Budapeste e Belgrado, dois para cada lado – dias 14 e 15
Não seguir para Zagreb no comboio rápido das três e tal da tarde foi um golpe para todos, porque significava gastar desnecessariamente uma manhã inteira em viagem e percorrer o mesmo percurso de há quatro dias em nove horas, e não cinco. Para mais, naquela tarde em Split vivia-se uma bela “tosta, moço!... Tu és tolo?” Éramos todos, menos o Ricardo e o amigo cabo-verdiano que conhecemos enquanto aguardávamos pelo catamarã de regresso. Eles estavam em viagem há um mês e meio, tinham visitado Sarajevo — para meu desgosto —, possuíam um guia da Europa de Leste pela Lonely Planet, o mesmo que eu não quis comprar para não ser apelidado de “senhor organizado” pelos meus compinchas, mas que será a minha primeira leitura de cabeceira na casa nova de Lisboa, vinte e um dias mais tarde, e conseguiram ficar com os dois únicos lugares disponíveis no comboio. Nós gastámos umas horas a decidir a etapa seguinte e depois fomos mergulhar na praia mais suja em que alguma vez teríamos estado, a começar na areia acastanhada, que não agradou, e a acabar na água esverdeada com limos, preservativos e outras porcarias, mas onde se vivia um ambiente muito animado.
Naquela praia em Split tinha de andar-se muito até que a água chegasse à cintura, e também quase não havia ondulação. O pessoal jogava um jogo engraçado, que consistia em bater com as mãos uma pequena bola, passando-a entre eles, como se fossem raquetes mas sem raquetes e com mais do que dois jogadores, em ordem aleatória para apanhar os distraídos, sendo que a parte principal do jogo eram os mergulhos de chapão que alguns tinham que dar para conseguir bater aquelas bolas mais difíceis. O objectivo parecia, aliás, ser mesmo esse, de proporcionar ao parceiro um belo mergulho. Era muito giro, principalmente porque quem mais jogava eram os seniores de cabelo grisalho. O que nós nos divertimos a observar e a tentar fotografar vários momentos de voo, com a máquina do Rui, que não terá ainda partilhado as imagens com os restantes, volvido quase um mês sobre o regresso.
Finalmente a caminho de Zagreb, connosco no compartimento do comboio viajava uma freira. A surpresa foi grande e acho que bem visível nas nossas caras quando confirmámos duas vezes o número do compartimento e da reserva. Na tentativa de agir com naturalidade, jogámos umas “suecadas” com o nosso baralho amarelo do atum Bom Petisco, mas não tardou até que ela tentasse comunicar connosco, em croata. Primeiro, sobre o tempo e o calor que se fazia sentir no comboio, novamente com ar-condicionado avariado, comparando o seu hábito cinzento e comprido aos calções verdes curtos da Joana, como quem diz “se achas que tu tens calor”... Depois, entre mais gestos, Fátima Fátima, Portugal Portugal, muitos equívocos, e mais um daqueles silêncios constrangedores de vinte segundos em que todos contávamos quantos lanços de carris o comboio pisava, a irmã quis ver que tipo de fio a Joana trazia ao pescoço. Espantada com a joaninha vermelha e preta de metal, e apesar da explicação da relação entre o nome do bicho e o da miúda, a irmã não perdoou e enquanto brandia o seu crucifixo atirou umas “croatadas”, que o Rui imediatamente traduziu para “eu acho que ela está a dizer que tu não és cristã porque não trazes Cristo ao pescoço”. Para prová-la errada, a Joana puxou da carteira uma imagem de Jesus que a acompanha, mas a irmã acenou que não, não era suficiente. E ficaram por ali.Foi nessa altura que fui ver como eram as outras carruagens e procurar um bar ou coisa que o substituísse. A caminho da frente da composição arrependi-me de o ter feito logo que passei a primeira porta, tal era o cheiro repugnante a mijo, que quase me fez estacar. Engoli em seco e passei rapidamente pela casa de banho, na esperança de que melhorasse, mas não. Chegado ao corredor estreito, uns dez pares de olhos viraram-se repentinamente para mim, que fui pedindo passagem entre os que estavam sentados em cima das malas e aqueles que fumavam meio debruçados nas janelas abertas. Havia no ar uma mistura densa de cigarros, chão das casas de banho e fumo de gasóleo queimado, da locomotiva, que entrava em lufadas a cada curva para a direita. Por causa do barulho crescente da máquina, falava-se muito alto, tossia-se muito alto e bebia-se vinho directamente de garrafas verdes, sobretudo alguns dos velhos. Foi assim na primeira e nas seguintes, salvo naquela em que seguia o pica, que tinha muitos compartimentos fechados e os cortinados verdes empoeirados corridos. Mas o cheiro, caramba, era uma constante em todas as cinco carruagens — depois de repetir a viagem cheguei à conclusão de que nós tínhamos sido bafejados pela sorte: a nossa era um pequeno oásis de boa vizinhança e asseio, mesmo apesar de sistematicamente as luzes se apagarem e o chefe de composição vir, impotente, religar o disjuntor, por mais quinze minutos. Com tudo isso eles haverão de se arrumar nas cadeiras e dormir, e eu de viajar toda a noite em pé e à janela, já que não dormia, a ver as tábuas dos carris passar devagar, as estrelas ponteando o céu, os montes e o cheiro a campo — desde que o comboio curvasse para a esquerda — e apanhar com vento fresco na cara. O comboio seguia muito lento, numa linha única com muitas curvas e em subida, puxando em esforço mais de dezena e meia de carruagens, de passageiros e carga, mas tão lento que eu aposto que, a pé, conseguia correr ao lado dele.
Mas, regressado, deparo-me com a irmã a sugerir em gestos que a Joana a acompanhasse até ao compartimento do lado, onde viajava uma rapariga sozinha, para assim dormirem as três e os rapazes ficarem igualmente sozinhos e com mais espaço para esticar as pernas. Lá lhe explicámos que não iríamos dormir já, que ainda era cedo e tínhamos mais umas “suecadas” para a desforra, quando na verdade receávamos que a irmã quisesse exorcizar a Joana, e uns dez minutos depois ela abandonou-nos, não sem deixar instalada a dúvida sobre se teríamos sido bem interpretados ou a teríamos expulsado. Viveu-se um misto de vergonha e incredulidade até a irmã regressar, não sei bem quanto tempo depois, trazendo nas mãos um tupperware com uvas pretas. Inicialmente julgámos que vinha pedir água da garrafa de litro e meio que estava na mesinha junto à janela, para as lavar. Depois a Joana achou que ela nos estava oferecendo uvas e então tirou uma, provou, sorriu e agradeceu em inglês, e o Rui imitou-a. Aí a irmã deu-nos a caixa e então não soubemos se, desde início, nos estava oferecendo as uvas, ou se agora que as tínhamos comido ela já não as queria. Que confusão! Mas eram doces. A caixa é que haveria de ficar esquecida no compartimento e nós haveríamos de sair à pressa em Zagreb sem ver a irmã, que sempre tinha ficado a descansar no compartimento ao lado, ou sequer agradecer, porque o comboio estava chegando com quarenta minutos de atraso e eu e a Joana haveríamos de correr para apanhar a ligação para Belgrado, para nossa sorte também atrasada um quarto de hora à partida. Foi por pouco e ao Rui e ao Pedro foi mesmo “tchau aí, vemo-nos em Praga”. O Rui e o Pedro seguiriam para Budapeste, pelo que dessa cidade não reza esta história, porque lá não estive a não ser durante cinco horas, na estação e no MacDonalds em frente, às oito da manhã, quando rumar a Praga, dois dias mais tarde.
A caminho da Sérvia com o sol a levantar-se, eu estava exausto e a Joana parecida. Acho que dormimos e por isso nos recordamos de pouco da viagem. Mas, sem dúvida, lembramos a visão impressionante que tivemos ao atravessar Nova Belgrado, na margem Sul do Danúbio e Este do Sava, uma planície imensa de prédios altos quase padronizados, num horizonte plano de que se destacavam torres ainda mais altas, quarteirões em quadrícula, um dormitório autêntico e gigante, e os letreiros coloridos das fábricas e escritórios da nova indústria ocidental. Em Belgrado encontram-se dois rios, o Danúbio e o Sava, e é nas margens deste, quando se passa a velha ponte ferroviária de aço esverdeado e ferrugento, a dez ou vinte quilómetros por hora, que nos apercebemos dos acampamentos ciganos romenos que ali vivem, e que àquela hora, quase duas da tarde, com cerca de trinta e oito graus à sombra, os miúdos tomavam banho na água suja. O resto do percurso até à estação foi também muito lento e os estaleiros devolutos, as carruagens ferrugentas abandonadas e as barracas ao longo da linha fizeram-nos despertar definitivamente, apreensivos. Não sei o que sentia a Joana, mas eu estava tenso e ao mesmo tempo satisfeito por estar a ver o que via, porque desde o dia em que tinha ponderado juntar-me aos três que eu planeava chegar ao leste da Europa, mesmo aos Balcãs, e respirar um pouco do berço do Velho Continente, da última guerra na Europa, tão recente, embora sabendo naquela manhã que Sarajevo, Mostar e Pristina não poderiam ser, então, incluídas nos planos. Porque a montante decidimos ficar mais tempo em Ljubljana e Hvar, e já tínhamos comprado o voo de regresso para Lisboa a partir de Basileia, pelo que a última semana de viagem estaria programada com datas para cumprir.
Na estação o primeiro impacto foi com o alfabeto cirílico, que tornava a sinalização imperceptível aos nossos olhos. Cirílico é isto: АБВГ¢ДЂ ЃЕЁЄ Ж ЅЗИ І Ї Й Ј К Л Љ М Н Њ О П РСТ Ћ Ќ У Ў Ф Х Ц Ч Џ Ш Щ Ъ Ы Ь Э Ю Я. Portanto, imaginem porque demorou cinco minutos até encontrar a bilheteira ou a saída. Ou horas a orientar-nos nas ruas de Belgrado, quando, apesar de o alfabeto latino ser usado em simultâneo em várias ocasiões — embora “à checa”, com aqueles acentos nas consoantes —, as poucas placas de toponímia estavam em cirílico e o nosso mapa em inglês.













