terça-feira, 22 de maio de 2007

Gentlemen, start your engines

Esta posta foi re-postada, porque desfigurou o Pudim, não se sabe porquê. As desculpas a quem tinha comentado. E já agora, a canção é Loving Wings, antiguinha, dificilmente a ouviremos na sexta...

domingo, 20 de maio de 2007

No more chasing butterflies
Será? Tudo vai no querer.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Postcards from Italy
Não percebo o que dizes e ainda menos o que deixas por dizer. Como quando a bola passa mesmo a milímetros da raquete e nós vamos esticadinhos para a frente como quem corta uma meta e a derrapar no pó de tijolo, de sorriso na cara e depois: «sacaninha…» Ou então sou eu que faço o filme. Porque há filmes que consigo fazer e são muito fáceis. Com charriot e travellings.

Como quando o Jorge me veio buscar, sem me conhecer, porque era tarde e eu não tinha como chegar — eu era apenas um nome perto da bomba de gasolina e o teu desejo naquela noite. Entrei no carro sem saber sequer para onde ia e ele estava drogadíssimo, aceleradíssimo, felicíssimo, como quem satisfaz um desejo de morangos com chantili a altas horas da noite a uma mulher, à nossa mulher, grávida. Foi o delírio, para todos. E nunca tinha descido aquela calçada sem travões, só para sentir como era.

Sete anos depois, continuo a voltar lá. Não há um sítio melhor em toda a cidade. E não só não travo como também desengato o carro nas subidas e nas descidas, só para sentir como é — pleno, como a orquestra em Berlim, sabes? Sabes, ou não me teria desfeito em lágrimas, com e sem motivos de jeito.

É que nunca recebi um postal de Itália.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

A comédia de Deus
É um tango argentino. «A menina dança?» É um jogo de amor, em francês ou castelhano, desde que tenha por cenário aquele buliço quente e húmido dos táxis velhos no cruzamento e a motorizada de motor estridente passando. Abaixo do trópico de Câncer. «A menina dança?»

domingo, 13 de maio de 2007

The question concerning itch
- Tenho comichão no coração. Consigo lembrar-me de duas possíveis razões para isso. Ou é do mini-escaldão que apanhei na praia no outro dia; ou é porque tenho mesmo comichão no coração. Porque é que me apetece coçar o coração? Porque alguma coisa lhe faz, me faz, cócegas. Consigo lembrar-me de duas possíveis razões para isso. Ou é da pele seca que quer saltar, por causa do mini-escaldão que apanhei na praia no outro dia; ou é por tua causa.
- Por minha causa?
- Consigo lembrar-me de duas possíveis razões para isso. Ou é porque te ouvi, um dia; ou é porque te conheci, noutro.
- Hã?

A partir de “The question concerning technology”, de M. Heidegger; e de “Ascent”, de B. Sassetti.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Prémio Jornalismo e Cidadania
Haja saúde

quinta-feira, 3 de maio de 2007

02.05.2007
Há certos dias de Outubro que são românticos. Aqueles que começam frios e chuvosos, mas depois acabam frios e de céu azul com nuvens brancas, que mais tarde contrastam com o negro da noite quando a lua está cheia. Hoje foi Maio e esteve Outono. E o romance?

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Descubra as diferenças
1.Cadáver descoberto dentro de carro incendiado
2.Homem carbonizado
3.Já carbonizado em carro a arder encontrado pelo próprio pai

Qual é quem? Diário de Notícias, Público ou Correio da Manhã? Ordene, sff.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

«So you figured: to hell with Macdonalds, I’ll become a pimp?» ou como ver vários filmes assistindo somente a um
Há dias em que apetece que tudo seja diferente e este era um deles por isso mesmo, porque só apetecia e não acontecia. «É simplesmente complicado», quis dizer, tentando explicar-lhe porque aparecia daquela forma que lhe pareceu estranha e daí a pergunta dele, às sete da tarde, sol quase posto na Avenida da Liberdade que ficava cinzenta a espaços de cinco minutos, com os arrumadores ocupando os seus lugares e pedindo um cigarro a quem passava. «Não tenho, pá».

Começou bem, quando a sala escureceu, soaram os primeiros acordes e apareceram as primeiras imagens do chunga pedindo trocos com a cantiga do bandido de sempre do estou preso aqui, roubaram-me tudo e nem tenho uma camisola para vestir, «tou-te a pedir, não tou-t’a roubar, tás a ver?», e eu sei que não és de cá, estás aqui de férias e basta-me dois dólares, se fazes o favor.

«É simplesmente complicado», quero dizer, tentando explicar porque apareci daquela forma estranha e daí a pergunta, às sete da tarde e até agora, sol já posto há horas na Avenida da Liberdade e aqui, agora eu cinzento a espaços de cinco minutos, com os arrumadores de ideias sem braços e ocupando lugares ao molho todos encavalitados e amolgados enquanto pedem cigarros a mim que me passo. «Não consigo, pá».

Porque tudo, isso, isto, significa demasiado para mim, não entendes? Alegra-me, fico mal disposto, é violento, é cru, é enternecedor, preenche-me, choca-me, faz-me sentir privilegiado, não me tranquiliza no cinema, faz-me gostar... Como num osciloscópio e no filme.




Life in Loops, Megacities remixed, de Timo Novotny e Michael Glawogger a partir do original deste último, filme de abertura do Indie Lisboa 2007, hoje reposto no S.Jorge. Para mim, que venho gostando dos trabalhos de Glawogger, foi sublime. Apesar de tudo.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Foi há 33 anos
Assim.
Depois assim.
Até agora. Este é um dia que gosto de viver.

domingo, 22 de abril de 2007

Diz que é uma espécie de democracia madura

Onde é que estão as aspas?
Pânico. Estou a escrever, preciso citar, para citar preciso de aspas e... onde é que estão as aspas? O MacBook não tem aspas?! Quero as aspas!!! (não falo das aspas subidas, que são estas ", mas sim das outras, que são dois símbolos destes >>...)

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Bons negócios e uma grande ferramenta, ou mais uma posta sobre o brinquedo
A intenção original era dizer que fiz um bom negócio quando, há umas semanas, comprei um disco rígido externo de 400GB da Toshiba por 120 euros – fruto de marcação incorrecta numa loja –, quando o dito custa 150 na Chip7 e 180 na Fnac. E porque foi um bom negócio? Porque o raio do disco é tão lento, que dói. E seria insuportável ter pago mais ainda por tão baixa qualidade.

Mas depois de terminar a transferência de ficheiros do Acer para o disco, liguei-o ao MacBook para deslocar novamente o material e eis senão quando o pachorrento disco ganhou nova vida, rapidez de Schumacker e transferiu os vários gigas num terço do tempo que tinha levado no PC. Moral da história: as portas USB 2.0 do MacBook são melhores que as do meu ex-Acer? E o disco foi, realmente, um negócio da Tailândia.

Outra coisa que me fascina no MacBook, pela sua utilidade, é a aplicação Dictionary. Este pequeno programinha é um dicionário de inglês, instalado de série e que corre offline, ou seja, não é preciso ter acesso à net para tirar aquela dúvida que nos assaltou ao ler o Guardian ou assim. É por estas e por outras que o MacBook soma pontos e segue.
Diz que sou assim...

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Pareço um miudo. E sortudo, ainda por cima. Há uma semana atrás recebi de oferta um MacBook. O preto. Lindo. Sete dias depois, escrevo uma pequena nota de avaliação. Cá vai disto.




Estética e física O portátil é muito bonito – vejam por vocês mesmos (fotos de terceiros). O preto fica-lhe muito bem, embora as dedadas insistam em se marcar na tampa. O tamanho é pouco maior que o de uma folha A4, talvez mais 1cm em cada lado, e a espessura reduzida favorece a portabilidade.
O teclado parece-me de elevada qualidade e a posição das teclas não é muito diferente de um PC – contudo, as funções são bastante diferentes. O ecrã brilhante é um das grandes a mais-valia do MacBook, com leitura facílima com a luminosidade apenas a um ponto – e são 16 ajustes no total –, o que ajuda na poupança de energia. A bateria é outro ponto favorável, com cerca de cinco horas em qualquer operação que não exija muito do processador, como vídeo ou o jogo Chess!! As colunas de som estão ao nível da Toshiba.

Ponto fraco - ainda aquece...
Os rumores de aquecimento excessivo dos primeiros MacBook não estão totalmente dissipados com esta nova geração equipada com Intel Core 2 Duo. Os processadores Intel são autênticos fornos e a espessura diminuta do MacBook fá-lo aquecer à esquerda, na zona onde estão concentradas as portas dos periféricos e alguns circuitos (ver foto; o espaço vazio é da bateria; à direita está a drive CD/DVD e o disco; ao centro o processador, com ventoinha). E isso incomoda o pulso, embora não dê para fritar ovos. Mas incomoda, ao fim de umas horas a processar texto. Resta saber se este não é o calcanhar de Aquiles do MacBook, pronto a sacrificar a sua longevidade. Esperemos que não.


Software
O Mac OS X é um sistema operativo muito mais intuitivo, simples, leve e criativo/animado do que o Windows XP ou Vista.
Instalação e remoção de programas estupendamente simples – arrastar o ícone para a pasta Aplications, para instalar, ou para o caixote do lixo para remover.
De série vêm algumas aplicações muito úteis e engraçadas, das quais destaco o Stickies, post-it digitais, amarelinhos e tudo, que podemos programar para ficar no ecrã cada vez que iniciamos o computador.
Existem imensas aplicações alternativas para tudo o que se possa imaginar: dezenas de vizualizadores de vídeo, de programas de chat a usar protocolo MSN, de compactadores, de tudo e mais alguma coisa e muitas vezes freeware; existem várias suites Office – incluindo a versão para Mac, do tio Bill – e programas específicos como os do universo Adobe têm versão para Mac. E os nomes dos programas são engraçados: Stuffit, Safari, Toast, etc.
O Mac OS X também tem um “Ctrl-Alt-Del” para abrir o gestor de programas e forçar a fechar alguma aplicação que tenha encravado – os tipos dizem que os programas podem encravar, mas o sistema operativo nunca congelará, como faz o Windows amiúde.
Certas configirações não demoram mais de 30segs. Exemplo: configurar a net wireless e-U que no estaminé onde estudo não é de acesso aberto, precisa utilizador e password, faz-se no Mac em 30segs, numa só janela e preenchendo quatro campos, enquanto que no Windows é preciso descarregar um certificado, instalá-lo, configurar especificidades na ligação, etc e tal e uns 5min depois é que estamos a navegar.

Ponto fraco - Safari, esse sacana
O browser da Mac, o Safari, tem alguma dificuldade em abrir, por exemplo, as páginas dos serviços de home-banking e do Blogger, o que me irrita solenemente. Isto deve-se a que 90% da internet seja feita para o browser da Microsoft, o Internet Explorer, creio eu. Mas precisamente para colmatar essas falhas é que existem outros browsers para Mac e eu ando a testar o famoso Firefox, para estas páginas que o Safari não abre. Usar dois browsers é chato, mas com o hábito vou lá.

Hardware
Agora a Mac usa equipamentos Intel. Este MacBook tem um processador Core 2 Duo a 2GHz com 4MB de cache, 1GB de RAM e gráfica Intel com 64MB. Até agora isto chega e sobra (muito…). O disco de 120GB é Toshiba, o que inspira fiabilidade, e é extremamente silencioso. A drive CD/DVD é Matsushita, fabricante japonês com tradição, o que também inspira confiança.
Quanto a algo que muito me irritava no PC, a antena wireless ou o software que a geria, no MacBook nunca perco uma ligação à rede. Ou é da antena em si ou é do Airport, programa que a gere, a qualidade é alta.

Usabilidade - e a função Delete!!
Nos primeiros dias foi muito difícil perceber o Mac porque os atalhos do teclado são totalmente diferentes. Mas depois de chatear uns amigos, de ler o guia da Apple em 101 passos para quem muda de Windows para Mac, e de pesquisar um pouquito na net e no Spotlight – o fenomenal sistema de pesquisa e ajuda do Mac, que mete o Help ou o Search do Windows a um canto – lá percebi para que serve o Control; o Alt; o Apple; que a tecla Fn tem que ser activada nas Preferences; como usar o Pg Up, Down, Home e End; como saltar de palavra em palavra no Word; etc.
O que mais me incomodava acabei de resolver há dois minutos: o MacBook não tem a tecla/função Delete, aquela que apaga para a direita do cursor – e não para a esquerda, que essa é o Backspace – mas eu descobri e informo que o Delete no Word ou qualquer outro programa se faz assim Fn + Backspace (a tecla “apagar”)! Rejubilem…

E pronto, desta forma se contorna o vazio criativo, o monumental volume de trabalho presente e se escreve alguma coisa neste Pudim fora de prazo…

segunda-feira, 19 de março de 2007

Directamente de Madrid
O jornalista e documentarista Filipe Araújo e o fotógrafo Guillaume Pazat produzem e realizam Madrid Expresso, um podcast multimédia semanal dedicado à capital europeia mais próxima de Lisboa, para o jornal Expresso.

Aqui ficam alguns dos primeiros vídeos já disponibilizados, de uma série de 24. Depois é favor passar pelo site do jornal, ao fim-de-semana, e procurar as novidades. Um abraço ao Filipe!

A fuga ## O porto de Madrid ## Leituras subterrâneas ## Alcatraz espanhol ## Olé!

Mais info em www.blablablamedia.com

sexta-feira, 16 de março de 2007

:)
Só por isso valeu a pena.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Esta história eu não sou capaz de escrever
Ali.
Quando ainda estava quente.
No cinema.
No miradouro.
Sentado na cadeira.
No bar, a meia luz.
Na Ribeira.
No 28.
À mesa, por aí.
Com ele, com ela.
Comigo.
Na carruagem nº 5 e na cadeira nº 11.
No hotel.
No carro.
Na fundação.
No Basta.
Flamenco.
Nas letras.
Nos discos, aquele velho e os outros.
Quando está sol.
Mesmo se choveu.
E…
Esta história eu não sou capaz de escrever.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Contagem decrescente
A noite é de Óscares, mas eu estou mesmo à espera é de me enfiar no comboio até ao Porto. Isso sim.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

O João, o André e os outros
Está quase a fazer um ano que numa tarde que era mais quente no Jardim da Estrela do que em qualquer outro lugar de Lisboa, o João e o André me falaram do seu segundo projecto de cinema conjunto, enquanto realizadores. Pedras e cigarrilhas depois, levei para casa o guião.

Agora, quando muito já se alterou desde então; quando tudo está com fenomenal bom aspecto; porque acredito muito no João e no André, no seu talento, trabalho, dedicação e esforço; e porque também não me esqueço da equipa que trabalha com eles, igualmente talentosa e esforçada; é altura de lhes dedicar umas linhas.

Brevemente estreará a curta-metragem “Dez Beta”. Este filme de 10 minutos antecede e promove um outro projecto mais ambicioso, a longa-metragem “O Dez”. Mas enquanto este projecto ainda não saltou do guião, o outro, o “Dez Beta”, já foi todo filmado e está em pós-produção. E está muito, mas mesmo muito catita, pelo que pude ver nas filmagens e nalgumas cenas já montadas.

O “Dez Beta” tem um elenco profissional onde constam nomes conhecidos como José Pedro Gomes e Cláudia Semedo. Foi filmado em tecnologia Sony HD — para quem não sabe, isso é high definition; e eu posso assegurar que é mesmo high definition. E mais não digo, não faço sinopses, não conto a estória, nada nadinha, para vocês descobrirem sozinhos nos endereços que indico abaixo. Vá, apenas lhes roubo umas fotografias de cena, para vos aguçar o apetite.

Se quiserem saber mais, é muito simples:

1. Vão a www.odez.net e registem-se (na página principal, à esquerda, em baixo). Os rapazes precisam de muitos registos e assim vocês também ficam aptos a receber informações de ambos os projectos por email.

2. Naveguem pelo site www.odez.net, que é a tal longa-metragem “O Dez”, sim, essa que ainda não saiu do papel e que é uma obra conjunta de dez realizadores e dez argumentistas. Leiam sobre a ideia e a estória que lhe subjaz. Vejam os dez oráculos, um pequeno vídeo por cada estória. Leiam um pedacito de cada argumento e vejam quem são os autores e realizadores (no meio dos desconhecidos estão Nuno Markl e Filipe Homem de Fonseca…).

3. Voltem a www.odez.net e entrem como utilizadores registados (login na página principal, à direita, em baixo). Naveguem à vontade.

4. Passem pelo blogue do projecto, em http://www.projectodez.blogspot.com/.

5. Fiquem atentos. Vai valer a pena ver a curta-metragem “Dez Beta”. Tal como vai valer a pena ver a longa “O Dez”, logo que os rapazes consigam os meios para a pôr em marcha.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Sorri…
…quando os vi subir a calçada, ele puxando-a pela mão, ela de olhos vendados e rindo e pedindo que lhe dissesse onde estava. Passei por eles, olhei para cima e sorri novamente.

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Porque voto como voto - actualizado
A duas semanas do referendo à despenalização do aborto percebi que não estava seguro da minha opção de voto. Nesse momento obriguei-me a estudar o assunto, ouvir os diferentes argumentos, percebê-los e pensar sobre tudo para tomar nova posição de voto, mais esclarecida e fundamentada, após reflexão cuidada. No momento em que parto para escrever este texto, ainda não decidi como vou votar. Talvez já saiba quando terminar a última linha.

Não escrevo este texto para justificar ou explicar a minha posição, porque não precisa de justificação. Escrevo-o somente para partilhar o caminho que fiz até chegar a uma decisão, para partilhar as minhas opiniões sobre toda esta problemática, a minha posição e a minha opção de voto.

O que eu gostava mesmo...
...era ser como a Helena Vieira, da TSF. Pelo trabalho que fez na moderação dos debates acerca do referendo ao longo desta semana (e que acredito voltem a ficar online em arquivo após o dia 11).

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Da Grande Entrevista...
...ao cardeal José Policarpo e ao cientista Alexandre Quintanilha fica isto: já vai sendo altura de insonorizar o estúdio/local onde se faz aquele programa! Ele é telefones a tocar, martelos a martelar... Que raio.

sábado, 3 de fevereiro de 2007

A tirania do Blogger/Google obrigou-me a mudar para o "new blogger". Agora os comentários aparecem anônimos para os conhecidos e anônimos para os brasileiros. E outros bugs... A ver o que consigo resolver nos próximos dias.
Começo a ficar farto do Professor Marcelo...
... e da sua mania de confundir quem o ouve.

(...) Marcelo Rebelo de Sousa afirmou correr-se o risco, “se o sim ganhar”, de haver “luz verde para avançar” aquilo que designou o “sim” hard, ou seja, “poder alterar a lei para as 12, 14 semanas”.

Ora, a Lei Orgânica do Referendo expressa especificamente que, caso o referendo seja vinculativo, a AR tem de vançar com um “acto legislativo de sentido correspondente” à pergunta do referendo. A pergunta do referendo estipula que a despenilzação só é permitida “nas 10 primeiras semanas”.

É tão claro quanto isto.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Era isto que me faltava para decidir
Tecnologia à parte, outros indicadores dão a medida da diferença de estilo, de classe social, relativamente à comunidade do "sim", mais heterogénea e desmazelada. O beijo, por exemplo. Entre os grupos do "sim" prevalecem largamente os dois beijos na cara, sendo excepções um ou outro socialista beirão deslumbrado com o trato do jet set de Cascais e, de forma irregular, Paula Teixeira da Cruz. No "não", pelo contrário, só é admissível o beijo unifacial. Sem excepções. Sempre.


Prosa de primeira. Por Ricardo Dias Felner.
Posto isto, se o cumprimento do "sim" representa a tradição mais vulgarizada em Portugal, nesta matéria, que significado tem o beijo unifacial? É ele um beijo elitista? Serão as pessoas do "não" elitistas?Ora, não é a primeira vez que o beijo unifacial é usado para definir um dos lados da barricada, numa campanha eleitoral. Ele já foi referido nas campanhas do CDS-PP e do PSD, em anteriores referendos (regionalização e IVG), bem como em cerimónias várias envolvendo Santana Lopes. Na sequência desses textos, já houve quem se insurgisse contra estas generalizações, chamando-lhes sociologia de algibeira, preconceito ferroviário (contra a linha do Estoril) ou religioso. É certo que faltam estudos que permitam extrapolações mais rigorosas sobre a origem social e a conta bancária de quem assim beija. E que beijar assim não condena ninguém. Mas uma coisa parece indesmentível. Esse não é o cumprimento tradicional dos sindicalistas, nem dos utentes dos barcos da Soflusa, nem das empregadas domésticas, nem das lojistas do centro comercial de Odivelas, nem dos agricultores de Sobral de Monte Agraço.

(...)

E não há nem a preocupação, nem a habilidade, nem a serenidade política para escolher as pessoas mais dotadas para fazerem essa comunicação. Esta falha resulta, em boa medida, de quezílias antigas, decorrentes de conflitos históricos e pessoais entre as várias esquerdas no terreno. Há pessoas do PS que não se sentam na mesma sala com pessoas do Bloco de Esquerda; há pessoas do Movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim que não se sentam à mesma mesa com pessoas do Movimento Voto Sim; e há pessoas do PCP que não se sentam à mesma mesa com ninguém. Por outro lado, existirão também à esquerda muitos políticos querendo assumir protagonismo na matéria, o que não é mau em si. O problema é que se trata, quase sempre, de um protagonismo preguiçoso, displicente, aquém do empenho posto nas disputas partidárias, quer do ponto de vista táctico, quer do ponto de vista estratégico, quer do ponto de vista dos recursos e da retórica.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

O bolo de bolacha
Apesar de não ser o dia, ele sabia que áquela hora já estava no frigorífico e por isso exigiu falar com a cozinheira. A empregada julgou-o melindrado com alguma coisa e obedeceu prontamente, receosa. O nervosismo só lhe abandonou o rosto quando ouviu um muito sorridente «ó meu filho, então estás cá hoje e não dizias nada?» A sexta-feira é que é o dia do bolo de bolacha, mas na noite anterior a dona Olinda já o tem pronto, no frio, no escuro, gozando as suas primeiras e últimas horas de vida, e que vida, antes de se dasfazer em delícias nas barriguinhas, e que barriguinhas, dos comensais do último almoço da semana. «Claro que sim! Ó Isabel, enceta lá o bolo aqui para o Henrique. Que seja uma fatia grande, ouviste?», ordenou enquanto se sentava, para saber se tinha gostado das lulinhas, que «estavam boas, não estavam?», dele, do trabalho e de quando é que lhe apresentava a noiva que não tinha, ou então deve é trabalhar menos, olhar mais para as pernas delas e elogiá-las, as mulheres.

Já ninguém nos restaurantes faz bolo de bolacha como a dona Olinda, e mesmo ela só faz um, para aí com dois quilos, é certo, mas só um e que desaparece em menos de nada, todas as sextas-feiras. São camadas sobrepostas da melhor bolacha Maria, carinhosamente embebidas em café de grão moído na hora e arrefecido numa leiteira de porcelana, para não ganhar o sabor do alumínio, e depois coladas por um creme de açúcar e manteiga açoreana com sal, amarelinho. Demora várias horas a fazer e o castelo não fica tão bonito quanto saboroso. Mas, «dona Olinda, há semanas que sonhava com isto», confessou depois da primeira garfada e enquanto ela lhe dava uma palmada na mão que tinha estendida na mesa, como que apoiando-o para não cair com o arrepio de prazer por tão espantosa sobremesa, e antes de se levantar em desculpas porque tinha de voltar para a cozinha, mas que Henrique ficasse à vontade, «filho».

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

A metáfora dos lápis de cor
Hoje magoaste-me sozinho. Estava a fumar-te, um prazer que vou achando cada vez mais imbecil, e a escrever. Sozinho. E não dei pelo calor, pelo teu calor, frio de lâmina, junto aos meus dedos. Disparatei em surdina, para não parecer mal. Apaguei logo o que restava de ti e prometi não fumar mais. Nem mesmo amanhã, quando me apetecer muito. Prometi, hein!

Enquanto estava ocupado nesta discussão, neste promete e não cumpre, o sujeito da mesa em frente disse-me: «podem aumentar o preço quanto quiserem, que isso a mim não me impede… porque gosto…». Sorri-lhe, anuindo e soprando os dedos.

O João chegou, entretanto, e ao mesmo tempo que puxava para trás a cadeira onde se ia sentar: «Estive a ler o que me enviaste e a minha primeira opinião é que a metáfora dos lápis de cor é como a das escapatórias de gravilha das pistas de Fórmula 1. Não se ultrapassa, mas continua-se em prova. Ou em pista, que são duas coisas diferentes.» Não consegui responder-lhe de outra forma: «Queimei-me, foda-se!...»

domingo, 21 de janeiro de 2007

Rai's parta!
Interromperem-me sistematicamente quando estou a tentar escrever isto, quererá dizer alguma coisa?

sábado, 13 de janeiro de 2007

Dos homens... ou melhor, de alguns homens
acerca do aborto

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Fosse como fosse
Aniceto era taxativo: «eu sei onde é que está o “Big” Laden, hã? Eu sei, porque eu estive lá…». Era possível. Afinal, aos 60 anos de idade Aniceto já tinha viajado por 43 países diferentes. E estudos? Nenhuns. E para quê?

Alheios a tudo aquilo, ou não tanto, Leonel e Pedro continuavam jantando, bebendo aquele tinto e falando de amor, de trabalho, de coisas, e de amor — acabavam sempre lá. É que Leonel estava apaixonado e isso via-se nos seus olhos azuis, que desde há cinco dias tinham um brilho que, não sendo diferente, era maior e mais… bonito? Fosse como fosse.

Terminando o resto do café de um gole, Pedro encaixou a cigarrilha bem entre o início dos dedos, pegou no telefone e escreveu: «Perdoa-me dizer-te isto, mas hoje estavas tão bonita que me apeteceu passar-te a mão no rosto, ajeitar-te o cabelo e beijar-te a bochecha». Chegando à mesa com a conta paga e a factura na mão, Leonel perguntou: «então, que fazes?». «Asneiras», respondeu Pedro. «Acabei de pedir perdão».

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

(queria escrever um título mas, sinceramente, não consegui)
Tinha o El País em boa conta. Um jornal sério, de referência, de qualidade, pensei eu até há bocado. É que encontrei — por acaso, pois queria somente espreitar a capa de amanhã — no site do jornal o vídeo integral da execução de Saddam Hussein. Mais: os fotogramas que o jornal escolheu para assinalar o documento são, por demais, explícitos. O El Mundo também disponibiliza o vídeo, embora com link para o Google Vídeo, assim como quem diz «epá, os outros é que têm o vídeo, nós só apontamos o caminho ao leitor», atitude igualmente condenável, para mim. Já o El País fá-lo pelo sistema de vídeos próprio.

Desde que vi o cadáver de Jonas Savimbi fazer capa de jornal em Portugal, em 2002, e porque eu era mais novo, agora não me espanto amiúde. Usar a imagem de um cadáver para provar a morte é usual, na imprensa. Acontece com anónimos, com outros; aconteceu com os filhos de Saddam há dois anos e com o próprio Saddam, agora, para contextualizar.

Mas ao que não posso ficar indiferente e com o que não posso de forma alguma concordar é com a divulgação na imprensa, seja ela de onde for, de um vídeo ou fotografias de um homem pendurado numa forca, de pescoço partido, olhos e boca abertos. Seja quem for esse homem. Daí que — a quente, que este blogue é de instantâneos — condeno o jornal espanhol El País, pela divulgação do vídeo e pelos fotogramas escolhidos para assinalar o dito na primeira página do site e na página onde se pode vê-lo. Não há valores éticos, deontológicos, ou morais? Sequer de bom senso?


Eu divulgo a imagem para fazer prova, porque amanhã ou depois o website estará diferente...
Ele há coisas que não mudam, ou como entrar bem em 2007

O primeiro pequeno-almoço do ano, às 8h e qualquer coisa de dia 1, quando estava um nevoeiro do caneco ali em Belém.

Nos primeiros dias de cada ano repete-se a magia de gastar tempo preenchendo algumas páginas da agenda. Em avanço ficam concertos, festivais de cinema, um ou outro aniversário, os exames, uma viagem... Para 2007 optei pelo tamanho de bolso.

sábado, 30 de dezembro de 2006

Não te incomoda que Saddam Hussein tenha sido enforcado?
Da felicidade
Em “Câmara Clara”, programa de Paula Moura Pinheiro, aqui com João Pereira Coutinho e Ana Martins. Este é um dos melhores programas em emissão na TV portuguesa. Ver aqui.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Tsunami, Tim Roth e deitar tarde
A mini-série de dois episódios “Tsunami, the aftermath”, com a chancela da HBO, passou insuspeita e a más horas em duas noites desta semana na SIC. Apesar do receio de que se tratasse de mais uma dramatização com base em testemunhos reais a atirar para a lamechice, foi por ter visto o Tim Roth no ecrã e pensar «ena, então este tipo ainda mexe?», que me demorei a ver partes de ambos os episódios. E surpreendi-me.

Roth interpreta o papel de um jornalista de agência, um dos primeiros a chegar ao local onde se passa a história, uma localidade costeira tailandesa. É um sujeito sujo, seboso e mal-cheiroso, muito curioso e com faro, que prefere deixar as histórias banais aos outros, que são todos, e procurar as suas. Até certo ponto da série tem um colega fotojornalista, nativo, e é com ele que se dá o primeiro de alguns choques provocados pelo jornalista: Roth quer fotografias dos corpos sendo cremados em templos budistas, corpos que não tinham sido identificados, e o colega recusa-se, por respeito aos monges, à sua religião, à sua cultura. Primeiro ponto de interesse: o choque de civilizações. O que se deve sobrepôr? A tradição da libertação das almas, que é também uma medida de salubridade, ou o procedimento legal, ocidental?, de esperar pela identificação daquelas vítimas e proporcionar-lhes uma viagem até casa e um enterro?

Adiante Roth apercebe-se de dois factos, que questiona a uma representante de cadeia hoteleira ocidental: porque ficaram de pé as palmeiras e os hotéis foram arrasados? e porque estão já em campo escavadoras e equipas de trabalho limpando escombros, alisando as praias onde antes estavam hotéis, escassos dias após o tsunami? Está apontado o dedo: os hotéis não passam de “palhotas”, construções precárias, baratas, inseguras, cujo valor único é o de estar erigidas nas praias do paraíso. Mais: o que importa é reconstruir, e se se puder sacar mais umas terras às vítimas locais que não deixem herdeiros, tanto melhor. Negam? Não negaram.

O diplomata inglês, tipicamente de calça beje e camisa azul claro, chegou ao local bastante atarantado e ainda soltou uns «arranjem-me um chá», «vamos montar a base no hotel» ou «precisamos de um escritório com ar-condicionado». Saudades do consulado… Com o tempo, lá assentou os pés na terra e percebeu que tinha era de fazer qualquer coisa pelos sobreviventes. Constata-se: ninguém está, estava, preparado para agir em conformidade com o que se passou.

Os turistas, aparte o drama de terem perdido alguns dos seus mais próximos e de quererem, a todo o custo, ser levados dali com os sobreviventes feridos, passaram um retrato daquele tipo de turismo, que acho fiel, nunca o tendo feito. Não falam a língua, não querem saber dos nativos — que são quem os serve, quem lhes arruma o quarto e as malas, etc — e não os ajudam naquela situação, que é em tudo semelhante à deles — a série lá se apoia no personagem de um rapaz tailandês, paquete de hotel, e único sobrevivente em toda a sua família, par mostrar o “outro lado” da tragédia. Os turistas acenam com o dólar, altivos, e querem que tudo aconteça num ápice. Os turistas, se são a subsistência daquele tipo de economias, são também nojentos. É bonito ir lá, estar lá enquanto tudo corre bem, mas ao primeiro odor a esturro é vê-los gritar e virar costas. A exploração destes povos que turistas e fornecedores ocidentais deste tipo de serviços fazem na Tailândia, em África, em Cuba, em tanto sítio, enoja-me um bocado.

E mais não vi.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Foi ou não foi Zé Carlos? Pssshhht cala-te!
No final do encontro com o primeiro-ministro turco, Recep Erdogan, este afirmou que o Papa lhe tinha dito: “Desejamos que a Turquia faça parte da União Europeia.” Mas o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, corrigiu o que Bento XVI teria dito: “A Santa Sé olha positivamente e encoraja o caminho de diálogo, aproximação e integração” da Turquia na Europa, “na base de valores e de princípios comuns”.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Um Porto branco seco
Que se lembrasse, nunca lhe tinha acontecido uma mulher pedir-lhe o número de telefone. Muito menos ligar-lhe cinco minutos depois de ter saído. Rindo e convidando-o para um jantar, sexta-feira, na Casa do Algarve, no Chiado. Em grupo. Aceitou, claro. E deitou-se sorrindo, curioso.

Na tarde seguinte resolveu desafiá-la para uma odisseia vínica. O aniversário de Tiago, o amigo do peito, já tinha passado e ele não tinha conseguido comprar atempadamente o vinho que queria oferecer. Então reservou a tarde para correr algumas garrafeiras da cidade e quis levá-la consigo. Era um teste, sim. Conhecê-la um pouco melhor, os dois sozinhos num campo neutro, sem horários que não os do fecho das lojas, sem constrangimentos. Para ver que assuntos surgiam, para ver se ela gostava ser deixada passar primeiro, para ver como contribuía para o passeio sem programa, para ouvir o que dizia e de que forma reagiam os olhos dela aos seus filmes preferidos, discos repetidos, lugares mais queridos e se gostava do nome que ele já tinha escolhido para o primogénito, o que, aliás, era condição inegociável mas, descanse-se, pode não ser o primeiro nome. Para saber dela e dos seus. Para se mostrar, ele e os seus. E os sentimentos também.

Joaquim Pedro — e Pedro é apelido — era um rapaz introvertido até ficar confortável, até ficar seguro de si, até a falsa timidez desaparecer, que não era falsa porque fosse mentirosa, mas sim a primeira casca a sair logo que sentisse reciprocidade no contacto.

Começaram na Garrafeira de Campo de Ourique, ali próximo à rua Ferreira Borges. O bairro tinha gente, lojas de todos os tipos, eléctricos a passar, pastelarias à antiga e até uma vista sobre o rio, a ponte e o Cristo Rei. Se anoitecesse entretanto, as iluminações de Natal comporiam o cenário e nem estava muito frio. Quase perfeito. Só não o foi porque o vinho, que havia no armazém, como meia hora antes a mulher tinha afiançado, que podiam até ir beber um café e voltar logo para buscar, afinal não havia. Nem uma garrafa. «Eu sei que é desagradável perguntar, mas então e na concorrência? Pode indicar alguém aqui perto?...» Visivelmente melindrada, a mulher lá deu um número. «Pode ligar daqui», disse, virando o telefone do balcão na direcção de Joaquim. «Ora essa, não é necessário…» Quando ele saiu já Clara se ria, como aliás só ela, dona de um sorriso e de um riso encantadores, de tão genuínos.

Clara Menezes de Andrade, ou «Clara, como a água», que foi como se apresentou da primeira vez. Clara era da altura de Joaquim, tinha olhos castanhos e cabelo curto acima dos ombros, de uma cor acobreada, que Joaquim lamenta não conseguir descrever melhor, porque é manifestamente ignorante no assunto e as suas três irmãs têm todas o cabelo preto, a mãe é loira pintada, e mais longe que isso ele não vai. Acobreado, portanto. O corpo era robusto, pelo que Joaquim já tinha visto, embora não hoje, que Clara vestia um casaco cinzento até aos joelhos. Robusto no sentido oposto àqueles corpos franzinos de miúdas magras, mas não robusto de peso excessivo, nada disso. Seria mais na categoria de “ossos largos”, e por aqui se vê que Joaquim não é nenhum Eça e mete os pés pelas mãos nesta coisa das descrições. Contudo, não se duvide: era sensual, e não somente pelos seios pronunciados, como o Bernardo e outros dos seus amigos notavam, como que hipnotizados e bastante primários. As mãos — e Joaquim é um homem de mãos — eram grandes com dedos longos e para ele, numa palavra, bonitas. O resto, que era ainda o início, resumia-se assim: extrovertida, obstinada, noctívaga e louca a conduzir.

Antes tinham passado tempo numa pastelaria, de que nenhum recorda o nome, mas que tem um toldo verde e que fica numa esquina junto a um jardim. Que tem apenas três mesas com duas cadeiras cada, duas delas junto a janelas e a outra encostada a uma parede dos fundos. Dois balcões avançados até mais de meio da casa, duas senhoras e dois senhores atendendo, e reformados habituais comendo rapidamente e em pé. Bolos ou especialidades, não se sabe. Joaquim bebeu um café, cheio, e Clara um galão, que veio tão quente que escaldava os dedos e teve que ser mudado de copo. À mesa, falaram de percursos passados e da relação com os pais. Em boa verdade, falou sobretudo Joaquim, entusiasmado com as perguntas empenhadas que Clara lhe fazia. Aliás — e que fique registado —, foi ela quem puxou a conversa dos “ex” sem saber se havia alguma, porquanto não se conheciam tão bem, o que Joaquim interpretou, com bastante agrado, tratar-se de uma pergunta interessada.

Depois de caminhar pela rua e enquanto ele descobria ao telefone que a concorrência indicada pela mulher mal disposta também não tinha o vinho, Clara olhava modelos e fazia perguntas numa sapataria. No bairro há muitas e os sapatos são uma das suas predilecções. «Porque não tenho pezinhos de princesa é difícil encontrar o que me sirva e que eu goste», explicou. Não precisava, porque não aborrecia Joaquim. A paciência para compras com mulheres só lhe faltava em centros comerciais e quando a visita tinha esse único objectivo, que aí elas parecem sempre ligar um modo de funcionamento cego ao resto e magnetizado em provadores e coisas assim. «Tenho de voltar cá» foi a deixa que confirmou: ela tinha gostado.

«Disseram-me que na João XXI há uma boa garrafeira e é possível que tenham. Vamos lá?» Ela, mais prática, preferia telefonar a perguntar. Mas acedeu. Mais do que uma garrafa de Apitiv, um Porto branco seco da casa Sandeman, que Joaquim agora já sabe que deixou de ser produzido e a haver será apenas em fundos de stock, o que ambos procuravam era passar um bom pedaço de tempo.

Pelo caminho, no carro, e para além do susto que Clara apanhou quando um sujeito recuou incauto do mau estacionamento para o meio da rua e Joaquim guinou para a esquerda buzinando, mesmo entalado por um Audi prateado que vinha desejoso de o ultrapassar, falaram de música. O Rui Veloso é que escreveu que «não se ama alguém que não ouve a mesma canção» e se fossem por aí, Clara e Joaquim estavam tramados. Mas quem é que falou em amor? Por agora, esse é como o vinho: não há em lado nenhum.