domingo, 9 de setembro de 2007

Leiria em Ljubljana – dia 7 e mais alguns
Mais uma vez não conseguimos evitar chegar ao destino no final do dia e enquanto o sol se punha pedimos duas vezes a um casal italiano que saiu do comboio com um desamparo parecido ao nosso, porque ali fomos confrontados pela primeira vez com uma escrita diferente, que partilhasse o mapa que tinha, a ver se encontrávamos a Pousada de Juventude, que o Martin havia reservado. Não fosse ele e provavelmente não teríamos visto o que a Eslovénia tem de mais bonito: os lagos no sopé dos Alpes.

Ljubljana, onde vestimos calças pela primeira vez, porque chegou a chover...

O Martin viveu em Lisboa durante um ano, em casa do Rui, saindo de lá a falar um português correcto que ainda hoje mantém, um ano depois, e com saudades de Super Bock. Já em Lisboa, no almoço de boas vindas que nos ofereceremos no Chimarrão, eu proporei aos rapazes enviar-lhe uma caixa de loirinhas, como agradecimento. Finalista de Economia, mede perto de um metro e noventa e trabalha como recepcionista nocturno num hostel próximo da pousada.

Acho que foi logo enquanto fazíamos o check-in na pousada que nos apercebemos de outros portugueses de Lisboa e da nossa universidade. O mundo é pequeno e Ljubljana parece estar nos planos de todos os que viajam pela Europa no Verão. Não recordamos o nome de nenhum deles ou sequer se chegámos a nos apresentar, mas o miúdo brasileiro parecia ter engolido uma pilha Duracell e não parava nem se calava com “ispêtacúlarrr”, “do bagulho”, “pôrra” e outras expressões de contentamento, enquanto partilhava a “mácárrônada” do seu jantar com dois ingleses, cuja história é interessante e se segue.

Aqueles dois viajaram para Ljubljana na mesma carruagem que nós, no melhor e mais luxuoso comboio de toda a viagem, e a Joana achou piada a um deles, o de cabelo castanho assim meio encaracolado e maior, de camisola às riscas horizontais e ténis de lona “da cena” todos rotos e sujos. Era o seu “setas”. O termo “setas” é da autoria do Pedro, que o inventou em Florença quando, gozando com a Joana, lhe perguntou se o jeitoso que metera conversa com ela lá no hostel imundo a tinha “convidado para jogar às setas”, assim nascendo a frase “Joaninha, nós só queremos que tu encontres o teu setas”; e serve para designar “um gajo que a Joana ache engraçado e pelo qual possa interessar-se”, algo que se repetirá sete dias mais tarde, em Belgrado, com um australiano achinesado, embora ela o negue.

Então, o setas e o amigo eram presença regular lá na pousada e no bar do hostel onde trabalha o Martin, que era onde o pessoal costumava começar a noite bebendo uma cerveja e conversando um bocado, porque era perto. Eles viajavam juntos havia já cinco semanas, o que não é fácil, e numa das noites tiveram uma discussão estranhíssima a que eu e a Joana assistimos na primeira fila, de costas. Afirmou o setas, sincero: “I had the feeling you would enter that boat without me”. Disse o amigo do setas, que era branquinho como se exige num inglês, tinha cabelo meio ruivo e aloirado, usava uns óculos pequenos de armação oval e um aparelho auditivo, quando lhe estalou o verniz e a coisa subiu de tom: “You don’t trust me. You’re saying that I would enter that boat without you! You don’t trust me and that is disgusting!” Eu e a Joana, ao computador, olhámo-nos de esguelha e pensámos “isto vai dar estrilho”... Respondeu o setas: “I’m going to get a drink”, levantando-se de rompante. Dez segundos depois voltou e o surdo disparou: “Where’s that drink?!” E saíram um atrás do outro, perturbados.

A Joana acha que foi usada pelo setas e pelo amigo. Ambos foram muito simpáticos para ela lá na pousada, deram o número do quarto para ela lá passar, que eles ajudavam a orientar a nossa etapa na Croácia, de onde tinham vindo, e ela conclui que aquilo foi mas é para fazer ciúmes um ao outro. Porque aquela discussão foi nitidamente uma guerra de casal. E porque de manhã faltaram ao pequeno-almoço mas estavam bastante alegres. Enfim.

Dois dias antes de nós chegarmos o Martin comprara um Renault Clio de três portas azul, porque não quisera esperar por um de cinco e pensou: “Quantas vezes é que vou andar com o carro cheio? Poucas.” Mas a malta aqui é muito oportuna e a estreia foi logo connosco, para testar o bólide. Na Eslovénia, como na Checa, é obrigatório circular com os faróis acesos todo o ano, um acto de segurança rodoviária que aprecio e não evito destacar — daí esta frase —, vivendo num país europeu possuidor de elevadíssima taxa de sinistralidade e morte nas estradas, Portugal.

Mas o que interessa é que fomos os cinco ao lago Bled, a norte de Ljubljana, um sítio lindíssimo. O lago é enorme e no Inverno chega a gelar completamente e pode-se atravessá-lo a pé. Ali tinha água morna e um dia na praia custava quatro euros. Cenário idílico, nele havia patinhos, casalinhos, um cão poeta, geladinhos — comemos todos — e bolinhos, umas especialidades eslovenas que o Martin nos levou a provar e que eram di-vi-nais.

O lago Bled

Quando já tinhamos decidido onde jantar, daí a pressa de uns e o contentamento de outros

No outro dia fomos visitar Zagreb, a apenas duas horas de distância, e o pica achou que lá por termos o bilhete de inter-rail, que me tirou das mãos com violência e com ele as reservas usadas de outros comboios, tínhamos de lhe pagar qualquer coisa, porque: “Italy reservation, Ljubljana reservation, Zagreb no reservation?”, enquanto remexia nos papéis que eu guardava com o meu bilhete, e então chegou ali a um arranjinho que lhe pareceu bem e algures entre o que tínhamos pago dos bilhetes que ele viu e passa para cá “Eight euro!”, que iam nitidamente para o bolso dele. Depois da tensão, porque ele agia como se o estivéssemos roubando, lá me chateei e até acedi a pagar, porque não conseguia comunicar com ele de forma nenhuma, mas ele amarrou o burrinho e foi-se embora.

Não bastasse isso para me irritar e o Rui também amarrou o dele, mas com nós de marinheiro, enquanto julgou ter perdido a chave do quarto, na única vez que tal monumental tarefa ficou a seu cargo. Afinal tinha-la deixado na recepção, à saída, mas isso não evitou que logo à porta da estação em Zagreb se atirasse para a frente dos carros que atravessavam a passadeira por ordem do polícia sinaleiro, que ainda lhe atirou uma apitadela, mas ele estava demasiado compenetrado naquele amuo infantil e vitimizante de “sou um gnu e perco tudo”, que nem foi atropelado. E Zagreb foi curto demais.

Zagreb, rápido demais

Antes, porém, quando nos preparávamos para sair da pousada cruzaram-se connosco três raparigas giras, que eu sorrateiramente segui pelas escadas acima até confirmar ouvir falar português, que foi quando irrompi com qualquer coisa como “é no andar seguinte”. A portuense, que o Rui assaltou de imediato, recolheu os votos favoráveis da Joana e do Pedro. Mas uma das leirienses, a que tinha feito Erasmus em Florença — as coisas que eu saco em dois minutos de conversa no corredor duma pousada, hein? —, assim morena mesmo natural e achocolatada, com calção pelo joelho, t-shirt vermelha, cabelo preto comprido ondulado com a franja apanhada entre ganchinhos, olhos castanhos bem escuros e um sorriso rasgado, essa sim. Estavam no quarto 53, um daqueles com muitas camas. Combinámos na recepção às dez da noite para ir beber um copo, que era quando esperávamos já ter regressado de Zagreb, mas só chegámos depois da uma da manhã e eu já não dormi. Porque o comboio para Split, onde seguiríamos de barco até à ilha Hvar para quatro dias de praia, comida caseira e descanso, partia às seis e porque a miúda do quarto 53 não me saía da cabeça. O poema que eu e o Rui lhes escrevemos metia rimas parvas e piadas com o Douro e o Lis. Que desespero... Piorará em Hvar, com muita epiderme a descoberto, temperaturas altas e demasiada humidade na atmosfera, ao que o Rui dirá a cada cinco minutos passados fora de casa: “Que tosta, moço!... Tu és tolo?”

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

A caminho de Florença, a terra dos gelados – dias 4 e 5
As duas horas que passámos na estação de Nice ficaram marcadas pela lata de polvo em vinha de alhos que a Joana teve de partilhar com o Rui, para não deitar fora. Ele diz que era bom.

A estação era muito mal frequentada e as ruas ali ao lado estavam sujas e malcheirosas, cheias de peep-show’s e chungas seguindo os movimentos dos viajantes, para além de mais confusão criada pelas obras nas calçadas. Ficámos com má impressão, mas dez dias depois, em Belgrado e Budapeste, aprenderemos que não se julga uma cidade pelo local onde se desembarca de um comboio ou autocarro. Portanto, Nice será bem bonita, como diz a Joana com a sua memória gigante e certeza de quem já viajou pela Europa toda, mesmo que em miúda, algo com que não foi fácil conviver nalguns momentos, para quem não conhece, e como contou a senhora italiana que partilhou o compartimento connosco até Florença.

Se ficámos assustados com a estação, ficámos aterrados com a composição da Trenitália onde iríamos passar as próximas nove horas — chegaríamos a Florença às seis da manhã. Nas palavras do Rui, o primeiro comboio nocturno da viagem era “um cangalho”. O chão e os bancos estavam sujos — e “sujos” é eufemismo —, as casas de banho não tinham água, o ar-condicionado desligou-se pouco depois do início da viagem, havia gente muito estranha a bordo e alguns fulanos que viajavam em pé e sem bagagem estavam nitidamente a trabalhar as carteiras alheias. Para melhorar tudo estava connosco uma família italiana, avô, avó e neto, ou seja, como dormiríamos todos ali?

Demorou até arrumarmos tudo no compartimento, mas quando voltámos do jantar volante sentados no corredor, a Joana, que obrigámos a ficar de guarda às nossas coisas, já tinha quebrado o gelo com a senhora e o miúdo italianos, que iam para Roma. O puto dominava várias ligas de futebol e sabia demasiado acerca clubes e jogadores portugueses do que seria de esperar dos seus onze ou doze anos de idade. Cristiano Ronaldo era o ídolo e a avó dizia-lhe que devia era estudar. Não lhe perguntámos o nome, que seria útil para esta história, um erro que cometeremos de novo com o pai de família australiano em viagem há nove meses com a mulher e os dois filhos pequenos, e as três portuguesas, que conheceremos em Ljubljana, entre outros, mas especialmente com estas raparigas, uma das quais me tirou o sono por uma noite. De tal forma que eu e o Rui — mais o Rui que eu — escrevemos um poema que deixámos no quarto delas, com os nossos e-mails, antes de sairmos de madrugada para a Croácia. Até hoje, zero respostas. Falámos de futebol com o miúdo até cansar e a senhora não deixou de notar quão estranho era ver uma rapariga viajar com três rapazes, porque as italianas não vão nisso e querem é ser cortejadas. E realmente eles dizem-lhes na rua a alto e bom som “piu bella!” e elas riem.

Não bastava o comboio ser velho, a noite abafada, a sauna dentro da carruagem e muita gente dormindo pelos corredores, como aquele cangalho ainda parou em quase todas as capelinhas e duas horas só em Génova, para mudar de maquinista ou apenas para o gajo fumar mais um cigarro à conversa com o pica, já suponho tudo, e uma paragem surreal no meio de um canavial, só porque sim. Isto já depois da polícia italiana ter levado uma mulher russa que estava no compartimento ao lado, de o pica ter apanhado e multado um pendura com mau aspecto que tinha demasiado dinheiro no bolso para quem viajava sem bilhete, e de o casal holandês de pé descalço que estava espojado à nossa porta ter acordado em Pisa, por acaso, me ter perguntado onde estavam e depois de um cool terem simplesmente saído, ele com a mão no rabo dela por dentro das calcinhas cor-de-rosa sujas que ela vestia.

Eu não dormi a noite inteira — excepto dois minutos e em pé, segundo o Rui —, o que se repetirá nos próximos comboios nocturnos de Split para Zagreb e de Belgrado para Budapeste. O Rui ainda partilhou parte da sentinela comigo, a Joana encostou-se uns pedaços e o Pedro dormiu umas sete horas seguidas, quase como a avó e o neto, que se arrumaram e só acordaram para nos dizer adeus já em Florença, com o sol a nascer — o avô não estava, afinal, no nosso compartimento.

Ver a Santa Maria del Fiore, ou il Duomo, praticamente sozinhos na rua e com aquela luz quente do sol que começou a subir, bem como a Ponte Vecchio e outros sítios por que fomos passear, foi fantástico. Três horas depois já era o caos de norte-americanos e japoneses. E Florença foi mais ou menos assim, passeando, e a Joana a comer três gelados por dia e a parar em todas as barraquinhas para estudar preços e sabores. “Opá, Itália é a terra dos gelados!”, dizia.

Almoçámos pizza a preços portugueses na Piazza della Signoria e depois de caminhar um bocado fomos dormir a sesta no nosso hostel, um dos piores da viagem, mesmo ali ao lado, tão central quanto possível. Mas era muito estranho. Um apartamento em que a suposta estalajadeira vivia ali mas não era a dona do estaminé; as piores camas de sempre com colchões de molas já sem força e onde era impossível dormir direito; zero toalhas e apenas um lençol; e na porta um aviso explicando que, porque alguns hóspedes trazem bed bugs, os colchões estavam envoltos numa ruidosa capa plástica, desculpem lá o barulhinho incómodo, mas que afinal só uma cama tinha e então eu preferi dormir em cima da esteira, por cima do colchão. Pelo meio a tipa nem teve vergonha de nos pedir para trazer a quarta cama do quarto ao lado, e no dia seguinte, quando me vestir, terei a surpresa de encontrar um percevejo na roupa que terei deixado na cadeira. Se puderem, não fiquem no Aily Home pelos vinte e três euros pedidos, mesmo apesar da ultra-centralidade do albergue. É que não vale o dinheiro.

Depois de um jantar volante voltámos à praça para jogar à sueca e beber uma cerveja, entre turistas e fotógrafos nocturnos, nativos veraneantes, réplicas do David e do Rapto de las Sabinas, e o empregado de mesa que nos atendera ao almoço, agora a fumar uma com os amigos de feições magrebinas, que foi mais ou menos quando fiz todos rir à gargalhada após ganhar uma mão de jogo, quando disse “até parece que estamos em Itália”.

Na noite em Florença subimos ao quarto pela uma da manhã e sem muito sono eu e o Rui quisemos ler. Durou pouco. Ele desistiu do “The Innocent Man”, de John Grisham, um CSI de bolso que comprou em França para substituir o Garcia Marquez; e eu deixei-me vencer pela escrita adjectivada das “bolhas saponáceas” da “Espuma dos Dias”, de Boris Vian, que recebi de surpresa em casa por correio na véspera da viagem e a propósito para ela, da Filipa, num gesto tão bonito, mas não consegui mesmo continuar.

Com a mesma inevitabilidade fomos assaltados ao pequeno-almoço antes de deixar Florença. Os dois euros e meio pedidos por um croissant foram aceites por todos sem grande espanto, o que é por si espantoso, vindo a derradeira pancada no preço do café e na taxa de serviço. Ao todo foram sete euros. Sem palavras. Pagámos e sorrimos, e eu agradeci aos senhores do café por me terem dado mais uma lição sobre as diferenças culturais existentes entre os nossos povos, respondendo aos vários “thank you” de sotaque italiano com insistentes “no, I thank you!”, situação que valeu à Joana umas valentes risadas — ao menos isso.

Rumo à vila de Monselice, a trinta quilómetros de Padova, apenas para jantar e dormir, pois de manhã lá seguiremos caminho, não sem antes passear pela cidade durante cinco horas e de ver a Joana ser barrada à porta de uma igreja por estar vestida com uns calções curtos e um top largo, o que dará discussão demorada entre ela e os dois rapazes sobre a Igreja e mais coisas, no MacDonalds non-stop de Praga onde passaremos tempo até ao comboio das quatro da madrugada para Dresden, o início do regresso a casa.

Dali fomos para Veneza, onde encontrámos a pior estação de comboios, repleta de bandidos e indigentes, para apanharmos a ligação para a Eslovénia, naquilo que foi um dia perdido graças ao pobre sistema ferroviário italiano, que só na página de internet é que garante o trajecto nalgumas horas seguidas, e não num dia inteiro. De bom, apenas o melhor sítio onde dormimos nos vinte e dois dias de viagem, e o fim da odisseia do siso da Joana — de vez.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Uma paixão em Montpellier – dia 2
Montpellier não estava nos planos de ninguém, mas só chegaríamos a Nice muito tarde pela noite e ficámos por ali. Sem conseguir encontrar o hostel que o gabinete de turismo da estação nos tinha marcado no mapa e quando as mochilas já pesavam, a Joana perguntou à Charléne onde podíamos dormir e fomos atrás dela e da amiga até à Pousada de Juventude. Afinal era fácil.

Para aumentar um pouco a tensão de não termos ainda dormido desde que entrámos no primeiro comboio, e de na estação o fulano não nos ter marcado a viagem até Florença, a etapa seguinte, porque “não tinha sistema”, coisa bem portuguesa, na pousada a recepcionista também não tinha cama para todos, só para a Joana. Olhámo-nos, cansados, tentando não desesperar, o que nem foi preciso porque meia-hora depois estávamos hospedados, nós com três austríacos e a Joana com três alemãs badalhocas, uma freak de cabelo verde, uma brasileira e mais três.

Doridos e maçados, jantámos pasta numa esplanada ali perto, como a noite abafada exigia. A baixa de Montpellier é acolhedora, com as suas ruas estreitas cheias de pequenas lojas e restaurantes, praças escondidas com bancos de jardim, e muita gente a circular. Deitámo-nos relativamente cedo com os planos para a manhã seguinte escritos na toalha de papel do restaurante.

A esplana onde jantámos. Tirar fotos é um trabalho chato, mas alguém tem de o fazer...

Então, na terça-feira eu e o Rui descobrimos a Charléne na bilheteira da estação de comboios para onde fomos encaminhados porque só ela falava inglês e eu não confiei no meu francês para me explicar. Era ela quem nos tinha levado à pousada na noite anterior, aqueles olhos azul-claro não nos enganaram e ela reconheceu-nos assim que perguntámos para confirmar. Devíamos ter voltado à uma e meia e tê-la convidado para almoçar, mas com a reserva para Florença finalmente nas mãos quisemos voltar para dar a notícia ao grupo. O Rui ficou triste.

Foi durante a manhã e parte da tarde que gastámos a passear pela cidade que começou a exasperante — pelo menos para a Joana — vaga de “gabanço” às mulheres francesas. Parecíamos miúdos pequenos que vêem maminhas pela primeira vez, mas as mulheres bonitas e com pouca roupa faziam questão de se cruzar connosco a espaços de cinco minutos, o que só aumentará de intensidade para níveis nunca antes imaginados oito dias mais tarde, na Croácia, onde a Joana já estará também familiarizada com o termo “setas”.

A praia a trinta minutos de Montpellier, onde nos fomos refrescar ao final do dia, não era paradisíaca como nos postais da Côte d’Azur, mas tinha água morna e o espaço entre toalhas estava ao nível da Caparica, talvez para nos fazer sentir em casa. Mesmo assim, soube muito bem e foi ali que o Rui me explicou como é que o pessoal da Praia da Rocha tonifica os braços e os peitorais na praia e sem pagar ginásio, e que soube que o Pedro depila o peito. O Pedro é de Vila Viçosa e vai a Espanha abastecer-se de tabaco, porque fuma muito e lá é mais barato. Para a viagem trouxe o seu volume de dez maços, obviamente. E anotem isto: daqui a uns tempos será jornalista para a televisão. Depois rimo-nos dos meus sete solitários pêlos e rumámos ao autocarro, onde o fã número um do Colin McRae esperava para nos dar uma lição de rali urbano em veículo pesado de passageiros, cheio. A viagem de meia-hora ficou-se pela metade do tempo e ainda hoje o Pedro e o Rui devem acreditar que eu tenho carta de condução de pesados e que um dia fui fazer testes à Carris. Desculpem rapazes, mas soube-me tão bem pregar-vos esta peta; é, contudo, verdade tudo o resto, só não tenho mesmo a carta; e foi muito engraçado ver a forma respeitosa como desde então me trataram e consideraram as minhas opiniões sobre sistemas integrados de transportes públicos.

Regressados e devidamente banhados, saímos para jantar e para espanto meu e da Joana descobrimos o deslumbramento do Rui e do Pedro pelo MacDonalds, onde praticamente exigiram jantar, algo que se repetirá em Ljubljana, onde os acompanharei e bombardearei com perguntas na tentativa de compreender aquele quase-vício.

Na pousada reencontrámos o Julian e o outro, alemães que conhecêramos na noite anterior e que, eles sim, não arranjaram alojamento e foram dormir ao jardim da cidade com os sem-abrigo. De manhã acordaram com o sistema de rega e agora, à noite, convidaram-nos para um copo. O Julian estuda Direito e ficou contente por saber que eu partilho com ele a ideia de que é o Direito que melhor prepara um jornalista, profissão que ambos desejamos seguir. Mas mesmo com tema de conversa garantido não fui com eles bebê-las e assistir a uma prostituta levar uma tareia de um barman, não se sabe porquê. Como também não se sabe muito bem quem era o búlgaro que vivia lá na pousada e que os acompanhou, e que — palavras dele, que mal falava inglês — era procurado pela polícia na Bulgária.

Fiquei, então, na rua a ouvir a Joana conversar com a sua nova amiga holandesa de que ainda hoje não recorda o nome, e timidamente a entrar na conversa, algo que não era fácil porque elas estavam eléctricas e eu deslumbrado. Rendido. Apaixonado. E nunca tinha estado na Holanda.

Ela era de Haia, tinha feito Erasmus em Sevilha, e estava a fazer praia no sul de França. Por isso tinha a pele morena, uma combinação explosiva com o cabelo loiro pelos ombros e os olhos azuis. Era muito divertida e engraçada na forma como falava de tudo com uma voz semi-rouca e quente, e tinha um detalhe que me deitou por terra, qual estocada final, e que desde já alerto para a impossibilidade de descrever convenientemente. Quando falava formava-se-lhe na boca uma espuminha — eu avisei... — extremamente sensual, e que para os que sabem do que falo é muito parecido ao que acontece a uma outra mulher muito bonita que conheço. O vestidinho azul pelo joelho, as sabrinas brancas e as pernas apetitosamente bem desenhadas são a última coisa que recordo, em suspiro.

Doze horas depois partiríamos para Florença, mas não sem antes tomar um croissant e um café por um euro e meio, para alegria geral dados os preços franceses, e de o Rui ter finalmente comprado fiambre às fatias no mercado da cidade. Da mesma forma que a Joana não come carne e que o Pedro fuma cigarros, o Rui só come pão se tiver fiambre.

Antes de entrar no comboio para Nice, que nos deixará num outro para Florença, durante toda a noite, e de almoçar conservas ou sanduíches sentados no chão da estação, a Joana sobressaltou-nos com uma má notícia: o siso rebelde continuava a dar luta e a massa que o dentista tinha colocado para remendar a incompetência e um pedaço partido, caíra e fora pelo lavatório abaixo, deixando-a com dores insuportáveis.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

O início – dia zero
“O coronel Aureliano Buendia promoveu trinta e dois levantamentos armados e perdeu-os todos. Teve dezassete filhos varões de dezassete mulheres diferentes, que foram exterminados, um após outro, numa única noite, antes de o mais velho fazer trinta e cinco anos”, que foi quando o Rui perdeu o livro, entre Madrid e Barcelona. Dias mais tarde comprará, por dez euros, um pedaço de lixo literário inglês que desejará, esse sim, ter perdido algures. O Rui, de Portimão, um metro e oitenta e três de altura, é um cabeça de vento e perdeu nesta viagem quase tudo o que havia para perder, como se verá.

Dias antes de partir o João disse-me: “Lembra-te que tudo o que estás a planear pode correr mal”, que é o que dá piada à coisa, e efectivamente chegámos a Madrid e para Barcelona já só havia plazas no comboio das seis e vinte e cinco da manhã seguinte. Merda, pensámos em conjunto. Começava bem a viagem, a 12 de Agosto de 2007.

Sem sítio onde dormir e porque a estação de Atocha fecha entre a uma e as cinco da madrugada, ainda ponderámos ficar na entrada do prédio de um hostel onde fomos insultados com os preços pedidos, ou com o sem abrigo com quem eu e o Pedro confirmámos o fecho da estação e que nos ofereceu cartões, mas o Rui e a Joana precisaram ir à casa de banho de um café ali ao lado e assim descobrimos o El Pando, um pequeno tasco que nunca fecha.

No meio de prostitutas velhas e feias, novas e bonitas, proxenetas e clientes, encontrámos o senhor Daniel e os seus dentes castanhos, que emigraram de Bragança para Madrid há 35 anos, e que logo nos deixou à vontade: “Quando fecha? Não vos preocupais, podeis ficar até querer.” O sítio era pequeno, tinha meia dúzia de mesas e ao balcão concentrava-se a maior parte da clientela, que vai ali para aconchegar o estômago pela noite dentro enquanto gasta umas moedas na máquina de flippers. Apesar da chungaria dentro de portas e nas imediações, o El Pando era àquela hora o sítio mais seguro da cidade, ou não estivesse uma vintena de polícias a cear à porta.

Entre hamburguesas gordurentas pedidas à vez para esticar o tempo e conservar a mesa, canecas de cerveja, pratinhos de azeitonas e amendoins que o senhor Daniel nos oferecia, e perguntas parvas acerca de como se diz em castelhano fiambre e presunto, ficámos até às cinco e meia, que acho que foi quando a Joana engoliu mais um de muitos analgésicos potentíssimos para suportar as dores e a infecção de uma tentativa falhada de extracção de um siso, quatro dias antes, por um dentista jovem e inexperiente. E partimos.

Até Barcelona o comboio foi um luxo e eu até dormi, a Joana dormiu, o Pedro dormiu e o Rui, depois de dormir também, foi o resto da viagem a dar charme a uma catalã loira e bem gira que estava ao lado dele. Repetirá a proeza na última jornada, a caminho da República Checa, com uma viajante irlandesa solitária. O Rui é um galã.

Na estação de Saints, de manhã, comemos sentados no chão, o Rui deu pela falta do livro e ficou de trombas o resto do dia, o Pedro fumou dois ou três cigarros de rajada à porta da estação enquanto certamente pensou na vida dele quando Portugal adoptar com o mesmo rigor a lei anti-tabaco que os espanhóis já tanto acarinham, e a Joana, a curtir a tripe, estava feliz e sorria. Seguimos para Cerbere, na fronteira, e daí para Montpellier, no primeiro comboio de compartimentos até então. Um dia gasto a andar de comboio.

Enquanto eles dormiam, uma constante em toda a viagem e porque eu não consigo cair no sono em nenhum transporte, ajudei a Débora a arrumar a mochila no compartimento, e fiquei um bocado perdido no rosto e no decote dela, que pouco falava inglês, e foi a mímica de sorrisos e olhares que nos entreteve até a Joana acordar e começar a falar francês. A Joana foi sempre a mais afoita a falar com os nativos de todos os sítios por onde passámos, um gesto de valor que todos lhe agradecemos. Residente no Seixal, é fluente em inglês, francês e espanhol, além de dar uns toques no checo, holandês e italiano. Praga, onde viveu seis meses, será o último destino desta viagem.

A Débora era morena, tinha um cabelo preto comprido, olhos castanhos resguardados por uns óculos com hastes de massa preta, e mãos de menina que não paravam de ajeitar o cabelo em direcção ao peito, para cobrir o que dele conseguisse, que era pouco. Regressava de um festival de música e ia para Avignon, umas horas depois da nossa paragem.

Quando acordou, o Rui quis logo saber o que era aquele prato gigante de tecido que ocupava o banco ao lado. Estava longe de imaginar estar perante uma maravilha da tecnologia terrestre mais simples de todas: uma tenda que se arma sozinha depois de atirada ao ar, como lhe explicou a Débora. “You throw and fsssssssiu tchcpum” (com gestos a explicar a coisa). Ela era muito gira. Mas giro giro, pelo menos para nós, porque ela não deve ter percebido bem, foi quando o Rui resolveu apresentar-nos à miúda e traduzir os nossos nomes para francês, ficando uma Joana que era Joanna D’Arc, um João que era Jean, um Rui que era Rui, e para gargalhada geral um Pedro que se tornou “Pitérre”, de Piérre. O Rui foi o bom palerma da viagem, como ele próprio confirmará. E tudo começou bem cedo quando à saída de Badajoz, onde começámos, percebeu que tinha deixado algures em casa o carregador do leitor de MP3, comprado a propósito para a viagem.

Adeus Débora, chegámos a Montpellier, a primeira paragem, onde me apaixonarei à segunda e última noite por uma das mulheres mais sensuais que vi até hoje.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

"O gajo que inventou o MacDonalds deve estar rico..." (Joana) Foi a frase mais eloquoente que lhe ouvi desde que chegamos a Budapeste. Basicamente viemos ao MacDonalds de Budapeste. As 08h (juro que ha gente a comer batatinhas e BigMacs). Porque depois de (tentar) dormir num comboio nocturno de Belgrado numa couchette (a cena com camas) com um casal albanes idoso e uma servia (jeitosa), a unica coisa que se pode fazer e ir a um Mac. Ou seja, isto. Eu curtia fazer paragrafos e escrever com acentos, mas os hungaros nao deixam. Assim como nao trocam dinares servios, a moeda desse pais que fica... aqui ao lado. Quer dizer, o turco mafioso e malcheiroso e de calculadora Casio na mao trocava, mas roubava. Quem tiver paciencia verifique: eu tenho 2600 dinares e o gajo queria dar-me 3250 forints, a moeda aqui da Budapeste. Ladraozeco (Google, pesquisem por XE Currency e vejam os cambios, eu agora tou um bocado cansado). Os hungaros nao sao simpaticos. A gaja da Western Union era um burgesso e merecia um biqueiro nas trombas, que a Joana quase lhe ia dando, nao fosse o vidro do guichet. Alias, agora percebo porque e que os guichets tem vidro... Pra proteger o putedo do Leste dos ocidentais viajantes que lhes deixam ca o guito. Depois, o anormal da bilheteira que nos fez perder o comboio era feio e porco e muuuuuuuito sarcastico, o cabraozeco: So, we missed the train? Yes, you missed the train (com um sorrisinho filho da puta). Nos estamos visivelmente perturbados com isto. Mas so restam 2min de net aqui no MacKiosk. 100 forints por 20min (alguem veja se e barato e diga, sff). Hungaros bons, so aqueles que compro na pastelaria Pascoa a 7eur o quilo. "Estes nao valem um peido" (Joana). Beijinhos e Abracos

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Parabéns!
Dez vezes.
Mais vale tarde...

segunda-feira, 30 de julho de 2007

O castelo quase veio abaixo, ou como usar botas de Aladino e não ser ridículo (a resposta é: tocando punk-cigano)
O concerto de encerramento do FMM no castelo de Sines — porque a festa continuou no palco da praia — foi avassalador. Gogol Bordello, um colectivo de sete músicos, dos EUA à Ucrânia, apresentando-se como uma proposta de punk-cigano, tocou sem interrupção durante uma hora e meia. Literalmente. E sempre num ritmo alucinante.

O tradicional fogo de artifício que fecha o festival disparou durante o concerto, criando um cenário extasiante — os tipos pulando e gritando em palco e os foguetes luminosos rebentando por detrás deles, foi lindo! O público esteve sempre aos saltos, os braços sempre no ar, e desconfio que houve mosh ali junto ao fosso. E os gajos ainda voltaram para dois encores.

Vejam os vídeos e imaginem como foi em Sines. Depois comprem bilhete para Paredes de Coura, pois estes senhores vão lá fechar uma das noites. Imperdível.









domingo, 29 de julho de 2007

Um clássico revisitado pelo funk-rock argelino
O Festival Músicas do Mundo (FMM), em Sines, é provavelmente a melhor proposta festivaleira nacional. Ou se paga 70eur para ver aqueles que se repetem nas rádios e na TV, e também ano após ano nos sudoestes ou nas paredes; ou se paga 10eur/dia, entre oito à escolha, e se parte à descoberta dos sons mais insuspeitos, mais distantes e mais desconhecidos, totalmente descomprometido. Foi essa a minha escolha, à nona edição, com o compromisso do regresso em 2008.

Só no FMM se pode apreciar este clássico



Revisitado desta maneira



Pelo “camarada” argelino



Rachid Taha e sua banda, naquilo que chamo de “folk argelino com momentos funk-rock ali do Magrebe”, cantado em árabe ou em francês, marcou o penúltimo dia do FMM, sexta-feira.

Embriagado quanto-baste (felizmente não muito), Rachid deu um espectáculo divertido e envolvente. O público respondeu à altura, dançando muito — eu, que sou pé-de-chumbo, “abanei-me” bastante... ele há coisas que estão a mudar... ou então e muito simplesmente: ao som disto, como não? —, e os encores sucederam-se até perto das quatro da manhã. O cenário esteve perfeito: o castelo de Sines — com o chão coberto de feno (e hortelã, ao início da tarde, pra disfarçar cheiros) — repleto de gente. E nunca um alaúde soou tão rock.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Obrigadinhos, pá!
Assim, em linguagem que tu conheces. Ou preferes em inglês, dado que mal falas português?

Pessoalmente, Joe, acho-te um palerma e um escroquezito; e que os media te deram de bandeja um agendamento sui generis, onde comentaste tudo (do Governo ao BCP), e sem nunca perguntarem onde e como arranjaste essa fortuna “do cartão ao ouro”, de analfabeto especulador, com pretensões a ser um Gulbenkian, contudo inglórias dado o populismo dos futebóis, e criar valor acrescentado 'tá quieto, que tu é mais bolos, de preferência já feitos, p'ra depois revenderes. (tenho mesmo mau feitio)

Mas, não fosses tu a tomar de assalto o Centro de Exposições do CCB e eu nunca veria o World Press Photo no Museu da Electricidade. Deve ficar um cenário espectacular. Assim como tu. “Bem hajas!” (ou “bem ajas?”)

World Press Photo em Lisboa, entre 17 de Agosto e 9 de Setembro, no Museu da Electricidade.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

They don't know how it really feels
Do they?
Holidays. É mais isso, holidays.

“Superstar”, de David Fonseca, num vídeo catita.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Descarregar para ouvir enquanto se lê

Um hálito de sonho

E não há muitas palavras que expliquem nem lotes de Colgate contrafeitos que cheguem para me contrariar. Porque eu vejo como vejo. E aqui sou rei e senhor.
Mesmo quando me magoo. Rei e senhor.
Mais rei, que senhor.
Rei sem reino.
Onde está a cerca? Quero mandar construir um palácio. Onde haverá sempre música e uma baqueta de metal a riscar o prato. Eu aprenderei o piano, só para te embalar. E o António será visita frequente. Porque o coronel Aureliano Buendia morreu no livro. Não te arrepias? “Se me tivesses beijado tinha sido tão diferente”. Garantes? “Estou só a dizer...” Estás a ver se me distrais... (sorri) Olha que eu não quero pensar. Só quero escrever. Deixa-me escrever, sim? “Escrevemos porque ninguém nos ouve.” Eu escrevo para que me vejas. (e como quem pede, grave) “Recorda, só; não si...” Sim, descansa. (interrompi) A razão está do teu lado. Consigo vê-la. E nem preciso subir à torre do meu palácio. “Vê-se bem, não é?” (silêncio, e depois) Achas que vai ser fácil? “Hondt é; Duverger e os outros já não digo.” Tenho dois dias. “Aproveita.” (virou costas; os cabelos castanhos caindo entre as omoplatas, dois ou três sinais na pele morena)
Já te disse hoje, sem ser logo de manhã, depois de acordar, quando já vestiste o vestidinho branco curto que contrasta com as tuas pernas bronzeadas, as alças fininhas nos teus ombros queimados, o decote que mostra um pouco mais da curva dos teus seios — esse sinal aí à esquerda —, os teus pés descalços no chão fresco que sabe tão bem porque é Verão, os teus olhos que não me olham enquanto sorris, matreira, e despejas o leite na tigela dos cereais, e eu sigo as tuas sobrancelhas e a tua boca e as tuas mãos com a atenção e o desejo de quem desenha um nu; já te disse hoje? Já te contei hoje, porque não sei cantar, ou já terei posto hoje a tocar, quando saíste do duche, aquela canção em que o Jorge diz que “fazes pinturas de sonhos, e pintas o sol na minha mão”, já?
Já te disse hoje que tens um hálito de sonho?


“Um hálito de sonho”, a música que sonoriza e dá nome a este rabisco, faz parte de “Movimentos Perpétuos, Música para Carlos Paredes” (2003)
Pode seguir-se a agenda de João Lobo, um dos intérpretes, aqui

terça-feira, 3 de julho de 2007

Sabes o que é que eu queria mesmo?
Que isto fosse simples.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

“A menina dança?”




quarta-feira, 20 de junho de 2007

Quando só queria dormir, as luzes dos carros na Infante Santo reflectidas no espelho da tua sala às escuras
Numa fotografia. O final deste percurso. Sinto que acabou. Sinto estranho. Sinto saudade. Sinto nó na garganta. Sinto vontade. Apetece gritar. Apetece abraçar. Apetece.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Travessa da Arrochela
«Tens — tu também — o dom da palavra», disseste-me. Fiquei muito feliz. Porque te quero muito, e às palavras também. Elas são parte de mim e a melhor forma que, por (demasiadas) vezes, encontro para mostrar a quem gosto que gosto, porque gosto e quanto gosto. Porque me acho desajeitado noutras maneiras, porque não sei porquê — é parvoíce, pela certa.

Como quando me fico por um olhar mais demorado, um toque no braço ou só com a ponta de um dedo num centímetro quadrado da tua pele — é quão longe consigo ir. Se me sentir protegido por uma armadura de aço, lá solto uma frase ou duas repletas da minha verdade, embora quase quase sempre sem conseguir ser olhado a olhar, a minha verdade, como dizia, de ver um contorno bonito, uma linha de volúpia, um timbre quente, um sorriso terno e o resto das coisas. Envergonhado. Com palavras.

Não é sempre assim. Ainda bem. Como ontem, quando lhes quis dizer que a sua presença ali tinha sido muito, mas mesmo muito importante, como se tivesse sido eu a chamá-los. Que por eles tenho um enorme carinho. Que neles vejo bom fundo e fico encantado. Que serei teu camarada de armas — basta que me chames — para pôr fim a essa angústia. Que cada vez que te olho me perco nas maçãs do teu rosto. E só de vos olhar, já sorrio.

E hoje, que choveu e foi cinzento como em Outubro, bem precisei.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

“É difícil falar quando só nos apetece ter gestos”
E fez um imenso sentido naquele exacto segundo. Como se arrancasse, não da boca, mas do peito, o que nunca conseguira que tomasse forma nas ideias, porque estava tão lá no subconsciente, mas que lhe vinha apertando o coração de uma maneira real e havia já quanto — bastante — tempo.

Não ficou mais leve; não feriu por dentro; não apagou desejos; não estragou sorrisos; não resolveu nada. Mas faz sol sempre que as peças encaixam.

E então perguntou-lhe: “entendes?”

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Al Pacino wanna be
- Oh, eu sei como te sentes...
- Não sabes não. E eu explico-te porquê. Queres saber?
- Vá, diz lá... — acrescentando em surdina — man, adoras mesmo o Al Pacino e os personagens retóricos que lhe dão p’ra fazer...
- Não mudes de assunto — respondeu sério.
- Não ‘tou a mudar de assunto. Só ‘tou a constatar: Devil’s Advocate, The Insider, Any Given Sunday, Heat, e isto só pra citar os mais conhecidos e que vi e que me lembro. Vais dizer-me que não veneras o gajo e que não tens quase sempre uma pergunta retórica na manga?
- E o Oceans 13?
- Não sei, porque ainda não vi.
- Óptimo, porque eu também não. Mas ‘tava a dizer-te...
- Como a Feira... — lançou, enquanto pousava a chávena do café.
- Pá! Queres apanhar?
- Desculpa.

(dois segundos de silêncio)

Acendeu mais um cigarro e atirando o isqueiro para cima da mesa, continuou:
- A razão por que te digo que não sabes como me sinto é porque não ficas com este sorriso parvo estampado na cara quando dás por ti a comentar com o Alfredo (como eu dei, hoje e ontem e antes, e como tu nunca darás porque não vês isso) que hoje o pôr-do-sol estava especialmente bonito, alaranjado mas não muito e ainda bem, luminoso, que tirei os óculos de sol para poder ver bem as cores. Ou como agora, neste momento, em que estou chateado por teres gozado com algo com que não se brinca!... — sorveu o cigarro — mas em vez disso estou aqui de lábios rasgados como que contente, incontrolado, que pareço um palerma.
- Não sei se percebi — disse, como quem diria a medo, mas gozando.

Soprou o fumo e desistiu, sorrindo:
- Epá, vai à merda!

domingo, 10 de junho de 2007

I'm only this far
and only tomorrow leads my way

quinta-feira, 7 de junho de 2007

1ª plateia, fila E, lugares 12 e 14




Esbjorn Svensson Trio, no CCB, dia 22 de Julho.
Obrigado, Paulo Gil.

Como é que vai ser?

segunda-feira, 4 de junho de 2007

«A causa das coisas»
Quatro anos depois, terminou. Quatro anos depois vai começar. Sempre que penso nisto, que me lembro disto, que sinto isto, invade-me uma tremenda nostalgia e saudade e quase choro, sobretudo de alegria e de paixão. Como explicar? A Inês tinha razão, quando nos disse que muito mudaria ali, que seria dali que levaríamos connosco as fundações para um resto de percurso de vida.

Quando era mais miúdo, pela primeira de muitas vezes naquela escola, quando às oito e um quarto a Isabel ainda não tinha chegado, eu corria para o campo com os rapazes para jogar à bola. A Isabel, que nos ia buscar um por um segurando-nos pelo braço, no fim haveria de dizer que me percebia o desinteresse por aquilo e porque estava a minha cabeça noutro lugar.

O Américo pôs tudo em pratos limpos desde o dia em que me conheceu e sempre que podia atirava-me, com um sorriso, que não percebia — embora percebendo — porque insistia em fazer aquilo. O Américo tem uma quota de responsabilidade enorme, e ainda bem que é assim. Como quando me disse que era apaixonadíssimo pela mulher e pelos filhos e que era por isso que se estava marimbando para o clube e que todo o tempo livre que tinha, entre a escola, o atelier e o jornal, era para eles. E não se pense que era pouco, mesmo quando era, porque o Américo era muito ginasticado para os quase dois metros de altura, cem quilos de peso e meia dúzia de cabelos na careca. Um dia confessei-lhe querer para mim, quando fosse a altura, o mesmo brilho que ganhavam os olhos dele quando me contava coisas deles. Não perdes por esperar.

Já o Raul ensinou-me vida e isso não se quantifica. Melhor ainda: continua ensinando, com a mesma paixão e entrega com que nos explicava o êntero e o celêntero e o resto. Não me esqueço quando ele disse que me entendia, que eu não me preocupasse em demasia e que deveria, então, retirar dali o melhor, o que era especial, o pedaço mais saboroso. Hoje, quando me vê, repete-me se não acho que valeu a pena. Valeu, pois. Porque foi difícil.

Não fosse pela Isabel, pelo Américo, pelo Raul e por tudo o resto e todos os que me acompanharam desde então, e nada teria sido como foi, e nada seria como vai ser. Quando cheguei, em 2003, cheguei na altura certa. «Ena, mais gajos»? Certamente. «Olha, queres namorar comigo?» Mas eu só tinha acabado de explicar como se usavam atalhos do Word para formatar as tabelas... Assim começava o período mais rico da minha vida. Que é feito de pessoas. Afinal, não é por isso que andamos por cá?

Estranhei, conheci, mostrei, sorri, entreguei e recebi, ri à gargalhada, chorei em soluços, aprendi e ensinei, compreendi e repliquei, apaixonei-me como até então nunca e cresci com o reconhecimento do que é isso, então, das paixões. Porque é disso que se trata, de diferentes paixões, e de ser esse o mote para tudo — e aqui não há lugar a contestações. De tão cheio que vou, é parvoíce sentir-me vazio agora e com um nó na garganta.

Conforme me chegam à cabeça: Joana, Maria, João, Rui, Raquel, Diana, Maria, João, Marta, Mariana, mais uma Maria, André, Patrícia, Catarina, Bruno, Pedro, Joana, Rui, Miguel, Bruno, outro Miguel, Filipa, André, Sandra, Sara, Carlos, José, outro José, um homónimo João, André, Tiago, Ricardo, mais um José e ainda outro José, Ana, Marcos, Rita, Sofia, António, Rosário, ainda outra Joana, Alberto, Mariana, Isabel, António, Margarida, mais uma Maria e acho que estão todos ou então perdoe-me algum. Agradeço-vos. E porquê?

Uns e outros, assim e assados. Pela felicidade que me trazem ao estar comigo. Pela dedicação. Pelo ensinamento. Por me ter permitido sentir intensamente. Pela admiração que tenho. Pela força dada. Pelo respeito mútuo. Pela sinceridade e boa-fé. Pela simplicidade. Pela humildade. Pela entrega. Porque me apetece sempre acarinhar. Pelo estalo. Por me fazerem rir e sorrir. Pela partilha. Pela paciência e pela impaciência. Porque me permitiu descobrir coisas tão bonitas. Pela protecção. Pela beleza. Pela convicção. Pelo debate e pelo combate. Pela surpresa. Pela confiança. Pelo acompanhamento. Pelo crescimento. Por chorar de surpresa. Por chorar de tristeza e de alegria. Por ser tão especial. Por me provocar um enorme desejo de fazer e dizer coisas que nunca tinha feito. Por serem tão ricos. Por tudo o que se passou. Uns e outros, diferentemente assim e assados. De todos gostando muito, por alguns apaixonado como nunca até então. Levo-vos comigo.

domingo, 3 de junho de 2007

Woody, traz a câmara, pá!
Existe uma certa poesia numa mulher naturalmente bonita, de vestido preto de baile, casaco vermelho, uma bandelete no cabelo com um lacinho pequenino, e nos pés umas chinelas havaianas brancas, atravessando uma rua de empedrado de basalto ali próximo do rio, às seis e pouco da manhã de um dia de sol, para chegar até onde beber um chocolate quente.

terça-feira, 22 de maio de 2007

Gentlemen, start your engines

Esta posta foi re-postada, porque desfigurou o Pudim, não se sabe porquê. As desculpas a quem tinha comentado. E já agora, a canção é Loving Wings, antiguinha, dificilmente a ouviremos na sexta...

domingo, 20 de maio de 2007

No more chasing butterflies
Será? Tudo vai no querer.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Postcards from Italy
Não percebo o que dizes e ainda menos o que deixas por dizer. Como quando a bola passa mesmo a milímetros da raquete e nós vamos esticadinhos para a frente como quem corta uma meta e a derrapar no pó de tijolo, de sorriso na cara e depois: «sacaninha…» Ou então sou eu que faço o filme. Porque há filmes que consigo fazer e são muito fáceis. Com charriot e travellings.

Como quando o Jorge me veio buscar, sem me conhecer, porque era tarde e eu não tinha como chegar — eu era apenas um nome perto da bomba de gasolina e o teu desejo naquela noite. Entrei no carro sem saber sequer para onde ia e ele estava drogadíssimo, aceleradíssimo, felicíssimo, como quem satisfaz um desejo de morangos com chantili a altas horas da noite a uma mulher, à nossa mulher, grávida. Foi o delírio, para todos. E nunca tinha descido aquela calçada sem travões, só para sentir como era.

Sete anos depois, continuo a voltar lá. Não há um sítio melhor em toda a cidade. E não só não travo como também desengato o carro nas subidas e nas descidas, só para sentir como é — pleno, como a orquestra em Berlim, sabes? Sabes, ou não me teria desfeito em lágrimas, com e sem motivos de jeito.

É que nunca recebi um postal de Itália.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

A comédia de Deus
É um tango argentino. «A menina dança?» É um jogo de amor, em francês ou castelhano, desde que tenha por cenário aquele buliço quente e húmido dos táxis velhos no cruzamento e a motorizada de motor estridente passando. Abaixo do trópico de Câncer. «A menina dança?»

domingo, 13 de maio de 2007

The question concerning itch
- Tenho comichão no coração. Consigo lembrar-me de duas possíveis razões para isso. Ou é do mini-escaldão que apanhei na praia no outro dia; ou é porque tenho mesmo comichão no coração. Porque é que me apetece coçar o coração? Porque alguma coisa lhe faz, me faz, cócegas. Consigo lembrar-me de duas possíveis razões para isso. Ou é da pele seca que quer saltar, por causa do mini-escaldão que apanhei na praia no outro dia; ou é por tua causa.
- Por minha causa?
- Consigo lembrar-me de duas possíveis razões para isso. Ou é porque te ouvi, um dia; ou é porque te conheci, noutro.
- Hã?

A partir de “The question concerning technology”, de M. Heidegger; e de “Ascent”, de B. Sassetti.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Prémio Jornalismo e Cidadania
Haja saúde

quinta-feira, 3 de maio de 2007

02.05.2007
Há certos dias de Outubro que são românticos. Aqueles que começam frios e chuvosos, mas depois acabam frios e de céu azul com nuvens brancas, que mais tarde contrastam com o negro da noite quando a lua está cheia. Hoje foi Maio e esteve Outono. E o romance?

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Descubra as diferenças
1.Cadáver descoberto dentro de carro incendiado
2.Homem carbonizado
3.Já carbonizado em carro a arder encontrado pelo próprio pai

Qual é quem? Diário de Notícias, Público ou Correio da Manhã? Ordene, sff.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

«So you figured: to hell with Macdonalds, I’ll become a pimp?» ou como ver vários filmes assistindo somente a um
Há dias em que apetece que tudo seja diferente e este era um deles por isso mesmo, porque só apetecia e não acontecia. «É simplesmente complicado», quis dizer, tentando explicar-lhe porque aparecia daquela forma que lhe pareceu estranha e daí a pergunta dele, às sete da tarde, sol quase posto na Avenida da Liberdade que ficava cinzenta a espaços de cinco minutos, com os arrumadores ocupando os seus lugares e pedindo um cigarro a quem passava. «Não tenho, pá».

Começou bem, quando a sala escureceu, soaram os primeiros acordes e apareceram as primeiras imagens do chunga pedindo trocos com a cantiga do bandido de sempre do estou preso aqui, roubaram-me tudo e nem tenho uma camisola para vestir, «tou-te a pedir, não tou-t’a roubar, tás a ver?», e eu sei que não és de cá, estás aqui de férias e basta-me dois dólares, se fazes o favor.

«É simplesmente complicado», quero dizer, tentando explicar porque apareci daquela forma estranha e daí a pergunta, às sete da tarde e até agora, sol já posto há horas na Avenida da Liberdade e aqui, agora eu cinzento a espaços de cinco minutos, com os arrumadores de ideias sem braços e ocupando lugares ao molho todos encavalitados e amolgados enquanto pedem cigarros a mim que me passo. «Não consigo, pá».

Porque tudo, isso, isto, significa demasiado para mim, não entendes? Alegra-me, fico mal disposto, é violento, é cru, é enternecedor, preenche-me, choca-me, faz-me sentir privilegiado, não me tranquiliza no cinema, faz-me gostar... Como num osciloscópio e no filme.




Life in Loops, Megacities remixed, de Timo Novotny e Michael Glawogger a partir do original deste último, filme de abertura do Indie Lisboa 2007, hoje reposto no S.Jorge. Para mim, que venho gostando dos trabalhos de Glawogger, foi sublime. Apesar de tudo.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Foi há 33 anos
Assim.
Depois assim.
Até agora. Este é um dia que gosto de viver.

domingo, 22 de abril de 2007

Diz que é uma espécie de democracia madura

Onde é que estão as aspas?
Pânico. Estou a escrever, preciso citar, para citar preciso de aspas e... onde é que estão as aspas? O MacBook não tem aspas?! Quero as aspas!!! (não falo das aspas subidas, que são estas ", mas sim das outras, que são dois símbolos destes >>...)

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Bons negócios e uma grande ferramenta, ou mais uma posta sobre o brinquedo
A intenção original era dizer que fiz um bom negócio quando, há umas semanas, comprei um disco rígido externo de 400GB da Toshiba por 120 euros – fruto de marcação incorrecta numa loja –, quando o dito custa 150 na Chip7 e 180 na Fnac. E porque foi um bom negócio? Porque o raio do disco é tão lento, que dói. E seria insuportável ter pago mais ainda por tão baixa qualidade.

Mas depois de terminar a transferência de ficheiros do Acer para o disco, liguei-o ao MacBook para deslocar novamente o material e eis senão quando o pachorrento disco ganhou nova vida, rapidez de Schumacker e transferiu os vários gigas num terço do tempo que tinha levado no PC. Moral da história: as portas USB 2.0 do MacBook são melhores que as do meu ex-Acer? E o disco foi, realmente, um negócio da Tailândia.

Outra coisa que me fascina no MacBook, pela sua utilidade, é a aplicação Dictionary. Este pequeno programinha é um dicionário de inglês, instalado de série e que corre offline, ou seja, não é preciso ter acesso à net para tirar aquela dúvida que nos assaltou ao ler o Guardian ou assim. É por estas e por outras que o MacBook soma pontos e segue.
Diz que sou assim...

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Pareço um miudo. E sortudo, ainda por cima. Há uma semana atrás recebi de oferta um MacBook. O preto. Lindo. Sete dias depois, escrevo uma pequena nota de avaliação. Cá vai disto.




Estética e física O portátil é muito bonito – vejam por vocês mesmos (fotos de terceiros). O preto fica-lhe muito bem, embora as dedadas insistam em se marcar na tampa. O tamanho é pouco maior que o de uma folha A4, talvez mais 1cm em cada lado, e a espessura reduzida favorece a portabilidade.
O teclado parece-me de elevada qualidade e a posição das teclas não é muito diferente de um PC – contudo, as funções são bastante diferentes. O ecrã brilhante é um das grandes a mais-valia do MacBook, com leitura facílima com a luminosidade apenas a um ponto – e são 16 ajustes no total –, o que ajuda na poupança de energia. A bateria é outro ponto favorável, com cerca de cinco horas em qualquer operação que não exija muito do processador, como vídeo ou o jogo Chess!! As colunas de som estão ao nível da Toshiba.

Ponto fraco - ainda aquece...
Os rumores de aquecimento excessivo dos primeiros MacBook não estão totalmente dissipados com esta nova geração equipada com Intel Core 2 Duo. Os processadores Intel são autênticos fornos e a espessura diminuta do MacBook fá-lo aquecer à esquerda, na zona onde estão concentradas as portas dos periféricos e alguns circuitos (ver foto; o espaço vazio é da bateria; à direita está a drive CD/DVD e o disco; ao centro o processador, com ventoinha). E isso incomoda o pulso, embora não dê para fritar ovos. Mas incomoda, ao fim de umas horas a processar texto. Resta saber se este não é o calcanhar de Aquiles do MacBook, pronto a sacrificar a sua longevidade. Esperemos que não.


Software
O Mac OS X é um sistema operativo muito mais intuitivo, simples, leve e criativo/animado do que o Windows XP ou Vista.
Instalação e remoção de programas estupendamente simples – arrastar o ícone para a pasta Aplications, para instalar, ou para o caixote do lixo para remover.
De série vêm algumas aplicações muito úteis e engraçadas, das quais destaco o Stickies, post-it digitais, amarelinhos e tudo, que podemos programar para ficar no ecrã cada vez que iniciamos o computador.
Existem imensas aplicações alternativas para tudo o que se possa imaginar: dezenas de vizualizadores de vídeo, de programas de chat a usar protocolo MSN, de compactadores, de tudo e mais alguma coisa e muitas vezes freeware; existem várias suites Office – incluindo a versão para Mac, do tio Bill – e programas específicos como os do universo Adobe têm versão para Mac. E os nomes dos programas são engraçados: Stuffit, Safari, Toast, etc.
O Mac OS X também tem um “Ctrl-Alt-Del” para abrir o gestor de programas e forçar a fechar alguma aplicação que tenha encravado – os tipos dizem que os programas podem encravar, mas o sistema operativo nunca congelará, como faz o Windows amiúde.
Certas configirações não demoram mais de 30segs. Exemplo: configurar a net wireless e-U que no estaminé onde estudo não é de acesso aberto, precisa utilizador e password, faz-se no Mac em 30segs, numa só janela e preenchendo quatro campos, enquanto que no Windows é preciso descarregar um certificado, instalá-lo, configurar especificidades na ligação, etc e tal e uns 5min depois é que estamos a navegar.

Ponto fraco - Safari, esse sacana
O browser da Mac, o Safari, tem alguma dificuldade em abrir, por exemplo, as páginas dos serviços de home-banking e do Blogger, o que me irrita solenemente. Isto deve-se a que 90% da internet seja feita para o browser da Microsoft, o Internet Explorer, creio eu. Mas precisamente para colmatar essas falhas é que existem outros browsers para Mac e eu ando a testar o famoso Firefox, para estas páginas que o Safari não abre. Usar dois browsers é chato, mas com o hábito vou lá.

Hardware
Agora a Mac usa equipamentos Intel. Este MacBook tem um processador Core 2 Duo a 2GHz com 4MB de cache, 1GB de RAM e gráfica Intel com 64MB. Até agora isto chega e sobra (muito…). O disco de 120GB é Toshiba, o que inspira fiabilidade, e é extremamente silencioso. A drive CD/DVD é Matsushita, fabricante japonês com tradição, o que também inspira confiança.
Quanto a algo que muito me irritava no PC, a antena wireless ou o software que a geria, no MacBook nunca perco uma ligação à rede. Ou é da antena em si ou é do Airport, programa que a gere, a qualidade é alta.

Usabilidade - e a função Delete!!
Nos primeiros dias foi muito difícil perceber o Mac porque os atalhos do teclado são totalmente diferentes. Mas depois de chatear uns amigos, de ler o guia da Apple em 101 passos para quem muda de Windows para Mac, e de pesquisar um pouquito na net e no Spotlight – o fenomenal sistema de pesquisa e ajuda do Mac, que mete o Help ou o Search do Windows a um canto – lá percebi para que serve o Control; o Alt; o Apple; que a tecla Fn tem que ser activada nas Preferences; como usar o Pg Up, Down, Home e End; como saltar de palavra em palavra no Word; etc.
O que mais me incomodava acabei de resolver há dois minutos: o MacBook não tem a tecla/função Delete, aquela que apaga para a direita do cursor – e não para a esquerda, que essa é o Backspace – mas eu descobri e informo que o Delete no Word ou qualquer outro programa se faz assim Fn + Backspace (a tecla “apagar”)! Rejubilem…

E pronto, desta forma se contorna o vazio criativo, o monumental volume de trabalho presente e se escreve alguma coisa neste Pudim fora de prazo…

segunda-feira, 19 de março de 2007

Directamente de Madrid
O jornalista e documentarista Filipe Araújo e o fotógrafo Guillaume Pazat produzem e realizam Madrid Expresso, um podcast multimédia semanal dedicado à capital europeia mais próxima de Lisboa, para o jornal Expresso.

Aqui ficam alguns dos primeiros vídeos já disponibilizados, de uma série de 24. Depois é favor passar pelo site do jornal, ao fim-de-semana, e procurar as novidades. Um abraço ao Filipe!

A fuga ## O porto de Madrid ## Leituras subterrâneas ## Alcatraz espanhol ## Olé!

Mais info em www.blablablamedia.com

sexta-feira, 16 de março de 2007

:)
Só por isso valeu a pena.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Esta história eu não sou capaz de escrever
Ali.
Quando ainda estava quente.
No cinema.
No miradouro.
Sentado na cadeira.
No bar, a meia luz.
Na Ribeira.
No 28.
À mesa, por aí.
Com ele, com ela.
Comigo.
Na carruagem nº 5 e na cadeira nº 11.
No hotel.
No carro.
Na fundação.
No Basta.
Flamenco.
Nas letras.
Nos discos, aquele velho e os outros.
Quando está sol.
Mesmo se choveu.
E…
Esta história eu não sou capaz de escrever.