terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Era isto que me faltava para decidir
Tecnologia à parte, outros indicadores dão a medida da diferença de estilo, de classe social, relativamente à comunidade do "sim", mais heterogénea e desmazelada. O beijo, por exemplo. Entre os grupos do "sim" prevalecem largamente os dois beijos na cara, sendo excepções um ou outro socialista beirão deslumbrado com o trato do jet set de Cascais e, de forma irregular, Paula Teixeira da Cruz. No "não", pelo contrário, só é admissível o beijo unifacial. Sem excepções. Sempre.


Prosa de primeira. Por Ricardo Dias Felner.
Posto isto, se o cumprimento do "sim" representa a tradição mais vulgarizada em Portugal, nesta matéria, que significado tem o beijo unifacial? É ele um beijo elitista? Serão as pessoas do "não" elitistas?Ora, não é a primeira vez que o beijo unifacial é usado para definir um dos lados da barricada, numa campanha eleitoral. Ele já foi referido nas campanhas do CDS-PP e do PSD, em anteriores referendos (regionalização e IVG), bem como em cerimónias várias envolvendo Santana Lopes. Na sequência desses textos, já houve quem se insurgisse contra estas generalizações, chamando-lhes sociologia de algibeira, preconceito ferroviário (contra a linha do Estoril) ou religioso. É certo que faltam estudos que permitam extrapolações mais rigorosas sobre a origem social e a conta bancária de quem assim beija. E que beijar assim não condena ninguém. Mas uma coisa parece indesmentível. Esse não é o cumprimento tradicional dos sindicalistas, nem dos utentes dos barcos da Soflusa, nem das empregadas domésticas, nem das lojistas do centro comercial de Odivelas, nem dos agricultores de Sobral de Monte Agraço.

(...)

E não há nem a preocupação, nem a habilidade, nem a serenidade política para escolher as pessoas mais dotadas para fazerem essa comunicação. Esta falha resulta, em boa medida, de quezílias antigas, decorrentes de conflitos históricos e pessoais entre as várias esquerdas no terreno. Há pessoas do PS que não se sentam na mesma sala com pessoas do Bloco de Esquerda; há pessoas do Movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim que não se sentam à mesma mesa com pessoas do Movimento Voto Sim; e há pessoas do PCP que não se sentam à mesma mesa com ninguém. Por outro lado, existirão também à esquerda muitos políticos querendo assumir protagonismo na matéria, o que não é mau em si. O problema é que se trata, quase sempre, de um protagonismo preguiçoso, displicente, aquém do empenho posto nas disputas partidárias, quer do ponto de vista táctico, quer do ponto de vista estratégico, quer do ponto de vista dos recursos e da retórica.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

O bolo de bolacha
Apesar de não ser o dia, ele sabia que áquela hora já estava no frigorífico e por isso exigiu falar com a cozinheira. A empregada julgou-o melindrado com alguma coisa e obedeceu prontamente, receosa. O nervosismo só lhe abandonou o rosto quando ouviu um muito sorridente «ó meu filho, então estás cá hoje e não dizias nada?» A sexta-feira é que é o dia do bolo de bolacha, mas na noite anterior a dona Olinda já o tem pronto, no frio, no escuro, gozando as suas primeiras e últimas horas de vida, e que vida, antes de se dasfazer em delícias nas barriguinhas, e que barriguinhas, dos comensais do último almoço da semana. «Claro que sim! Ó Isabel, enceta lá o bolo aqui para o Henrique. Que seja uma fatia grande, ouviste?», ordenou enquanto se sentava, para saber se tinha gostado das lulinhas, que «estavam boas, não estavam?», dele, do trabalho e de quando é que lhe apresentava a noiva que não tinha, ou então deve é trabalhar menos, olhar mais para as pernas delas e elogiá-las, as mulheres.

Já ninguém nos restaurantes faz bolo de bolacha como a dona Olinda, e mesmo ela só faz um, para aí com dois quilos, é certo, mas só um e que desaparece em menos de nada, todas as sextas-feiras. São camadas sobrepostas da melhor bolacha Maria, carinhosamente embebidas em café de grão moído na hora e arrefecido numa leiteira de porcelana, para não ganhar o sabor do alumínio, e depois coladas por um creme de açúcar e manteiga açoreana com sal, amarelinho. Demora várias horas a fazer e o castelo não fica tão bonito quanto saboroso. Mas, «dona Olinda, há semanas que sonhava com isto», confessou depois da primeira garfada e enquanto ela lhe dava uma palmada na mão que tinha estendida na mesa, como que apoiando-o para não cair com o arrepio de prazer por tão espantosa sobremesa, e antes de se levantar em desculpas porque tinha de voltar para a cozinha, mas que Henrique ficasse à vontade, «filho».

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

A metáfora dos lápis de cor
Hoje magoaste-me sozinho. Estava a fumar-te, um prazer que vou achando cada vez mais imbecil, e a escrever. Sozinho. E não dei pelo calor, pelo teu calor, frio de lâmina, junto aos meus dedos. Disparatei em surdina, para não parecer mal. Apaguei logo o que restava de ti e prometi não fumar mais. Nem mesmo amanhã, quando me apetecer muito. Prometi, hein!

Enquanto estava ocupado nesta discussão, neste promete e não cumpre, o sujeito da mesa em frente disse-me: «podem aumentar o preço quanto quiserem, que isso a mim não me impede… porque gosto…». Sorri-lhe, anuindo e soprando os dedos.

O João chegou, entretanto, e ao mesmo tempo que puxava para trás a cadeira onde se ia sentar: «Estive a ler o que me enviaste e a minha primeira opinião é que a metáfora dos lápis de cor é como a das escapatórias de gravilha das pistas de Fórmula 1. Não se ultrapassa, mas continua-se em prova. Ou em pista, que são duas coisas diferentes.» Não consegui responder-lhe de outra forma: «Queimei-me, foda-se!...»

domingo, 21 de janeiro de 2007

Rai's parta!
Interromperem-me sistematicamente quando estou a tentar escrever isto, quererá dizer alguma coisa?

sábado, 13 de janeiro de 2007

Dos homens... ou melhor, de alguns homens
acerca do aborto

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Fosse como fosse
Aniceto era taxativo: «eu sei onde é que está o “Big” Laden, hã? Eu sei, porque eu estive lá…». Era possível. Afinal, aos 60 anos de idade Aniceto já tinha viajado por 43 países diferentes. E estudos? Nenhuns. E para quê?

Alheios a tudo aquilo, ou não tanto, Leonel e Pedro continuavam jantando, bebendo aquele tinto e falando de amor, de trabalho, de coisas, e de amor — acabavam sempre lá. É que Leonel estava apaixonado e isso via-se nos seus olhos azuis, que desde há cinco dias tinham um brilho que, não sendo diferente, era maior e mais… bonito? Fosse como fosse.

Terminando o resto do café de um gole, Pedro encaixou a cigarrilha bem entre o início dos dedos, pegou no telefone e escreveu: «Perdoa-me dizer-te isto, mas hoje estavas tão bonita que me apeteceu passar-te a mão no rosto, ajeitar-te o cabelo e beijar-te a bochecha». Chegando à mesa com a conta paga e a factura na mão, Leonel perguntou: «então, que fazes?». «Asneiras», respondeu Pedro. «Acabei de pedir perdão».

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

(queria escrever um título mas, sinceramente, não consegui)
Tinha o El País em boa conta. Um jornal sério, de referência, de qualidade, pensei eu até há bocado. É que encontrei — por acaso, pois queria somente espreitar a capa de amanhã — no site do jornal o vídeo integral da execução de Saddam Hussein. Mais: os fotogramas que o jornal escolheu para assinalar o documento são, por demais, explícitos. O El Mundo também disponibiliza o vídeo, embora com link para o Google Vídeo, assim como quem diz «epá, os outros é que têm o vídeo, nós só apontamos o caminho ao leitor», atitude igualmente condenável, para mim. Já o El País fá-lo pelo sistema de vídeos próprio.

Desde que vi o cadáver de Jonas Savimbi fazer capa de jornal em Portugal, em 2002, e porque eu era mais novo, agora não me espanto amiúde. Usar a imagem de um cadáver para provar a morte é usual, na imprensa. Acontece com anónimos, com outros; aconteceu com os filhos de Saddam há dois anos e com o próprio Saddam, agora, para contextualizar.

Mas ao que não posso ficar indiferente e com o que não posso de forma alguma concordar é com a divulgação na imprensa, seja ela de onde for, de um vídeo ou fotografias de um homem pendurado numa forca, de pescoço partido, olhos e boca abertos. Seja quem for esse homem. Daí que — a quente, que este blogue é de instantâneos — condeno o jornal espanhol El País, pela divulgação do vídeo e pelos fotogramas escolhidos para assinalar o dito na primeira página do site e na página onde se pode vê-lo. Não há valores éticos, deontológicos, ou morais? Sequer de bom senso?


Eu divulgo a imagem para fazer prova, porque amanhã ou depois o website estará diferente...
Ele há coisas que não mudam, ou como entrar bem em 2007

O primeiro pequeno-almoço do ano, às 8h e qualquer coisa de dia 1, quando estava um nevoeiro do caneco ali em Belém.

Nos primeiros dias de cada ano repete-se a magia de gastar tempo preenchendo algumas páginas da agenda. Em avanço ficam concertos, festivais de cinema, um ou outro aniversário, os exames, uma viagem... Para 2007 optei pelo tamanho de bolso.

sábado, 30 de dezembro de 2006

Não te incomoda que Saddam Hussein tenha sido enforcado?
Da felicidade
Em “Câmara Clara”, programa de Paula Moura Pinheiro, aqui com João Pereira Coutinho e Ana Martins. Este é um dos melhores programas em emissão na TV portuguesa. Ver aqui.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Tsunami, Tim Roth e deitar tarde
A mini-série de dois episódios “Tsunami, the aftermath”, com a chancela da HBO, passou insuspeita e a más horas em duas noites desta semana na SIC. Apesar do receio de que se tratasse de mais uma dramatização com base em testemunhos reais a atirar para a lamechice, foi por ter visto o Tim Roth no ecrã e pensar «ena, então este tipo ainda mexe?», que me demorei a ver partes de ambos os episódios. E surpreendi-me.

Roth interpreta o papel de um jornalista de agência, um dos primeiros a chegar ao local onde se passa a história, uma localidade costeira tailandesa. É um sujeito sujo, seboso e mal-cheiroso, muito curioso e com faro, que prefere deixar as histórias banais aos outros, que são todos, e procurar as suas. Até certo ponto da série tem um colega fotojornalista, nativo, e é com ele que se dá o primeiro de alguns choques provocados pelo jornalista: Roth quer fotografias dos corpos sendo cremados em templos budistas, corpos que não tinham sido identificados, e o colega recusa-se, por respeito aos monges, à sua religião, à sua cultura. Primeiro ponto de interesse: o choque de civilizações. O que se deve sobrepôr? A tradição da libertação das almas, que é também uma medida de salubridade, ou o procedimento legal, ocidental?, de esperar pela identificação daquelas vítimas e proporcionar-lhes uma viagem até casa e um enterro?

Adiante Roth apercebe-se de dois factos, que questiona a uma representante de cadeia hoteleira ocidental: porque ficaram de pé as palmeiras e os hotéis foram arrasados? e porque estão já em campo escavadoras e equipas de trabalho limpando escombros, alisando as praias onde antes estavam hotéis, escassos dias após o tsunami? Está apontado o dedo: os hotéis não passam de “palhotas”, construções precárias, baratas, inseguras, cujo valor único é o de estar erigidas nas praias do paraíso. Mais: o que importa é reconstruir, e se se puder sacar mais umas terras às vítimas locais que não deixem herdeiros, tanto melhor. Negam? Não negaram.

O diplomata inglês, tipicamente de calça beje e camisa azul claro, chegou ao local bastante atarantado e ainda soltou uns «arranjem-me um chá», «vamos montar a base no hotel» ou «precisamos de um escritório com ar-condicionado». Saudades do consulado… Com o tempo, lá assentou os pés na terra e percebeu que tinha era de fazer qualquer coisa pelos sobreviventes. Constata-se: ninguém está, estava, preparado para agir em conformidade com o que se passou.

Os turistas, aparte o drama de terem perdido alguns dos seus mais próximos e de quererem, a todo o custo, ser levados dali com os sobreviventes feridos, passaram um retrato daquele tipo de turismo, que acho fiel, nunca o tendo feito. Não falam a língua, não querem saber dos nativos — que são quem os serve, quem lhes arruma o quarto e as malas, etc — e não os ajudam naquela situação, que é em tudo semelhante à deles — a série lá se apoia no personagem de um rapaz tailandês, paquete de hotel, e único sobrevivente em toda a sua família, par mostrar o “outro lado” da tragédia. Os turistas acenam com o dólar, altivos, e querem que tudo aconteça num ápice. Os turistas, se são a subsistência daquele tipo de economias, são também nojentos. É bonito ir lá, estar lá enquanto tudo corre bem, mas ao primeiro odor a esturro é vê-los gritar e virar costas. A exploração destes povos que turistas e fornecedores ocidentais deste tipo de serviços fazem na Tailândia, em África, em Cuba, em tanto sítio, enoja-me um bocado.

E mais não vi.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Foi ou não foi Zé Carlos? Pssshhht cala-te!
No final do encontro com o primeiro-ministro turco, Recep Erdogan, este afirmou que o Papa lhe tinha dito: “Desejamos que a Turquia faça parte da União Europeia.” Mas o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, corrigiu o que Bento XVI teria dito: “A Santa Sé olha positivamente e encoraja o caminho de diálogo, aproximação e integração” da Turquia na Europa, “na base de valores e de princípios comuns”.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Um Porto branco seco
Que se lembrasse, nunca lhe tinha acontecido uma mulher pedir-lhe o número de telefone. Muito menos ligar-lhe cinco minutos depois de ter saído. Rindo e convidando-o para um jantar, sexta-feira, na Casa do Algarve, no Chiado. Em grupo. Aceitou, claro. E deitou-se sorrindo, curioso.

Na tarde seguinte resolveu desafiá-la para uma odisseia vínica. O aniversário de Tiago, o amigo do peito, já tinha passado e ele não tinha conseguido comprar atempadamente o vinho que queria oferecer. Então reservou a tarde para correr algumas garrafeiras da cidade e quis levá-la consigo. Era um teste, sim. Conhecê-la um pouco melhor, os dois sozinhos num campo neutro, sem horários que não os do fecho das lojas, sem constrangimentos. Para ver que assuntos surgiam, para ver se ela gostava ser deixada passar primeiro, para ver como contribuía para o passeio sem programa, para ouvir o que dizia e de que forma reagiam os olhos dela aos seus filmes preferidos, discos repetidos, lugares mais queridos e se gostava do nome que ele já tinha escolhido para o primogénito, o que, aliás, era condição inegociável mas, descanse-se, pode não ser o primeiro nome. Para saber dela e dos seus. Para se mostrar, ele e os seus. E os sentimentos também.

Joaquim Pedro — e Pedro é apelido — era um rapaz introvertido até ficar confortável, até ficar seguro de si, até a falsa timidez desaparecer, que não era falsa porque fosse mentirosa, mas sim a primeira casca a sair logo que sentisse reciprocidade no contacto.

Começaram na Garrafeira de Campo de Ourique, ali próximo à rua Ferreira Borges. O bairro tinha gente, lojas de todos os tipos, eléctricos a passar, pastelarias à antiga e até uma vista sobre o rio, a ponte e o Cristo Rei. Se anoitecesse entretanto, as iluminações de Natal comporiam o cenário e nem estava muito frio. Quase perfeito. Só não o foi porque o vinho, que havia no armazém, como meia hora antes a mulher tinha afiançado, que podiam até ir beber um café e voltar logo para buscar, afinal não havia. Nem uma garrafa. «Eu sei que é desagradável perguntar, mas então e na concorrência? Pode indicar alguém aqui perto?...» Visivelmente melindrada, a mulher lá deu um número. «Pode ligar daqui», disse, virando o telefone do balcão na direcção de Joaquim. «Ora essa, não é necessário…» Quando ele saiu já Clara se ria, como aliás só ela, dona de um sorriso e de um riso encantadores, de tão genuínos.

Clara Menezes de Andrade, ou «Clara, como a água», que foi como se apresentou da primeira vez. Clara era da altura de Joaquim, tinha olhos castanhos e cabelo curto acima dos ombros, de uma cor acobreada, que Joaquim lamenta não conseguir descrever melhor, porque é manifestamente ignorante no assunto e as suas três irmãs têm todas o cabelo preto, a mãe é loira pintada, e mais longe que isso ele não vai. Acobreado, portanto. O corpo era robusto, pelo que Joaquim já tinha visto, embora não hoje, que Clara vestia um casaco cinzento até aos joelhos. Robusto no sentido oposto àqueles corpos franzinos de miúdas magras, mas não robusto de peso excessivo, nada disso. Seria mais na categoria de “ossos largos”, e por aqui se vê que Joaquim não é nenhum Eça e mete os pés pelas mãos nesta coisa das descrições. Contudo, não se duvide: era sensual, e não somente pelos seios pronunciados, como o Bernardo e outros dos seus amigos notavam, como que hipnotizados e bastante primários. As mãos — e Joaquim é um homem de mãos — eram grandes com dedos longos e para ele, numa palavra, bonitas. O resto, que era ainda o início, resumia-se assim: extrovertida, obstinada, noctívaga e louca a conduzir.

Antes tinham passado tempo numa pastelaria, de que nenhum recorda o nome, mas que tem um toldo verde e que fica numa esquina junto a um jardim. Que tem apenas três mesas com duas cadeiras cada, duas delas junto a janelas e a outra encostada a uma parede dos fundos. Dois balcões avançados até mais de meio da casa, duas senhoras e dois senhores atendendo, e reformados habituais comendo rapidamente e em pé. Bolos ou especialidades, não se sabe. Joaquim bebeu um café, cheio, e Clara um galão, que veio tão quente que escaldava os dedos e teve que ser mudado de copo. À mesa, falaram de percursos passados e da relação com os pais. Em boa verdade, falou sobretudo Joaquim, entusiasmado com as perguntas empenhadas que Clara lhe fazia. Aliás — e que fique registado —, foi ela quem puxou a conversa dos “ex” sem saber se havia alguma, porquanto não se conheciam tão bem, o que Joaquim interpretou, com bastante agrado, tratar-se de uma pergunta interessada.

Depois de caminhar pela rua e enquanto ele descobria ao telefone que a concorrência indicada pela mulher mal disposta também não tinha o vinho, Clara olhava modelos e fazia perguntas numa sapataria. No bairro há muitas e os sapatos são uma das suas predilecções. «Porque não tenho pezinhos de princesa é difícil encontrar o que me sirva e que eu goste», explicou. Não precisava, porque não aborrecia Joaquim. A paciência para compras com mulheres só lhe faltava em centros comerciais e quando a visita tinha esse único objectivo, que aí elas parecem sempre ligar um modo de funcionamento cego ao resto e magnetizado em provadores e coisas assim. «Tenho de voltar cá» foi a deixa que confirmou: ela tinha gostado.

«Disseram-me que na João XXI há uma boa garrafeira e é possível que tenham. Vamos lá?» Ela, mais prática, preferia telefonar a perguntar. Mas acedeu. Mais do que uma garrafa de Apitiv, um Porto branco seco da casa Sandeman, que Joaquim agora já sabe que deixou de ser produzido e a haver será apenas em fundos de stock, o que ambos procuravam era passar um bom pedaço de tempo.

Pelo caminho, no carro, e para além do susto que Clara apanhou quando um sujeito recuou incauto do mau estacionamento para o meio da rua e Joaquim guinou para a esquerda buzinando, mesmo entalado por um Audi prateado que vinha desejoso de o ultrapassar, falaram de música. O Rui Veloso é que escreveu que «não se ama alguém que não ouve a mesma canção» e se fossem por aí, Clara e Joaquim estavam tramados. Mas quem é que falou em amor? Por agora, esse é como o vinho: não há em lado nenhum.

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Koop @ Casino Lisboa
A proposta era atraente: os suecos Koop, em Lisboa, para rodar o novíssimo terceiro disco, “Islands”. Lá fui, ontem.

O espaço Arena Lounge do Casino Lisboa é muito acanhado e encheu rapidamente, por certo pela entrada gratuita. O que pôs a nú as más condições do local: a circulação de pessoas era extremamente difícil, como sardinhas em lata, sendo impossível mexer-se fosse para que lado fosse (óptimo, contudo, para engatar gajas… eu e a quarentona afiançamo-lo… e tenho testemunhas! :P), deixando antever que em caso de alguma emergência serão muitos os espezinhados e esmagados — num edifício moderno, senhores? caramba!... O som também estava baixo e mal ajustado às características dos instrumentos acústicos, sobretudo do contrabaixo. Mas lá ultrapassámos o desconforto, vendo a banda por detrás de uma escadaria, meio agachados…

Ao longo de hora e meia ouviram-se temas dos três álbuns, “Sons of Koop” (1997), “Waltz for Koop” (2002) e “Islands” (Nov 2006), numa performance muito equilibrada, quiçá sem grandes rasgos. Yukimi Nagano esteve muito bem, quase sem diferença vocal para os discos, entrando e saindo de palco conforme os temas. O baterista ainda solou, e bem. O homem do vibrafone foi preponderante. O contrabaixo perdeu pela má afinação do som. O trombonista prestou um bom serviço. A dupla de maestros Oscar Simonsson e Magnus Zingmark, não obstante os vestidinhos de alças e a maquilhagem à Conde Redondo, fez o que se lhe pedia: sem pregos, os samples foram entrando à hora certa, tudo bem equalizado e irrepreensível.

Ficam, no entanto, duas impressões. Primeira, falta aos Koop alguma garra de palco, não descartando a hipótese de o espaço esquisito (um palco elevado, como uma varanda) e a audiência dispersa por dois pisos e um bar, ter causado desconforto e impedido a ligação a recinto e público. Segundo, ter um conjunto de metais em palco, em vez de ter os segundos instrumentos samplados, seria sem qualquer dúvida uma grande mais-valia para o grupo.

Os Koop são mais um nome que reforça o que venho dizendo há anos: as escolas de jazz, música electrónica e experimentações fusionistas do Norte da Europa são do mais interessante que o jazz do velho continente tem para oferecer.

P.S.: Alguém exige que eu refira que ficou apaixonado pela Yukimi Nagano...

domingo, 10 de dezembro de 2006

«Arrastão mantém-se submerso em Setúbal»
Público, 07Dez2006

Depois de Carcavelos, os tipos estão só à espera que chegue o bom tempo e que a Trói(k)a do Belmiro esteja concluída, para atacarem de novo. Espertos.

sábado, 9 de dezembro de 2006

«Vendo-me manietada pelo capanga, deu-me dois estalos»
(…) Jorge e Carolina conheceram-se no Calor da Noite, casa de alterne do Porto onde a mulher de 22 anos tentava arranjar sustento para os dois filhos. Apaixonaram-se ao som de Sting, passaram a primeira noite juntos num hotel em Espanha e Carolina mostra no livro os bilhetes de amor que o presidente lhe escreveu: “Giorgio love Carolina”. E revela que gostava de frango com ovos e ‘cafuné’ para adormecer.

Só gostava de saber como foi possível a Rui Gustavo escrever isto (Expresso, 08Dez2006) por entre os espasmos de gargalhadas daquelas de rebolar no soalho. Ou não? Eu, pelo menos, dei espectáculo no café…

domingo, 3 de dezembro de 2006

Assim como quem assinala o terceiro aniversário do Pudim, que foi algures em Novembro, há novidades aí à direita. Poucas, mas há...

sábado, 2 de dezembro de 2006

Volta Pierce Brosnan, estás perdoado
Fui ver o «007 - Casino Royale» desprendido de preconceitos, sem expectativas e sem ter lido críticas. Resultado? Fraquinho.

Por muito que se tenha esforçado, Daniel Craig não conseguiu ser um Bond. Achei-o demasiado musculado, com um rosto muito duro, uma expressão de severidade — ou pretensa severidade? — muito marcada, com um puro sotaque inglês inexistente e um fato que simplesmente não lhe assenta. E a Bond girl também não me encheu as medidas... É gira e tal...

Por outro lado, os argumentistas e o realizador (?) deixaram cair trechos fundamentais num 007: então o James não quer saber se o seu Martini é mexido ou agitado? então a deixa “Bond, James Bond” aparece só no final? então o Aston Martin fica destruido — e muito bem destruido, diga-se, que a cena do capotamento é fenomenal — sem fazer uma perseguição digna desse nome? Pá...

Contudo, tenho que reconhecer que houve momentos em que o filme me prendeu. Mas... Pois.

Para mim há dois Bond: o Sean Connery e o Pierce Brosnan. E daqui não saio.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

«É como um turbilhão, Fazendo uma miséria...»
Ainda hoje não me entendo, não sei porque acordei assim uma manhã que não teve nada de especial, além de assinalar isto. «Vivo», pensei, sorrindo.

Hoje, que já passou tempo, perco o sorriso de cada vez que leio o que escreveste. E entristece-me que assim seja, pois devia ficar feliz.

Não há explicação para me sentir cheio ao olhar-te. Não há explicação para querer tocar-te. Não há explicação para querer fazer-te sorrir. Não há explicação para o aperto no estômago quando chegavas. Não há explicação para o nervoso miudinho quando ias. Não há explicação para as falhas de comunicação disparatadas. Não há explicação para ficar chateado com elas. Só há explicação para isto, agora. E é tremendamente simples. De uma linearidade incómoda.

É como diz o Chico.

sábado, 18 de novembro de 2006

Detesto que os senhores que gerem a rede wireless da universidade bloqueiem o Messenger e o streaming de rádio (queria ouvir o Álvaro) ou de TV (queria recuperar a Paula), ou seja lá do que for! Nos computadores fixos da instituição, tudo bem. Mas se existe wireless para usar com os computadores pessoais de cada um, não metam o bedelho, ok? F***-se!
Detesto não conseguir escrever.

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

Perdidos na cidade
A porta está colocada a meio da parede da sala rectangular. Em frente as janelas e portadas de madeira escura estão fechadas. O cheiro é húmido, a mofo, do tempo que tudo esteve fechado? O tecto de estuque bem acabado e à antiga está amarelecido e remendado. No soalho encontram-se, à esquerda e à direita, conjuntos de sapatos usados, dispostos em pares, geometricamente. De mulheres, homens e crianças. Nas paredes de topo, imagens. À esquerda um televisor mostra vídeos institucionais de promoção ao recrutamento militar — canadianos (os tipos que não trancam a porta de casa), israelitas, paquistaneses (ritmo marcha militar com arranjo bollywood), de empresas privadas de armamento norte-americanas, tudo sonorizado. À direita uma tela amarrotada reflecte sequências mudas de bombardeamentos, manobras de aviões, desembarques aéreos de tanques blindados, o icónico verde da CNN naqueles dias em 1991. À esquerda e à direita, o elogio do belicismo. No chão, as vítimas.

Encontrámos a Casa d’Os Dias da Água no final de um dia que me foi cinzento. O pretexto? “Teatros de Guerra”, de Thomas Walgrave, até 12 Nov. Da instalação de três salas, destaco — e acho que tu também — a segunda. Esta. Mas Walgrave também compõe «alguns dos paradoxos que decorrem das situações de guerra, utilizando para isso textos (convenções, resoluções da ONU, tratados de paz) e material de vídeo (spots publicitários do construtor aéreo Macdonald-Douglas, imagens de bombardeamentos de precisão), que depois relaciona com meios populares de marketing, como t-shirts

A Casa d’Os Dias da Água fica no n.º 175 da rua D. Estefânia e é um espaço de utilizações múltiplas pela companhia Sensurround e outras. Hoje teve problemas de energia e as luzes apagaram-se a espaços, mas não fez mal. Ao lado e nas traseiras, o Basta – café jardim, muito curioso.

A ti, gostava de lá te ter levado. Quando?

terça-feira, 31 de outubro de 2006


Se soprar muito o balão amarelo rebenta na cara com um estalo seco. Sem aviso. E não como as bolas de sabão, que fazem ‘puf’. É com um estalo seco.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Três quartos que ontem sairam da sala sorrindo
ou a continuação do (meu) DocLisboa
Há filmes que têm o dom de nos fazer sair da sala sorrindo. “La Consultation” é um deles. O clínico geral Luc Perino é tão mais que um médico e a medicina, como ele diz, é o bocal do funil onde desemboca toda a sociedade. Por isso ele é urologista, psicólogo, obstetra, ginecologista, pai e mãe, filho, conselheiro.

Com um sentido de humor refinado, Luc Perino dá vida ao que podiam ser histórias banais e algumas vezes tristes. A do esquizofrénico, a do jovem casal que vai ter um filho: «Está grávida? Então parabéns! Ou… ou não?». A da rapariga que chega com os sintomas e o diagnóstico e o tratamento já na ponta da língua: «Então adeus. Porque veio cá?». A da senhora de 76 anos que pensa em suicidar-se desde que foi viver para um lar de idosos, a do alcoólico que não tem na mulher o incentivo que diz precisar para parar de beber, a da rapariga que a uma semana das férias do call-center vai pedir um atestado de doença para semanas porque não aguenta mais o ritmo de trabalho: «Trabalha há um ano… Então e como vão ser os próximos 40?» A da mulher que o consulta para “ir às compras” com a sua extensa lista de prescrições: «Mais alguma coisa?».

O filme de Hélène de Crécy, incluido na competição internacional, foi visionado por um auditório a três quartos. Três quartos que ontem sairam da sala sorrindo. E isso é certo.

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Três bons filmes ou o (meu) DocLisboa até agora
DocLisboa 2006 termina no próximo domingo, 29 Out. Decorre na Culturgest.

“The Emperor’s Naked Army Marches On” foi a primeira agradável surpresa do DocLisboa. Neste documentário do japonês Kazuo Hara, filmado entre 1982 e 1987, somos levados a entrar na vida de Okuzaki Kenzo, soldado sobrevivente da II Guerra Mundial, do teatro de operações da Nova Guiné, e na sua obsessiva busca de provas que responsabilizem o império japonês por mortes obscuras de soldados seus compatriotas.

Na Nova Guiné, já no final do conflito, as tropas japonesas foram deixadas a morrer à fome, cenário que deu origem a episódios de canibalismo entre camaradas militares — os soldados rasos eram sacrificados. Ou então, dias depois de finda a guerra, soldados dados como desertores eram executados sem julgamento.

Kenzo procura oficiais na reforma, envelhecidos como ele, e arranca-lhes — sim, arranca, porque chega a usar a violência — depoimentos que confirmam as suas suspeitas.

São vários os aspectos que acho interessantes na fita. Por um lado os factos escabrosos que apresenta, e que eu desconhecia. Por outro, relembra o que é a guerra, qualquer guerra: horror indescritível. É também um estimulante retrato da complexa sociedade japonesa, embebida numa cultura imperial há milénios, complexidade essa que encontro na relação e respeito pelos espaços privados, ou na honradez dos extensos cumprimentos, ou no brio com que Kenzo pede desculpa àquele que momentos antes agrediu, ou na cuidadosa e respeitadora acção das autoridades quando são chamadas a intervir nos desacatos e manifestações solitárias que Kenzo promove.


“Logo Existo”, de Graça Castanheira, apresentou-se em estreia absoluta num Grande Auditório que creio ter esgotado. A minha expectativa pessoal acerca da fita era elevada. De facto, desde as declarações pretensiosas e arrogantes — e francas e realistas? — que ouvi da realizadora aquando do festival Panorama – Mostra de Documentário Português, em Janeiro último, que vinha esperando que as corroborasse com trabalho vivo. E isso aconteceu ontem, com “Logo Existo”. Tecnicamente excelente e irrepreensível, interessante na abordagem ao tema, maduro na realização, ao filme bati palmas com prazer.

“Logo Existo” parte de histórias de renascimento após acidente vascular cerebral e toca assuntos relacionados com o estudo da mente e a relação que com ele têm a religião e filosofia, incluindo ainda algumas notas informativas — à falta de melhor palavra… — sobre neurobiologia.

Pessoalmente, a fita agoniou-me em vários momentos. A possibilidade real de um AVC aos 30 anos assusta qualquer um, e a quem, por vezes, salta noites, bebe mais café que o estritamente necessário ao gosto, corre em horários, etc e tal, ainda dá mais motivos para pensar. Merece ser visto. (acredito que passe na TV em breve)


“Sisters in Law” chegou premiado a Lisboa. Prémio do público no festival de cinema documental de Amesterdão, prémio CICAE em Cannes, e nomeação para melhor documentário britânico nos British Independent Film Awards, tudo em 2005.

O filme de Florence Ayisi e Kim Longinotto retrata duas juristas camaronesas que executam a lei e a justiça num contexto marcado pela tradição, abuso e violência, sobre as mulheres e as crianças.

Agradou-me o olhar pelo emaranhado cultural (social, religioso), que espelha muitos dos países africanos, a questão do poder nas mãos das mulheres — não tendo ainda chegado à política, são elas que tocam o país para a frente nos cargos de poder que ocupam —, e o relembrar da desestruturação transversal que grassa em África.


O DocLisboa continua amanhã.

sábado, 21 de outubro de 2006

Uma semana
Daquelas que são para esquecer ou recordar. Como a revista, que vai ficar na memória, sem qualquer dúvida. Um fecho improvável, trabalho violento, um gozo tremendo e uma aprendizagem de valor incalculável. Foi sempre assim, caramba. E a vós devo tudo isso.

Já à chuva quero cobrar o cinzentismo dos dias e do humor. Caraças, tinhas que chegar?! Ao menos o almoço com vista sobre o Tejo, num recanto bem catita da parte alta da baixa da cidade. E os doces algarvios, não os têm? Caricato, no mínimo.

“Paraíso Agora”, que já saiu das salas, foi um belo murro no estômago. Recorda-me um título que escrevi há dias: olhar de frente as contradições de Israel. Não esperei que aqueles suicidas tivessem o fim que tiveram, nem que o episódio da última ceia de Cristo fosse caricaturado, nem de achar a Lubna Azabal tão gira, nem que no final todos os intervenientes questionassem o acto em silêncio, nem que não houvesse qualquer sonorização aí, nem esperei que fossemos cinco na sala. Nem que a companhia fosse tão agradável. A repetir.

Não sei se gosto ou não daqueles cafés metidos burgueses, mas a esplanada coberta daquele à Guerra Junqueiro deu bastante jeito, não deu? Tínhamos tomado banho, não precisasses de comprar tabaco e falar das dúvidas. E eu sempre saciei o desejo com um falso pastel de nata.

Tu foste embora. Os meus horários, não é?... És um belo enigma.

Antes, a tua clarividência. Sempre pertinente e que sempre procuro. Há pessoas que amo, tu és uma delas. A sensação de possuir tal privilégio há já anos é muito, muito boa.

Para jantar desaconselho vivamente o Maio. A casa vem nos guias e isso dá direito a receber a conta que não foi pedida, para vagar mesa. E se há coisa que detesto é isso. Tudo estava impecavelmente confeccionado, e a torta de amêndoa é mesmo paradisíaca, mas tais preços por tal serviço, não. Perderam este cliente em estreia e todos os que conseguir demover. O euro acompanhado de “goodbye” sabe melhor que aquele acompanhando o “obrigado”? Bardamerda…

De microfone em punho, o fado no Bairro Alto. Todas, mas mesmo todas as casas, que a chuvinha miúda não meteu medo. Até porque, caramba, estávamos com a Tété. É, realmente, um mundo à parte.

No início da maratona no estúdio, o teu gesto. Surpreendeste-me. E deixaste-me curioso. Além de que me salvaste, verdadeiramente. E agora?

Mozart, em esforço para não adormecer sentado, e um quinteto de sportinguistas que se achava engraçado. Não, não me leiam mal: Mozart foi bom.

O Expresso chega-me, finalmente, às mãos. Gosto do papel e do formato. A Única parece-me, mais que nunca, uma Caras. E isso chateia-me. Vamos ao filme japonês?

quinta-feira, 28 de setembro de 2006

Foi há 15 anos

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

As roupas de Jorge
Este é um dos mais bonitos poemas de Jorge Ben Jor. Nele encontro uma lição de força, perseverança e coragem. Aqui pela voz de Caetano Veloso, que lhe confere uma grandeza diferente e arrepiante (excerto de “Prenda Minha”, 1999).


Jorge sentou praça, na cavalaria
Eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia

Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Para que meus inimigos tenham mãos e não me toquem
Para que meus inimigos tenham pés e não me alcancem
Para que meus inimigos tenham olhos e não me vejam
E nem mesmo pensamento eles possam ter, para me fazerem mal

Armas de fogo, meu corpo não alcançarão
Facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar
Cordas e correntes arrebentem sem o meu corpo amarrar
Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge

Jorge é de Capadócia
(…)



Também quis vestir as roupas de Jorge. Para não deixar que te levassem, porque o tempo que cá estiveste não foi longo nem curto, foi pouco. Assim que foste, muito se desmoronou, como se fosses tu quem nos envolvesse, mesmo apesar de as tuas mãos não conseguirem abrir um frasco de mel.

Não eras propriamente corajosa, até pelo contrário. Mas só nas insignificâncias. Trovejasse e sussurrarias. Fosse noite muito tarde e faltasse alguém, já não descansarias. Estivesses muito alto e não olharias. Visses infelicidade nos teus e chorarias, às escondidas.

Vi-te limpar os olhos por detrás dos óculos muitas vezes. Mas vi-te destemida entrar naquela sala fria. Não percebi quando te recusaste, julguei eu, a descansar. Mas soube logo porque querias voltar. E por isso me ofereci prontamente.

Aquela manhã foi como a de hoje: muito chuvosa e muito cinzenta. Disse-me ela: «não somos só nós que…». Conforta-me pensar nisso. Assim como crer na promessa silenciosa que te fiz; que compreendeste bem demais o que ele te disse que chegará dentro de semanas; e que não estarás sozinha a ler isto, agora.

E então te digo: não te apoquentes mais, já foi suficiente. Tudo se resolverá pelo melhor. Somos todos capazes. Da mesma forma que tu foste, lembras-te?

Também hoje eu quero vestir as roupas de Jorge.

Porque duvido muito.

terça-feira, 19 de setembro de 2006

O gajo da almofada, o Nuno e os 10eur que custa
Não sou leitor assíduo deste senhor, nem ouvinte matinal — pois que, bem haja, agora os meus dias não começam tão cedo —, mas mesmo assim faço-lhe publicidade, assim como quem não quer a coisa. Mas não é por ele. É para ler o que ele escreveu — e agora estou a gabar-lhe o trabalho, hein? — sobre a peça The Pillowman, em cena no Maria Matos. Convenceu-me.

domingo, 17 de setembro de 2006

Não é para se perceber
Grande parte da obra de Almodôvar é de elogio à mulher. “Volver” é mais um. Sim, não é tão bom quanto outros. Mas, ainda assim, é. E tu que o digas, porque gostaste. E se não conheces mais nenhum Almodôvar, resolveremos isso em breve. Basta o mesmo arrojo que teve Raimunda para ensacar Paco. Porque é disso que se trata, é dessa firmeza que são feitas algumas das mulheres que conheço, e é isso que me faz gostar tanto delas. Que têm nos olhos algo mais que já convicção, uma profundidade que não precisa ser literal mas é o caminho mais franco para o coração. Que têm na boca a doçura ou aspereza, tanto faz, de quem saboreia limão sorrindo. Que têm nas mãos, mais do que a beleza ou o aprumo ou por vezes a falta de ambos, um toque suave e sempre cheio, por mais frio que esteja lá fora, que raio. Não é para se perceber.

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

Se Al Gore fosse eleito Presidente, ratificaria Quioto?
É esta a questão que se coloca, depois de “Uma Verdade Inconveniente”.

domingo, 3 de setembro de 2006

“Voo 93” ou a propaganda da war on terror
Apesar da minha resistência, fui convencido a assistir ao filme “Voo 93” (“United 93”, na versão original), fita que aborda o quarto voo desviado a 11 de Setembro de 2001, e que desapareceu nos céus da Pensilvânia. Quem me convenceu deve-me os 4,20eur do bilhete.

A fita de Paul Greengrass não me seduz, cinematograficamente falando. Filmada com câmara ao ombro, de resto como o seu outro “Bloody Sunday”, torna-se incomoda. A técnica pretenderá dar ao espectador a perspectiva de quem está nos locais, seja no avião ou nas múltiplas salas de controlo de tráfego aéreo, partilhando os diferentes dramas. Aliás, todo o filme vive deste pretenso voyeurismo e creio que as audiências se farão disto mesmo.

A insistência no relato do que supostamente se passou nos vários centros de controlo de tráfego aéreo, que sucessivamente foram perdendo contacto com os quatro voos, quando em simultâneo tinham lugar os acontecimentos nas torres do WTC e no Pentágono, poderá querer demonstrar os efeitos da surpresa e uma possível descoordenação entre instituições, desde as autoridades aéreas aos militares.

Mas mesmo aí, como no filme no seu todo, encontro as premissas que aos meus olhos fazem “Voo 93” um folheto de propaganda. Propaganda para a legitimação da “war on terror” que o presidente George W. Bush vem apregoando desde então. Sobre a qual semanalmente discursa — e aqui vale a pena ler a imprensa americana ou inglesa, ver a CNN, BBC ou Sky News para se ouvir os discursos na íntegra, ao invés dos 30 segundos do telejornal português.

“Voo 93”, da mesma forma que “World Trade Center” de Oliver Stone, que nos chegará brevemente, são propaganda.

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

Por aí...
Tem sido assim, e vai continuar sendo.


quarta-feira, 24 de maio de 2006

quarta-feira, 26 de abril de 2006

Uma ópera chata e um cigano loiro
«És muito sério», disseste-me. Não foi a primeira vez que o ouvi, mas nem por isso começámos mal. Gostei bastante da conversa. E do teu sorriso, o mesmo com que me atiraste essa à cara. Hoje, agora, não estou cansado, esse estado sobre que te insurges. Mas porque não sou pedra, e sem contudo me conhecer hipocondríaco, dói-me ligeiramente a cabeça, um latejar ritmado dos dois lados, como que uma prensa. E o dia nem começou cedo, pelo que não é da acumulação de horas. É de muito e do que te falei, daquilo, do que aqui se passa. E isso, sim, é extenuante, agastante e muito destruidor. A minha última pergunta, ontem, saiu trocada: como nos vemos outra vez?, é que está certa.

Quando uma criança grita que vai morrer porque tem SIDA, o impacto é maior. Quando o exterior familiar oferece o contrário da protecção, ao ponto de se querer voltar a uma reclusão institucional, paramos para pensar. Quando o João e a Bilú vêem reduzido o valor do cartão que recolheram e vendem para reciclagem por estar molhado, ou a cotação do alumínio baixar porque o dólar também emagreceu, ou o pneu furado do carro alugado por cinco reais reduzir em outros cinco a receita do dia, mas voltam para casa com o amor fraterno e a promessa de que amanhã sim conseguirão mais e o tal bife com batatas fritas, não podemos deixar de sorrir. Quando o Ciro se suicida na parede com a sombra das suas mãos em arma de cano enfiado na boca, e cai redondo em dança no chão, recordamos a sua expressão de felicidade no carrossel e a simétrica quando escuta os gritos da mãe à porta de casa. E tudo isto muito bem sonorizado.

«All The Invisible Children» teve hoje antestreia em Portugal, no festival Indie Lisboa, no Fórum Lx. Premiada em Veneza em 2005, a obra compõe-se de sete curtas-metragens realizadas por oito realizadores, renomados ou nem por isso. Genericamente retrata a posição frágil das crianças no mundo, pelo mundo, em contextos de guerra, pobreza e desestruturação, nos seus sentidos alargados.

Ficaram-me na retina, e no ouvido: «Blue Gypsy», de Emir Kusturica, filme que conjuga humor e dramatismo, com a ironia habitual e muito boa música, além de personagens por demais fotográficos; «Jesus Children Of America», de Spike Lee, cru na forma como oferece a realidade dos filhos da SIDA e a discriminição dos seropositivos que, se incomoda nos adultos, perturba nas crianças; «João And Bilú», de Kátia Lund, enternece; «Ciro», de Stefano Veneruso, é um bailado. Quando passar nas salas, procurem-no: «All The Invisible Children».

Hoje, no dia em que se assinalaram 32 anos sobre o golpe de Estado que devolveu a democracia e liberdade a este país; hoje, que o sol perdeu a timidez e o dia pediu mar; hoje, que debaixo de um céu alaranjado desejei em brincadeira ter um descapotável para não fazer figura de parvo — e sim figura de rico — com a cabeça quase totalmente de fora da janela a apanhar o vento quase frio e tão revigorante.

E ainda olhei em volta, a ver se te via.

terça-feira, 18 de abril de 2006

O rabinho da Anabela
É difícil encontrar um café — e já nem falo de bar — que tenha jornais diários para consulta dos clientes. O Magnólia Café do cinema Londres tem, dois generalistas e um económico e revistas. É o que vale, embora valha pouco. Porque, realmente, falta-lhe a luz natural, sem o que é impossível fugir à sensação do buraco em que efectivamente se está. Suba, músico compatriota dos empregados lá do sítio, que há muito não ouvia, dava o ambiente electrónico-urbano pretendido. Mas não gostei do Café.

Talvez porque estava distante. É que, momentos antes, cruzei-me com a Anabela Mota Ribeiro e fiquei apaixonado. Pelo rabo dela. Foi na livraria Barata — podia ser noutro sítio? —, enquanto esperava para pagar o meu livro, que ouvi aquela voz adocicada, colocada, e logo me sobressaltei. Quase chocámos, depois, e trocámos um olhar. E um sorriso. Afinal ela é mais baixinha do que parece na TV, pouco mais baixinha que eu, é gira desmaquilhada, tem o cabelo muito engraçado e favorável, os olhos escuros realmente profundos, e os lábios cheios. Estava toda desportiva, com calça e sapatilha de treino. O que muito lhe realçava o rabo, que, redondinho, proeminente, e de aspecto firme, me prendeu o olhar. Que belo rabinho.

segunda-feira, 10 de abril de 2006

O que tem de bom a Itália...
...além da arte; das pizzas e pastas; de algumas italianas; e de mais um punhado de coisas; é isto:

- [Itália] afluência às urnas nas legislativas 2006: 83%
- [Portugal] afluência às urnas nas legislativas 2005: 65,2%
- [Portugal] afluência às urnas nas presidenciais 2006: 62,6%

Se Berlusconi for reeleito não se poderá dizer que foi por desinteresse ou desleixo dos italianos.

quarta-feira, 5 de abril de 2006

Desconhecidos ou anónimos?
Pelos jornais se lê, e pelas televisões se ouve, que as primeiras queixas-crime por partilha ilegal de música na internet apresentadas à Polícia Judiciária em Portugal pela Associação Fonográfica Portuguesa e a Federação Internacional da Indústria Fonográfica visam desconhecidos:

«As 28 queixas-crime contra desconhecidos ‘uploaders’ foram ontem dadas a conhecer pela Associação Fonográfica Portuguesa (AFP) e referem-se à partilha de ficheiros musicais nas redes de P2P...»
Correio da Manhã

«Para já, as queixas-crime visam desconhecidos, mas os responsáveis da AFP e da IFPI garantem que não será difícil chegar aos utilizadores em causa.»
DN

«28 é o número de queixas-crime instauradas ontem contra utilizadores desconhecidos.»
Público

Acontece que ninguém me explica como se apresenta uma queixa-crime contra um... desconhecido?!

Será desconhecido? Ou anónimo? Sabe-se quem é, mas não se divulga? Ou a queixa é apresentada contra um endereço de IP, identificação virtual de um computador na rede do seu servidor de serviço de internet? [e isto já é outra história: E perseguindo o IP é que se chega ao indivíduo? E como se sabe quem é o indivíduo que manipula o computador?]

Nem jornais, nem telejornais, tentaram explicar isto...

terça-feira, 21 de março de 2006

“The Blue Notebooks” (2004), de Max Richter
O filme de Till Franzen, “Die Blaue Grenze”, que vi num Porto frio, cinzento e chuvoso.

A frase de alguém que passou pela minha vida, faz por agora um ano: «o tempo também é uma predisposição do coração».

A minha Maria, que partiu debaixo de chuva porque não eramos só nós quem por ela chorava, e que agora me parece à distância de um telefonema daqueles que fazemos de olhos fechados e sem linhas de cobre.

Uma reportagem aúdio que tenho vindo a pensar.

Poesia.

O que quero — o que quero.