando disse “até parece que estamos em Itália”.
Na noite em Florença subimos ao quarto pela uma da manhã e sem muito sono eu e o Rui quisemos ler. Durou pouco. Ele desistiu do “The Innocent Man”, de John Grisham, um CSI de bolso que comprou em França para substituir o Garcia Marquez; e eu deixei-me vencer pela escrita adjectivada das “bolhas saponáceas” da “Espuma dos Dias”, de Boris Vian, que recebi de surpresa em casa por correio na véspera da viagem e a propósito para ela, da Filipa, num gesto tão bonito, mas não consegui mesmo continuar.
Com a mesma inevitabilidade fomos assaltados ao pequeno-almoço antes de deixar Florença. Os dois euros e meio pedidos por um croissant foram aceites por todos sem grande espanto, o que é por si espantoso, vindo a derradeira pancada no preço do café e na taxa de serviço. Ao todo foram sete euros. Sem palavras. Pagámos e sorrimos, e eu agradeci aos senhores do café por me terem dado mais uma lição sobre as diferenças culturais existentes entre os nossos povos, respondendo aos vários “thank you” de sotaque italiano com insistentes “no, I thank you!”, situação que valeu à Joana umas valentes risadas — ao menos isso.
Rumo à vila de Monselice, a trinta quilómetros de Padova, apenas para jantar e dormir, pois de manhã lá seguiremos caminho, não sem antes passear pela cidade durante cinco horas e de ver a Joana ser barrada à porta de uma igreja por estar vestida com uns calções curtos e um top largo, o que dará discussão demorada entre ela e os dois rapazes sobre a Igreja e mais coisas, no MacDonalds non-stop de Praga onde passaremos tempo até ao comboio das quatro da madrugada para Dresden, o início do regresso a casa.
Dali fomos para Veneza, onde encontrámos a pior estação de comboios, repleta de bandidos e indigentes, para apanharmos a ligação para a Eslovénia, naquilo que foi um dia perdido graças ao pobre sistema ferroviário italiano, que só na página de internet é que garante o trajecto nalgumas horas seguidas, e não num dia inteiro. De bom, apenas o melhor sítio onde dormimos nos vinte e dois dias de viagem, e o fim da odisseia do siso da Joana — de vez.
As duas horas que passámos na estação de Nice ficaram marcadas pela lata de polvo em vinha de alhos que a Joana teve de partilhar com o Rui, para não deitar fora. Ele diz que era bom.
A estação era muito mal frequentada e as ruas ali ao lado estavam sujas e malcheirosas, cheias de peep-show’s e chungas seguindo os movimentos dos viajantes, para além de mais confusão criada pelas obras nas calçadas. Ficámos com má impressão, mas dez dias depois, em Belgrado e Budapeste, aprenderemos que não se julga uma cidade pelo local onde se desembarca de um comboio ou autocarro. Portanto, Nice será bem bonita, como diz a Joana com a sua memória gigante e certeza de quem já viajou pela Europa toda, mesmo que em miúda, algo com que não foi fácil conviver nalguns momentos, para quem não conhece, e como contou a senhora italiana que partilhou o compartimento connosco até Florença.
Se ficámos assustados com a estação, ficámos aterrados com a composição da Trenitália onde iríamos passar as próximas nove horas — chegaríamos a Florença às seis da manhã. Nas palavras do Rui, o primeiro comboio nocturno da viagem era “um cangalho”. O chão e os bancos estavam sujos — e “sujos” é eufemismo —, as casas de banho não tinham água, o ar-condicionado desligou-se pouco depois do início da viagem, havia gente muito estranha a bordo e alguns fulanos que viajavam em pé e sem bagagem estavam nitidamente a trabalhar as carteiras alheias. Para melhorar tudo estava connosco uma família italiana, avô, avó e neto, ou seja, como dormiríamos todos ali?
Demorou até arrumarmos tudo no compartimento, mas quando voltámos do jantar volante sentados no corredor, a Joana, que obrigámos a ficar de guarda às nossas coisas, já tinha quebrado o gelo com a senhora e o miúdo italianos, que iam para Roma. O puto dominava várias ligas de futebol e sabia demasiado acerca clubes e jogadores portugueses do que seria de esperar dos seus onze ou doze anos de idade. Cristiano Ronaldo era o ídolo e a avó dizia-lhe que devia era estudar. Não lhe perguntámos o nome, que seria útil para esta história, um erro que cometeremos de novo com o pai de família australiano em viagem há nove meses com a mulher e os dois filhos pequenos, e as três portuguesas, que conheceremos em Ljubljana, entre outros, mas especialmente com estas raparigas, uma das quais me tirou o sono por uma noite. De tal forma que eu e o Rui — mais o Rui que eu — escrevemos um poema que deixámos no quarto delas, com os nossos e-mails, antes de sairmos de madrugada para a Croácia. Até hoje, zero respostas. Falámos de futebol com o miúdo até cansar e a senhora não deixou de notar quão estranho era ver uma rapariga viajar com três rapazes, porque as italianas não vão nisso e querem é ser cortejadas. E realmente eles dizem-lhes na rua a alto e bom som “piu bella!” e elas riem.
Não bastava o comboio ser velho, a noite abafada, a sauna dentro da carruagem e muita gente dormindo pelos corredores, como aquele cangalho ainda parou em quase todas as capelinhas e duas horas só em Génova, para mudar de maquinista ou apenas para o gajo fumar mais um cigarro à conversa com o pica, já suponho tudo, e uma paragem surreal no meio de um canavial, só porque sim. Isto já depois da polícia italiana ter levado uma mulher russa que estava no compartimento ao lado, de o pica ter apanhado e multado um pendura com mau aspecto que tinha demasiado dinheiro no bolso para quem viajava sem bilhete, e de o casal holandês de pé descalço que estava espojado à nossa porta ter acordado em Pisa, por acaso, me ter perguntado onde estavam e depois de um “cool” terem simplesmente saído, ele com a mão no rabo dela por dentro das calcinhas cor-de-rosa sujas que ela vestia.
Eu não dormi a noite inteira — excepto dois minutos e em pé, segundo o Rui —, o que se repetirá nos próximos comboios nocturnos de Split para Zagreb e de Belgrado para Budapeste. O Rui ainda partilhou parte da sentinela comigo, a Joana encostou-se uns pedaços e o Pedro dormiu umas sete horas seguidas, quase como a avó e o neto, que se arrumaram e só acordaram para nos dizer adeus já em Florença, com o sol a nascer — o avô não estava, afinal, no nosso compartimento.
Ver a Santa Maria del Fiore, ou il Duomo, praticamente sozinhos na rua e com aquela luz quente do sol que começou a subir, bem como a Ponte Vecchio e outros sítios por que fomos passear, foi fantástico. Três horas depois já era o caos de norte-americanos e japoneses. E Florença foi mais ou menos assim, passeando, e a Joana a comer três gelados por dia e a parar em todas as barraquinhas para estudar preços e sabores. “Opá, Itália é a terra dos gelados!”, dizia.Almoçámos pizza a preços portugueses na Piazza della Signoria e depois de caminhar um bocado fomos dormir a sesta no nosso hostel, um dos piores da viagem, mesmo ali ao lado, tão central quanto possível. Mas era muito estranho. Um apartamento em que a suposta estalajadeira vivia ali mas não era a dona do estaminé; as piores camas de sempre com colchões de molas já sem força e onde era impossível dormir direito; zero toalhas e apenas um lençol; e na porta um aviso explicando que, porque alguns hóspedes trazem bed bugs, os colchões estavam envoltos numa ruidosa capa plástica, desculpem lá o barulhinho incómodo, mas que afinal só uma cama tinha e então eu preferi dormir em cima da esteira, por cima do colchão. Pelo meio a tipa nem teve vergonha de nos pedir para trazer a quarta cama do quarto ao lado, e no dia seguinte, quando me vestir, terei a surpresa de encontrar um percevejo na roupa que terei deixado na cadeira. Se puderem, não fiquem no Aily Home pelos vinte e três euros pedidos, mesmo apesar da ultra-centralidade do albergue. É que não vale o dinheiro.
Depois de um jantar volante voltámos à praça para jogar à sueca e beber uma cerveja, entre turistas e fotógrafos nocturnos, nativos veraneantes, réplicas do David e do Rapto de las Sabinas, e o empregado de mesa que nos atendera ao almoço, agora a fumar uma com os amigos de feições magrebinas, que foi mais ou menos quando fiz todos rir à gargalhada após ganhar uma mão de jogo, quando disse “até parece que estamos em Itália”.
Na noite em Florença subimos ao quarto pela uma da manhã e sem muito sono eu e o Rui quisemos ler. Durou pouco. Ele desistiu do “The Innocent Man”, de John Grisham, um CSI de bolso que comprou em França para substituir o Garcia Marquez; e eu deixei-me vencer pela escrita adjectivada das “bolhas saponáceas” da “Espuma dos Dias”, de Boris Vian, que recebi de surpresa em casa por correio na véspera da viagem e a propósito para ela, da Filipa, num gesto tão bonito, mas não consegui mesmo continuar.
Com a mesma inevitabilidade fomos assaltados ao pequeno-almoço antes de deixar Florença. Os dois euros e meio pedidos por um croissant foram aceites por todos sem grande espanto, o que é por si espantoso, vindo a derradeira pancada no preço do café e na taxa de serviço. Ao todo foram sete euros. Sem palavras. Pagámos e sorrimos, e eu agradeci aos senhores do café por me terem dado mais uma lição sobre as diferenças culturais existentes entre os nossos povos, respondendo aos vários “thank you” de sotaque italiano com insistentes “no, I thank you!”, situação que valeu à Joana umas valentes risadas — ao menos isso.
Rumo à vila de Monselice, a trinta quilómetros de Padova, apenas para jantar e dormir, pois de manhã lá seguiremos caminho, não sem antes passear pela cidade durante cinco horas e de ver a Joana ser barrada à porta de uma igreja por estar vestida com uns calções curtos e um top largo, o que dará discussão demorada entre ela e os dois rapazes sobre a Igreja e mais coisas, no MacDonalds non-stop de Praga onde passaremos tempo até ao comboio das quatro da madrugada para Dresden, o início do regresso a casa.
Dali fomos para Veneza, onde encontrámos a pior estação de comboios, repleta de bandidos e indigentes, para apanharmos a ligação para a Eslovénia, naquilo que foi um dia perdido graças ao pobre sistema ferroviário italiano, que só na página de internet é que garante o trajecto nalgumas horas seguidas, e não num dia inteiro. De bom, apenas o melhor sítio onde dormimos nos vinte e dois dias de viagem, e o fim da odisseia do siso da Joana — de vez.
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
Uma paixão em Montpellier – dia 2
Montpellier não estava nos planos de ninguém, mas só chegaríamos a Nice muito tarde pela noite e ficámos por ali. Sem conseguir encontrar o hostel que o gabinete de turismo da estação nos tinha marcado no mapa e quando as mochilas já pesavam, a Joana perguntou à Charléne onde podíamos dormir e fomos atrás dela e da amiga até à Pousada de Juventude. Afinal era fácil.
Para aumentar um pouco a tensão de não termos ainda dormido desde que entrámos no primeiro comboio, e de na estação o fulano não nos ter marcado a viagem até Florença, a etapa seguinte, porque “não tinha sistema”, coisa bem portuguesa, na pousada a recepcionista também não tinha cama para todos, só para a Joana. Olhámo-nos, cansados, tentando não desesperar, o que nem foi preciso porque meia-hora depois estávamos hospedados, nós com três austríacos e a Joana com três alemãs badalhocas, uma freak de cabelo verde, uma brasileira e mais três.
Doridos e maçados, jantámos pasta numa esplanada ali perto, como a noite abafada exigia. A baixa de Montpellier é acolhedora, com as suas ruas estreitas cheias de pequenas lojas e restaurantes, praças escondidas com bancos de jardim, e muita gente a circular. Deitámo-nos relativamente cedo com os planos para a manhã seguinte escritos na toalha de papel do restaurante.
Então, na terça-feira eu e o Rui descobrimos a Charléne na bilheteira da estação de comboios para onde fomos encaminhados porque só ela falava inglês e eu não confiei no meu francês para me explicar. Era ela quem nos tinha levado à pousada na noite anterior, aqueles olhos azul-claro não nos enganaram e ela reconheceu-nos assim que perguntámos para confirmar. Devíamos ter voltado à uma e meia e tê-la convidado para almoçar, mas com a reserva para Florença finalmente nas mãos quisemos voltar para dar a notícia ao grupo. O Rui ficou triste.
Foi durante a manhã e parte da tarde que gastámos a passear pela cidade que começou a exasperante — pelo menos para a Joana — vaga de “gabanço” às mulheres francesas. Parecíamos miúdos pequenos que vêem maminhas pela primeira vez, mas as mulheres bonitas e com pouca roupa faziam questão de se cruzar connosco a espaços de cinco minutos, o que só aumentará de intensidade para níveis nunca antes imaginados oito dias mais tarde, na Croácia, onde a Joana já estará também familiarizada com o termo “setas”.
A praia a trinta minutos de Montpellier, onde nos fomos refrescar ao final do dia, não era paradisíaca como nos postais da Côte d’Azur, mas tinha água morna e o espaço entre toalhas estava ao nível da Caparica, talvez para nos fazer sentir em casa. Mesmo assim, soube muito bem e foi ali que o Rui me explicou como é que o pessoal da Praia da Rocha tonifica os braços e os peitorais na praia e sem pagar ginásio, e que soube que o Pedro depila o peito. O Pedro é de Vila Viçosa e vai a Espanha abastecer-se de tabaco, porque fuma muito e lá é mais barato. Para a viagem trouxe o seu volume de dez maços, obviamente. E anotem isto: daqui a uns tempos será jornalista para a televisão. Depois rimo-nos dos meus sete solitários pêlos e rumámos ao autocarro, onde o fã número um do Colin McRae esperava para nos dar uma lição de rali urbano em veículo pesado de passageiros, cheio. A viagem de meia-hora ficou-se pela metade do tempo e ainda hoje o Pedro e o Rui devem acreditar que eu tenho carta de condução de pesados e que um dia fui fazer testes à Carris. Desculpem rapazes, mas soube-me tão bem pregar-vos esta peta; é, contudo, verdade tudo o resto, só não tenho mesmo a carta; e foi muito engraçado ver a forma respeitosa como desde então me trataram e consideraram as minhas opiniões sobre sistemas integrados de transportes públicos.
Regressados e devidamente banhados, saímos para jantar e para espanto meu e da Joana descobrimos o deslumbramento do Rui e do Pedro pelo MacDonalds, onde praticamente exigiram jantar, algo que se repetirá em Ljubljana, onde os acompanharei e bombardearei com perguntas na tentativa de compreender aquele quase-vício.
Na pousada reencontrámos o Julian e o outro, alemães que conhecêramos na noite anterior e que, eles sim, não arranjaram alojamento e foram dormir ao jardim da cidade com os sem-abrigo. De manhã acordaram com o sistema de rega e agora, à noite, convidaram-nos para um copo. O Julian estuda Direito e ficou contente por saber que eu partilho com ele a ideia de que é o Direito que melhor prepara um jornalista, profissão que ambos desejamos seguir. Mas mesmo com tema de conversa garantido não fui com eles bebê-las e assistir a uma prostituta levar uma tareia de um barman, não se sabe porquê. Como também não se sabe muito bem quem era o búlgaro que vivia lá na pousada e que os acompanhou, e que — palavras dele, que mal falava inglês — era procurado pela polícia na Bulgária.
Fiquei, então, na rua a ouvir a Joana conversar com a sua nova amiga holandesa de que ainda hoje não recorda o nome, e timidamente a entrar na conversa, algo que não era fácil porque elas estavam eléctricas e eu deslumbrado. Rendido. Apaixonado. E nunca tinha estado na Holanda.
Ela era de Haia, tinha feito Erasmus em Sevilha, e estava a fazer praia no sul de França. Por isso tinha a pele morena, uma combinação explosiva com o cabelo loiro pelos ombros e os olhos azuis. Era muito divertida e engraçada na forma como falava de tudo com uma voz semi-rouca e quente, e tinha um detalhe que me deitou por terra, qual estocada final, e que desde já alerto para a impossibilidade de descrever convenientemente. Quando falava formava-se-lhe na boca uma espuminha — eu avisei... — extremamente sensual, e que para os que sabem do que falo é muito parecido ao que acontece a uma outra mulher muito bonita que conheço. O vestidinho azul pelo joelho, as sabrinas brancas e as pernas apetitosamente bem desenhadas são a última coisa que recordo, em suspiro.
Doze horas depois partiríamos para Florença, mas não sem antes tomar um croissant e um café por um euro e meio, para alegria geral dados os preços franceses, e de o Rui ter finalmente comprado fiambre às fatias no mercado da cidade. Da mesma forma que a Joana não come carne e que o Pedro fuma cigarros, o Rui só come pão se tiver fiambre.
Antes de entrar no comboio para Nice, que nos deixará num outro para Florença, durante toda a noite, e de almoçar conservas ou sanduíches sentados no chão da estação, a Joana sobressaltou-nos com uma má notícia: o siso rebelde continuava a dar luta e a massa que o dentista tinha colocado para remendar a incompetência e um pedaço partido, caíra e fora pelo lavatório abaixo, deixando-a com dores insuportáveis.
Montpellier não estava nos planos de ninguém, mas só chegaríamos a Nice muito tarde pela noite e ficámos por ali. Sem conseguir encontrar o hostel que o gabinete de turismo da estação nos tinha marcado no mapa e quando as mochilas já pesavam, a Joana perguntou à Charléne onde podíamos dormir e fomos atrás dela e da amiga até à Pousada de Juventude. Afinal era fácil.
Para aumentar um pouco a tensão de não termos ainda dormido desde que entrámos no primeiro comboio, e de na estação o fulano não nos ter marcado a viagem até Florença, a etapa seguinte, porque “não tinha sistema”, coisa bem portuguesa, na pousada a recepcionista também não tinha cama para todos, só para a Joana. Olhámo-nos, cansados, tentando não desesperar, o que nem foi preciso porque meia-hora depois estávamos hospedados, nós com três austríacos e a Joana com três alemãs badalhocas, uma freak de cabelo verde, uma brasileira e mais três.
Doridos e maçados, jantámos pasta numa esplanada ali perto, como a noite abafada exigia. A baixa de Montpellier é acolhedora, com as suas ruas estreitas cheias de pequenas lojas e restaurantes, praças escondidas com bancos de jardim, e muita gente a circular. Deitámo-nos relativamente cedo com os planos para a manhã seguinte escritos na toalha de papel do restaurante.
Então, na terça-feira eu e o Rui descobrimos a Charléne na bilheteira da estação de comboios para onde fomos encaminhados porque só ela falava inglês e eu não confiei no meu francês para me explicar. Era ela quem nos tinha levado à pousada na noite anterior, aqueles olhos azul-claro não nos enganaram e ela reconheceu-nos assim que perguntámos para confirmar. Devíamos ter voltado à uma e meia e tê-la convidado para almoçar, mas com a reserva para Florença finalmente nas mãos quisemos voltar para dar a notícia ao grupo. O Rui ficou triste.
Foi durante a manhã e parte da tarde que gastámos a passear pela cidade que começou a exasperante — pelo menos para a Joana — vaga de “gabanço” às mulheres francesas. Parecíamos miúdos pequenos que vêem maminhas pela primeira vez, mas as mulheres bonitas e com pouca roupa faziam questão de se cruzar connosco a espaços de cinco minutos, o que só aumentará de intensidade para níveis nunca antes imaginados oito dias mais tarde, na Croácia, onde a Joana já estará também familiarizada com o termo “setas”.
A praia a trinta minutos de Montpellier, onde nos fomos refrescar ao final do dia, não era paradisíaca como nos postais da Côte d’Azur, mas tinha água morna e o espaço entre toalhas estava ao nível da Caparica, talvez para nos fazer sentir em casa. Mesmo assim, soube muito bem e foi ali que o Rui me explicou como é que o pessoal da Praia da Rocha tonifica os braços e os peitorais na praia e sem pagar ginásio, e que soube que o Pedro depila o peito. O Pedro é de Vila Viçosa e vai a Espanha abastecer-se de tabaco, porque fuma muito e lá é mais barato. Para a viagem trouxe o seu volume de dez maços, obviamente. E anotem isto: daqui a uns tempos será jornalista para a televisão. Depois rimo-nos dos meus sete solitários pêlos e rumámos ao autocarro, onde o fã número um do Colin McRae esperava para nos dar uma lição de rali urbano em veículo pesado de passageiros, cheio. A viagem de meia-hora ficou-se pela metade do tempo e ainda hoje o Pedro e o Rui devem acreditar que eu tenho carta de condução de pesados e que um dia fui fazer testes à Carris. Desculpem rapazes, mas soube-me tão bem pregar-vos esta peta; é, contudo, verdade tudo o resto, só não tenho mesmo a carta; e foi muito engraçado ver a forma respeitosa como desde então me trataram e consideraram as minhas opiniões sobre sistemas integrados de transportes públicos.
Regressados e devidamente banhados, saímos para jantar e para espanto meu e da Joana descobrimos o deslumbramento do Rui e do Pedro pelo MacDonalds, onde praticamente exigiram jantar, algo que se repetirá em Ljubljana, onde os acompanharei e bombardearei com perguntas na tentativa de compreender aquele quase-vício.
Na pousada reencontrámos o Julian e o outro, alemães que conhecêramos na noite anterior e que, eles sim, não arranjaram alojamento e foram dormir ao jardim da cidade com os sem-abrigo. De manhã acordaram com o sistema de rega e agora, à noite, convidaram-nos para um copo. O Julian estuda Direito e ficou contente por saber que eu partilho com ele a ideia de que é o Direito que melhor prepara um jornalista, profissão que ambos desejamos seguir. Mas mesmo com tema de conversa garantido não fui com eles bebê-las e assistir a uma prostituta levar uma tareia de um barman, não se sabe porquê. Como também não se sabe muito bem quem era o búlgaro que vivia lá na pousada e que os acompanhou, e que — palavras dele, que mal falava inglês — era procurado pela polícia na Bulgária.
Fiquei, então, na rua a ouvir a Joana conversar com a sua nova amiga holandesa de que ainda hoje não recorda o nome, e timidamente a entrar na conversa, algo que não era fácil porque elas estavam eléctricas e eu deslumbrado. Rendido. Apaixonado. E nunca tinha estado na Holanda.
Ela era de Haia, tinha feito Erasmus em Sevilha, e estava a fazer praia no sul de França. Por isso tinha a pele morena, uma combinação explosiva com o cabelo loiro pelos ombros e os olhos azuis. Era muito divertida e engraçada na forma como falava de tudo com uma voz semi-rouca e quente, e tinha um detalhe que me deitou por terra, qual estocada final, e que desde já alerto para a impossibilidade de descrever convenientemente. Quando falava formava-se-lhe na boca uma espuminha — eu avisei... — extremamente sensual, e que para os que sabem do que falo é muito parecido ao que acontece a uma outra mulher muito bonita que conheço. O vestidinho azul pelo joelho, as sabrinas brancas e as pernas apetitosamente bem desenhadas são a última coisa que recordo, em suspiro.
Doze horas depois partiríamos para Florença, mas não sem antes tomar um croissant e um café por um euro e meio, para alegria geral dados os preços franceses, e de o Rui ter finalmente comprado fiambre às fatias no mercado da cidade. Da mesma forma que a Joana não come carne e que o Pedro fuma cigarros, o Rui só come pão se tiver fiambre.
Antes de entrar no comboio para Nice, que nos deixará num outro para Florença, durante toda a noite, e de almoçar conservas ou sanduíches sentados no chão da estação, a Joana sobressaltou-nos com uma má notícia: o siso rebelde continuava a dar luta e a massa que o dentista tinha colocado para remendar a incompetência e um pedaço partido, caíra e fora pelo lavatório abaixo, deixando-a com dores insuportáveis.
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
O início – dia zero
“O coronel Aureliano Buendia promoveu trinta e dois levantamentos armados e perdeu-os todos. Teve dezassete filhos varões de dezassete mulheres diferentes, que foram exterminados, um após outro, numa única noite, antes de o mais velho fazer trinta e cinco anos”, que foi quando o Rui perdeu o livro, entre Madrid e Barcelona. Dias mais tarde comprará, por dez euros, um pedaço de lixo literário inglês que desejará, esse sim, ter perdido algures. O Rui, de Portimão, um metro e oitenta e três de altura, é um cabeça de vento e perdeu nesta viagem quase tudo o que havia para perder, como se verá.
Dias antes de partir o João disse-me: “Lembra-te que tudo o que estás a planear pode correr mal”, que é o que dá piada à coisa, e efectivamente chegámos a Madrid e para Barcelona já só havia plazas no comboio das seis e vinte e cinco da manhã seguinte. Merda, pensámos em conjunto. Começava bem a viagem, a 12 de Agosto de 2007.
Sem sítio onde dormir e porque a estação de Atocha fecha entre a uma e as cinco da madrugada, ainda ponderámos ficar na entrada do prédio de um hostel onde fomos insultados com os preços pedidos, ou com o sem abrigo com quem eu e o Pedro confirmámos o fecho da estação e que nos ofereceu cartões, mas o Rui e a Joana precisaram ir à casa de banho de um café ali ao lado e assim descobrimos o El Pando, um pequeno tasco que nunca fecha.
Entre hamburguesas gordurentas pedidas à vez para esticar o tempo e conservar a mesa, canecas de cerveja, pratinhos de azeitonas e amendoins que o senhor Daniel nos oferecia, e perguntas parvas acerca de como se diz em castelhano fiambre e presunto, ficámos até às cinco e meia, que acho que foi quando a Joana engoliu mais um de muitos analgésicos potentíssimos para suportar as dores e a infecção de uma tentativa falhada de extracção de um siso, quatro dias antes, por um dentista jovem e inexperiente. E partimos.
Até Barcelona o comboio foi um luxo e eu até dormi, a Joana dormiu, o Pedro dormiu e o Rui, depois de dormir também, foi o resto da viagem a dar charme a uma catalã loira e bem gira que estava ao lado dele. Repetirá a proeza na última jornada, a caminho da República Checa, com uma viajante irlandesa solitária. O Rui é um galã.
Na estação de Saints, de manhã, comemos sentados no chão, o Rui deu pela falta do livro e ficou de trombas o resto do dia, o Pedro fumou dois ou três cigarros de rajada à porta da estação enquanto certamente pensou na vida dele quando Portugal adoptar com o mesmo rigor a lei anti-tabaco que os espanhóis já tanto acarinham, e a Joana, a curtir a tripe, estava feliz e sorria. Seguimos para Cerbere, na fronteira, e daí para Montpellier, no primeiro comboio de compartimentos até então. Um dia gasto a andar de comboio.
Enquanto eles dormiam, uma constante em toda a viagem e porque eu não consigo cair no sono em nenhum transporte, ajudei a Débora a arrumar a mochila no compartimento, e fiquei um bocado perdido no rosto e no decote dela, que pouco falava inglês, e foi a mímica de sorrisos e olhares que nos entreteve até a Joana acordar e começar a falar francês. A Joana foi sempre a mais afoita a falar com os nativos de todos os sítios por onde passámos, um gesto de valor que todos lhe agradecemos. Residente no Seixal, é fluente em inglês, francês e espanhol, além de dar uns toques no checo, holandês e italiano. Praga, onde viveu seis meses, será o último destino desta viagem.
A Débora era morena, tinha um cabelo preto comprido, olhos castanhos resguardados por uns óculos com hastes de massa preta, e mãos de menina que não paravam de ajeitar o cabelo em direcção ao peito, para cobrir o que dele conseguisse, que era pouco. Regressava de um festival de música e ia para Avignon, umas horas depois da nossa paragem.
Quando acordou, o Rui quis logo saber o que era aquele prato gigante de tecido que ocupava o banco ao lado. Estava longe de imaginar estar perante uma maravilha da tecnologia terrestre mais simples de todas: uma tenda que se arma sozinha depois de atirada ao ar, como lhe explicou a Débora. “You throw and fsssssssiu tchcpum” (com gestos a explicar a coisa). Ela era muito gira. Mas giro giro, pelo menos para nós, porque ela não deve ter percebido bem, foi quando o Rui resolveu apresentar-nos à miúda e traduzir os nossos nomes para francês, ficando uma Joana que era Joanna D’Arc, um João que era Jean, um Rui que era Rui, e para gargalhada geral um Pedro que se tornou “Pitérre”, de Piérre. O Rui foi o bom palerma da viagem, como ele próprio confirmará. E tudo começou bem cedo quando à saída de Badajoz, onde começámos, percebeu que tinha deixado algures em casa o carregador do leitor de MP3, comprado a propósito para a viagem.
Adeus Débora, chegámos a Montpellier, a primeira paragem, onde me apaixonarei à segunda e última noite por uma das mulheres mais sensuais que vi até hoje.
“O coronel Aureliano Buendia promoveu trinta e dois levantamentos armados e perdeu-os todos. Teve dezassete filhos varões de dezassete mulheres diferentes, que foram exterminados, um após outro, numa única noite, antes de o mais velho fazer trinta e cinco anos”, que foi quando o Rui perdeu o livro, entre Madrid e Barcelona. Dias mais tarde comprará, por dez euros, um pedaço de lixo literário inglês que desejará, esse sim, ter perdido algures. O Rui, de Portimão, um metro e oitenta e três de altura, é um cabeça de vento e perdeu nesta viagem quase tudo o que havia para perder, como se verá.
Dias antes de partir o João disse-me: “Lembra-te que tudo o que estás a planear pode correr mal”, que é o que dá piada à coisa, e efectivamente chegámos a Madrid e para Barcelona já só havia plazas no comboio das seis e vinte e cinco da manhã seguinte. Merda, pensámos em conjunto. Começava bem a viagem, a 12 de Agosto de 2007.
Sem sítio onde dormir e porque a estação de Atocha fecha entre a uma e as cinco da madrugada, ainda ponderámos ficar na entrada do prédio de um hostel onde fomos insultados com os preços pedidos, ou com o sem abrigo com quem eu e o Pedro confirmámos o fecho da estação e que nos ofereceu cartões, mas o Rui e a Joana precisaram ir à casa de banho de um café ali ao lado e assim descobrimos o El Pando, um pequeno tasco que nunca fecha.
No meio de prostitutas velhas e feias, novas e bonitas, proxenetas e clientes, encontrámos o senhor Daniel e os seus dentes castanhos, que emigraram de Bragança para Madrid há 35 anos, e que logo nos deixou à vontade: “Quando fecha? Não vos preocupais, podeis ficar até querer.” O sítio era pequeno, tinha meia dúzia de mesas e ao balcão concentrava-se a maior parte da clientela, que vai ali para aconchegar o estômago pela noite dentro enquanto gasta umas moedas na máquina de flippers. Apesar da chungaria dentro de portas e nas imediações, o El Pando era àquela hora o sítio mais seguro da cidade, ou não estivesse uma vintena de polícias a cear à porta.
Entre hamburguesas gordurentas pedidas à vez para esticar o tempo e conservar a mesa, canecas de cerveja, pratinhos de azeitonas e amendoins que o senhor Daniel nos oferecia, e perguntas parvas acerca de como se diz em castelhano fiambre e presunto, ficámos até às cinco e meia, que acho que foi quando a Joana engoliu mais um de muitos analgésicos potentíssimos para suportar as dores e a infecção de uma tentativa falhada de extracção de um siso, quatro dias antes, por um dentista jovem e inexperiente. E partimos.
Até Barcelona o comboio foi um luxo e eu até dormi, a Joana dormiu, o Pedro dormiu e o Rui, depois de dormir também, foi o resto da viagem a dar charme a uma catalã loira e bem gira que estava ao lado dele. Repetirá a proeza na última jornada, a caminho da República Checa, com uma viajante irlandesa solitária. O Rui é um galã.
Na estação de Saints, de manhã, comemos sentados no chão, o Rui deu pela falta do livro e ficou de trombas o resto do dia, o Pedro fumou dois ou três cigarros de rajada à porta da estação enquanto certamente pensou na vida dele quando Portugal adoptar com o mesmo rigor a lei anti-tabaco que os espanhóis já tanto acarinham, e a Joana, a curtir a tripe, estava feliz e sorria. Seguimos para Cerbere, na fronteira, e daí para Montpellier, no primeiro comboio de compartimentos até então. Um dia gasto a andar de comboio.
Enquanto eles dormiam, uma constante em toda a viagem e porque eu não consigo cair no sono em nenhum transporte, ajudei a Débora a arrumar a mochila no compartimento, e fiquei um bocado perdido no rosto e no decote dela, que pouco falava inglês, e foi a mímica de sorrisos e olhares que nos entreteve até a Joana acordar e começar a falar francês. A Joana foi sempre a mais afoita a falar com os nativos de todos os sítios por onde passámos, um gesto de valor que todos lhe agradecemos. Residente no Seixal, é fluente em inglês, francês e espanhol, além de dar uns toques no checo, holandês e italiano. Praga, onde viveu seis meses, será o último destino desta viagem.
A Débora era morena, tinha um cabelo preto comprido, olhos castanhos resguardados por uns óculos com hastes de massa preta, e mãos de menina que não paravam de ajeitar o cabelo em direcção ao peito, para cobrir o que dele conseguisse, que era pouco. Regressava de um festival de música e ia para Avignon, umas horas depois da nossa paragem.
Quando acordou, o Rui quis logo saber o que era aquele prato gigante de tecido que ocupava o banco ao lado. Estava longe de imaginar estar perante uma maravilha da tecnologia terrestre mais simples de todas: uma tenda que se arma sozinha depois de atirada ao ar, como lhe explicou a Débora. “You throw and fsssssssiu tchcpum” (com gestos a explicar a coisa). Ela era muito gira. Mas giro giro, pelo menos para nós, porque ela não deve ter percebido bem, foi quando o Rui resolveu apresentar-nos à miúda e traduzir os nossos nomes para francês, ficando uma Joana que era Joanna D’Arc, um João que era Jean, um Rui que era Rui, e para gargalhada geral um Pedro que se tornou “Pitérre”, de Piérre. O Rui foi o bom palerma da viagem, como ele próprio confirmará. E tudo começou bem cedo quando à saída de Badajoz, onde começámos, percebeu que tinha deixado algures em casa o carregador do leitor de MP3, comprado a propósito para a viagem.
Adeus Débora, chegámos a Montpellier, a primeira paragem, onde me apaixonarei à segunda e última noite por uma das mulheres mais sensuais que vi até hoje.
Subscrever:
Mensagens (Atom)








