Houve um tempo em que as pessoas faziam coisas – v1.0
Vive-se hoje no País um momento muito especial. Tão especial que exige tomadas de posição.
1. «Isto desde as guerras liberais são sempre as mesmas 150 famílias», disse um dia o historiador Fernando Rosas (e deputado pelo BE). E são mesmo, a começar por ele, que é neto de Dias Rosas, ministro das Finanças de Marcelo Caetano. E passando pelo colégio São João de Brito, de onde têm saído os políticos e cargos institucionais dos últimos 30 anos, numa proporção enorme. Quem lá estuda acaba amigo de infância de não sei quem que o vai nomear para algum sítio, 20 ou 30 anos mais tarde — meter lá um filho é um investimento. «Se calhar foi por isto que não houve sangue no 25 de Abril, alguém é primo de alguém», li de Abel Pinheiro (herdeiro do grupo Grão-Pará, fundador do CDS-PP).
Se não for primo, pode ser associado. O senso comum e até a natureza dizem que a união faz a força e é claro o papel de influência, em sentido lato, das comunidades enquanto grupos de pressão sobre terceiros e protecção dos seus. A Igreja, os partidos políticos, o Opus Dei, a Maçonaria — e a propósito da maçonaria, disse também Abel Pinheiro: «Quando o PS vai para o Governo, ela cresce; com maioria absoluta ela não cresce, incha». E os círculos mais ou menos fechados ou coesos em que se podem mover as pessoas interessadas, e com interesses, tornam-se núcleos fortes.
Em Fevereiro jornais e telejornais abriram com uma tomada de posição da SEDES, a Associação para o Desenvolvimento Económico e Social, que alertava para «um mal-estar difuso, que alastra e mina a confiança essencial à coesão nacional»; que apelava para a necessidade de defender a democracia e regenerar os partidos políticos, quando hoje é «preocupante assistir à tentacular expansão da influência partidária, quer na ocupação do Estado, quer na articulação com interesses da economia privada»; que apontava o dedo à degradação de valores na comunicação social e à inabilidade da justiça; e terminava com um apelo generalizado ao desbloqueamento da eficácia do regime, disponibilizando-se a SEDES para «alimentar esses canais e frequentar as esferas de reflexão e diálogo». Ainda bem, haja alguém que se disponha a dar o corpo às balas.
Mas, quem é a SEDES? Quem são as pessoas que compõem aquela associação cívica formada em 1970, cujos «fundadores eram oriundos de diferentes formações académicas, estratos sociais, actividades profissionais e opções políticas», unidos pela «vontade de mudança e uma prática de militância social diversificada no associativismo académico, prática de contestação política contra o sistema, participação em organizações cristãs e actividade sindical»? Quem são os notáveis de tão creditada associação? Podemos somente e a título de exemplo olhar para o perfil de Rui Vilar, o Presidente da Assembleia Geral:
- É Presidente do Conselho de Administração da Fundação Gulbenkian desde 2002, foi Administrador desde 1996;
- É Presidente da Partex Oil & Gas (Holdings) Corporation desde 2002. É Vice-Presidente do Governing Council do European Foundation Centre e Presidente do Steering Committee do projecto Europe In the World;
- É Presidente do Conselho de Auditoria do Banco de Portugal desde 1996;
- Entrou para a Função Pública em 1966, onde esteve até 1969, ano em que assumiu funções directivas no Banco Português do Atlântico, onde permaneceu até 1973;
- No início dos anos setenta faz parte do grupo de cidadãos que viria a fundar a SEDES, de que foi o primeiro presidente;
- A sua carreira política começa em 1974 como Secretário de Estado do Comércio Externo e Turismo do I Governo Provisório, depois Ministro da Economia dos II e III Governos Provisórios (1974/75), foi eleito Deputado em 1976, entre 1976 e 1978 foi Ministro dos Transportes e Comunicações do I Governo Constitucional e entre 1986 e 1989 foi Director-Geral da Comissão das Comunidades Europeias, em Bruxelas;
- Como gestor foi Vice-Governador do Banco de Portugal, entre 1975 e 1984, Presidente do Conselho de Gestão do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa (1985/86), Presidente do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos (1989-1995), presidiu ao Grupo Europeu dos Bancos de Poupança (1991-94) e foi Presidente do Conselho de Administração da Galp Energia, entre 2001 e 2002;
- Presidiu ainda à Comissão de Fiscalização do Teatro Nacional de São Carlos (1980-86) e foi Comissário-Geral para a Europália, entre 1989 e 1992;
- Entre 1989 e 1990 foi Vice-Presidente da Fundação de Serralves. Foi Administrador da Porto 2001, em 1999;
Um currículo impressionante, sem qualquer desprimor para o senhor. Mas quanto dele é de nomeação política?
E depois há outros nomes conhecidos na SEDES:
- João Salgueiro (Presidente Associação Portuguesa de Bancos);
- Luís Valente de Oliveira (ex-Ministro da Educação, ex-Ministro do Planeamento e Ordenamento do Território, agora professor universitário);
- Fernando Faria de Oliveira (recentemente escolhido para Presidente do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos);
- António Bagão Félix (ex-Ministro das Finanças e da Segurança Social, não sei o que faz agora);
- Guilherme d'Oliveira Martins — e este é o meu preferido (Presidente do Tribunal de Contas, Presidente do Centro Nacional de Cultura, é ainda descrito como ensaísta e professor universitário, e nos dois governos de Guterres foi Secretário de Estado da Administração Educativa, Ministro da Educação, Ministro da Presidência, Ministro das Finanças — o homem certo para tapar o buraco, seja ele qual for);
- João Carlos Espada (Consultor para Assuntos Políticos do Presidente da República, já o tinha sido para Mário Soares (1986-1990), é Director do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, é director da revista trimestral Nova Cidadania e pertence ao Conselho Editorial da revista Journal of Democracy);
- Fernando Ulrich (actual presidente executivo do BPI), e isto só para recuar ao início da década de 90.
São sempre as mesmas 150 famílias. Nos cargos, nas instituições, nos espaços de opinião dos jornais, das televisões e das rádios. Se formos aos seus passados, veremos que militaram juntos em partidos, em acções católicas, em universidades ou escolas.
Em comum estas pessoas terão, pelo menos, ainda mais um aspecto das suas vidas. Eram jovens, tinham vinte e poucos ou andavam na casa dos trinta anos, quando se deu uma das principais mudanças estruturais no País, o 25 de Abril, com tudo o que isso significou de urgência na tomada de posições e consciências — ou inconsciências, apetece brincar — políticas. Nós, a nossa geração, temos vinte e poucos e menos de trinta anos, hoje.
2. O declínio das referências, da família ao poder. Acabou o serviço militar obrigatório, o sítio para onde se receava ir quando se permanecia na escola sem progredir de ano para além de uma determinada idade, pelo menos no nosso tempo.
Ficando-se mais tempo na escola, crescendo o insucesso, decresce o respeito por aquela instituição e daí a bater-se nos professores é um instante.
A escola em geral, nos seus diversos graus de ensino, perdeu exigência.
A família também perdeu peso. Perdeu uma dimensão de autoridade, desde os filhos que vivem fechados nos quartos e nem comem à mesa com os pais — isto quando os pais, ou algum dos membros da família, ainda fazem refeições em casa —, aos pais que despejam os filhos na escola e nos ATL e esperam que uns anos depois eles apareçam educados. Perdeu coesão, com o crescimento dos divórcios. E perdeu a continuidade, com os velhos a deixarem de envelhecer com os filhos e os netos, fruto de imensos factores, como as migrações, algo que vejo manter-se hoje somente “naquelas 150 famílias”.
A inegável melhoria das condições de vida da sociedade, na generalidade e comparando não mais longe do que com o início do período democrático do País, retirou das gerações mais novas um peso, uma responsabilidade de excelência precoce ou preocupação futura como meio para prosseguir objectivos claros e além da simples subsistência. E criou uma imagem de facilidade e de facilitismo — e se estão mais fáceis as coisas hoje, do que estiveram para os nossos pais. Mas que estamos melhor, estamos, senão, note-se, a título de exemplo: quando é que a generalidade dos velhotes tiveram possibilidade de almoçar num restaurante, mesmo que de bairro? E agora basta ir a um e ver.
O poder é hoje um fim em si mesmo. Os homens do poder já não estão ao serviço do público, mas da manutenção do poder. Estão enrolados em corrupção, são desonestos e amorais. Vencem a justiça, quando lhes são presentes, mas raramente por trânsito em julgado e sim pelo arrastamento dos casos através de manobras processuais. As escutas do processo Portucale, o célebre dos sobreiros e do Governo PSD-CDS, estão a revelar-se fonte de abertura de numerosos inquéritos. Deve ser divertidíssimo consultar o processo.
Concursos e legislação feitos por medida para casos concretos são demasiado frequentes e passam impunes. O floreiro do cemitério de Carnide, o tal que foi instalado num terreno que não cumpre as funções, não vende uma flor e paga 1200 euros de renda por mês à Câmara de Lisboa, enquanto o restaurante Eleven no topo do Parque Eduardo VII apenas paga 500 e ainda há quem não tenha a vergonha de dizer perante as câmaras da televisão que o concurso público para o espaço é que ditou as condições, ninguém pediu favores — e este é só um exemplo.
3. «Os nossos pais deram-nos mais do que tiveram, mas nós temos menos do que eles», declarou à Visão um rapaz com menos de trinta anos, licenciado e com trabalho precário, a propósito de uma reportagem sobre a “geração em saldo” ou a “geração dos mil euros”. Mas onde é que está a geração dos mil euros?
No meu ramo de actividade, como em tantos outros, para quem está em início de carreira a norma é uma das seguintes: um estágio, não remunerado, que frequentemente deriva em mais um estágio; ou um contrato verbal de prestação de serviços, com pagamento por meio de recibos verdes; e mesmo que o contrato de trabalho seja a termo certo, embora bem mais raro, a prática comum é um salário baixo. Aliás, ultra-baixo. Na nova Grelha Salarial Única da Administração Pública, ao lugar mais baixo da tabela de qualificação, o de operário não qualificado (um cantoneiro, para dar um exemplo), corresponde um salário na ordem dos 400 euros. Eu fui esta semana a uma entrevista onde procuravam um profissional com habilitações superiores e com experiência profissional, a que se propunham pagar os mesmos 400 euros líquidos, em regime de contrato a termo certo com pagamento contra recibo verde e sem opção de retenção das prestações sociais na fonte — o que, para quem estiver no primeiro ano de actividade e isento de pagar à Segurança Social faz ascender o salário a uns astronómicos 600 euros; mas quem com experiência é que está no primeiro ano de actividade? E isto acontece igualmente na advocacia e na indústria. Os serviços, esses, são a selva.
A generalizada opção dos empregadores pelos recibos verdes só tem uma justificação: a economicista. A lei contempla contratos de trabalho a termo certo entre 6 meses e 3 anos, renováveis duas vezes. Então porque não fazem as empresas contratos de seis meses com aqueles que querem a trabalhar para si, se é um trabalhador temporário que procuram? Quantos de nós não conhecemos casos de falsos trabalhadores independentes, que há anos estão a recibos verdes? E porque não tomam os empregadores em mãos as prestações sociais? E nem desco ao valor do salário oferecido, que é baixo, baixíssimo — e uma economia assente em salários baixos não vai, não pode ir, longe. Porquê o recibo? Porquê? É a perpetuação da precariedade. E chamar a um trabalhador de colaborador não é “descomunizar”: é “eufemizar” e retirar valor facial. Um subordinado não colabora, trabalha. E por dizê-lo não sou comunista, mas rigoroso, porque o colaborador não trabalha a tempo inteiro nem em continuidade. Ou estarei errado?
Sendo assim, como é que é possível que a nossa geração tenha sequer o mesmo que os nossos pais tinham entre 1968 e 78, por exemplo? Algum de nós consegue hoje arrendar um apartamento somente com o seu ordenado? Quantos de nós não tiveram, pelo menos a tempos, somente um dos pais a sustentar o lar, muitas vezes já com um filho ou dois? Como é que isso será possível hoje, à nossa geração. É o retrato do retrocesso social.
4. «Nós nunca vivemos tanto na Caverna de Platão como hoje. Porque as próprias imagens que nos mostram a realidade, de alguma maneira substituem a realidade. Nós estamos a repetir a situação das pessoas aprisionadas na Caverna de Platão, olhando em frente, vendo sombras e acreditando que essas sombras são a realidade». E é muito fácil perdermo-nos neste mundo audiovisual, especialmente quando alguém deita óleo na curva — o que acontece todos os dias. Como no dia em que José Sócrates diz não ao referendo ao Tratado de Lisboa, para no dia seguinte anunciar a a preferência de Alcochete para o novo aeroporto. Ou na manhã em que surge nos media um relatório que envolve o País na transferência de prisioneiros para Guantánamo, os afamados vôos da CIA, e ao início da tarde e durante o que se aguardava que fosse mais um discurso crítico do Bastonário dos Advogados na abertura do ano judicial, Sócrates anunciar a remodelação de Correia de Campos e Isabel Pires de Lima.
«Neste mundo audiovisual onde os sons se multiplicam, onde as imagens se multiplicam e onde nós vamos cada vez mais sentir-nos perdidos. Perdidos, em primeiro lugar, de nós próprios. E em segundo lugar perdidos na relação com o mundo. Acabamos por circular aí sem saber muito bem o que somos, nem para que servimos, nem que sentido tem a existência.» As palavras são de José Saramago. E digam-me lá se não é assim que, mais ou menos, vamos andando.
E estas são de um candidato à presidência dos Estados Unidos:
«It was whispered by slaves and abolitionists as they blazed a trail toward freedom. It was sung by immigrants as they struck out from distant shores and pioneers who pushed westward against an unforgiving wilderness. It was the call of workers who organized; women who reached for the ballots; a President who chose the moon as our new frontier; and a King who took us to the mountaintop and pointed the way to the Promised Land. Yes we can to justice and equality. Yes we can to opportunity and prosperity. Yes we can heal this nation. Yes we can repair this world. Yes we can. We know the battle ahead will be long, but always remember that no matter what obstacles stand in our way, nothing can stand in the way of the power of millions of voices calling for change. We have been told we cannot do this by a chorus of cynics... They will only grow louder and more dissonant… We've been asked to pause for a reality check. We've been warned against offering the people of this nation false hope. But in the unlikely story that is America, there has never been anything false about hope. (…) We will remember that there is something happening in America; that we are not as divided as our politics suggests; that we are one people; we are one nation; and together, we will begin the next great chapter in the American story».
Nenhumas são palavras de incentivo. São apenas palavras de alerta.
Houve um tempo em que as pessoas faziam coisas.
Lisboa, 16 de Março de 2008
João Pedro Correia
sexta-feira, 14 de março de 2008
Não sei quantos postais te escrevi
Sei, isso sei, que é quando o Sol bate dourado nas paredes dos prédios desta cidade e os carris do eléctrico brilham no empedrado de granito escuro, sei que é aí que tenho de procurar ruas que descem ingremes só para ficar a olhar o pedacinho de rio lá ao fundo, enquanto tento encontrar um quiosque para turistas; sei que é aí que tenho de procurar uma mesa de café na rua, para não perder pitada destes minutos fogazes, as paredes de amarelo fogo e os reflexos nos vidros; sei que é assim que te penso, que te lembro, sei que é aqui que me lembro dos teus olhos molhados, o teu sorriso envergonhado, o teu rubor, sei que é aí que tenho a coragem para te dizer aquilo que nunca te disse, que não sei porque nunca te disse.
Sei, isso sei, que é quando o Sol bate dourado nas paredes dos prédios desta cidade e os carris do eléctrico brilham no empedrado de granito escuro, sei que é aí que tenho de procurar ruas que descem ingremes só para ficar a olhar o pedacinho de rio lá ao fundo, enquanto tento encontrar um quiosque para turistas; sei que é aí que tenho de procurar uma mesa de café na rua, para não perder pitada destes minutos fogazes, as paredes de amarelo fogo e os reflexos nos vidros; sei que é assim que te penso, que te lembro, sei que é aqui que me lembro dos teus olhos molhados, o teu sorriso envergonhado, o teu rubor, sei que é aí que tenho a coragem para te dizer aquilo que nunca te disse, que não sei porque nunca te disse.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
O nascimento de um país (ou talvez não)
00h31
Kosovo awaits recognition, and Serb challenge
China “deeply concerned” over Kosovo independence
Sri Lanka says Kosovo decision a threat to nations
Germany’s Merkel says EU unity on Kosovo a priority
Russia’s Chechen rebels hail Kosovo independence
EU calls for calm, unity over Kosovo
Spain says won’t recognise Kosovo independence
10h34
Kosovo expects recognition within minutes – Thaci
Vietnam says against Kosovo independence
Azerbaijan says not recognising Kosovo independence
US officially recognizes Kosovo independence – BBC
Bush says people of Kosovo are independent
France recognises Kosovo independence – Kouchner
EU united on Kosovo, presidency says
Britain to recognise Kosovo – Miliband
Italy says recognises Kosovo independence
Germany to recognise Kosovo – Steinmeier
Spain confirms won’t recognise Kosovo
16h32
Germany sees 17 EU states in quick Kosovo move
US recognises Kosovo’s independence – Rice
Turkey says to recognise Kosovo independence – Formin
Separatist fears stoke opposition to Kosovo move
Serbia recalls ambassador after US recognises Kosovo
Georgia not planning to recognise Kosovo – minister
Romania will not recognise Kosovo independence
22h07
Serbia urges UN council to block Kosovo secession
Reuters, 18 Fevereiro 2008
00h31
Kosovo awaits recognition, and Serb challenge
China “deeply concerned” over Kosovo independence
Sri Lanka says Kosovo decision a threat to nations
Germany’s Merkel says EU unity on Kosovo a priority
Russia’s Chechen rebels hail Kosovo independence
EU calls for calm, unity over Kosovo
Spain says won’t recognise Kosovo independence
10h34
Kosovo expects recognition within minutes – Thaci
Vietnam says against Kosovo independence
Azerbaijan says not recognising Kosovo independence
US officially recognizes Kosovo independence – BBC
Bush says people of Kosovo are independent
France recognises Kosovo independence – Kouchner
EU united on Kosovo, presidency says
Britain to recognise Kosovo – Miliband
Italy says recognises Kosovo independence
Germany to recognise Kosovo – Steinmeier
Spain confirms won’t recognise Kosovo
16h32
Germany sees 17 EU states in quick Kosovo move
US recognises Kosovo’s independence – Rice
Turkey says to recognise Kosovo independence – Formin
Separatist fears stoke opposition to Kosovo move
Serbia recalls ambassador after US recognises Kosovo
Georgia not planning to recognise Kosovo – minister
Romania will not recognise Kosovo independence
22h07
Serbia urges UN council to block Kosovo secession
Reuters, 18 Fevereiro 2008
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
Palma(da) de Ouro
“4 meses, 3 semanas, 2 dias” de Cristian Mungiu.
Mais um belo filme romeno.
Está no King.
“4 meses, 3 semanas, 2 dias” de Cristian Mungiu.Mais um belo filme romeno.
Está no King.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
Há gajos com razão
«Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo. Morre lentamente quem destrói o seu amor próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajecto, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor, ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru. Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro ao branco e os pontos sobre os “ii” em detrimento de um remoinho de emoções, justamente as que roubam o brilho dos olhos, os sorrisos dos bocejos, os corações das desilusões e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva que cai incessante. Morre lentamente quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples acto de respirar.» P. Neruda
Eu conheço um punhado deles.
«Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo. Morre lentamente quem destrói o seu amor próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajecto, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor, ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru. Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro ao branco e os pontos sobre os “ii” em detrimento de um remoinho de emoções, justamente as que roubam o brilho dos olhos, os sorrisos dos bocejos, os corações das desilusões e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva que cai incessante. Morre lentamente quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples acto de respirar.» P. Neruda
Eu conheço um punhado deles.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
“Eastern Promises”
Ou como o último filme de David Cronenberg é mauzote e o Viggo Mortensen mostra o rabo e algo mais — para gáudio de algumas senhoras — enquanto leva uma carga de porrada, mas depois ganha. Podia ser. Mas não é.
O Leste anda a prometer muito. Mesmo.
Vladimir Putin é o novo primeiro-ministro eleito da Rússia. Eleito com mais de 64 por cento dos votos nas mesmas eleições que os observadores da OSCE e da UE criticaram pelo clima pouco democrático e de coerção à liberdade de expressão e reunião. Talvez porque uma semana antes as manifestações em Moscovo e São Petersburgo tinham dado confrontos com a polícia e a detenção de 200 opositores de Putin, entre os quais Boris Nemtsov e Nikita Belykh, líderes do partido SPS (Union of Right Forces, segundo a Reuters) e candidatos às eleições legislativas — só a detenção do “axadrezado” Garry Kasparov é que passou nas TV e nos jornais.
O novo-primeiro ministro russo já foi primeiro-ministro russo, entre Agosto de 1999 e Maio de 2000, a convite de Boris Yeltsin. O novo primeiro-ministro russo ainda é Presidente russo, até Março de 2008, que é quando termina o segundo mandato. Os métodos russos são qualquer coisa...
A Duma tem, agora, um novo deputado. Chama-se Andrei Lugovoi, foi o segundo eleito pelo partido LDPR (Liberal Democratic Party of Russia, segundo a Reuters), um de quatro a conseguir assentos no parlamento. É ex-agente do FSB e é o principal suspeito da morte de Aleksander Litvinenko. Se antes o Reino Unido pedia a extradição e a Rússia recusava, agora com a imunidade diplomática o problema está resolvido. Curiosa foi a resposta de Lugovoi à pergunta da Reuters sobre se iria chefiar o Comité de Segurança: «As everybody knows I have a lot of experience in security issues...»
Antes, a 4 de Novembro de 2007, podia ler-se no The Times: «At first the police thought the two bodies found in a ditch near St Petersburg last weekend were those of drunks who had passed out and died of hypothermia. The case turned out to be far more disturbing. Both men were from Russia’s Federal Drug Control Service, a powerful force of former KGB officers, and they had been poisoned.» A mim soa-me familiar. E estas notícias são frequentes, basta andar atento.
Um olhar mais demorado a alguma imprensa internacional ajuda a explicar as guerras internas na Rússia, guerras por poder e por dinheiro, envolvendo altas patentes dos serviços secretos, o FSB, do tal departamento de narcóticos (chame-se-lhe assim) e do departamento de alfândega. Em jogo estão serviços de segurança, lavagem de dinheiro e ajuda ao tráfico de tudo um pouco.
Os métodos russos de manutenção do poder podem muito facilmente ser exportados e a Guerra Fria pode muito bem regressar, menos mediática que outrora, porque já não se trata de bombas nucleares ou escudos anti-míssil quase intergalácticos — não obstante a questão do sistema anti-míssil norte-americano na Rep. Checa ou Polónia, mesmo às portas da Grande Rússia. E mesmo que ainda se vá ouvindo isto: «Quase meio quilo de material radioactivo foi apreendido anteontem na fronteira da Eslováquia com a Hungria (...) O urânio poderia ser utilizado no fabrico de "bombas sujas", assim chamadas por resultarem da mistura de explosivos comuns com elementos nucleares (...) Acredita-se que os 481 gramas de urânio apreendidos sejam provenientes da Ucrânia (...) Desde os anos 90, quando a União Soviética se desmantelou, a Agência Internacional de Energia Atómica já registou mais de 1250 casos de contrabando de material nuclear.» (Público, 30Nov2007)
Agora o jogo é jogado ao nível dos peões, da pequena espionagem, da pequena informação, sobretudo na grande economia da energia, petróleo e gás. E Putin gosta demasiado do poder. Esta novela está para durar.
Ou como o último filme de David Cronenberg é mauzote e o Viggo Mortensen mostra o rabo e algo mais — para gáudio de algumas senhoras — enquanto leva uma carga de porrada, mas depois ganha. Podia ser. Mas não é.
O Leste anda a prometer muito. Mesmo.
Vladimir Putin é o novo primeiro-ministro eleito da Rússia. Eleito com mais de 64 por cento dos votos nas mesmas eleições que os observadores da OSCE e da UE criticaram pelo clima pouco democrático e de coerção à liberdade de expressão e reunião. Talvez porque uma semana antes as manifestações em Moscovo e São Petersburgo tinham dado confrontos com a polícia e a detenção de 200 opositores de Putin, entre os quais Boris Nemtsov e Nikita Belykh, líderes do partido SPS (Union of Right Forces, segundo a Reuters) e candidatos às eleições legislativas — só a detenção do “axadrezado” Garry Kasparov é que passou nas TV e nos jornais.
O novo-primeiro ministro russo já foi primeiro-ministro russo, entre Agosto de 1999 e Maio de 2000, a convite de Boris Yeltsin. O novo primeiro-ministro russo ainda é Presidente russo, até Março de 2008, que é quando termina o segundo mandato. Os métodos russos são qualquer coisa...
A Duma tem, agora, um novo deputado. Chama-se Andrei Lugovoi, foi o segundo eleito pelo partido LDPR (Liberal Democratic Party of Russia, segundo a Reuters), um de quatro a conseguir assentos no parlamento. É ex-agente do FSB e é o principal suspeito da morte de Aleksander Litvinenko. Se antes o Reino Unido pedia a extradição e a Rússia recusava, agora com a imunidade diplomática o problema está resolvido. Curiosa foi a resposta de Lugovoi à pergunta da Reuters sobre se iria chefiar o Comité de Segurança: «As everybody knows I have a lot of experience in security issues...»
Antes, a 4 de Novembro de 2007, podia ler-se no The Times: «At first the police thought the two bodies found in a ditch near St Petersburg last weekend were those of drunks who had passed out and died of hypothermia. The case turned out to be far more disturbing. Both men were from Russia’s Federal Drug Control Service, a powerful force of former KGB officers, and they had been poisoned.» A mim soa-me familiar. E estas notícias são frequentes, basta andar atento.
Um olhar mais demorado a alguma imprensa internacional ajuda a explicar as guerras internas na Rússia, guerras por poder e por dinheiro, envolvendo altas patentes dos serviços secretos, o FSB, do tal departamento de narcóticos (chame-se-lhe assim) e do departamento de alfândega. Em jogo estão serviços de segurança, lavagem de dinheiro e ajuda ao tráfico de tudo um pouco.
Os métodos russos de manutenção do poder podem muito facilmente ser exportados e a Guerra Fria pode muito bem regressar, menos mediática que outrora, porque já não se trata de bombas nucleares ou escudos anti-míssil quase intergalácticos — não obstante a questão do sistema anti-míssil norte-americano na Rep. Checa ou Polónia, mesmo às portas da Grande Rússia. E mesmo que ainda se vá ouvindo isto: «Quase meio quilo de material radioactivo foi apreendido anteontem na fronteira da Eslováquia com a Hungria (...) O urânio poderia ser utilizado no fabrico de "bombas sujas", assim chamadas por resultarem da mistura de explosivos comuns com elementos nucleares (...) Acredita-se que os 481 gramas de urânio apreendidos sejam provenientes da Ucrânia (...) Desde os anos 90, quando a União Soviética se desmantelou, a Agência Internacional de Energia Atómica já registou mais de 1250 casos de contrabando de material nuclear.» (Público, 30Nov2007)
Agora o jogo é jogado ao nível dos peões, da pequena espionagem, da pequena informação, sobretudo na grande economia da energia, petróleo e gás. E Putin gosta demasiado do poder. Esta novela está para durar.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
sábado, 1 de dezembro de 2007
terça-feira, 13 de novembro de 2007
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
terça-feira, 6 de novembro de 2007
Porque encerrou definitivamente no dia 31 Out a maior sala de cinema do país, a Academia Almadense, deixo aqui a reportagem que fiz sobre o cinema em Maio de 2006, quando ameaçou fechar pela primeira vez.
Academia Almadense
O meu cinema já foi grande
A maior sala de cinema do país, e a última na cidade de Almada, está em risco de fechar. As dificuldades financeiras são muitas e os espectadores são poucos. Até o serviço de bar deixa de estar garantido já a partir do final do mês.
Quinta-feira é dia de estreia nacional. O filme é o mais recente episódio de “Missão Impossível”, e às três e meia da tarde, a primeira sessão do dia, estão apenas dez pessoas na sala da Academia Almadense. «Ontem, com o outro filme, fizemos matiné para uma pessoa sozinha. Isto assim não pode ser», comenta com desalento o senhor Lourenço, encarregado do pessoal e funcionário da Academia há 21 anos. «Este filme é bom. Vamos ver como se safa logo à noite e no fim-de-semana», diz com uma esperança ténue, enquanto olha a rua, encostado a uma das portas de vidro que deixam entrar a única luz que ilumina o amplo átrio do cinema. «Desligo as luzes uns dez minutos depois da hora, porque à tarde não vale a pena estar a gastar», explica.
Ao cimo de vários lanços de escadas abre-se a porta da cabine de projecção. António Dias, projeccionista da Academia há três anos, divide a sua atenção entre a vigia que deita para a sala de 830 lugares e por onde controla, curvado, a projecção do filme, e a vontade em falar dos meandros da «melhor profissão do mundo», que é a sua, há já três décadas. O ruído e o calor que estão na sala são produzidos pelo projector, um Victoria com lâmpada de 7500 watts, adquirido em 2003 e três vezes mais potente que o anterior. «Só com uma máquina assim é que se consegue aquela qualidade de imagem», esclarece, apoiado na máquina antiga, ainda ali ao lado. «Se isto acabar é uma pena. Ainda por cima com uma máquina nova, está a ver?»
A verificar-se o encerramento da Academia, o centro de Almada fica despovoado de cinemas, 14 anos depois do encerramento da sala da Incrível Almadense. Em 2003, com o centro comercial Almada Fórum, abriram 14 novas salas de cinema. Mas a verdade é que o centro comercial está bastante desviado da cidade, junto à auto-estrada A2, e dependente de deslocação em viatura própria ou autocarros específicos. O que são condições muito diferentes da Academia, situada numa das principais artérias de Almada, a rua Capitão Leitão. É lá que se concentra muito e variado comércio tradicional, a antiga igreja que alberga os Paços do Concelho, o antigo e desactivado hospital, cafés e restaurantes para múltiplos gostos, e os mais conhecidos bares, sempre com constante movimento de carros e pessoas.
À noite a rua ganha outro brilho, com os néons encarnados que realçam “Academia Cine-Teatro” e também as luzes coloridas que na fachada do cinema assinalam mais um aniversário da instituição, o 111º — a Academia Almadense é uma associação cultural e recreativa, e o cinema é apenas uma das suas valências, dispondo também de serviços de desporto e música (ver caixa). Mas, na sessão das 21h30 o cenário não era melhor: estavam vendidos cerca de 90 bilhetes.
Ao entrar na sala, a visão daquele volume amplo quase vazio impressiona, pelo que deve ser arrebatadora quando lotado. São 26 filas de cadeiras em couro verde-escuro, divididas em balcão e plateia, numa sala em forma de concha, e muito bem iluminada. Tudo está limpo e não há sinais de degradação, chão e paredes estão forrados a alcatifa castanha, e nos degraus brilham as letras de cada fila, de A a Z, em luz violeta. Das paredes relevam as diversas colunas de som, pequenas caixas negras, e concavidades acústicas. A tela branca, que se veste de tons vermelhos antes da sessão, mede uns módicos 19 metros de comprimento por sete de altura, e está emoldurada por duas filas de pesados cortinados. Porque construída originalmente para ser um cine-teatro, a sala tem um grande palco em meia-lua, de soalho igualmente verde, que invade a plateia até junto dos primeiros assentos e se estende por detrás da tela, e sob o qual existe um fosso de orquestra. Maior que a Academia Almadense só a primeira sala do ainda encerrado cinema S. Jorge, com mais 18 lugares, propriedade da Câmara Municipal de Lisboa, o que faz da sala almadense a maior do país de gestão privada.
«Não vem ninguém depois da hora»
«Antigamente éramos quatro arrumadores, mais um ou dois a cortar bilhetes». Agora são quatro rotativos, dois por semana, um na entrada e outro sozinho na sala, informa José Marreiros, reformado, arrumador de sala na Academia há 11 anos. A maior enchente de que se lembra foi o “Titanic”, que esteve 15 dias esgotado e mesmo depois de sair de cena as pessoas ainda vinham à procura de bilhete, conta, enquanto separa pelo picotado os talões dos bilhetes já cortados. Depois disso, só filmes como os da série “O Senhor dos Anéis”, o primeiro episódio da trilogia “Matrix” e um outro de “A Guerra das Estrelas” provocaram enchentes.
Com a redução de pessoal e dos espectadores somente uma das cinco portas de acesso à sala está em funcionamento, o que é motivo de lamento para o senhor Marreiros. «Antes indicávamos às pessoas o caminho mais próximo, “ao cimo à esquerda, ao cimo à direita”» e agora «quem tem lugar mais à esquerda entra pela mesma porta e tem que andar aquilo tudo», explica com um profissionalismo encantador, que vai muito além da farda, uma camisa de riscas encarnadas e o colete de algodão azul escuro, onde ao peito está o brasão da casa. Se a Academia fechar «fico triste, pois claro», não tanto por perder o trabalho, dado que «isto é mais uma entretenha» e que não são os sete euros que ganha por sessão que fazem grande diferença. Quando lhe peço para ver a lanterna prateada, dispara: «e tínhamos que alumiar o caminho aos espectadores atrasados, quando agora não vem ninguém depois da hora».
Talvez mais gente se sentisse atraída pelo cinema se lá pudesse encontrar todas as semanas daquelas estreias sobejamente divulgadas e aguardadas. Contudo, isso nem sempre é possível. «Só os filmes com mais de 35 cópias é que chegam à Academia, porque as distribuidoras privilegiam as suas salas», explica Arménio Silva, responsável de programação da Academia desde a sua abertura, acerca das fitas com a etiqueta da Lusomundo. De potenciais grandes êxitos como “Missão Impossível” ou “O Código Da Vinci” chegam a Portugal entre 60 e 80 cópias, «e esses conseguimos agarrar». Quanto a outros filmes, simplesmente «respondem-nos que não há cópias para a Academia», o que se tem verificado com maior frequência desde a abertura do Almada Fórum.
Mesmo que o cinema continue a laborar, a partir do final do mês não está assegurado o serviço de bar. Ao fim de 12 anos a explorar o espaço e a manter o bengaleiro da Academia, Afonso Miranda já comunicou à Direcção a vontade de extinguir o contrato de concessão. O abandono deve-se a uma «reorganização interna do negócio», explica, referindo-se ao café de que é proprietário, há 25 anos, e que fica do outro lado da rua. Com menos funcionários Afonso Miranda tem que dar mais atenção ao seu negócio principal, não negando, porém, por detrás do ruído do moinho de café, que as receitas do bar também «já não são o que eram».
A pedido de memórias, recorda com um sorriso que em dias de lotação esgotada, ou mesmo com mais de 500 espectadores, abriam os dois bares, referindo-se a um segundo espaço, no topo e à direita da escadaria do átrio de entrada — as sessões da Academia têm intervalo. Ou lembra ainda a introdução das pipocas no cinema, quando tomou em mãos o bar, e de quanto essa novidade incomodou o encarregado da sala.
José Amorim, de 54 anos, escolheu a Academia Almadense para ver a estreia de “Missão Impossível”, em família. Porquê? Precisamente porque ali não encontra a confusão de outros sítios nas estreias, mas também porque o bilhete é mais barato. O Almada Fórum, diz, é cómodo pelo estacionamento fácil e gratuito, pela variedade de filmes que oferece e por tudo o resto extra-cinema. «A nossa filha mais nova está lá, a ver o mesmo filme, com os amigos», revela.
Andreia e Guilherme, ela psicóloga e ele engenheiro civil, ambos a caminho dos 30 anos de idade, escolheram a Academia «pela tradição», pelo preço reduzido dos bilhetes — 2,50 euros contra mais de cinco na generalidade dos cinemas — e para não correr o risco de encontrar a lotação esgotada. Por seu turno, Jorge, 29 anos, e Sónia, de 28, salientam a qualidade da sala e a existência de intervalo. Já Manuel e Elsa, de 30 e 25 anos, explicam que pesou na decisão o facto de residirem nas imediações, o preço baixo e a qualidade de som e imagem da sala.
De facto, desde a sua abertura, há 32 anos, foram realizadas várias intervenções e melhoramentos na sala da Academia, para a manter sempre actualizada. Na década de 90 substituíram-se as cadeiras e alcatifas, melhoraram-se as condições acústicas e introduziu-se o som Dolby Digital Surround, marca de pioneirismo do cinema na altura, além de um novo ecrã. Isto sem esquecer o último investimento, com o actual projector, uma despesa que rondou os 60 mil euros, realizada já numa altura de quebra financeira. Mas a noite de quinta-feira continuava muito tímida.
Prejuízos nos últimos seis anos
«O máximo agora são 200 pessoas», diz a bilheteira Maria Luísa, de 62 anos e há 43 na Academia — é das funcionárias mais antigas. «Não adianta baixar o preço dos bilhetes», afiança, um mês depois da decisão da Direcção em reduzir os ingressos de 3,80 para 2,50 euros durante a semana, mantendo-se o preço ao sábado, domingo e feriados. É certo que os filmes anteriores não foram do estilo desta estreia nacional, mas Luísa garante que muitos dos frequentadores do cinema são residentes nas proximidades, ou os miúdos que não têm carro para se deslocar ao centro comercial. «Dantes, nas estreias, formavam-se filas enormes que iam até à esquina» do edifício, comenta, depois de interromper o tricot para vender bilhete a um espectador tardio. «Este não é de cá, perguntou se ainda havia bilhetes», graceja.
Osvaldo Azinheira não pode partilhar a boa disposição, mesmo que momentânea. Para o Presidente cessante da Direcção da Academia Almadense a realidade é dura e muito triste. «Temos vindo a adiar, desde há anos, o encerramento do cinema», confessa. Na sua opinião são vários os responsáveis pelo decréscimo de espectadores do cinema, mas sobretudo a falta de estacionamento nas proximidades e a supressão, no passado, de duas carreiras de autocarros que passam naquela rua, para Cacilhas, depois das 21 horas. Por fim, as outras condicionantes são comuns à crise geral do cinema: a TV por cabo, a internet, o DVD e «a grande diminuição do poder de compra das pessoas».
Pelo menos desde 1999 que o cinema não apresenta um exercício positivo. E os números são bastante elucidativos das dificuldades que a Academia atravessa: se em 2001 as receitas do cinema foram de 391 mil euros, com despesas um pouco superiores, em 2003 apenas entraram nos cofres cerca de 129 mil euros (saíram 244 mil), sendo que em 2004 o valor não chegou aos 102 mil euros (com despesas de mais do dobro). Ou seja, em três anos registou-se uma quebra das receitas superior a 74 por cento — não foram disponibilizados dados referentes a número de espectadores. «São as piscinas que evitam a derrocada total» da Academia, afirma resignado, enquanto o cinema sempre tinha sido a principal fonte de receita da instituição.
«Tenho a consciência de que vou passar o testemunho de um barco a afundar», desabafa, claramente emocionado, de olhar evasivo por detrás dos óculos, e ajeitando a gravata. Azinheira, de 72 anos e assessor da presidência da autarquia, vem sendo sucessivamente eleito Presidente da Direcção há um quarto de século, mas assume-se algo cansado e desgastado. Conforta-o saber que quem lhe sucederá é um homem da casa há tantos ou mais anos que ele, que conhece os problemas e é de sua inteira confiança — é, aliás, o seu Vice-Presidente, que agora encabeçou a única lista apresentada a sufrágio.
É, então, nas mãos de Domingos Torgal, professor do primeiro ciclo reformado e profundamente ligado e activo no associativismo almadense, que reside o futuro do cinema da Academia. Para já, o que pretende fazer é «ouvir os jovens, chamá-los a dar a sua opinião sobre o que se deve fazer para dinamizar o cinema e a sala». Na sua opinião, a principal pecha da Academia são os problemas de estacionamento. E pelo menos uma solução existe. É que o edifício do cinema foi construído com estacionamento subterrâneo. Apenas essa cave alberga, desde 1976, as actividades desportivas da Academia. «Eu gostava de poder devolver a garagem à garagem», diz, «porque ainda cabem lá umas 60 ou 70 viaturas». Mas isso depende da construção de um pavilhão gimno-desportivo para a Academia, em terrenos a disponibilizar pela autarquia, algo ainda dependente de projecto e que num curto prazo não passa de um desejo. «E a Academia também não tem esse dinheiro, diga-se».
De cabelo e bigode brancos, divertido ao longo da conversa, o professor Torgal não evita que o rosto se lhe feche perante a questão, a que responde, com séria inevitabilidade: se a crise subsistir «não ponho de parte a hipótese de fechar o cinema».
Um problema sem solução
O problema da falta de público na Academia Almadense não parece ter resolução possível. A crise do cinema é geral, como atestam os dados do Instituto do Cinema Audiovisual e Multimédia: em 2005 os cinemas nacionais perderam quase um milhão e 400 mil espectadores (menos 8,1 por cento), face ao ano passado. E para as salas únicas e de elevada capacidade, como é o caso, não há forma de responder à crescente oferta de fitas, pois a escolha é só uma. Em bom rigor, nos dias de hoje uma sessão com mais de 150 espectadores é um óptimo resultado para a generalidade dos cinemas, cujas lotações não vão muito mais além. Apenas quando se tem 830 cadeiras para preencher e as dimensões e custos que lhes estão associados, obviamente esse número não chega.
Também os hábitos de consumo dos portugueses se modificaram e os centros comerciais se afirmaram, oferecendo uma multifuncionalidade sem paralelo: convívio, compras, comida e cinema, tudo no mesmo espaço. Concretamente, o centro comercial Almada Fórum impôs-se não só pela novidade — o primeiro e único do género no concelho —, mas por toda uma reconfiguração de hábitos que proporcionou, a que serve de exemplo a deslocação (e expansão) do único hipermercado da cidade para a nova infra-estrutura. E não pode ser ignorado o facto de o estacionamento ser gratuito.
Por fim, transformar o cinema da Academia numa sala multiusos, uma das soluções de rentabilização do espaço, não é tão fácil quanto aparenta. É que ao cancelar uma sessão para acolher, por exemplo, um espectáculo musical, o cinema não só tem que cumprir as obrigações negociais para com a distribuidora, como pode estar a contribuir para que esta privilegie com cópia outra sala concorrente na próxima estreia.
Apesar do cenário pouco optimista verificado com “Missão Impossível”, o próximo filme a estrear na Academia é “O Código Da Vinci” e as expectativas do cinema numa boa receita são elevadas. De tal forma que o filme ficará duas semanas em exibição. Depois, e com a chegada do calor, tudo é uma incógnita.
Em Agosto do ano passado a Academia Almadense fechou as portas pela primeira vez na sua história. Este Verão, e na ressaca do campeonato mundial de futebol, teme-se que, a encerrar de novo, seja por tempo indeterminado. Que as fitas não voltem a passar, que não haja mais espectadores boquiabertos pelo gigantismo da imagem, que não mais se salte assustado pelo som daquela bala que passou rasando a cabeça. Porque um cinema fechado só se pode deteriorar e acaba por se esquecer. E as memórias não alimentam cinéfilos. | João Pedro Correia (texto e fotos; Maio 2006)
Academia Almadense
O meu cinema já foi grande
A maior sala de cinema do país, e a última na cidade de Almada, está em risco de fechar. As dificuldades financeiras são muitas e os espectadores são poucos. Até o serviço de bar deixa de estar garantido já a partir do final do mês.
Quinta-feira é dia de estreia nacional. O filme é o mais recente episódio de “Missão Impossível”, e às três e meia da tarde, a primeira sessão do dia, estão apenas dez pessoas na sala da Academia Almadense. «Ontem, com o outro filme, fizemos matiné para uma pessoa sozinha. Isto assim não pode ser», comenta com desalento o senhor Lourenço, encarregado do pessoal e funcionário da Academia há 21 anos. «Este filme é bom. Vamos ver como se safa logo à noite e no fim-de-semana», diz com uma esperança ténue, enquanto olha a rua, encostado a uma das portas de vidro que deixam entrar a única luz que ilumina o amplo átrio do cinema. «Desligo as luzes uns dez minutos depois da hora, porque à tarde não vale a pena estar a gastar», explica.
Ao cimo de vários lanços de escadas abre-se a porta da cabine de projecção. António Dias, projeccionista da Academia há três anos, divide a sua atenção entre a vigia que deita para a sala de 830 lugares e por onde controla, curvado, a projecção do filme, e a vontade em falar dos meandros da «melhor profissão do mundo», que é a sua, há já três décadas. O ruído e o calor que estão na sala são produzidos pelo projector, um Victoria com lâmpada de 7500 watts, adquirido em 2003 e três vezes mais potente que o anterior. «Só com uma máquina assim é que se consegue aquela qualidade de imagem», esclarece, apoiado na máquina antiga, ainda ali ao lado. «Se isto acabar é uma pena. Ainda por cima com uma máquina nova, está a ver?»
A verificar-se o encerramento da Academia, o centro de Almada fica despovoado de cinemas, 14 anos depois do encerramento da sala da Incrível Almadense. Em 2003, com o centro comercial Almada Fórum, abriram 14 novas salas de cinema. Mas a verdade é que o centro comercial está bastante desviado da cidade, junto à auto-estrada A2, e dependente de deslocação em viatura própria ou autocarros específicos. O que são condições muito diferentes da Academia, situada numa das principais artérias de Almada, a rua Capitão Leitão. É lá que se concentra muito e variado comércio tradicional, a antiga igreja que alberga os Paços do Concelho, o antigo e desactivado hospital, cafés e restaurantes para múltiplos gostos, e os mais conhecidos bares, sempre com constante movimento de carros e pessoas.À noite a rua ganha outro brilho, com os néons encarnados que realçam “Academia Cine-Teatro” e também as luzes coloridas que na fachada do cinema assinalam mais um aniversário da instituição, o 111º — a Academia Almadense é uma associação cultural e recreativa, e o cinema é apenas uma das suas valências, dispondo também de serviços de desporto e música (ver caixa). Mas, na sessão das 21h30 o cenário não era melhor: estavam vendidos cerca de 90 bilhetes.
Ao entrar na sala, a visão daquele volume amplo quase vazio impressiona, pelo que deve ser arrebatadora quando lotado. São 26 filas de cadeiras em couro verde-escuro, divididas em balcão e plateia, numa sala em forma de concha, e muito bem iluminada. Tudo está limpo e não há sinais de degradação, chão e paredes estão forrados a alcatifa castanha, e nos degraus brilham as letras de cada fila, de A a Z, em luz violeta. Das paredes relevam as diversas colunas de som, pequenas caixas negras, e concavidades acústicas. A tela branca, que se veste de tons vermelhos antes da sessão, mede uns módicos 19 metros de comprimento por sete de altura, e está emoldurada por duas filas de pesados cortinados. Porque construída originalmente para ser um cine-teatro, a sala tem um grande palco em meia-lua, de soalho igualmente verde, que invade a plateia até junto dos primeiros assentos e se estende por detrás da tela, e sob o qual existe um fosso de orquestra. Maior que a Academia Almadense só a primeira sala do ainda encerrado cinema S. Jorge, com mais 18 lugares, propriedade da Câmara Municipal de Lisboa, o que faz da sala almadense a maior do país de gestão privada.
«Não vem ninguém depois da hora»
«Antigamente éramos quatro arrumadores, mais um ou dois a cortar bilhetes». Agora são quatro rotativos, dois por semana, um na entrada e outro sozinho na sala, informa José Marreiros, reformado, arrumador de sala na Academia há 11 anos. A maior enchente de que se lembra foi o “Titanic”, que esteve 15 dias esgotado e mesmo depois de sair de cena as pessoas ainda vinham à procura de bilhete, conta, enquanto separa pelo picotado os talões dos bilhetes já cortados. Depois disso, só filmes como os da série “O Senhor dos Anéis”, o primeiro episódio da trilogia “Matrix” e um outro de “A Guerra das Estrelas” provocaram enchentes.
Com a redução de pessoal e dos espectadores somente uma das cinco portas de acesso à sala está em funcionamento, o que é motivo de lamento para o senhor Marreiros. «Antes indicávamos às pessoas o caminho mais próximo, “ao cimo à esquerda, ao cimo à direita”» e agora «quem tem lugar mais à esquerda entra pela mesma porta e tem que andar aquilo tudo», explica com um profissionalismo encantador, que vai muito além da farda, uma camisa de riscas encarnadas e o colete de algodão azul escuro, onde ao peito está o brasão da casa. Se a Academia fechar «fico triste, pois claro», não tanto por perder o trabalho, dado que «isto é mais uma entretenha» e que não são os sete euros que ganha por sessão que fazem grande diferença. Quando lhe peço para ver a lanterna prateada, dispara: «e tínhamos que alumiar o caminho aos espectadores atrasados, quando agora não vem ninguém depois da hora».
Talvez mais gente se sentisse atraída pelo cinema se lá pudesse encontrar todas as semanas daquelas estreias sobejamente divulgadas e aguardadas. Contudo, isso nem sempre é possível. «Só os filmes com mais de 35 cópias é que chegam à Academia, porque as distribuidoras privilegiam as suas salas», explica Arménio Silva, responsável de programação da Academia desde a sua abertura, acerca das fitas com a etiqueta da Lusomundo. De potenciais grandes êxitos como “Missão Impossível” ou “O Código Da Vinci” chegam a Portugal entre 60 e 80 cópias, «e esses conseguimos agarrar». Quanto a outros filmes, simplesmente «respondem-nos que não há cópias para a Academia», o que se tem verificado com maior frequência desde a abertura do Almada Fórum.Mesmo que o cinema continue a laborar, a partir do final do mês não está assegurado o serviço de bar. Ao fim de 12 anos a explorar o espaço e a manter o bengaleiro da Academia, Afonso Miranda já comunicou à Direcção a vontade de extinguir o contrato de concessão. O abandono deve-se a uma «reorganização interna do negócio», explica, referindo-se ao café de que é proprietário, há 25 anos, e que fica do outro lado da rua. Com menos funcionários Afonso Miranda tem que dar mais atenção ao seu negócio principal, não negando, porém, por detrás do ruído do moinho de café, que as receitas do bar também «já não são o que eram».
A pedido de memórias, recorda com um sorriso que em dias de lotação esgotada, ou mesmo com mais de 500 espectadores, abriam os dois bares, referindo-se a um segundo espaço, no topo e à direita da escadaria do átrio de entrada — as sessões da Academia têm intervalo. Ou lembra ainda a introdução das pipocas no cinema, quando tomou em mãos o bar, e de quanto essa novidade incomodou o encarregado da sala.
José Amorim, de 54 anos, escolheu a Academia Almadense para ver a estreia de “Missão Impossível”, em família. Porquê? Precisamente porque ali não encontra a confusão de outros sítios nas estreias, mas também porque o bilhete é mais barato. O Almada Fórum, diz, é cómodo pelo estacionamento fácil e gratuito, pela variedade de filmes que oferece e por tudo o resto extra-cinema. «A nossa filha mais nova está lá, a ver o mesmo filme, com os amigos», revela.
Andreia e Guilherme, ela psicóloga e ele engenheiro civil, ambos a caminho dos 30 anos de idade, escolheram a Academia «pela tradição», pelo preço reduzido dos bilhetes — 2,50 euros contra mais de cinco na generalidade dos cinemas — e para não correr o risco de encontrar a lotação esgotada. Por seu turno, Jorge, 29 anos, e Sónia, de 28, salientam a qualidade da sala e a existência de intervalo. Já Manuel e Elsa, de 30 e 25 anos, explicam que pesou na decisão o facto de residirem nas imediações, o preço baixo e a qualidade de som e imagem da sala.
De facto, desde a sua abertura, há 32 anos, foram realizadas várias intervenções e melhoramentos na sala da Academia, para a manter sempre actualizada. Na década de 90 substituíram-se as cadeiras e alcatifas, melhoraram-se as condições acústicas e introduziu-se o som Dolby Digital Surround, marca de pioneirismo do cinema na altura, além de um novo ecrã. Isto sem esquecer o último investimento, com o actual projector, uma despesa que rondou os 60 mil euros, realizada já numa altura de quebra financeira. Mas a noite de quinta-feira continuava muito tímida.
Prejuízos nos últimos seis anos
«O máximo agora são 200 pessoas», diz a bilheteira Maria Luísa, de 62 anos e há 43 na Academia — é das funcionárias mais antigas. «Não adianta baixar o preço dos bilhetes», afiança, um mês depois da decisão da Direcção em reduzir os ingressos de 3,80 para 2,50 euros durante a semana, mantendo-se o preço ao sábado, domingo e feriados. É certo que os filmes anteriores não foram do estilo desta estreia nacional, mas Luísa garante que muitos dos frequentadores do cinema são residentes nas proximidades, ou os miúdos que não têm carro para se deslocar ao centro comercial. «Dantes, nas estreias, formavam-se filas enormes que iam até à esquina» do edifício, comenta, depois de interromper o tricot para vender bilhete a um espectador tardio. «Este não é de cá, perguntou se ainda havia bilhetes», graceja.
Osvaldo Azinheira não pode partilhar a boa disposição, mesmo que momentânea. Para o Presidente cessante da Direcção da Academia Almadense a realidade é dura e muito triste. «Temos vindo a adiar, desde há anos, o encerramento do cinema», confessa. Na sua opinião são vários os responsáveis pelo decréscimo de espectadores do cinema, mas sobretudo a falta de estacionamento nas proximidades e a supressão, no passado, de duas carreiras de autocarros que passam naquela rua, para Cacilhas, depois das 21 horas. Por fim, as outras condicionantes são comuns à crise geral do cinema: a TV por cabo, a internet, o DVD e «a grande diminuição do poder de compra das pessoas».Pelo menos desde 1999 que o cinema não apresenta um exercício positivo. E os números são bastante elucidativos das dificuldades que a Academia atravessa: se em 2001 as receitas do cinema foram de 391 mil euros, com despesas um pouco superiores, em 2003 apenas entraram nos cofres cerca de 129 mil euros (saíram 244 mil), sendo que em 2004 o valor não chegou aos 102 mil euros (com despesas de mais do dobro). Ou seja, em três anos registou-se uma quebra das receitas superior a 74 por cento — não foram disponibilizados dados referentes a número de espectadores. «São as piscinas que evitam a derrocada total» da Academia, afirma resignado, enquanto o cinema sempre tinha sido a principal fonte de receita da instituição.
«Tenho a consciência de que vou passar o testemunho de um barco a afundar», desabafa, claramente emocionado, de olhar evasivo por detrás dos óculos, e ajeitando a gravata. Azinheira, de 72 anos e assessor da presidência da autarquia, vem sendo sucessivamente eleito Presidente da Direcção há um quarto de século, mas assume-se algo cansado e desgastado. Conforta-o saber que quem lhe sucederá é um homem da casa há tantos ou mais anos que ele, que conhece os problemas e é de sua inteira confiança — é, aliás, o seu Vice-Presidente, que agora encabeçou a única lista apresentada a sufrágio.
É, então, nas mãos de Domingos Torgal, professor do primeiro ciclo reformado e profundamente ligado e activo no associativismo almadense, que reside o futuro do cinema da Academia. Para já, o que pretende fazer é «ouvir os jovens, chamá-los a dar a sua opinião sobre o que se deve fazer para dinamizar o cinema e a sala». Na sua opinião, a principal pecha da Academia são os problemas de estacionamento. E pelo menos uma solução existe. É que o edifício do cinema foi construído com estacionamento subterrâneo. Apenas essa cave alberga, desde 1976, as actividades desportivas da Academia. «Eu gostava de poder devolver a garagem à garagem», diz, «porque ainda cabem lá umas 60 ou 70 viaturas». Mas isso depende da construção de um pavilhão gimno-desportivo para a Academia, em terrenos a disponibilizar pela autarquia, algo ainda dependente de projecto e que num curto prazo não passa de um desejo. «E a Academia também não tem esse dinheiro, diga-se».
De cabelo e bigode brancos, divertido ao longo da conversa, o professor Torgal não evita que o rosto se lhe feche perante a questão, a que responde, com séria inevitabilidade: se a crise subsistir «não ponho de parte a hipótese de fechar o cinema».
Um problema sem solução
O problema da falta de público na Academia Almadense não parece ter resolução possível. A crise do cinema é geral, como atestam os dados do Instituto do Cinema Audiovisual e Multimédia: em 2005 os cinemas nacionais perderam quase um milhão e 400 mil espectadores (menos 8,1 por cento), face ao ano passado. E para as salas únicas e de elevada capacidade, como é o caso, não há forma de responder à crescente oferta de fitas, pois a escolha é só uma. Em bom rigor, nos dias de hoje uma sessão com mais de 150 espectadores é um óptimo resultado para a generalidade dos cinemas, cujas lotações não vão muito mais além. Apenas quando se tem 830 cadeiras para preencher e as dimensões e custos que lhes estão associados, obviamente esse número não chega.
Também os hábitos de consumo dos portugueses se modificaram e os centros comerciais se afirmaram, oferecendo uma multifuncionalidade sem paralelo: convívio, compras, comida e cinema, tudo no mesmo espaço. Concretamente, o centro comercial Almada Fórum impôs-se não só pela novidade — o primeiro e único do género no concelho —, mas por toda uma reconfiguração de hábitos que proporcionou, a que serve de exemplo a deslocação (e expansão) do único hipermercado da cidade para a nova infra-estrutura. E não pode ser ignorado o facto de o estacionamento ser gratuito.Por fim, transformar o cinema da Academia numa sala multiusos, uma das soluções de rentabilização do espaço, não é tão fácil quanto aparenta. É que ao cancelar uma sessão para acolher, por exemplo, um espectáculo musical, o cinema não só tem que cumprir as obrigações negociais para com a distribuidora, como pode estar a contribuir para que esta privilegie com cópia outra sala concorrente na próxima estreia.
Apesar do cenário pouco optimista verificado com “Missão Impossível”, o próximo filme a estrear na Academia é “O Código Da Vinci” e as expectativas do cinema numa boa receita são elevadas. De tal forma que o filme ficará duas semanas em exibição. Depois, e com a chegada do calor, tudo é uma incógnita.
Em Agosto do ano passado a Academia Almadense fechou as portas pela primeira vez na sua história. Este Verão, e na ressaca do campeonato mundial de futebol, teme-se que, a encerrar de novo, seja por tempo indeterminado. Que as fitas não voltem a passar, que não haja mais espectadores boquiabertos pelo gigantismo da imagem, que não mais se salte assustado pelo som daquela bala que passou rasando a cabeça. Porque um cinema fechado só se pode deteriorar e acaba por se esquecer. E as memórias não alimentam cinéfilos. | João Pedro Correia (texto e fotos; Maio 2006)
domingo, 4 de novembro de 2007
sábado, 3 de novembro de 2007
domingo, 28 de outubro de 2007
Real Pudinsky, ou teorias da conspiração, ou exercícios de dedução, ou simplesmente porque é tão importante perceber a Rússia hoje, vivendo em Lisboa
É. Foi a semana quase perfeita para Vladimir Putin vir a Portugal passear o colete à prova de bala e a limusina Mercedes, para Marina Litvinenko e Alex Goldfarb lançarem o livro “Morte de um Dissidente” e para Andrei Nekrasov apresentar o documentário “Rebellion, The Litvinenko Case”. A história podia muito bem fazer um filme de 007. Mas é demasiado real.
A União Soviética desintegrou-se oficialmente em Dezembro de 1991. Boris Yeltsin demitiu-se oficialmente no último dia de 1999. Nesse dia o preço do barril de petróleo não chegava sequer a 30 dólares e já tinha batido num mínimo histórico de 11 dólares no início do ano. A Rússia tinha e tem petróleo e gás a rodos — quase na mesma proporção em que tem corrupção. A Europa é cliente e dependente da Rússia para esse abastecimento energético, tão dependente como os EUA dos combustíveis do Alasca ou do Médio Oriente, pelo que uma ameaça de fecho da torneira é ameaça grande demais para ser ignorada. Com o barril tão barato, Yeltsin não tinha, não teve, margem de manobra para desenvolver o paupérrimo e gigantesco país, então pós-comunista, pós-Perestroika de Gorbachev, e então democrático, mas sempre monumentalmente assimétrico e onde sempre existiram oligarcas, com que nomes fosse.
Vladimir Putin chegou a Presidente da Rússia enquanto desejado do embriagado Yeltsin e com 40 milhões de votos, que passariam a 70 por cento do eleitorado para a recondução em 2004. E chegou depois de menos de um ano como primeiro-ministro (Agosto 1999 a Maio de 2000), a que, por sua vez, chegou depois de outra breve passagem pela direcção do FSB (Julho 1998 a Agosto 1999, a convite de Yeltsin), a secreta russa substituta do KGB soviético, organização esta para onde foi primeiro recrutado ou se voluntariou — as fontes divergem — no ano de 1975, quando ingressou na universidade, e da qual esteve afastado entre 1991 e 1998.
A 8 e 13 de Setembro de 1999 ocorreram os Atentados de Moscovo. Primeiro, um prédio de habitação de nove andares/108 apartamentos é arrasado por 300 ou 400 quilos de explosivos detonados no piso térreo, matando 94 pessoas e ferindo 150, numa autêntica implosão demasiado incaracterística de atentado. Depois, outro edifício igualmente grande é arrasado da mesma forma, vitimando 118 e ferindo mais de 200. Pode-se acrescentar à contabilidade os 64 mortos em Buynaksk, no dia 4 do mesmo mês e ao estilo de carro-bomba em zona residencial, e mais quase duas dezenas no dia 16, em Volgodonsk.
Na sequência destes acontecimentos o primeiro-ministro Putin ordena um ataque à Chechénia, cujos nacionalistas estariam por detrás dos atentados em solo russo, dando início ao que se conhece como a Segunda Guerra da Chechénia.
Existe uma tese de que os Atentados de Moscovo terão sido uma operação negra do FSB, a secreta russa, para legitimar o ataque à Chechénia e precipitar a queda de Yeltsin e a tomada do poder por Putin.
Aleksander Litvinenko, agente do FSB desde a década de 80 até aos anos 2000, e obviamente durante a direcção de Putin, sustentou essa mesma tese pouco depois dos acontecimentos — anos mais tarde escreverá dois livros sobre isso, a corrupção generalizada no serviço e a agência enquanto máquina de poder pessoal do Poder. Para além de, juntamente com outros oficiais do FSB, ter denunciado outras acções, procedimentos e operações daquela agência à moda soviética, com muita corrupção e assassinatos pelo meio. Como a encomenda do assassinato de Boris Berezovsky — que não é nenhum santo, mas isso fica para depois —, um milionário russo que Litvinenko teve a incumbência de proteger enquanto aquele esteve no cargo de Secretário do Conselho de Segurança, e personalidade próxima do então presidente Yeltsin, passando-se isto no ano de 1998 e sob a direcção de Putin no FSB.
Não tendo cumprido a ordem, obviamente Litvinenko foi expulso do FSB, preso, julgado, absolvido e preso novamente na sala de audiência no momento seguinte à leitura da sentença da absolvição, sob acusações de ter agredido prisioneiros de guerra e roubado explosivos na primeira campanha da Chechénia. Após um mês na prisão foi libertado mediante a assinatura de um compromisso de não sair do país, que não cumpriu.
Andou fugido pela Turquia, Ucrânia, Turquia novamente e até chegar a Londres, onde pediu asilo político em pleno aeroporto de Gatwick no dia 1 de Novembro de 2000, o que lhe foi concedido em Maio do ano seguinte.
Em Outubro de 2006 tornou-se cidadão britânico e no dia 5 de Novembro foi envenenado por uma substância radioactiva extremamente rara, Polónio 210, vaporizado para a loiça de chá que lhe foi servido num conhecido hotel londrino, num encontro com outros supostos dissidentes russos do FSB, entre os quais Andrei Lugovoi, que o Reino Unido quer ver extraditado para o poder acusar e julgar, sem contudo pressionar muito os calos porque isso é chato, e que a Rússia protege e cuja extradição recusa. Litvinenko definhou lentamente durante 18 dias, até morrer sem se conhecer a causa concreta, descoberta apenas semanas depois.
Tudo isto é, no mínimo, interessante. E tem contornos que calham bem à lógica da dedução. Como mais este facto: a jornalista russa Anna Politovskaya, que escreveu sobre a dissidência de Litvinenko, sobre as guerras da Chechénia, sobre o massacre de Beslam, sobre o caso Kursk, etc etc, apareceu morta com quatro tiros no peito, à porta de casa, em Moscovo, no dia 7 daquele Novembro. Mas há muitos outros casos de jornalistas ou simples críticos ou opositores assassinados, à laia de, como diz um general soviético em sessão de doutrinação, em “Rebellion, The Litvinenko Case”, que «os traidores do regime devem ser abatidos como cães raivosos». É que a Rússia ocupa o 144º lugar da lista sobre liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras, entre 169 países. E ditaduras assumidas na Europa só conheço a da Bielorrússia, que aparece mais mal classificada.
Porque Vladimir Putin esteve esta semana em Lisboa, com o coletinho de kevlar por debaixo do fato e a sua limusina Mercedes blindada. Porque vi “Rebellion, The Litvinenko Case”. Porque conversei com o realizador, Andrei Nekrasov. Porque essa sessão pública pós-projecção no Doc Lisboa foi muitíssimo participada e interessante. Porque esta semana, curiosamente, me deparei com detalhes do caso que não conhecia. Porque ontem um jornal inglês também veio deitar mais umas achas na fogueira — que Litvinenko terá sido sustentado pelo MI6 enquanto em Londres.
Porque o futuro da Europa joga-se, efectivamente, a Leste no continente e não na prevenção infundada de uma ameaça de mísseis e bombas nucleares por Estados muçulmanos. Porque a Rússia parece terrivelmente congelada, há já mais de cem anos, a fazer lembrar a passividade do feudalismo, sem querer puxar ao argumento da “predisposição genética para a servidão e escravatura”, que ouvi algures, e não obstante reconhecer que é dos movimentos populares aparentemente adormecidos que brotam as revoluções enquanto mudanças estruturais. Porque os tiques autoritários são mais do que tiques — isso é o que temos por cá, com a polícia a visitar sindicatos na véspera de manifestações. Ou simplesmente porque esta semana, tendo começado a dar notícias ao país, me tenha visto na obrigação de compreender melhor estes assuntos, todos os assuntos. Porque há alguma responsabilidade nisto tudo, não há? Há. Só espero que o José Manuel Fernandes, no Ípsilon desta semana, esteja enganado.
Sobre o caso Litvinenko.
Sobre o documentário.
E o resto está no Google...
Aleksander Litvinenko, por uma TV holandesa
É. Foi a semana quase perfeita para Vladimir Putin vir a Portugal passear o colete à prova de bala e a limusina Mercedes, para Marina Litvinenko e Alex Goldfarb lançarem o livro “Morte de um Dissidente” e para Andrei Nekrasov apresentar o documentário “Rebellion, The Litvinenko Case”. A história podia muito bem fazer um filme de 007. Mas é demasiado real.
A União Soviética desintegrou-se oficialmente em Dezembro de 1991. Boris Yeltsin demitiu-se oficialmente no último dia de 1999. Nesse dia o preço do barril de petróleo não chegava sequer a 30 dólares e já tinha batido num mínimo histórico de 11 dólares no início do ano. A Rússia tinha e tem petróleo e gás a rodos — quase na mesma proporção em que tem corrupção. A Europa é cliente e dependente da Rússia para esse abastecimento energético, tão dependente como os EUA dos combustíveis do Alasca ou do Médio Oriente, pelo que uma ameaça de fecho da torneira é ameaça grande demais para ser ignorada. Com o barril tão barato, Yeltsin não tinha, não teve, margem de manobra para desenvolver o paupérrimo e gigantesco país, então pós-comunista, pós-Perestroika de Gorbachev, e então democrático, mas sempre monumentalmente assimétrico e onde sempre existiram oligarcas, com que nomes fosse.
Vladimir Putin chegou a Presidente da Rússia enquanto desejado do embriagado Yeltsin e com 40 milhões de votos, que passariam a 70 por cento do eleitorado para a recondução em 2004. E chegou depois de menos de um ano como primeiro-ministro (Agosto 1999 a Maio de 2000), a que, por sua vez, chegou depois de outra breve passagem pela direcção do FSB (Julho 1998 a Agosto 1999, a convite de Yeltsin), a secreta russa substituta do KGB soviético, organização esta para onde foi primeiro recrutado ou se voluntariou — as fontes divergem — no ano de 1975, quando ingressou na universidade, e da qual esteve afastado entre 1991 e 1998.
A 8 e 13 de Setembro de 1999 ocorreram os Atentados de Moscovo. Primeiro, um prédio de habitação de nove andares/108 apartamentos é arrasado por 300 ou 400 quilos de explosivos detonados no piso térreo, matando 94 pessoas e ferindo 150, numa autêntica implosão demasiado incaracterística de atentado. Depois, outro edifício igualmente grande é arrasado da mesma forma, vitimando 118 e ferindo mais de 200. Pode-se acrescentar à contabilidade os 64 mortos em Buynaksk, no dia 4 do mesmo mês e ao estilo de carro-bomba em zona residencial, e mais quase duas dezenas no dia 16, em Volgodonsk.
Na sequência destes acontecimentos o primeiro-ministro Putin ordena um ataque à Chechénia, cujos nacionalistas estariam por detrás dos atentados em solo russo, dando início ao que se conhece como a Segunda Guerra da Chechénia.
Existe uma tese de que os Atentados de Moscovo terão sido uma operação negra do FSB, a secreta russa, para legitimar o ataque à Chechénia e precipitar a queda de Yeltsin e a tomada do poder por Putin.
Aleksander Litvinenko, agente do FSB desde a década de 80 até aos anos 2000, e obviamente durante a direcção de Putin, sustentou essa mesma tese pouco depois dos acontecimentos — anos mais tarde escreverá dois livros sobre isso, a corrupção generalizada no serviço e a agência enquanto máquina de poder pessoal do Poder. Para além de, juntamente com outros oficiais do FSB, ter denunciado outras acções, procedimentos e operações daquela agência à moda soviética, com muita corrupção e assassinatos pelo meio. Como a encomenda do assassinato de Boris Berezovsky — que não é nenhum santo, mas isso fica para depois —, um milionário russo que Litvinenko teve a incumbência de proteger enquanto aquele esteve no cargo de Secretário do Conselho de Segurança, e personalidade próxima do então presidente Yeltsin, passando-se isto no ano de 1998 e sob a direcção de Putin no FSB.
Não tendo cumprido a ordem, obviamente Litvinenko foi expulso do FSB, preso, julgado, absolvido e preso novamente na sala de audiência no momento seguinte à leitura da sentença da absolvição, sob acusações de ter agredido prisioneiros de guerra e roubado explosivos na primeira campanha da Chechénia. Após um mês na prisão foi libertado mediante a assinatura de um compromisso de não sair do país, que não cumpriu.
Andou fugido pela Turquia, Ucrânia, Turquia novamente e até chegar a Londres, onde pediu asilo político em pleno aeroporto de Gatwick no dia 1 de Novembro de 2000, o que lhe foi concedido em Maio do ano seguinte.
Em Outubro de 2006 tornou-se cidadão britânico e no dia 5 de Novembro foi envenenado por uma substância radioactiva extremamente rara, Polónio 210, vaporizado para a loiça de chá que lhe foi servido num conhecido hotel londrino, num encontro com outros supostos dissidentes russos do FSB, entre os quais Andrei Lugovoi, que o Reino Unido quer ver extraditado para o poder acusar e julgar, sem contudo pressionar muito os calos porque isso é chato, e que a Rússia protege e cuja extradição recusa. Litvinenko definhou lentamente durante 18 dias, até morrer sem se conhecer a causa concreta, descoberta apenas semanas depois.
Tudo isto é, no mínimo, interessante. E tem contornos que calham bem à lógica da dedução. Como mais este facto: a jornalista russa Anna Politovskaya, que escreveu sobre a dissidência de Litvinenko, sobre as guerras da Chechénia, sobre o massacre de Beslam, sobre o caso Kursk, etc etc, apareceu morta com quatro tiros no peito, à porta de casa, em Moscovo, no dia 7 daquele Novembro. Mas há muitos outros casos de jornalistas ou simples críticos ou opositores assassinados, à laia de, como diz um general soviético em sessão de doutrinação, em “Rebellion, The Litvinenko Case”, que «os traidores do regime devem ser abatidos como cães raivosos». É que a Rússia ocupa o 144º lugar da lista sobre liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras, entre 169 países. E ditaduras assumidas na Europa só conheço a da Bielorrússia, que aparece mais mal classificada.
Porque Vladimir Putin esteve esta semana em Lisboa, com o coletinho de kevlar por debaixo do fato e a sua limusina Mercedes blindada. Porque vi “Rebellion, The Litvinenko Case”. Porque conversei com o realizador, Andrei Nekrasov. Porque essa sessão pública pós-projecção no Doc Lisboa foi muitíssimo participada e interessante. Porque esta semana, curiosamente, me deparei com detalhes do caso que não conhecia. Porque ontem um jornal inglês também veio deitar mais umas achas na fogueira — que Litvinenko terá sido sustentado pelo MI6 enquanto em Londres.
Porque o futuro da Europa joga-se, efectivamente, a Leste no continente e não na prevenção infundada de uma ameaça de mísseis e bombas nucleares por Estados muçulmanos. Porque a Rússia parece terrivelmente congelada, há já mais de cem anos, a fazer lembrar a passividade do feudalismo, sem querer puxar ao argumento da “predisposição genética para a servidão e escravatura”, que ouvi algures, e não obstante reconhecer que é dos movimentos populares aparentemente adormecidos que brotam as revoluções enquanto mudanças estruturais. Porque os tiques autoritários são mais do que tiques — isso é o que temos por cá, com a polícia a visitar sindicatos na véspera de manifestações. Ou simplesmente porque esta semana, tendo começado a dar notícias ao país, me tenha visto na obrigação de compreender melhor estes assuntos, todos os assuntos. Porque há alguma responsabilidade nisto tudo, não há? Há. Só espero que o José Manuel Fernandes, no Ípsilon desta semana, esteja enganado.
Sobre o caso Litvinenko.
Sobre o documentário.
E o resto está no Google...
Aleksander Litvinenko, por uma TV holandesa
terça-feira, 23 de outubro de 2007
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
Well it's been a long time, long time now
Passava pouco das duas da manhã quando decidiste vir, afinal, e eu abri a porta para ficarmos num abraço demorado, sem palavras, tu soluçando e apertando-me com os braços a toda a volta do meu tronco, eu passando a mão no teu cabelo comprido e afagando as tuas costas por cima do casacão vermelho, mudo.
Trouxe água morna num pequeno alguidar de plástico azul escuro, e uma toalha. Descalcei-te as sabrinas brancas sem que reagisses e só te senti um breve arrepio quando passei a toalha humedecida no teu pé de menina, as unhas pintadas de vermelho, a tua pele morena de chocolate, para tentar aliviar-te a dor e um dia longo demais, duro demais, em que não andaste nas nuvens ou sobre algodão, como deverias, e como sempre parece de cada vez que te vejo ao longe a caminhar para mim ou naquela noite em que passei no eléctrico pachorrento ali à curva da geladaria e tu descias a rua num passo apressado, e o teu casacão vermelho.
Primeiro um, depois o outro, pela palma, do calcanhar aos dedos, pequeninos, do peito ao tornozelo, subi-te um pouco as calças com duas dobras e olhavas o vazio, imóvel, quando te beijei a pele muito levemente e disse, levantando-me com a toalha numa mão e o pequeno alguidar de plástico azul escuro na outra, “Deita-te na cama, descansa. Mesmo que não tires essa roupa, recosta-te e fecha os olhos”.
Deixei apenas a luz ténue do foco de leitura do candeeiro alto à cabeceira, sentei-me contigo e peguei no livro, naquela indiferença falseada que queria somente era que adormecesses. “Não sei se quero dormir”, disseste sem me olhar, com uma voz de garganta dorida por um dia longo demais, duro demais, mas recheado de poucas palavras. “Não faz mal. Chega-te perto de mim, logo se vê”, e encostaste a cabeça à minha anca e a tua mão na minha perna, as tuas ligeiramente arqueadas, as calças de ganga acinzentada da luz e os teus pés morenos com as unhas pintadas de vermelho no contraste com o edredão.
«A população queixa-se da dureza das condições de vida — verdadeiramente espartanas. Os traços de miséria são visíveis. A emigração da área agravou-se e, por toda a parte, vêem-se aldeias e terras abandonadas. Agentes de Belgrado percorrem, após o assalto croata, as aldeias de Plaski, tentando convencer a população a abandonar essa zona e a “colonizar” as áreas limpas de muçulmanos no Noroeste ou no Leste da Bósnia.», que foi quando te deixaste dormir, eu te cobri com um lençol fino e peguei no telefone para escrever ao Pieter, sentado no pufe castanho junto à parede do fundo da sala, do outro lado do corredor pequeno, a porta aberta olhando o quarto: “hoje não vou à agência, trabalho a partir de casa, liga-me de manhã”.
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Da doutrina do choque
É também o título do último livro de Naomi Klein, jornalista canadiana, que sumariza nesta curta-trailer, com o mexicano Alfonso Cuarón. Diz que anda a ser mostrada por aí, em festivais e coisas. A dica foi deste senhor.
É também o título do último livro de Naomi Klein, jornalista canadiana, que sumariza nesta curta-trailer, com o mexicano Alfonso Cuarón. Diz que anda a ser mostrada por aí, em festivais e coisas. A dica foi deste senhor.
domingo, 14 de outubro de 2007
Ela tinha água, mas só lhe dava melancia
Vejo cinema japonês pela mesma razão que vejo português, francês ou alemão: à procura de algo diferente de Hollywood. Por isso fui ver “O Sabor da Melancia”, de um profícuo cineasta de Taiwan, de que não conheço mais nada, Tsai Ming-Liang. E fui sem ler mais do que a sinopse: «Erótico, musical e lúbrico (...) uma história de amor em tempo de seca e de uma obsessão por melancias. Taiwan sofre uma terrível falta de água. Os canais de televisão aconselham a população a economizar e a beber sumo de melancia (...)» O que encontrei foi diferente de tudo o que havia visto até então. E a senhora que estava a umas cadeiras de mim, escondia-se com embaraço; o rapaz à minha frente não se movia; no casal atrás, ela fazia perguntas parvas — «onde é que é isto?» «que água é aquela?» — e ele tentava responder; o grupo lá de trás falava alto.
A solidão é um dos temas da fita e as personagens estão sempre sozinhas no ecrã e desencontradas entre si. O aspecto cómico é dado pelos momentos musicais, coloridos e divertidos nas coreografias e nas temáticas erótico-pornográficas, bem como na questão da escassez de água e forma como é explorada ao longo de todo o filme, e pontualmente no papel que é dado à melancia. Não tendo a pornografia nada de cómico, consegue fazer-nos rir, até à trágica cena final, em que somos esbofeteados. Há, portanto, uma pornografia não explícita (?).
Ela recolhe garrafas plásticas do lixo, para armazenar água. Ele é actor pornográfico. Encontram-se e apaixonam-se. Não se envolvem fisicamente, apenas cozinham juntos. Ela mata a sede com água, que esconde, e só lhe oferece sumo de melancia. Ele sofre uma “crise de vocação”, deixando de conseguir desempenhar o seu papel com as colegas actrizes. Uma delas morre, supõe-se de sede — recordem-se da seca em Taiwan —, e é encontrada por Ela. Mesmo morta, continua-se o filme. Ela descobre, finalmente, o que Ele faz para ganhar a vida, e assiste à cena. Ele vai fazendo-o, a custo. Os olhares cruzam-se e Ele ganha fôlego. O filme, a cena, e a cena, terminam com um longo e trágico abocanhamento — pessoalmente, acho que Ela morre sufocada.
“O Sabor da Melancia” não é mau. É muito diferente.
Desilusão, desilusão
A curta-metragem “China China”, de João Pedro Rodrigues (realizador de “Odete”) e João Rui Guerra da Mata, «conta a história de uma rapariga chinesa que vive em Lisboa e sonha com Nova Iorque, no microcosmos que é o Martim Moniz», e embora se diga que é «uma das mais belas curtas da produção portuguesa recente, apresentada nos festivais de Cannes, Vila do Conde e Indie Lisboa», é extraordinariamente vazia e má. A história conta-se num monólogo; a encenação é excessiva; «Olá piolho», para além de ser uma das quatro ou cinco frases que ouvimos da protagonista, não será o que uma mãe chinesa imigrante diga pela manhã ao seu filho nascido em Lisboa. E depois tudo termina com o miúdo matando a mãe acidentalmente, com um tiro certeiro no peito. Não havia necessidade de isto ter financiamento estatal.
Afinal tem miolo
Gastei dois euros na revista Time Out Lisboa e não me arrependo. O aspecto gráfico não se coaduna com a pretensão urbana/life style/na moda que a revista encerra, chega a ser enfadonho e a remeter para a Pública ou Notícias Magazine do princípio da década. O registo de linguagem oscila entre o descontraído/metido-jovem e pretenso cómico/Gato Fedorento. O conteúdo é leve, levezinho nalgumas páginas. Tem a melhor fotografia que vi nas dezenas de entrevistas feitas a Paul Auster na semana passada. Mas, caramba, parece ter verdadeira crítica de restaurantes!
Apreciador confesso do género, embora não consuma títulos dedicados, durante anos li as apologéticas e exaustivas-da-entrada-ao-charuto críticas gastronómicas de João Gobern no DN; depois, os tesouros de bom português com restaurantes pelo meio, de Miguel Esteves Cardoso, também no DN; a espaços compro a edição de fim-de-semana do Financial Times e leio sobre onde nunca irei jantar; mas tudo isto sempre muito elogioso e gabatório. Até chegar ao texto de Lourenço Viegas sobre o Vinotinto, neste terceiro número da Time Out.
«O Vinotinto, na nova praça de touros do Campo Pequeno, é o reino do parecer. Parece uma enoteca, mas o vinho ficou esquecido no nome e nas paredes; parece um restaurante espanhol, mas mistura comida de Espanha com entradas de Itália e saladas de aeroporto; parecem simpáticos, mas nunca nos deixam sentar nas mesas que nos apetece; parece agradável e confortável, mas saímos cansados e com o rabo a doer dos bancos. (...) O que me parece é que é tempo de deixar de haver restaurantes de franchising a trinta euros por pessoa. E, por favor, para a próxima não me obriguem a ficar na mesa ao lado da casa de banho tendo mais de meio restaurante vazio. Vá lá.»
Não é por estar a botar abaixo que gosto desta crítica. É por ser sincera e directa. Por ser simples, sem as notas de prova dos vinhos ou análise microscópica dos pratos e dos paladares. E por apontar para o que é novo e — pelo menos neste número — “de massas”, sem mais critérios, ao invés de preferir o que é de requinte e apenas para alguns, ou de assinatura mais do que reconhecida, naquele nacional porreirismo de palmadinha nas costas e são sempre os mesmos. Para ver se se mantém assim nos próximos números.
Vejo cinema japonês pela mesma razão que vejo português, francês ou alemão: à procura de algo diferente de Hollywood. Por isso fui ver “O Sabor da Melancia”, de um profícuo cineasta de Taiwan, de que não conheço mais nada, Tsai Ming-Liang. E fui sem ler mais do que a sinopse: «Erótico, musical e lúbrico (...) uma história de amor em tempo de seca e de uma obsessão por melancias. Taiwan sofre uma terrível falta de água. Os canais de televisão aconselham a população a economizar e a beber sumo de melancia (...)» O que encontrei foi diferente de tudo o que havia visto até então. E a senhora que estava a umas cadeiras de mim, escondia-se com embaraço; o rapaz à minha frente não se movia; no casal atrás, ela fazia perguntas parvas — «onde é que é isto?» «que água é aquela?» — e ele tentava responder; o grupo lá de trás falava alto.
A solidão é um dos temas da fita e as personagens estão sempre sozinhas no ecrã e desencontradas entre si. O aspecto cómico é dado pelos momentos musicais, coloridos e divertidos nas coreografias e nas temáticas erótico-pornográficas, bem como na questão da escassez de água e forma como é explorada ao longo de todo o filme, e pontualmente no papel que é dado à melancia. Não tendo a pornografia nada de cómico, consegue fazer-nos rir, até à trágica cena final, em que somos esbofeteados. Há, portanto, uma pornografia não explícita (?).Ela recolhe garrafas plásticas do lixo, para armazenar água. Ele é actor pornográfico. Encontram-se e apaixonam-se. Não se envolvem fisicamente, apenas cozinham juntos. Ela mata a sede com água, que esconde, e só lhe oferece sumo de melancia. Ele sofre uma “crise de vocação”, deixando de conseguir desempenhar o seu papel com as colegas actrizes. Uma delas morre, supõe-se de sede — recordem-se da seca em Taiwan —, e é encontrada por Ela. Mesmo morta, continua-se o filme. Ela descobre, finalmente, o que Ele faz para ganhar a vida, e assiste à cena. Ele vai fazendo-o, a custo. Os olhares cruzam-se e Ele ganha fôlego. O filme, a cena, e a cena, terminam com um longo e trágico abocanhamento — pessoalmente, acho que Ela morre sufocada.
“O Sabor da Melancia” não é mau. É muito diferente.
Desilusão, desilusão
A curta-metragem “China China”, de João Pedro Rodrigues (realizador de “Odete”) e João Rui Guerra da Mata, «conta a história de uma rapariga chinesa que vive em Lisboa e sonha com Nova Iorque, no microcosmos que é o Martim Moniz», e embora se diga que é «uma das mais belas curtas da produção portuguesa recente, apresentada nos festivais de Cannes, Vila do Conde e Indie Lisboa», é extraordinariamente vazia e má. A história conta-se num monólogo; a encenação é excessiva; «Olá piolho», para além de ser uma das quatro ou cinco frases que ouvimos da protagonista, não será o que uma mãe chinesa imigrante diga pela manhã ao seu filho nascido em Lisboa. E depois tudo termina com o miúdo matando a mãe acidentalmente, com um tiro certeiro no peito. Não havia necessidade de isto ter financiamento estatal.
Afinal tem miolo
Gastei dois euros na revista Time Out Lisboa e não me arrependo. O aspecto gráfico não se coaduna com a pretensão urbana/life style/na moda que a revista encerra, chega a ser enfadonho e a remeter para a Pública ou Notícias Magazine do princípio da década. O registo de linguagem oscila entre o descontraído/metido-jovem e pretenso cómico/Gato Fedorento. O conteúdo é leve, levezinho nalgumas páginas. Tem a melhor fotografia que vi nas dezenas de entrevistas feitas a Paul Auster na semana passada. Mas, caramba, parece ter verdadeira crítica de restaurantes!
Apreciador confesso do género, embora não consuma títulos dedicados, durante anos li as apologéticas e exaustivas-da-entrada-ao-charuto críticas gastronómicas de João Gobern no DN; depois, os tesouros de bom português com restaurantes pelo meio, de Miguel Esteves Cardoso, também no DN; a espaços compro a edição de fim-de-semana do Financial Times e leio sobre onde nunca irei jantar; mas tudo isto sempre muito elogioso e gabatório. Até chegar ao texto de Lourenço Viegas sobre o Vinotinto, neste terceiro número da Time Out.«O Vinotinto, na nova praça de touros do Campo Pequeno, é o reino do parecer. Parece uma enoteca, mas o vinho ficou esquecido no nome e nas paredes; parece um restaurante espanhol, mas mistura comida de Espanha com entradas de Itália e saladas de aeroporto; parecem simpáticos, mas nunca nos deixam sentar nas mesas que nos apetece; parece agradável e confortável, mas saímos cansados e com o rabo a doer dos bancos. (...) O que me parece é que é tempo de deixar de haver restaurantes de franchising a trinta euros por pessoa. E, por favor, para a próxima não me obriguem a ficar na mesa ao lado da casa de banho tendo mais de meio restaurante vazio. Vá lá.»
Não é por estar a botar abaixo que gosto desta crítica. É por ser sincera e directa. Por ser simples, sem as notas de prova dos vinhos ou análise microscópica dos pratos e dos paladares. E por apontar para o que é novo e — pelo menos neste número — “de massas”, sem mais critérios, ao invés de preferir o que é de requinte e apenas para alguns, ou de assinatura mais do que reconhecida, naquele nacional porreirismo de palmadinha nas costas e são sempre os mesmos. Para ver se se mantém assim nos próximos números.
sábado, 6 de outubro de 2007
sexta-feira, 5 de outubro de 2007
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
Basileia ao jantar, Chimarrão ao almoço – dias 19 e 20 – o fim
Para chegar a Basileia, de onde voaríamos para Lisboa, tínhamos de atravessar a Alemanha em três etapas que durariam onze horas, a primeira das quais de Praga até Dresden. Às quatro e dezassete da madrugada subimos a bordo e tentámos procurar um compartimento livre sem incomodar demasiado quem já estava em viagem e a dormir, abrindo as portas com cuidado e afastando as cortinas somente o suficiente para perceber se havia quatro lugares disponíveis. Foi aí que a cabeça de um fulano meio careca, usando sandálias com meias cinzentas e óculos de lentes e armação grossas, apareceu de repente por entre as portas que tínhamos fechado e acenou para que entrássemos, que foi o que fizemos.
Com as luzes do compartimento sempre apagadas, arrumámos as mochilas, preenchemos o bilhete e sentámo-nos para descansar os olhos. Eu fiquei à janela, no sentido da marcha do comboio; à minha frente o passageiro; ao lado dele com uma cadeira de intervalo ficou o Rui; ao meu lado a Joana e o Pedro. O fado repetiu-se e eu fui ouvindo música repisada no meu leitor de MP3 portátil manhoso e com pouco por onde escolher durante as primeiras duas horas, enquanto todos dormiam e eu ia trocando as pernas com ginástica, para não tocar e acordar o senhor. Com a primeira claridade do dia, o passageiro puxou d’O Livro e começou a ler, intercalando os parágrafos com olhadelas à Joana. Ninguém me diz que ele não estava a combater uma tentação... Depois rezou. Depois comeu. E depois nós saímos e ele continuou, sempre sem trocarmos uma palavra.
Em solo germânico, dividimo-nos novamente. Eles foram espreitar as imediações da estação de Dresden, eu e a Joana preferimos tomar o pequeno almoço sentados na estação e aproveitar para escrever mais um pouco. O comboio para Frankfurt sairia às nove menos cinco e reencontrámo-nos já na linha, perto do modernaço ICE 1640 que, perante o frio insistente durante toda a viagem, valeu ao Rui uma boa pergunta: “sir, why is it so cold?” e uma bonita resposta do comissário de bordo: “it’s not cold, it’s the air conditioning”. Mas a coisa pioraria pouco depois, com a chegada de uma nova equipa de comissários e o anúncio de que o comboio seguia com meia hora de atraso. Um comboio atrasado no país do rigor? No país do espaço Schengen que valeu uma análise minuciosa e com direito a lupa ao meu passaporte, que não é o novíssimo electrónico, por parte do pastor alemão na fronteira da Checa com a Germânia? Perguntei à senhora quais eram as alternativa para chegarmos a Basileia e percebi que teríamos de esperar uma hora em Frankfurt e ainda fazer um transbordo extra em Mannheim, o que nos arrastaria a chegada a casa da Ana lá para as cinco ou seis da tarde. A Ana é a minha irmã do meio, temos dez anos de diferença.
Em Frankfurt dirigi-me à bilheteira para confirmar o novo plano de viagem e pedir o reembolso dos trinta e oito euros que tinham custado as quatro reservas do comboio que acabáramos de perder — tudo é caro na Alemanha. Aparentemente, para receber o dinheiro de volta só teria de preencher um formulário, deixar que copiassem a reserva e fornecer o meu número de conta internacional. Mas passar-se-ão semanas em Lisboa sem que o dinheiro tenha regressado, e passar-se-á a fase em que a cada dois dias eu olhava a cópia do pedido de reembolso para confirmar que não tinha errado nenhum dígito no meu IBAN.
Até Mannheim foi um tirinho e daí a Basileia mais três ou quatro horas, que também passaram rápido. Ou então estávamos todos tão fartos — mas mesmo fartos — de comboios que a amnésia tomou conta dessas horas. Viajámos separados, porque o comboio estava quase cheio e não conseguimos lugar para todos na mesma carruagem. Mas nem por isso nos enganámos na saída, porque em Basileia há a estação alemã e a estação suíça e principal, e era esta que queríamos, a Basel SBB. Das duas vezes que estive na cidade aquela estação sempre me pareceu extremamente movimentada para a dimensão das instalações — era perto das seis da tarde —, mas curiosamente gostei, gosto, do ambiente. Porque tem um mini Coop, o supermercado que se encontra a cada esquina, porque tem lojas de chocolates, de electrodomésticos, de roupa, e vendedores ambulantes de queijo, asseados. Comprar queijo na Suíça é diferente de o fazer em qualquer outra parte do mundo — excepto Paris, talvez, mas nunca lá estive —, porque a oferta é imensa, há queijos de tudo e com tudo, e o cliente pode e deve provar antes de decidir levar, e se forem dois não há problema, dá-se a provar duas falhinhas do produto. Falhinha é o diminutivo de um termo algarvio para fatia. O Rui sabe do que falo.
Depois de trocar o que restava de dinheiro croata e checo por francos suíços, e não conseguir trocar os dinares sérvios, chegámos a casa da Ana, que fica a menos de dez minutos da estação, numa zona de moradias e prédios de apenas dois andares. Feitas as apresentações e tomados os banhos, jantámos frango assado, arroz branco, batatas fritas de pacote, salada de espinafres, um tinto alentejano de reserva e gelados Mövenpick, provavelmente os melhores do planeta. A minha irmã Ana foi como uma mãe e recebeu-nos muito bem. Em troca, falámos pouco ou nada, não tirámos nenhuma fotografia juntos, demos uns poucos abraços para esquecer a saudade de seis meses, e depois ainda a fomos levar a casa de uma amiga, onde dormiria aquela noite — até isso ela fez por nós: deixou-nos à vontade na sua casa.
Depois levei os rapazes a ver as correntes fortíssimas que o Reno tem ali, a espreitar as pontes, passar pela zona dos bares que estavam vazios ou fechados, e a andar um bom pedaço, porque no regresso a casa me enganei e meti por umas ruas que não eram as que eu queria. Mas chegámos. Bastante tarde, caímos todos no sono logo de imediato e quando às seis da matina os despertadores começaram a tocar, ninguém quis acreditar. Era cedo demais, ainda estava escuro, lá fora tinha acabado de chover e tínhamos que nos apressar para chegar ao aeroporto de Basileia, curiosamente em solo alemão.
Feito o check-in, tomámos o pequeno almoço nos bancos do aeroporto para gastar as últimas moedas. E tudo passou muito rápido. Quando demos por nós tínhamos embarcado; o Pedro estava ansioso pela sua estreia nos ares; o Rui comentava comigo a assistente de bordo morena de olhos azuis; o Pedro debruçava-se sobre o assento para me ver, na fila da direita, e perguntar se aqueles barulhos eram normais; eu debruçava-me em resposta e acenava que sim; vimos a Costa da Caparica e o Cristo Rei; aterrámos e houve quem batesse palmas; esperámos uma boa meia hora pelas malas; deixámos a Joana com a família, que a tinha ido buscar, no dia de aniversário do pai; e eu, o Pedro e o Rui fomos para o único sítio onde poderíamos ir, o Chimarrão, onde entrámos ainda antes do meio-dia. Depois de nos fazermos de coitadinhos e esfomeados, que vimos de tão longe com a mochila às costas, de provar cerveja a sério pela primeira vez em vinte dias e nove países, e de eu esquecer a carta que prometera escrever ao Inter-Rail, reclamando por não explicarem com seriedade que não são “só alguns” comboios que combram taxas extra, mas a maioria, separámo-nos no metro. Eles foram para os expressos em Sete Rios, eu segui para o Cais do Sodré. Atravessar o rio num ferry ao sol de mais de trinta graus, a ouvir o barulho do casco a cortar o Tejo, foi quanto bastou: estava, estávamos todos, em casa.
Para chegar a Basileia, de onde voaríamos para Lisboa, tínhamos de atravessar a Alemanha em três etapas que durariam onze horas, a primeira das quais de Praga até Dresden. Às quatro e dezassete da madrugada subimos a bordo e tentámos procurar um compartimento livre sem incomodar demasiado quem já estava em viagem e a dormir, abrindo as portas com cuidado e afastando as cortinas somente o suficiente para perceber se havia quatro lugares disponíveis. Foi aí que a cabeça de um fulano meio careca, usando sandálias com meias cinzentas e óculos de lentes e armação grossas, apareceu de repente por entre as portas que tínhamos fechado e acenou para que entrássemos, que foi o que fizemos.
Com as luzes do compartimento sempre apagadas, arrumámos as mochilas, preenchemos o bilhete e sentámo-nos para descansar os olhos. Eu fiquei à janela, no sentido da marcha do comboio; à minha frente o passageiro; ao lado dele com uma cadeira de intervalo ficou o Rui; ao meu lado a Joana e o Pedro. O fado repetiu-se e eu fui ouvindo música repisada no meu leitor de MP3 portátil manhoso e com pouco por onde escolher durante as primeiras duas horas, enquanto todos dormiam e eu ia trocando as pernas com ginástica, para não tocar e acordar o senhor. Com a primeira claridade do dia, o passageiro puxou d’O Livro e começou a ler, intercalando os parágrafos com olhadelas à Joana. Ninguém me diz que ele não estava a combater uma tentação... Depois rezou. Depois comeu. E depois nós saímos e ele continuou, sempre sem trocarmos uma palavra.
Em solo germânico, dividimo-nos novamente. Eles foram espreitar as imediações da estação de Dresden, eu e a Joana preferimos tomar o pequeno almoço sentados na estação e aproveitar para escrever mais um pouco. O comboio para Frankfurt sairia às nove menos cinco e reencontrámo-nos já na linha, perto do modernaço ICE 1640 que, perante o frio insistente durante toda a viagem, valeu ao Rui uma boa pergunta: “sir, why is it so cold?” e uma bonita resposta do comissário de bordo: “it’s not cold, it’s the air conditioning”. Mas a coisa pioraria pouco depois, com a chegada de uma nova equipa de comissários e o anúncio de que o comboio seguia com meia hora de atraso. Um comboio atrasado no país do rigor? No país do espaço Schengen que valeu uma análise minuciosa e com direito a lupa ao meu passaporte, que não é o novíssimo electrónico, por parte do pastor alemão na fronteira da Checa com a Germânia? Perguntei à senhora quais eram as alternativa para chegarmos a Basileia e percebi que teríamos de esperar uma hora em Frankfurt e ainda fazer um transbordo extra em Mannheim, o que nos arrastaria a chegada a casa da Ana lá para as cinco ou seis da tarde. A Ana é a minha irmã do meio, temos dez anos de diferença.
Em Frankfurt dirigi-me à bilheteira para confirmar o novo plano de viagem e pedir o reembolso dos trinta e oito euros que tinham custado as quatro reservas do comboio que acabáramos de perder — tudo é caro na Alemanha. Aparentemente, para receber o dinheiro de volta só teria de preencher um formulário, deixar que copiassem a reserva e fornecer o meu número de conta internacional. Mas passar-se-ão semanas em Lisboa sem que o dinheiro tenha regressado, e passar-se-á a fase em que a cada dois dias eu olhava a cópia do pedido de reembolso para confirmar que não tinha errado nenhum dígito no meu IBAN.
Até Mannheim foi um tirinho e daí a Basileia mais três ou quatro horas, que também passaram rápido. Ou então estávamos todos tão fartos — mas mesmo fartos — de comboios que a amnésia tomou conta dessas horas. Viajámos separados, porque o comboio estava quase cheio e não conseguimos lugar para todos na mesma carruagem. Mas nem por isso nos enganámos na saída, porque em Basileia há a estação alemã e a estação suíça e principal, e era esta que queríamos, a Basel SBB. Das duas vezes que estive na cidade aquela estação sempre me pareceu extremamente movimentada para a dimensão das instalações — era perto das seis da tarde —, mas curiosamente gostei, gosto, do ambiente. Porque tem um mini Coop, o supermercado que se encontra a cada esquina, porque tem lojas de chocolates, de electrodomésticos, de roupa, e vendedores ambulantes de queijo, asseados. Comprar queijo na Suíça é diferente de o fazer em qualquer outra parte do mundo — excepto Paris, talvez, mas nunca lá estive —, porque a oferta é imensa, há queijos de tudo e com tudo, e o cliente pode e deve provar antes de decidir levar, e se forem dois não há problema, dá-se a provar duas falhinhas do produto. Falhinha é o diminutivo de um termo algarvio para fatia. O Rui sabe do que falo.
Depois de trocar o que restava de dinheiro croata e checo por francos suíços, e não conseguir trocar os dinares sérvios, chegámos a casa da Ana, que fica a menos de dez minutos da estação, numa zona de moradias e prédios de apenas dois andares. Feitas as apresentações e tomados os banhos, jantámos frango assado, arroz branco, batatas fritas de pacote, salada de espinafres, um tinto alentejano de reserva e gelados Mövenpick, provavelmente os melhores do planeta. A minha irmã Ana foi como uma mãe e recebeu-nos muito bem. Em troca, falámos pouco ou nada, não tirámos nenhuma fotografia juntos, demos uns poucos abraços para esquecer a saudade de seis meses, e depois ainda a fomos levar a casa de uma amiga, onde dormiria aquela noite — até isso ela fez por nós: deixou-nos à vontade na sua casa.
Depois levei os rapazes a ver as correntes fortíssimas que o Reno tem ali, a espreitar as pontes, passar pela zona dos bares que estavam vazios ou fechados, e a andar um bom pedaço, porque no regresso a casa me enganei e meti por umas ruas que não eram as que eu queria. Mas chegámos. Bastante tarde, caímos todos no sono logo de imediato e quando às seis da matina os despertadores começaram a tocar, ninguém quis acreditar. Era cedo demais, ainda estava escuro, lá fora tinha acabado de chover e tínhamos que nos apressar para chegar ao aeroporto de Basileia, curiosamente em solo alemão.
Feito o check-in, tomámos o pequeno almoço nos bancos do aeroporto para gastar as últimas moedas. E tudo passou muito rápido. Quando demos por nós tínhamos embarcado; o Pedro estava ansioso pela sua estreia nos ares; o Rui comentava comigo a assistente de bordo morena de olhos azuis; o Pedro debruçava-se sobre o assento para me ver, na fila da direita, e perguntar se aqueles barulhos eram normais; eu debruçava-me em resposta e acenava que sim; vimos a Costa da Caparica e o Cristo Rei; aterrámos e houve quem batesse palmas; esperámos uma boa meia hora pelas malas; deixámos a Joana com a família, que a tinha ido buscar, no dia de aniversário do pai; e eu, o Pedro e o Rui fomos para o único sítio onde poderíamos ir, o Chimarrão, onde entrámos ainda antes do meio-dia. Depois de nos fazermos de coitadinhos e esfomeados, que vimos de tão longe com a mochila às costas, de provar cerveja a sério pela primeira vez em vinte dias e nove países, e de eu esquecer a carta que prometera escrever ao Inter-Rail, reclamando por não explicarem com seriedade que não são “só alguns” comboios que combram taxas extra, mas a maioria, separámo-nos no metro. Eles foram para os expressos em Sete Rios, eu segui para o Cais do Sodré. Atravessar o rio num ferry ao sol de mais de trinta graus, a ouvir o barulho do casco a cortar o Tejo, foi quanto bastou: estava, estávamos todos, em casa.
quarta-feira, 3 de outubro de 2007
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
Praga, o reencontro (e com as calças também) – dias 16, 17 e 18
Pareceu-me ver passar a Anna na estação, à chegada. Mas também é muito provável que tenha sido do cansaço. Afinal, eram cinco e quanto da manhã? Desde o ano passado, quando nos conhecemos em Praga, que lhe tinha prometido um reencontro quando fosse a Budapeste, mas dias antes trocámos mensagens e eu logo avisei que afinal estaria só de passagem pela estação. A Anna é russa, loira e branquinha como as russas, e trabalha como jornalista na televisão húngara.
Descemos do comboio sem pressa, à conversa com o finlandês solitário a quem tinha calhado uma couchette cheia de malta jovem e faladora, e passámos por aquele que seria o nosso comboio de ligação a Praga, estacionado na linha, do qual demos conta pelo pequeno quadro electrónico à porta de uma das carruagens, com a indicação do destino e a hora de partida. Puxei da bolsa a folha onde tinha apontado os horários dos comboios e percebi o erro: a ligação era duas horas mais cedo do que eu vinha assegurando, e dali a cinco minutos. Procurámos um pica junto à composição, que era enorme, mas não encontrámos nenhum e segundo a cábula aquele Euro City requeria reserva. Honestos, fomos à bilheteira internacional e depois de esperar bastante na fila, o bilheteiro feio, antipático e com cabelo à tigela lambido, anunciou que os húngaros são uns mãos largas e não cobram taxas nenhumas a quem viaja por inter-rail, respondendo à nossa desconsolada pergunta “so, we missed the train?” com um sarcástico “yes, you missed the train”.
Profundamente chateados por saber que chegaríamos a Praga perto das seis da tarde e não à uma, encontrámos uma casa de banho para a Joana mudar de roupa e agasalhar as pernas, tentámos trocar os meus dois mil e seiscentos dinares sérvios num balcão da Western Union, onde perante a antipatia da gaja que estava para lá do vidro do guichet, a Joana perdeu a cabeça e quase lhe quis bater, e depois fomos para o MacDonalds em frente da estação, para aceder à internet. A cem forints por cada vinte minutos, consultámos o email, reservámos um hostel no centro de Praga e eu escrevi no blogue pela primeira vez desde o início da viagem, sobre aquelas horas terroríficas em Budapeste.
Ao nosso lado no MacKiosk estava um homem vestido de preto, que tresandava a perfume e por isso o apelidei de “o cheiroso”. Eu não tinha nada contra o cheiroso. Até precisar ir à casa de banho do restaurante para um chichi, porque seguramente estaria mais limpa que a da estação. À entrada reparei na porta aberta de um dos cubículos, onde estava encostada uma mochila, e ouvi o que não queria ouvir: alguém estava desarranjado e a borrar-se, repetidamente. Fiz o que tinha a fazer e enquanto estava debruçado a lavar as mãos, olhei o espelho em frente e vi o cheiroso sair daquele preciso cubículo e colocar-se atrás de mim, mas porque eu devo ter demorado mais cinco segundos do que ele estaria disposto a esperar, saiu sem lavar as manápulas. As mesmas que, quando saí dos lavabos, já estavam a teclar novamente num dos computadores do MacKiosk. Nojento.
No comboio para Praga eu e a Joana estávamos de rastos. Eu, que não durmo em transportes, não conseguia manter-me acordado e com ela foi igual, até chegar aquela fase da viagem em que as sete horas do percurso pareciam não acabar e tivemos de passear pelas carruagens para nos entretermos e manter acordados. Foi aí que decidimos contar ao Pedro e ao Rui em Praga a segunda e última mentira da viagem, de que teríamos visto o Nuno Markl naquele comboio — perante a qualidade do sósia e uma prova material, não resistimos. Quem não acreditaria?
Para a Joana, ir a Praga significava regressar à “sua” cidade, oito meses depois de a ter deixado, e isso via-se no desembaraço e exigência em ser ela a comprar os bilhetes para o metro e a liderar o caminho, nos olhos húmidos e no sorriso tímido mas apaixonado, que lhe conheço, ao ler e ouvir a indicação de cada uma das paragens. Para mim, que também conhecia a cidade por lá ter passado umas três semanas no último Agosto, quando toda a Europa foi varrida por uma vaga de calor que nada tinha que ver com os vinte e poucos graus que sentiríamos durante os três dias de estadia, o que ditou que não mais andássemos de pernas ao léu e que o Pedro adoptasse de vez os ténis, era o início do regresso a casa, numa cidade que me era familiar. Desde a Croácia que eu perdia o alento de cada vez que reconhecia ter de viajar noutro comboio, em campanhas nunca inferiores a cinco horas, e por estar constantemente afastando-me de Lisboa.
Por outro lado, e como tínhamos planeado tratar-nos bem na última etapa, foi tempo de descanso e de passar em revista as três semanas de viagem e recordar alguns pormenores. Como aquele supermercado em Hvar que nalguns sítios tinha menos de trinta centímetros entre as estantes com os produtos e os pilares da casa. Como eu ter acumulado, sem querer, quase todos os postais que comprei e escrevi durante a viagem, para enviar a partir de Praga — talvez pelos selos colados por cima de outros, alguns nunca tenham chegado ao destino. Como aquela noite, já não me lembro onde, em que formulei a teoria de que o turismo inglês na Praia da Rocha é de “pé descalço” e que as “bifas” que por lá andam são em grande percentagem feias e a atirar para o gordo, axioma a que chamei “as inglesas da Praia da Rocha são as filhas dos motoristas da Carris de Londres”, que valeu ao Pedro um daqueles seus ataques de riso estranhos em que ele solta um guincho, fica vermelho e de boca aberta, e despenteia-se descontroladamente. Ou como o Rui, que tinha vindo para a viagem com uma bola de futebol, que pacientemente transportou à mão dentro de um saco plástico do Continente durante três semanas, ter deixado de tentar jogar à bola nas estações de comboio logo depois de tentativas frustradas pelos vigilantes de serviço em Badajoz, Madrid, Barcelona, Cerbere e Montpellier — ao cabo de três dias, portanto.
Depois de jantar com a Joana num restaurante que ela conhecia perto do Museu Nacional, fomos esperar o Rui e o Pedro à estação, com o Pavel, um checo amigo. O comboio deles chegou com mais de quarenta minutos de atraso, perto das dez da noite, e não me espantou ver o Pedro descer a sorrir e o Rui acompanhado de uma rapariga loira com um vestido bastante curto — reforço: bastante curto. A Carol era irlandesa, tinha apenas 18 anos e um sorriso mesmo de menina. Havia deixado os amigos com quem viajava para ver Praga, e perante aquela candura solitária no comboio, o Rui achou por bem poupá-la ao desconhecido e levá-la para o nosso quarto no hostel, onde havia pelo menos mais três camas livres. Para mim e para o Pedro foi quanto bastou para nos divertirmos o resto da noite a gozar com ele, depois de passear pela baixa da cidade, levar os rapazes a uma casa de pizzas à fatia, olhar o relógio na praça central da baixa, passar a Ponte de Carlos para a outra margem, regressar e perder imenso tempo procurando um bar onde beber umas canecas de cerveja.
Quando acordámos já a Carol tinha ido embora sem se despedir, nem mesmo do Rui. Então fomos almoçar goulash num restaurante onde a empregada ficou furiosa ao recusarmos o menu inglês, porque a Joana queria recordar o checo, o suficiente para a tipa e os checos em geral acharem que assim o turista vai é escolher os pratos mais baratos e poupar nas coroas. Enganaram-se e enganam-se redondamente, porque nós queríamos gastar algum dinheiro e porque a República Checa é um destino relativamente barato para um português, o que dispensa comentários para norte-americanos ou ingleses. Os empregados de mesa checos não gostam de quem não deixa gorjeta, o que até se percebe porque os salários deles são baixos e eu acho que em Portugal é que esse comportamento social não está assim tão enraizado — deixámos trocos. E por falar em salários baixos, ainda encontrarei quem confirme que aqueles acompanhamentos típicos dos pratos checos, umas fatias de massa de pão ou de batata, os knedliky, são uma herança histórica dos tempos de fome, em que o que importava era encher a barriguinha.
O resto do dia foi passado a caminhar pela baixa da cidade, pelo bairro judeu, pela Ponte de Carlos repleta de gente, pelo castelo e numa subida à pequena réplica da torre Eiffel, no cimo de um morro de onde se vê toda a cidade até ao horizonte. Eles subiram ao topo, eu fiquei-me pelo primeiro piso. Foi por essa altura que o Pedro e o Rui elegeram Praga como a cidade mais bonita onde tinham estado, o que se percebe. A cidade mistura a monumentalidade a cada esquina com a funcionalidade — da planície em que foi construída, propícia à caminhada, do bom sistema de transportes públicos, e de uma aparente vida própria alheia ao turismo — e tudo parece fluir. E estar de passagem durante poucos dias com alguém que lá viveu uma temporada foi uma vantagem. Só assim pudemos passar umas horas descontraídas no Bohemian Bagels, uma casa com óptimos bagels, um brownie de chocolate divinal e café expresso digno desse nome para os padrões da Europa de Leste, ao som de boa música embalando a conversa ou a escrita no meu caderninho castanho. Esta história, que agora se aproxima do final, começou sendo escrita num pequeno Moleskine de bolso com trinta e duas folhas pautadas cozidas com um fio de linho castanho claro a uma capa de cartão fino e mole da mesma cor, onde escrevi com a minha Lakubo preta de ponta zero-sete, a única que não borra o papel daquela marca.
Nessa noite jantámos num dos restaurantes mais concorridos de Praga, de que não recordamos o nome nem, muito sinceramente, o que comemos. O Rui partilhou comigo um vinho branco francês mediano e no final passou um quarto de hora cheirando o pouquíssimo Porto Tawny que lhe serviram num balão. O Pedro gostou do tabaco checo que comprou. E a Joana bebeu mais uma San Pellegrino, a melhor água gasocarbónica do planeta — não se encontrar San Pellegrino nos supermercados portugueses é uma heresia.
Na prática passámos só dois dias em Praga e o segundo teve ainda mais de ócio e repouso que o primeiro. Não para as pernas, porque continuámos andando muito, mas para o resto do corpo. Nestas vinte e quatro horas finais acho que pouco mais fizemos do que procurar uma tshirt de turista para o Pedro, jantar pizzas no Tesco, o supermercado onde a Joana tentou comprar as coisinhas todas a que tinha sido habituada e de que queria levar um pequeno carregamento para Lisboa, e convencer o dono de um sports bar a ceder a televisão mais pequenina que tinha, à entrada do bar, para o Benfica 1 – Copenhaga 0, no dia em que todos os bares do género estavam cheios com jogos dos dois clubes da cidade, o Sparta e o Slavia. O Pedro e o Rui são doentes por futebol. Sempre que usámos a internet ao longo da viagem a primeira paragem de qualquer um deles foi o site d’A Bola. Para além das mensagens diárias de amigos e pais com as mais frescas das lesões ou a novela “Fernando Santos sai, José António Camacho regressa”. Por isso não se estranhou o grito do Pedro quando o Benfica marcou. Mas bem que podiam ter mostrado alguma iniciativa na marcação de dormidas ou pesquisa de horários de comboios.
Depois do jogo passámos tempo no hostel até a sala de convívio fechar, à meia-noite, altura em que rumámos ao MacDonalds 24h para passar mais tempo até cerca das quatro da madrugada, quando partiria o comboio que nos levaria a Dresden, para finalmente terminarmos na Suíça. A discussão sobre as normas de vestuário em contextos institucionais, ou simplesmente sobre por que razão a Joana tinha sido impedida de entrar na igreja em Padova, ou por que raio é que eu acho que não se deve ir para a universidade em calção (de banho ou similar) e chinelo, azedou e deu direito a amuo do Rui, até Frankfurt.
Pareceu-me ver passar a Anna na estação, à chegada. Mas também é muito provável que tenha sido do cansaço. Afinal, eram cinco e quanto da manhã? Desde o ano passado, quando nos conhecemos em Praga, que lhe tinha prometido um reencontro quando fosse a Budapeste, mas dias antes trocámos mensagens e eu logo avisei que afinal estaria só de passagem pela estação. A Anna é russa, loira e branquinha como as russas, e trabalha como jornalista na televisão húngara.
Descemos do comboio sem pressa, à conversa com o finlandês solitário a quem tinha calhado uma couchette cheia de malta jovem e faladora, e passámos por aquele que seria o nosso comboio de ligação a Praga, estacionado na linha, do qual demos conta pelo pequeno quadro electrónico à porta de uma das carruagens, com a indicação do destino e a hora de partida. Puxei da bolsa a folha onde tinha apontado os horários dos comboios e percebi o erro: a ligação era duas horas mais cedo do que eu vinha assegurando, e dali a cinco minutos. Procurámos um pica junto à composição, que era enorme, mas não encontrámos nenhum e segundo a cábula aquele Euro City requeria reserva. Honestos, fomos à bilheteira internacional e depois de esperar bastante na fila, o bilheteiro feio, antipático e com cabelo à tigela lambido, anunciou que os húngaros são uns mãos largas e não cobram taxas nenhumas a quem viaja por inter-rail, respondendo à nossa desconsolada pergunta “so, we missed the train?” com um sarcástico “yes, you missed the train”.
Profundamente chateados por saber que chegaríamos a Praga perto das seis da tarde e não à uma, encontrámos uma casa de banho para a Joana mudar de roupa e agasalhar as pernas, tentámos trocar os meus dois mil e seiscentos dinares sérvios num balcão da Western Union, onde perante a antipatia da gaja que estava para lá do vidro do guichet, a Joana perdeu a cabeça e quase lhe quis bater, e depois fomos para o MacDonalds em frente da estação, para aceder à internet. A cem forints por cada vinte minutos, consultámos o email, reservámos um hostel no centro de Praga e eu escrevi no blogue pela primeira vez desde o início da viagem, sobre aquelas horas terroríficas em Budapeste.
Ao nosso lado no MacKiosk estava um homem vestido de preto, que tresandava a perfume e por isso o apelidei de “o cheiroso”. Eu não tinha nada contra o cheiroso. Até precisar ir à casa de banho do restaurante para um chichi, porque seguramente estaria mais limpa que a da estação. À entrada reparei na porta aberta de um dos cubículos, onde estava encostada uma mochila, e ouvi o que não queria ouvir: alguém estava desarranjado e a borrar-se, repetidamente. Fiz o que tinha a fazer e enquanto estava debruçado a lavar as mãos, olhei o espelho em frente e vi o cheiroso sair daquele preciso cubículo e colocar-se atrás de mim, mas porque eu devo ter demorado mais cinco segundos do que ele estaria disposto a esperar, saiu sem lavar as manápulas. As mesmas que, quando saí dos lavabos, já estavam a teclar novamente num dos computadores do MacKiosk. Nojento.
No comboio para Praga eu e a Joana estávamos de rastos. Eu, que não durmo em transportes, não conseguia manter-me acordado e com ela foi igual, até chegar aquela fase da viagem em que as sete horas do percurso pareciam não acabar e tivemos de passear pelas carruagens para nos entretermos e manter acordados. Foi aí que decidimos contar ao Pedro e ao Rui em Praga a segunda e última mentira da viagem, de que teríamos visto o Nuno Markl naquele comboio — perante a qualidade do sósia e uma prova material, não resistimos. Quem não acreditaria?
Para a Joana, ir a Praga significava regressar à “sua” cidade, oito meses depois de a ter deixado, e isso via-se no desembaraço e exigência em ser ela a comprar os bilhetes para o metro e a liderar o caminho, nos olhos húmidos e no sorriso tímido mas apaixonado, que lhe conheço, ao ler e ouvir a indicação de cada uma das paragens. Para mim, que também conhecia a cidade por lá ter passado umas três semanas no último Agosto, quando toda a Europa foi varrida por uma vaga de calor que nada tinha que ver com os vinte e poucos graus que sentiríamos durante os três dias de estadia, o que ditou que não mais andássemos de pernas ao léu e que o Pedro adoptasse de vez os ténis, era o início do regresso a casa, numa cidade que me era familiar. Desde a Croácia que eu perdia o alento de cada vez que reconhecia ter de viajar noutro comboio, em campanhas nunca inferiores a cinco horas, e por estar constantemente afastando-me de Lisboa.
Por outro lado, e como tínhamos planeado tratar-nos bem na última etapa, foi tempo de descanso e de passar em revista as três semanas de viagem e recordar alguns pormenores. Como aquele supermercado em Hvar que nalguns sítios tinha menos de trinta centímetros entre as estantes com os produtos e os pilares da casa. Como eu ter acumulado, sem querer, quase todos os postais que comprei e escrevi durante a viagem, para enviar a partir de Praga — talvez pelos selos colados por cima de outros, alguns nunca tenham chegado ao destino. Como aquela noite, já não me lembro onde, em que formulei a teoria de que o turismo inglês na Praia da Rocha é de “pé descalço” e que as “bifas” que por lá andam são em grande percentagem feias e a atirar para o gordo, axioma a que chamei “as inglesas da Praia da Rocha são as filhas dos motoristas da Carris de Londres”, que valeu ao Pedro um daqueles seus ataques de riso estranhos em que ele solta um guincho, fica vermelho e de boca aberta, e despenteia-se descontroladamente. Ou como o Rui, que tinha vindo para a viagem com uma bola de futebol, que pacientemente transportou à mão dentro de um saco plástico do Continente durante três semanas, ter deixado de tentar jogar à bola nas estações de comboio logo depois de tentativas frustradas pelos vigilantes de serviço em Badajoz, Madrid, Barcelona, Cerbere e Montpellier — ao cabo de três dias, portanto.
Depois de jantar com a Joana num restaurante que ela conhecia perto do Museu Nacional, fomos esperar o Rui e o Pedro à estação, com o Pavel, um checo amigo. O comboio deles chegou com mais de quarenta minutos de atraso, perto das dez da noite, e não me espantou ver o Pedro descer a sorrir e o Rui acompanhado de uma rapariga loira com um vestido bastante curto — reforço: bastante curto. A Carol era irlandesa, tinha apenas 18 anos e um sorriso mesmo de menina. Havia deixado os amigos com quem viajava para ver Praga, e perante aquela candura solitária no comboio, o Rui achou por bem poupá-la ao desconhecido e levá-la para o nosso quarto no hostel, onde havia pelo menos mais três camas livres. Para mim e para o Pedro foi quanto bastou para nos divertirmos o resto da noite a gozar com ele, depois de passear pela baixa da cidade, levar os rapazes a uma casa de pizzas à fatia, olhar o relógio na praça central da baixa, passar a Ponte de Carlos para a outra margem, regressar e perder imenso tempo procurando um bar onde beber umas canecas de cerveja.
Quando acordámos já a Carol tinha ido embora sem se despedir, nem mesmo do Rui. Então fomos almoçar goulash num restaurante onde a empregada ficou furiosa ao recusarmos o menu inglês, porque a Joana queria recordar o checo, o suficiente para a tipa e os checos em geral acharem que assim o turista vai é escolher os pratos mais baratos e poupar nas coroas. Enganaram-se e enganam-se redondamente, porque nós queríamos gastar algum dinheiro e porque a República Checa é um destino relativamente barato para um português, o que dispensa comentários para norte-americanos ou ingleses. Os empregados de mesa checos não gostam de quem não deixa gorjeta, o que até se percebe porque os salários deles são baixos e eu acho que em Portugal é que esse comportamento social não está assim tão enraizado — deixámos trocos. E por falar em salários baixos, ainda encontrarei quem confirme que aqueles acompanhamentos típicos dos pratos checos, umas fatias de massa de pão ou de batata, os knedliky, são uma herança histórica dos tempos de fome, em que o que importava era encher a barriguinha.
O resto do dia foi passado a caminhar pela baixa da cidade, pelo bairro judeu, pela Ponte de Carlos repleta de gente, pelo castelo e numa subida à pequena réplica da torre Eiffel, no cimo de um morro de onde se vê toda a cidade até ao horizonte. Eles subiram ao topo, eu fiquei-me pelo primeiro piso. Foi por essa altura que o Pedro e o Rui elegeram Praga como a cidade mais bonita onde tinham estado, o que se percebe. A cidade mistura a monumentalidade a cada esquina com a funcionalidade — da planície em que foi construída, propícia à caminhada, do bom sistema de transportes públicos, e de uma aparente vida própria alheia ao turismo — e tudo parece fluir. E estar de passagem durante poucos dias com alguém que lá viveu uma temporada foi uma vantagem. Só assim pudemos passar umas horas descontraídas no Bohemian Bagels, uma casa com óptimos bagels, um brownie de chocolate divinal e café expresso digno desse nome para os padrões da Europa de Leste, ao som de boa música embalando a conversa ou a escrita no meu caderninho castanho. Esta história, que agora se aproxima do final, começou sendo escrita num pequeno Moleskine de bolso com trinta e duas folhas pautadas cozidas com um fio de linho castanho claro a uma capa de cartão fino e mole da mesma cor, onde escrevi com a minha Lakubo preta de ponta zero-sete, a única que não borra o papel daquela marca.
Nessa noite jantámos num dos restaurantes mais concorridos de Praga, de que não recordamos o nome nem, muito sinceramente, o que comemos. O Rui partilhou comigo um vinho branco francês mediano e no final passou um quarto de hora cheirando o pouquíssimo Porto Tawny que lhe serviram num balão. O Pedro gostou do tabaco checo que comprou. E a Joana bebeu mais uma San Pellegrino, a melhor água gasocarbónica do planeta — não se encontrar San Pellegrino nos supermercados portugueses é uma heresia.Na prática passámos só dois dias em Praga e o segundo teve ainda mais de ócio e repouso que o primeiro. Não para as pernas, porque continuámos andando muito, mas para o resto do corpo. Nestas vinte e quatro horas finais acho que pouco mais fizemos do que procurar uma tshirt de turista para o Pedro, jantar pizzas no Tesco, o supermercado onde a Joana tentou comprar as coisinhas todas a que tinha sido habituada e de que queria levar um pequeno carregamento para Lisboa, e convencer o dono de um sports bar a ceder a televisão mais pequenina que tinha, à entrada do bar, para o Benfica 1 – Copenhaga 0, no dia em que todos os bares do género estavam cheios com jogos dos dois clubes da cidade, o Sparta e o Slavia. O Pedro e o Rui são doentes por futebol. Sempre que usámos a internet ao longo da viagem a primeira paragem de qualquer um deles foi o site d’A Bola. Para além das mensagens diárias de amigos e pais com as mais frescas das lesões ou a novela “Fernando Santos sai, José António Camacho regressa”. Por isso não se estranhou o grito do Pedro quando o Benfica marcou. Mas bem que podiam ter mostrado alguma iniciativa na marcação de dormidas ou pesquisa de horários de comboios.
Depois do jogo passámos tempo no hostel até a sala de convívio fechar, à meia-noite, altura em que rumámos ao MacDonalds 24h para passar mais tempo até cerca das quatro da madrugada, quando partiria o comboio que nos levaria a Dresden, para finalmente terminarmos na Suíça. A discussão sobre as normas de vestuário em contextos institucionais, ou simplesmente sobre por que razão a Joana tinha sido impedida de entrar na igreja em Padova, ou por que raio é que eu acho que não se deve ir para a universidade em calção (de banho ou similar) e chinelo, azedou e deu direito a amuo do Rui, até Frankfurt.
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
Aos vinte e sete dias do mês de Setembro do ano de dois mil e sete
1. Acordei tarde e a pensar em assinaturas para empreendimentos imobiliários de hiper-luxo.
4. O vizinho deixou de ser bom vizinho e acabou o wireless à borla.
5. Não almocei.
6. Disse ao Fernando que três meses era tempo demais à espera sem ver resultados e que os exigia até ao final da semana — ligou-me quatro horas depois.
7. Cheguei à versão final da assinatura para o empreendimento imobiliário de hiper-luxo.
11. Pedi desculpa à Raquel, mas não ia dar.
12. Não consegui falar com o Paulo.
13. Falei com a Helena.
14. Confirmei o jantar com o João.
15. Fui comprar os espinafres, o alho moído e o vinagre balsâmico para a salada, antes de seguir para casa.
16. Fui alvo de um crime.
16.1. Não acreditei.
16.2. Era mesmo verdade.
19. Desmarquei o jantar com o João.
21. Conheci uma morena de olhos verdes, cabelo comprido, mãos bonitas de mulher e um sorriso daqueles que desarmam e contagiam — perante a situação caricata que me tinha acontecido, ela só ria e eu também.
24. Jantei, ou melhor, comi...
25. O João ligou-me e expliquei com mais detalhe o que se tinha passado.
27. Apresentei a minha primeira queixa-crime, por danos ao património e bens semi-públicos.
28. Estive quase para fazer como fez o Santana Lopes na SIC Notícias e sair a meio — mas estava a prestar um depoimento, e não a dar uma entrevista —, de tão ridícula que foi a situação.
29. Cheguei à conclusão que Portugal é um país de merda, por causa dos portugueses.
i) Porque estive numa esquadra da PSP,
a) onde só algumas luzes estão acesas, para poupar;
b) o Chefe confirma duas vezes as horas no seu Casio digital de pulseira metálica (cerca das 23h40), demora cinco minutos a arrumar as folhas brancas e em branco que estão em cima da secretária, e depois diz que posso entrar (o serviço dele acaba à meia-noite);
c) o computador encrava a cada ordem;
d) o Chefe esmurra o teclado de cada vez que o computador encrava a cada ordem;
e) o Chefe é o beirão barrigudo que já não aguenta o giro e por isso vai para a secretária;
f) diz que o Chefe é o “Graduado de Serviço”;
g) não quero imaginar como seria se não fosse “Graduado”;
h) o Chefe não sabe escrever português;
i) o Chefe não responde a estímulos simples, como perguntas;
j) o Chefe pára a olhar com muita atenção para menus que surgem no ecrã, como este: “Pretende gravar o registo? Sim, Cancelar”;
k) e tudo o que aparecer na série da RTP “Polícias”, algures da década de 90.
ii) Mas também porque fui alvo de um crime ridículo e ignóbil.
30. Conduzi até casa, do outro lado (deste lado) do rio, a sessenta quilómetros por hora e nem me chateei de percorrer o túnel do Marquês a quarenta.
31. Consegui um lugar em frente de casa.
35. Arrumei os espinafres no frigorífico, na gaveta, por detrás dos tomates; e o alho moído e o vinagre balsâmico no armário de cima à esquerda do lava-louça, depois de reparar que, afinal, tinha em casa por abrir um frasco de alho moído do Continente.
39. O vizinho continuou sendo mau vizinho.
40. Escrevi ao João, mais uma vez, a pedir desculpa pelo cancelamento do repasto e convívio.
43. Puta da insónia.
51. Na rua para onde deitam as janelas do meu quarto três polícias de giro interceptaram um Renault Express beige com três agarrados a bordo, não percebi porquê, dado que só fui à janela quando o barulho me incomodou.
52. O polícia careca e encorpado disse: “Eu só me apetece virá-lo!, pá...”
56. Os soldadinhos de chumbo regressaram à esquadra, ali na outra rua, depois de esperarem uns dez minutos pelo carro patrulha que não veio, e sem sequer identificarem os suspeitos.
57. Os agarrados seguiram viagem e gritaram, no cruzamento, a dobrar a esquina, “’LHA DA PUUUUTA!”
63. Um táxi estacionou em cima do passeio, na outra esquina, e o motorista e as três senhoras entraram no número cinquenta e qualquer coisa ímpar, porque não consigo ver daqui.
74. O relógio assinala 05h39 quando escrevo isto.
1. Acordei tarde e a pensar em assinaturas para empreendimentos imobiliários de hiper-luxo.
4. O vizinho deixou de ser bom vizinho e acabou o wireless à borla.
5. Não almocei.
6. Disse ao Fernando que três meses era tempo demais à espera sem ver resultados e que os exigia até ao final da semana — ligou-me quatro horas depois.
7. Cheguei à versão final da assinatura para o empreendimento imobiliário de hiper-luxo.
11. Pedi desculpa à Raquel, mas não ia dar.
12. Não consegui falar com o Paulo.
13. Falei com a Helena.
14. Confirmei o jantar com o João.
15. Fui comprar os espinafres, o alho moído e o vinagre balsâmico para a salada, antes de seguir para casa.
16. Fui alvo de um crime.
16.1. Não acreditei.
16.2. Era mesmo verdade.
19. Desmarquei o jantar com o João.
21. Conheci uma morena de olhos verdes, cabelo comprido, mãos bonitas de mulher e um sorriso daqueles que desarmam e contagiam — perante a situação caricata que me tinha acontecido, ela só ria e eu também.
24. Jantei, ou melhor, comi...
25. O João ligou-me e expliquei com mais detalhe o que se tinha passado.
27. Apresentei a minha primeira queixa-crime, por danos ao património e bens semi-públicos.
28. Estive quase para fazer como fez o Santana Lopes na SIC Notícias e sair a meio — mas estava a prestar um depoimento, e não a dar uma entrevista —, de tão ridícula que foi a situação.
29. Cheguei à conclusão que Portugal é um país de merda, por causa dos portugueses.
i) Porque estive numa esquadra da PSP,
a) onde só algumas luzes estão acesas, para poupar;
b) o Chefe confirma duas vezes as horas no seu Casio digital de pulseira metálica (cerca das 23h40), demora cinco minutos a arrumar as folhas brancas e em branco que estão em cima da secretária, e depois diz que posso entrar (o serviço dele acaba à meia-noite);
c) o computador encrava a cada ordem;
d) o Chefe esmurra o teclado de cada vez que o computador encrava a cada ordem;
e) o Chefe é o beirão barrigudo que já não aguenta o giro e por isso vai para a secretária;
f) diz que o Chefe é o “Graduado de Serviço”;
g) não quero imaginar como seria se não fosse “Graduado”;
h) o Chefe não sabe escrever português;
i) o Chefe não responde a estímulos simples, como perguntas;
j) o Chefe pára a olhar com muita atenção para menus que surgem no ecrã, como este: “Pretende gravar o registo? Sim, Cancelar”;
k) e tudo o que aparecer na série da RTP “Polícias”, algures da década de 90.
ii) Mas também porque fui alvo de um crime ridículo e ignóbil.
30. Conduzi até casa, do outro lado (deste lado) do rio, a sessenta quilómetros por hora e nem me chateei de percorrer o túnel do Marquês a quarenta.
31. Consegui um lugar em frente de casa.
35. Arrumei os espinafres no frigorífico, na gaveta, por detrás dos tomates; e o alho moído e o vinagre balsâmico no armário de cima à esquerda do lava-louça, depois de reparar que, afinal, tinha em casa por abrir um frasco de alho moído do Continente.
39. O vizinho continuou sendo mau vizinho.
40. Escrevi ao João, mais uma vez, a pedir desculpa pelo cancelamento do repasto e convívio.
43. Puta da insónia.
51. Na rua para onde deitam as janelas do meu quarto três polícias de giro interceptaram um Renault Express beige com três agarrados a bordo, não percebi porquê, dado que só fui à janela quando o barulho me incomodou.
52. O polícia careca e encorpado disse: “Eu só me apetece virá-lo!, pá...”
56. Os soldadinhos de chumbo regressaram à esquadra, ali na outra rua, depois de esperarem uns dez minutos pelo carro patrulha que não veio, e sem sequer identificarem os suspeitos.
57. Os agarrados seguiram viagem e gritaram, no cruzamento, a dobrar a esquina, “’LHA DA PUUUUTA!”
63. Um táxi estacionou em cima do passeio, na outra esquina, e o motorista e as três senhoras entraram no número cinquenta e qualquer coisa ímpar, porque não consigo ver daqui.
74. O relógio assinala 05h39 quando escrevo isto.
quinta-feira, 27 de setembro de 2007
Segunda parte
Budapeste e Belgrado, dois para cada lado – dias 14 e 15
O ar da cidade junto à estação era quase irrespirável, por causa do calor húmido e da poluição. Ainda circulam muitos Yugo em Belgrado e boa parte dos táxi são estes pequenos automóveis com motores a dois tempos, pelo menos os mais antigos, como as motoretas Casal Boss, que fazem muito fumo com um cheiro característico, incómodo. Há uns autocarros a gasóleo e outros eléctricos, os troleicarro, e não fossem esses e os eléctricos sobre carris e eu não sei como seria o ar.
Ao subir uma das principais avenidas em frente à estação, a Nemanjina, com duas faixas para cada sentido, carris ao meio, passeios largos em cimento e edifícios altos, vimos os últimos vestígios dos bombardeamentos da NATO em 1999. De ambos os lados da avenida jazem os imponentes prédios da polícia federal e do exército jugoslavo, revestidos a tijoleira, esburacados pelos mísseis disparados nas noites de 29 e 30 de Abril, o ataque mais severo dos setenta e oito dias de ofensiva. Eu sorri e disse “foi por isto que vim cá”, a Joana foi apanhada de surpresa.
Depois de encontrar o hostel, de receber uns quinze minutos de sugestões de visita pela rapariga recepcionista, e de tomar um duche, saímos para comer qualquer coisa. Era sábado e andámos muito tempo perdidos à procura de uma casa de pizzas e sanduíches famosa em Belgrado, a Toma. Esfomeados demais, cedemos perante o MacDonalds — e a Toma ali a cinquenta metros, como descobriríamos depois — e foi aí que a Inga veio ao nosso encontro.
A Inga era amiga da Joana desde que partilharam a mesma residência de estudantes em Praga, e trocaria Belgrado por Budapeste na segunda-feira seguinte, após um semestre trabalhando numa organização não-governamental. Norueguesa de cabelo preto curto e olhos claros, baixinha, muito faladora, para além de muito interessante e mais rápida a caminhar, em cinco horas a Inga mostrou-nos o centro da cidade, por onde se movem as pessoas, os principais eixos, as zonas de recreio e as residenciais. Foi essencial para perceber rapidamente por onde andar, o que observar e como olhar para a cidade no dia seguinte.
De volta ao hostel, depois de um jantar barato numa esplanada à luz de uma vela, em que falámos das razões para os atritos e maus-humores da viagem até então, já estava de serviço o patrão do albergue, o Chillton Hostel, que logo me ofereceu a welcome drink, um brandy de ameixa típico da Sérvia, o sljivovica, bebida tradicionalmente tomada pelas comunidades judias da Europa de Leste. Com a slivovits na mão — é como se pronuncia — fomos para a sala de convívio, onde estava mais gente e um gajo de camisola de manga-cava preta que falava inglês muito depressa e me perguntou se ia sair ou ter uma “quiet one”. Enquanto a Joana chegava e tomávamos lugar junto ao computador, expliquei-lhe que não dormia havia mais de quarenta e oito horas e que só pensava em estender-me ao comprido. Pouco tempo depois, e quando eu já tinha topado a coisa, ele fez a derradeira pergunta de despiste: “so, are you uni-buddies?” Sim, pá, eu e a Joana somos amigos. E então eu deixei de existir e o australiano achinesado, ou Kevin, tornou-se setas. A mini-saia da Joana ajudou e ele bem que a cortejou e insistiu para que ela fosse sair com o grupo: “I wanna talk to you more, I wanna talk to you more”, implorando e segurando-lhe as mãos. De rir, que foi o que ela fez e continuou fazendo, deitada, com o ego devidamente massajado.
O único problema do hostel era a dimensão dos quartos, diminuta, para a quantidade de camas, seis. Connosco estavam uma francesa que ressonava, uma australiana badalhoca a atirar para o gordo e que tinha espalhados pelo chão junto ao beliche sutiãs amarrotados e a escova e pasta de dentes, um personagem que não recordo e um rasta nauseabundo, cujo fedor atravessava a porta e chegava à recepção, em frente, onde estávamos depois de ele se despir para dormir a sesta. Só conseguimos dormir ali à noite porque havia ar-condicionado para aliviar o ar de seis pessoas respirando e porque o porco já lá não estava.
No dia seguinte pela manhã saímos cedo e depois de um pequeno-almoço enorme que meteu mostarda, ketchup e batatas assadas, iogurte natural espesso servido numa caneca de vidro meio porca que não devolvi porque o iogurte regressaria o mesmo, com a probabilidade acrescida de trazer brinde, e porque assumi que seria tradicional e que na Sérvia eu teria de ser sérvio; e de uma paragem de duas horas numa esplanada à sombra para fintar o calor insuportável e avançar na escrita, passeámos até à noite, noite dentro, porque o próximo comboio seria, outra vez, nocturno.
Belgrado tem poucos turistas, porque tem pouco que ver, turisticamente falando e em comparação com a vizinha Budapeste, por exemplo. O principal e quase único monumento da cidade é a Catedral de Sava, a maior igreja cristã ortodoxa do mundo, em permanente construção por donativo desde a década de trinta. Até os postais da cidade são amadores, e isto não sou eu falando, porque o salta à vista na fraca qualidade das fotografias, da impressão e da apresentação do produto: é evidente que não se sabe como e que imagem da cidade e do país vender ao exterior, pois isso do turismo é ainda muito recente.
O que eu retive da cidade foi o ambiente de tensão e alguma euforia que se fazia sentir. É quase um milhão e meio de pessoas e enormes assimetrias. Em contraste com os transportes públicos velhos e degradados e os Yugo igualmente antigos e ruidosos, há carros recentes, pois claro, e topos-de-gama germânicos atravessando as avenidas principais a grande velocidade, de janela aberta e música alta, assim como motas de grande cilindrada que rasgam os semáforos sem capacete. No parque da cidade, o Kalemegdan, que é o que resta da antiga Belgrado amuralhada, junto ao cotovelo onde se encontram os rios e de onde se vê a última das quatro torres de marcação do império austro-húngaro, e local de intenso convívio aos domingos, os polícias advertem com tiques de autoritarismo quem pisa o relvado e desrespeita as placas — já na estação tinha visto um homem ser autuado por quatro agentes, que parecem soldados, não percebi porquê.
O nacionalismo sérvio sente-se nas bandeiras hasteadas em todos os edifícios do Estado, e nas pessoas. Coexiste com um desejo de ocidentalização, eventualmente de adesão àquela Europa da União, certamente pelo sérvio comum, embora o governo do país não se diga disposto a isso em troca de jogos diplomáticos e passe uma imagem de “orgulhosamente sós”. Um desejo de ocidentalização de liberdade individual, esquecendo o jugo do comunismo. E não pode deixar de causar estranheza que tudo isto exista a par da mais recente e sucessiva redução do território, com a independência do Montenegro há um ano — cuja capital se chamou no passado Titograd, algo revelador —, e agora com a questão do Kosovo, sendo que neste assunto governo e povo parecem estar alinhados: o Kosovo é território sérvio, mesmo com uma população maioritariamente albanesa, e um sérvio que abandone o Kosovo não é patriota, como perceberei na viagem para Praga. Mas, para além de tudo isto, caramba, o território vai diminuindo e os sérvios continuam chamando-lhe “a grande Sérvia”.
O regime de Milosevic, que isolou a Sérvia durante uma década, e cujas acções militares com vista à manutenção do Kosovo provocaram a intervenção da NATO em 1999, ainda vive na saudade de alguns e em tiques de propaganda, que lhe eram típicos, e que hoje fazem com que se vendam postais com imagens das noites de bombardeamentos. Qualquer vendedor de postais, mesmo num inglês rudimentar, explicará que a Sérvia foi “agredida pela NATO” — e foi, não se duvide.
A moeda, o dinar sérvio, vale tão pouco que mesmo num país vizinho como a Hungria as casas de câmbios não a negoceiam — e eu, que troquei dinheiro a mais à chegada, e porque a saída foi de noite, haverei de regressar a Lisboa com mais de dois mil e seiscentos dinares sérvios, cerca de trinta e cinco euros, não sem contudo tentar trocá-los em cada um dos balcões de câmbios com que me cruzarei, inclusivamente já em Portugal, mas sempre sem sucesso.
Por tudo isto, Belgrado pulsa imensa vida — e os bares junto ao rio prolongam-na até o sol nascer. Senti-me bem em Belgrado, viveria uma temporada ali. Por essas razões este relato até parece de alguém que viajou sozinho — a Joana esteve sempre comigo —, mas é incontornável que me marcou e que parti com um enorme desejo de voltar, para sentir mais, melhor e para perceber.
Noite dentro e um bocado à pressa, depois comprar comida e água para a longa jornada que nos levaria de Belgrado a Praga, por Budapeste, fomos ao hostel recolher as mochilas, receber a notícia de que o Pavel não poderia, afinal, acolher nenhum dos quatro em Praga dali a menos de vinte e quatro horas, e apanhar o finlandês solitário que viajava há semanas com uma mochila ridiculamente pequena, e que nos acompanharia até à Hungria.
O comboio pareceu-nos bem, embora o bulício denunciasse que ia cheio. A Joana e eu tínhamos comprado duas camas num compartimento que a mulher da bilheteira nos tinha dito de duas, mas que era de seis. Nas nossas camas, as de baixo, estava sentado um casal kosovar idoso, e haveria de chegar ainda uma rapariga sérvia dos seus vinte e poucos anos e com uma mala de viagem de cor-de-laranja gigante, de cabelo loiro, gira, e na opinião da Joana com uns pés bonitos. Demoraremos a explicar aos senhores quais as camas de cada um, até que eu oferecerei a minha à mulher, que lhe dava mais jeito. Demorará até que fechemos os olhos. Não demorará a que a polícia sérvia chegue para o controlo de passaportes e assedie e intimide o casal, exigindo ver o que traziam vestido, saber para onde iam e porque iam, assentando num pequeno bloco de folhas quadriculadas os nomes, números de passaporte, de compartimento e de cama de cada um deles, que por serem sérvios do Kosovo têm dois passaportes, um interno e o internacional, e que não são bem vistos por saírem do território. Demorará a que eles caiam no sono e parem de tossir. Não demorará a que a Joana se queixe do calor. Demorará a aceitar trocar de cama comigo, passando para a do meio, o que não melhorou nada. Demorará uma eternidade, para mim, que só caí no sono perto das seis da manhã e quando o pica nos veio acordar, batendo vigorosamente à porta, que estava trancada, dizendo que nós que sairíamos em Budapeste chegaríamos dali a vinte minutos. Já?
Para perceberem parte do meu fascínio por aquela zona da Europa, ouçam a reportagem de André Cunha para a TSF, “Kosovo, à procura do beijo impossível”. André Cunha é jornalista português, radicado em Belgrado.
Budapeste e Belgrado, dois para cada lado – dias 14 e 15
O ar da cidade junto à estação era quase irrespirável, por causa do calor húmido e da poluição. Ainda circulam muitos Yugo em Belgrado e boa parte dos táxi são estes pequenos automóveis com motores a dois tempos, pelo menos os mais antigos, como as motoretas Casal Boss, que fazem muito fumo com um cheiro característico, incómodo. Há uns autocarros a gasóleo e outros eléctricos, os troleicarro, e não fossem esses e os eléctricos sobre carris e eu não sei como seria o ar.
Ao subir uma das principais avenidas em frente à estação, a Nemanjina, com duas faixas para cada sentido, carris ao meio, passeios largos em cimento e edifícios altos, vimos os últimos vestígios dos bombardeamentos da NATO em 1999. De ambos os lados da avenida jazem os imponentes prédios da polícia federal e do exército jugoslavo, revestidos a tijoleira, esburacados pelos mísseis disparados nas noites de 29 e 30 de Abril, o ataque mais severo dos setenta e oito dias de ofensiva. Eu sorri e disse “foi por isto que vim cá”, a Joana foi apanhada de surpresa.
Depois de encontrar o hostel, de receber uns quinze minutos de sugestões de visita pela rapariga recepcionista, e de tomar um duche, saímos para comer qualquer coisa. Era sábado e andámos muito tempo perdidos à procura de uma casa de pizzas e sanduíches famosa em Belgrado, a Toma. Esfomeados demais, cedemos perante o MacDonalds — e a Toma ali a cinquenta metros, como descobriríamos depois — e foi aí que a Inga veio ao nosso encontro.A Inga era amiga da Joana desde que partilharam a mesma residência de estudantes em Praga, e trocaria Belgrado por Budapeste na segunda-feira seguinte, após um semestre trabalhando numa organização não-governamental. Norueguesa de cabelo preto curto e olhos claros, baixinha, muito faladora, para além de muito interessante e mais rápida a caminhar, em cinco horas a Inga mostrou-nos o centro da cidade, por onde se movem as pessoas, os principais eixos, as zonas de recreio e as residenciais. Foi essencial para perceber rapidamente por onde andar, o que observar e como olhar para a cidade no dia seguinte.
De volta ao hostel, depois de um jantar barato numa esplanada à luz de uma vela, em que falámos das razões para os atritos e maus-humores da viagem até então, já estava de serviço o patrão do albergue, o Chillton Hostel, que logo me ofereceu a welcome drink, um brandy de ameixa típico da Sérvia, o sljivovica, bebida tradicionalmente tomada pelas comunidades judias da Europa de Leste. Com a slivovits na mão — é como se pronuncia — fomos para a sala de convívio, onde estava mais gente e um gajo de camisola de manga-cava preta que falava inglês muito depressa e me perguntou se ia sair ou ter uma “quiet one”. Enquanto a Joana chegava e tomávamos lugar junto ao computador, expliquei-lhe que não dormia havia mais de quarenta e oito horas e que só pensava em estender-me ao comprido. Pouco tempo depois, e quando eu já tinha topado a coisa, ele fez a derradeira pergunta de despiste: “so, are you uni-buddies?” Sim, pá, eu e a Joana somos amigos. E então eu deixei de existir e o australiano achinesado, ou Kevin, tornou-se setas. A mini-saia da Joana ajudou e ele bem que a cortejou e insistiu para que ela fosse sair com o grupo: “I wanna talk to you more, I wanna talk to you more”, implorando e segurando-lhe as mãos. De rir, que foi o que ela fez e continuou fazendo, deitada, com o ego devidamente massajado.
O único problema do hostel era a dimensão dos quartos, diminuta, para a quantidade de camas, seis. Connosco estavam uma francesa que ressonava, uma australiana badalhoca a atirar para o gordo e que tinha espalhados pelo chão junto ao beliche sutiãs amarrotados e a escova e pasta de dentes, um personagem que não recordo e um rasta nauseabundo, cujo fedor atravessava a porta e chegava à recepção, em frente, onde estávamos depois de ele se despir para dormir a sesta. Só conseguimos dormir ali à noite porque havia ar-condicionado para aliviar o ar de seis pessoas respirando e porque o porco já lá não estava.
No dia seguinte pela manhã saímos cedo e depois de um pequeno-almoço enorme que meteu mostarda, ketchup e batatas assadas, iogurte natural espesso servido numa caneca de vidro meio porca que não devolvi porque o iogurte regressaria o mesmo, com a probabilidade acrescida de trazer brinde, e porque assumi que seria tradicional e que na Sérvia eu teria de ser sérvio; e de uma paragem de duas horas numa esplanada à sombra para fintar o calor insuportável e avançar na escrita, passeámos até à noite, noite dentro, porque o próximo comboio seria, outra vez, nocturno.
Belgrado tem poucos turistas, porque tem pouco que ver, turisticamente falando e em comparação com a vizinha Budapeste, por exemplo. O principal e quase único monumento da cidade é a Catedral de Sava, a maior igreja cristã ortodoxa do mundo, em permanente construção por donativo desde a década de trinta. Até os postais da cidade são amadores, e isto não sou eu falando, porque o salta à vista na fraca qualidade das fotografias, da impressão e da apresentação do produto: é evidente que não se sabe como e que imagem da cidade e do país vender ao exterior, pois isso do turismo é ainda muito recente.
O que eu retive da cidade foi o ambiente de tensão e alguma euforia que se fazia sentir. É quase um milhão e meio de pessoas e enormes assimetrias. Em contraste com os transportes públicos velhos e degradados e os Yugo igualmente antigos e ruidosos, há carros recentes, pois claro, e topos-de-gama germânicos atravessando as avenidas principais a grande velocidade, de janela aberta e música alta, assim como motas de grande cilindrada que rasgam os semáforos sem capacete. No parque da cidade, o Kalemegdan, que é o que resta da antiga Belgrado amuralhada, junto ao cotovelo onde se encontram os rios e de onde se vê a última das quatro torres de marcação do império austro-húngaro, e local de intenso convívio aos domingos, os polícias advertem com tiques de autoritarismo quem pisa o relvado e desrespeita as placas — já na estação tinha visto um homem ser autuado por quatro agentes, que parecem soldados, não percebi porquê.
O nacionalismo sérvio sente-se nas bandeiras hasteadas em todos os edifícios do Estado, e nas pessoas. Coexiste com um desejo de ocidentalização, eventualmente de adesão àquela Europa da União, certamente pelo sérvio comum, embora o governo do país não se diga disposto a isso em troca de jogos diplomáticos e passe uma imagem de “orgulhosamente sós”. Um desejo de ocidentalização de liberdade individual, esquecendo o jugo do comunismo. E não pode deixar de causar estranheza que tudo isto exista a par da mais recente e sucessiva redução do território, com a independência do Montenegro há um ano — cuja capital se chamou no passado Titograd, algo revelador —, e agora com a questão do Kosovo, sendo que neste assunto governo e povo parecem estar alinhados: o Kosovo é território sérvio, mesmo com uma população maioritariamente albanesa, e um sérvio que abandone o Kosovo não é patriota, como perceberei na viagem para Praga. Mas, para além de tudo isto, caramba, o território vai diminuindo e os sérvios continuam chamando-lhe “a grande Sérvia”.
O regime de Milosevic, que isolou a Sérvia durante uma década, e cujas acções militares com vista à manutenção do Kosovo provocaram a intervenção da NATO em 1999, ainda vive na saudade de alguns e em tiques de propaganda, que lhe eram típicos, e que hoje fazem com que se vendam postais com imagens das noites de bombardeamentos. Qualquer vendedor de postais, mesmo num inglês rudimentar, explicará que a Sérvia foi “agredida pela NATO” — e foi, não se duvide.
A moeda, o dinar sérvio, vale tão pouco que mesmo num país vizinho como a Hungria as casas de câmbios não a negoceiam — e eu, que troquei dinheiro a mais à chegada, e porque a saída foi de noite, haverei de regressar a Lisboa com mais de dois mil e seiscentos dinares sérvios, cerca de trinta e cinco euros, não sem contudo tentar trocá-los em cada um dos balcões de câmbios com que me cruzarei, inclusivamente já em Portugal, mas sempre sem sucesso.
Por tudo isto, Belgrado pulsa imensa vida — e os bares junto ao rio prolongam-na até o sol nascer. Senti-me bem em Belgrado, viveria uma temporada ali. Por essas razões este relato até parece de alguém que viajou sozinho — a Joana esteve sempre comigo —, mas é incontornável que me marcou e que parti com um enorme desejo de voltar, para sentir mais, melhor e para perceber.
Noite dentro e um bocado à pressa, depois comprar comida e água para a longa jornada que nos levaria de Belgrado a Praga, por Budapeste, fomos ao hostel recolher as mochilas, receber a notícia de que o Pavel não poderia, afinal, acolher nenhum dos quatro em Praga dali a menos de vinte e quatro horas, e apanhar o finlandês solitário que viajava há semanas com uma mochila ridiculamente pequena, e que nos acompanharia até à Hungria.
O comboio pareceu-nos bem, embora o bulício denunciasse que ia cheio. A Joana e eu tínhamos comprado duas camas num compartimento que a mulher da bilheteira nos tinha dito de duas, mas que era de seis. Nas nossas camas, as de baixo, estava sentado um casal kosovar idoso, e haveria de chegar ainda uma rapariga sérvia dos seus vinte e poucos anos e com uma mala de viagem de cor-de-laranja gigante, de cabelo loiro, gira, e na opinião da Joana com uns pés bonitos. Demoraremos a explicar aos senhores quais as camas de cada um, até que eu oferecerei a minha à mulher, que lhe dava mais jeito. Demorará até que fechemos os olhos. Não demorará a que a polícia sérvia chegue para o controlo de passaportes e assedie e intimide o casal, exigindo ver o que traziam vestido, saber para onde iam e porque iam, assentando num pequeno bloco de folhas quadriculadas os nomes, números de passaporte, de compartimento e de cama de cada um deles, que por serem sérvios do Kosovo têm dois passaportes, um interno e o internacional, e que não são bem vistos por saírem do território. Demorará a que eles caiam no sono e parem de tossir. Não demorará a que a Joana se queixe do calor. Demorará a aceitar trocar de cama comigo, passando para a do meio, o que não melhorou nada. Demorará uma eternidade, para mim, que só caí no sono perto das seis da manhã e quando o pica nos veio acordar, batendo vigorosamente à porta, que estava trancada, dizendo que nós que sairíamos em Budapeste chegaríamos dali a vinte minutos. Já?
Para perceberem parte do meu fascínio por aquela zona da Europa, ouçam a reportagem de André Cunha para a TSF, “Kosovo, à procura do beijo impossível”. André Cunha é jornalista português, radicado em Belgrado.
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