quarta-feira, 26 de abril de 2006
«És muito sério», disseste-me. Não foi a primeira vez que o ouvi, mas nem por isso começámos mal. Gostei bastante da conversa. E do teu sorriso, o mesmo com que me atiraste essa à cara. Hoje, agora, não estou cansado, esse estado sobre que te insurges. Mas porque não sou pedra, e sem contudo me conhecer hipocondríaco, dói-me ligeiramente a cabeça, um latejar ritmado dos dois lados, como que uma prensa. E o dia nem começou cedo, pelo que não é da acumulação de horas. É de muito e do que te falei, daquilo, do que aqui se passa. E isso, sim, é extenuante, agastante e muito destruidor. A minha última pergunta, ontem, saiu trocada: como nos vemos outra vez?, é que está certa.
Quando uma criança grita que vai morrer porque tem SIDA, o impacto é maior. Quando o exterior familiar oferece o contrário da protecção, ao ponto de se querer voltar a uma reclusão institucional, paramos para pensar. Quando o João e a Bilú vêem reduzido o valor do cartão que recolheram e vendem para reciclagem por estar molhado, ou a cotação do alumínio baixar porque o dólar também emagreceu, ou o pneu furado do carro alugado por cinco reais reduzir em outros cinco a receita do dia, mas voltam para casa com o amor fraterno e a promessa de que amanhã sim conseguirão mais e o tal bife com batatas fritas, não podemos deixar de sorrir. Quando o Ciro se suicida na parede com a sombra das suas mãos em arma de cano enfiado na boca, e cai redondo em dança no chão, recordamos a sua expressão de felicidade no carrossel e a simétrica quando escuta os gritos da mãe à porta de casa. E tudo isto muito bem sonorizado.
«All The Invisible Children» teve hoje antestreia em Portugal, no festival Indie Lisboa, no Fórum Lx. Premiada em Veneza em 2005, a obra compõe-se de sete curtas-metragens realizadas por oito realizadores, renomados ou nem por isso. Genericamente retrata a posição frágil das crianças no mundo, pelo mundo, em contextos de guerra, pobreza e desestruturação, nos seus sentidos alargados.
Ficaram-me na retina, e no ouvido: «Blue Gypsy», de Emir Kusturica, filme que conjuga humor e dramatismo, com a ironia habitual e muito boa música, além de personagens por demais fotográficos; «Jesus Children Of America», de Spike Lee, cru na forma como oferece a realidade dos filhos da SIDA e a discriminição dos seropositivos que, se incomoda nos adultos, perturba nas crianças; «João And Bilú», de Kátia Lund, enternece; «Ciro», de Stefano Veneruso, é um bailado. Quando passar nas salas, procurem-no: «All The Invisible Children».
Hoje, no dia em que se assinalaram 32 anos sobre o golpe de Estado que devolveu a democracia e liberdade a este país; hoje, que o sol perdeu a timidez e o dia pediu mar; hoje, que debaixo de um céu alaranjado desejei em brincadeira ter um descapotável para não fazer figura de parvo — e sim figura de rico — com a cabeça quase totalmente de fora da janela a apanhar o vento quase frio e tão revigorante.
E ainda olhei em volta, a ver se te via.
terça-feira, 18 de abril de 2006
É difícil encontrar um café — e já nem falo de bar — que tenha jornais diários para consulta dos clientes. O Magnólia Café do cinema Londres tem, dois generalistas e um económico e revistas. É o que vale, embora valha pouco. Porque, realmente, falta-lhe a luz natural, sem o que é impossível fugir à sensação do buraco em que efectivamente se está. Suba, músico compatriota dos empregados lá do sítio, que há muito não ouvia, dava o ambiente electrónico-urbano pretendido. Mas não gostei do Café.
Talvez porque estava distante. É que, momentos antes, cruzei-me com a Anabela Mota Ribeiro e fiquei apaixonado. Pelo rabo dela. Foi na livraria Barata — podia ser noutro sítio? —, enquanto esperava para pagar o meu livro, que ouvi aquela voz adocicada, colocada, e logo me sobressaltei. Quase chocámos, depois, e trocámos um olhar. E um sorriso. Afinal ela é mais baixinha do que parece na TV, pouco mais baixinha que eu, é gira desmaquilhada, tem o cabelo muito engraçado e favorável, os olhos escuros realmente profundos, e os lábios cheios. Estava toda desportiva, com calça e sapatilha de treino. O que muito lhe realçava o rabo, que, redondinho, proeminente, e de aspecto firme, me prendeu o olhar. Que belo rabinho.
segunda-feira, 10 de abril de 2006
...além da arte; das pizzas e pastas; de algumas italianas; e de mais um punhado de coisas; é isto:
- [Itália] afluência às urnas nas legislativas 2006: 83%
- [Portugal] afluência às urnas nas legislativas 2005: 65,2%
- [Portugal] afluência às urnas nas presidenciais 2006: 62,6%
Se Berlusconi for reeleito não se poderá dizer que foi por desinteresse ou desleixo dos italianos.
quarta-feira, 5 de abril de 2006
Desconhecidos ou anónimos?
Pelos jornais se lê, e pelas televisões se ouve, que as primeiras queixas-crime por partilha ilegal de música na internet apresentadas à Polícia Judiciária em Portugal pela Associação Fonográfica Portuguesa e a Federação Internacional da Indústria Fonográfica visam desconhecidos:
«As 28 queixas-crime contra desconhecidos ‘uploaders’ foram ontem dadas a conhecer pela Associação Fonográfica Portuguesa (AFP) e referem-se à partilha de ficheiros musicais nas redes de P2P...»
Correio da Manhã
«Para já, as queixas-crime visam desconhecidos, mas os responsáveis da AFP e da IFPI garantem que não será difícil chegar aos utilizadores em causa.»
DN
«28 é o número de queixas-crime instauradas ontem contra utilizadores desconhecidos.»
Público
Acontece que ninguém me explica como se apresenta uma queixa-crime contra um... desconhecido?!
Será desconhecido? Ou anónimo? Sabe-se quem é, mas não se divulga? Ou a queixa é apresentada contra um endereço de IP, identificação virtual de um computador na rede do seu servidor de serviço de internet? [e isto já é outra história: E perseguindo o IP é que se chega ao indivíduo? E como se sabe quem é o indivíduo que manipula o computador?]
Nem jornais, nem telejornais, tentaram explicar isto...
terça-feira, 21 de março de 2006
O filme de Till Franzen, “Die Blaue Grenze”, que vi num Porto frio, cinzento e chuvoso.
A frase de alguém que passou pela minha vida, faz por agora um ano: «o tempo também é uma predisposição do coração».
A minha Maria, que partiu debaixo de chuva porque não eramos só nós quem por ela chorava, e que agora me parece à distância de um telefonema daqueles que fazemos de olhos fechados e sem linhas de cobre.
Uma reportagem aúdio que tenho vindo a pensar.
Poesia.
O que quero — o que quero.
domingo, 5 de março de 2006
Acabou o Fantas 2006. A ressaca já se sente nos músculos e no colchão da cama, com quem finalmente nos reconciliamos, mas sobretudo na retina e naquele pedaço do córtex, cinéfilo, que pulula enquanto digere todos os estímulos de um Fantas, das películas às discussões posteriores, no foyer/bar do Rivoli — uma verdadeira casa — ou à mesa da tasca onde fomos ingerir qualquer coisa muito rápida.
A cerimónia de encerramento do Fantasporto correu no seu registo habitual, formal quanto baste. O Governo fez-se representar pelo Secretário de Estado da Educação (???), que presenteou a plateia com um discurso bastante (…) e recebeu de volta várias ovações, sabe-se lá porquê — não havia mais ninguém, Sócrates?
Os pontos altos da entrega de prémios foram três. Primeiro, a atribuição de um Prémio Carreira ao fotojornalista catalão José Maria, com quem privámos, freelance que acompanha o Fantas desde 1994, e que não esperava nada pela distinção — estava a fotografar a cerimónia, de repente vê-se chamado ao palco e foi com visível emoção e embaraço que recebeu o prémio. Depois, aquando do levantamento do segundo prémio da noite, o de Melhor Argumento, uma pouco ovacionada Roselyne Bosch (“Animal”) começou por agradecer com um «oh my God» e ouviu-se na sala um «olha, eu digo o mesmo!». Finalmente, e pelo filme “Quiet Love”, quando o realizador Till Franzen subiu ao palco para receber a segunda distinção, Melhor Fotografia, telefonou ao colega director de fotografia e a sala não se poupou em aplausos — justiça seja feita a “Quiet Love”.
O filme que encerrou o Fantasporto estreará brevemente nas salas: “Fragile”, do catalão Jaume Balageró, é a estória de uma enfermeira recém chegada a um hospital pediátrico em encerramento, e de como ela tenta proteger os miúdos de uma série de estranhos e misteriosos ataques. A enfermeira é Calista Flockhart, mais conhecida por Ally McBeal. O filme tem bons momentos de suspense, conseguiu fazer saltar das cadeiras algumas pessoas, mas não vai muito longe.
É favor apontar na agenda: de 23 de Fevereiro a 3 de Março de 2007 há mais Fantasporto.
Este foi o diário possível de um Fantasporto que não segui na totalidade — em 2007 estarei por lá os nove dias completos —, de mim para os amigos que gostariam de ter ido mas não puderam.
sábado, 4 de março de 2006
Já são conhecidos os vencedores do Fantasporto 2006, e há algumas surpresas. Uma delas é a atribuição de Melhor Argumento a Roselyne Bosch pelo filme “Animal” (secção oficial de Cinema Fantástico), o tal com Diogo Infante e integralmente rodado em Portugal, e para o perceber é ler o que escrevi lá em baixo ou atentar nas opiniões da imprensa generalista (para não dizerem que lá estou eu com o meu mau feitio):
«...o thriller de ficção científica da estreante Roselyne Bosch, co-produção França/Portugal orçada em 15 milhões de euros, foi uma senhora desilusão (...) É verdade que o débil argumento, que invoca com ingenuidade de principiante "O silêncio dos inocentes", de Jonathan Demme, e "A outra face", de John Woo, não ajuda, mas o actor português é manso de mais para "vender" a personagem. E ainda assim, consegue ser o melhor do filme (...) Da filosofia de pacotilha subjacente à trama, mais vale não falar...» (Manuel Menano, JN)
«...o filme que encerrou a secção oficial de cinema fantástico aborda com ligeireza a questão da manipulação genética (...) sem nunca ir demasiado ao fundo do que quer que seja - e é pena, porque o tema até se prestava. Quanto mais não seja porque, como frisou Roselyne Bosch em mensagem enviada ao festival, "Animal é um thriller de antecipação, não é ficção científica: estas experiências já foram testadas em animais". O problema é que aqui não se testa nada, nem em humanos nem em animais: a intriga é demasiado convencional para permitir experiências e o filme acaba por não levantar questões, antes por fugir delas.» (Inês Nadais, Público)
Outra surpresa é o galardão de melhor realizador para Pieter Kuijpers, por “Offscreen” (secção Semana dos Realizadores), filme que me foi tão indiferente que nem escrevi sobre ele.
Surpreende também que a “Quiet Love”, de Till Franzen, só tenha sido atribuído o prémio de Melhor Fotografia (secção oficial de Cinema Fantástico), pois o filme merecia mais ou melhor gratificação. No entanto, o Júri da Crítica, composto pela imprensa e convidados, fez justiça ao atribuir-lhe o seu prémio.
Os principais prémios do Fantasporto 2006 são:
Grande Prémio: “Frostbiten”, de Anders Banke (Suécia)
Prémio Especial do Júri: “Johanna”, de Kornél Mundruczó (Hungria)
Prémio Semana dos Realizadores: “Adam’s Apples”, de Anders Thomas Jensen (Dinamarca)
Prémio Especial do Júri: “Be With Me”, de Eric Khoo (Singapura)
Grande Prémio Orient Express: “Simpathy For Lady Vengeance”, de Chan Woo Park (Coreia do Sul)
Prémio Especial do Júri: “The Bow”, de Kim Ki Duk (Coreia do Sul)
O dia de ontem terminou por volta das três da madrugada, com “Hostel”, de Eli Roth e produzido por Quentin Tarantino. A fita, que não deve tardar nas salas portuguesas, entretêm ao bom estilo Fantas: sangue a jorrar de dedos e cabeças cortadas com bisturi ou moto-serra, atropelamentos sucessivos para ter a certeza de matar a vítima, berbequins Black & Decker furando coxas, tudo isto é acompanhado de gargalhada e aplauso geral. Sinopse oficial: «Paxton e Josh andam em viagem pela Europa e vão ser atraídos para uma estalagem numa remota aldeia eslovaca cheia de mulheres deslumbrantes».
sexta-feira, 3 de março de 2006
“Animal”, ou a estória do mau projeccionista, fechou o dia de ontem no Fantas. A longa metragem da francesa Roselyne Bosch, em co-produção portuguesa, inglesa e francesa, vive daquelas estórias que todos já vimos adaptadas umas dez vezes por Hollywood, ou seja, é mesmo desinteressante. Um jovem cientista descobre uma forma de suprimir o gene da malvadez — sim, porque é genética —, e depois de testes bem sucedidos em lobos, o cientista — actor tão inexpressivo e desguarnecido de qualquer tipo de valências, que nem o nome recordo — resolve testar o soro num assassino aguardando execução, e depois em si mesmo. Resultado? O mau fica bom e o bom fica mau, e tudo fica uma merda. E o começo já augurava isso mesmo: o filme começou com mais de meia-hora de atraso (00h33), a curta que o antecedia começou a ser projectada ao contrário e teve que se interromper largos minutos para tentar concertar o erro (00h46), e finalmente “Animal” foi interrompido numa cena de sexo, sem se ter percebido se a película partiu, saiu da guia ou foi pura censura de alguma imagem mais explícita (ah ah ah).
Do filme só se retém a interpretação de Diogo Infante (o assassino), cujo talento, riqueza de recursos, maleabilidade e adaptabilidade se reconfirmam. Igualmente fica o facto de a fita ter sido captada integralmente em Portugal, e a graça que vem de vermos alguns locais nossos conhecidos transformados em grandes laboratórios científicos.
Ainda ontem ante-estreou o mais recente filme de Manoel de Oliveira, “Espelho Mágico”, motivo de enchente no Rivoli. Imprensa, jet-set, e público, estiveram cá todos, numa sessão que durou, durou e durou…
E a chuva continua a cair no Porto.
quinta-feira, 2 de março de 2006
Tinha que chover, no Porto. E tinha que haver mais filmes de treta. Acabo de deixar a meio na sala um penoso “Looking for Alexander”, do canadiano Francis Leclerc. Bah…
Decorre agora uma conferência de imprensa com o realizador de “El Desenlace”, o espanhol Juan Pinzás, na qual o único interlocutor é um membro da organização do festival. Acho estranho que o público não acorra a estes encontros com os realizadores, porque podem fazê-lo. E também não distingo espectadores — são aqueles que não andam com o cartão pendurado ao pescoço — a procurar os intervenientes aqui pelo foyer. Mas eles estão todos aqui!!
Dos jornalistas não falo. A imprensa diária vem fazer crítica — somente crítica — e só as publicações especializadas, como a Fest Forward, andam por cá a ver fitas e falar com realizadores. A imprensa estrangeira vem acompanhar os seus representantes.
O Fantas tem tão bom ambiente que aqui no foyer do Rivoli, onde está o bar, há quem peça para gravar os CD que vão sendo tocados, à descarada. Boa onda.
«That’s very christian», disse-me o Till Franzen depois da conferência de imprensa, ontem, sobre o filme dele. Que raio. Não sou católico, mas a matriz cultural cristã veio à tona, hã? Isto acerca de uma interpretação que fiz da relação entre um personagem e outros dois: vi ali, primeiro, um amor homossexual; e depois um amor cego, corrosivo, nefasto, que persiste apesar de o outro nos fazer mal, porque o tipo, no final, mostra compaixão por esses seus apaixonados e os “perdoa”. Ah e tal dar a outra face. Não era por aí Till…
A noite de ontem foi rica em bom cinema. “The Bow”, do coreano Kim Ki Duk, e cuja foto promocional fez a capa da Fest Forward #2 — num excelente golpe de premonição do seu director, Filipe Pedro, que arriscou a capa sem ter a confirmação da estreia do filme no Fantas — foi ontem visionado, para um auditório quase cheio. O filme, sério concorrente na secção competitiva “Orient Express”, é uma obra de arte. Num barco de pesca, em alto mar, um homem de 60 anos tem vindo a educar uma jovem desde a sua infância. Está combinado que eles vão casar, quando ela fizer 17 anos. A subsistência do casal é garantida por pescadores que se deslocam ao barco, estacionado ao largo, para pescar. E cada um deles que se deixa encantar pela jovem, e tenta algum avanço, é surpreendido por um tiro de flecha em arco. O mesmo arco que o velho usa para tocar uma música recorrente, mas bela, como se de violino se tratasse. Um dia, um jovem rapaz vem ao barco e tudo estremece: o amor da rapariga pelo velho, o amor do velho pela rapariga, o amor da rapariga pelo rapaz, o amor do rapaz pela rapariga, e o ódio do velho pelo rapaz.
Todo o filme se passa sem que os protagonistas, a rapariga e o velho, digam uma só palavra. Só os outros falam. Mas diz-se tanto. “The Bow” é, especialmente, um objecto estético — se dúvidas houvessem, depois de olhar a capa da Fest Forward. A fotografia é excelente, a filmagem é muito boa, o cenário (um velho barco de madeira estacionado ao largo) é muito bem explorado. A banda sonora é… inexplicável.
Em seguida, e para descer à terra, a sessão das 23h15 começou com a muito falada e anunciada na TV, curta portuguesa forjada pela ETIC, “Sombras de Thule”. Hmmm… Foi terrível. Senhores: para fazer bons filmes é necessário ter boas ideias, boas estórias, bons actores e só depois bons meios. A ETIC conseguiu dinheiro e um alto patrocínio técnico da Sony, que forneceu os meios de captação e projecção na tecnologia de ponta HD, mas ficou com um péssimo filme. Triste.
A terminar a noite viu-se “Saints-Martyrs-des-Damnés”, de Robin Aubert, «um cruzamento de William Castle ("A Casa Assombrada") com David Lynch ("Twin Peaks")». O filme, que abre com belíssimos planos em grande angular de 20mm — projectado em 16:9, felizmente —, está repleto de referências, do terror à comédia, do thriller ao (cheirinho de) gore. «Um exemplo do melhor cinema canadiano de terror», e um dos melhores filmes do festival. E um dia no Fantas com dois bons filmes é um dia fora do vulgar.

Já hoje o dia começou com o Fantas Social (para convidados internacionais, júri e imprensa): um passeio de barco pelas cinco pontes do rio, e uma visita às Caves do Douro, com direito a prova. Passo o Vintage tinto, fico-me pelo único branco Porto, o Apitiv, para mim surpreendentemente agradável. E foi à mesa, nas caves, que se reforçou o que o Fantas tem de melhor: o convívio com gente de todo o mundo. Till (realizador), da Alemanha; Magnus (realizador), da Suécia; Taru (júri; produtora), da Finlândia; Chozin (júri; director do festival de cinema de Pifan e realizador), da Coreia do Sul; José Maria (jornalista), de Espanha; um outro cujo nome não apanhei (realizador), da Bélgica; e mais se verá. É hora de almoçar.
(Foto: o Fantas nas caves Sandeman, em V.N.Gaia, discutindo vinho, e não cinema)
quarta-feira, 1 de março de 2006
Dificilmente almoçava bem em Lisboa pelo preço que paguei hoje no Porto. A cidade é, historicamente, de salários mais baixos e nível de vida inferior, não obstante a burguesia portuense que desde o século XIX tratou de patrocinar as bonitas construções da baixa da cidade. Gosto da opulência da pedra cinzenta nos edifícios, num dia de sol forte e céu limpo e azul como o de hoje. E Lisboa está inflacionada, em muitos sentidos.
Depois do casal de velhotes pedintes que me recebeu aqui na cidade, à noite foi a vez de um tipo me abordar e pedir dinheiro, explicando como tinha saído há um mês do «estabelecimento prisional», não conseguia arranjar trabalho, provavelmente porque também não conseguia largar a droga, que o pôs lá dentro e que esperou por ele cá fora. Pela sinceridade, dei-lhe 50 cêntimos. Mas não devia.
"Quiet Love", do alemão Till Franzen, encerrou o dia no Fantasporto, sessão das 23h15 — antecedido de uma triste curta de Luís Galvão Telles, "Glamour", apupada em belo estilo («mas que merda! buuuuuuuuuu...») por alguns dos presentes. Em "Quiet Love" entrelaçam-se várias estórias de amor, que juntas fazem um filme denso e difícil, mas capaz de entreter nas fintas que os falsos finais — fui enganado duas vezes — fazem aos espectadores, apesar da extensão da fita. Ali há amor fraterno, por quem morre; amor passional — isto diz-se? — pela mulher; amor cego, por quem nos faz mal. Ali há morte, natural e inexplicada; acidental e inesperada; e há dúvida de morte — o inspector morreu?
Muito bem filmado, com uma fotografia belíssima, uma banda sonora muito bem conseguida, dos Lambchop a dramáticos e introspectivos trechos de piano, e com desempenhos soturnos mas terrivelmente adequados à intensidade da fita, "Quiet Love" é um bom filme. A conferência de imprensa com o realizador é mais logo, às 15h.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2006
Porque é que chego ao Porto e um casal de velhotes sem-abrigo me pede moedas?
O expresso, que de expresso tem pouco, chega à Garagem Batalha, um tipo de barracão de tecto muito alto e muito apertado, demasiado pequeno para o tamanho dos autocarros, que se acotovelam em manobras de estacionamento e inversão de sentido, porque só existe uma porta, a de entrada e saída, para carros e passageiros.
Está sol, quando chego, e a cidade está ocupada daquele movimento de feriado, acrescendo a miudagem mascarada e as fitas pelo chão. Há menos carros a circular.
Depois de me instalar no hotel, a cinco minutos da Avenida dos Aliados, vou para o Rivoli — afinal, o que me traz aqui é cinema. À entrada percebe-se porque tem o Fantasporto o epíteto de festival internacional: é mesmo um festival internacional. Boa organização, patrocínios/parcerias que bastem e dinheiro a rodos, é o que deixa transparecer a entrada do Rivoli: a Super Bock, a SIC, a Fossil, you name it. A capacidade de atrair dinheiro constrói-se com qualidade. E o Fantasporto é um excelente exemplo.
No foyer, dois pisos acima, ouve-se falar inglês, castelhano, francês e alemão. O convívio é agradável, nesta sala com vidraças até ao tecto e vistas deitando para mais uma das praças da baixa, a D. João I, um espaço onde se distribuem mesas de madeira, um recanto para conferâncias de imprensa e puffs coloridos. Por aqui deambulam realizadores, jornalistas e elementos do júri, entre cervejas, aconchegos para o estômago e conversas sobre cinema, das técnicas às fitas, dos géneros aos estilos.
Na sala passa uma fita bem ao estilo old school — zombies. Passo esta e retomo para um olhar pela cinematografia russa, mais logo.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006
1) É a sociedade que caracteriza os acontecimentos como trágicos, e não a televisão.
2) As tragédias são «factos sociais totais» (Mauss), fenómenos simultaneamente jurídicos, económicos, religiosos e mesmo estéticos, que abalam as instituições e instalam o conceito de crise, tudo isto numa unidade de tempo, acção e lugar.
[este conceito de «tragédia» aplica-se, então, aos acontecimentos de Timor em 1999, queda da ponte de Entre-os-Rios em 2001, 11 de Setembro de 2001 e 11 de Março de 2003]
[os acontecimentos de 7 de Julho de 2005, em Londres, não foram analisados]
3) Esta situação de crise poderá ter expressão directa e clara no campo político: o ministro Jorge Coelho demitiu-se cinco horas depois da queda da ponte de Entre-os-Rios (e ainda há que pensar se o acontecimento não influenciou o mau resultado do PS nas autárquicas pouco tempo depois, após as quais o primeiro-ministro António Guterres se demitiu); nos EUA, porque o contexto sociocultural é diferente, Bush legitimou-se e reforçou-se (e foi re-eleito) após o 11 de Setembro.
4) O centro dos acontecimentos desloca-se: Entre-os-Rios passou a ser o centro, com o poder político, a Igreja e os media diariamente no local; a mesma lógica nos EUA, cujo centro se deslocou para Nova Iorque.
5) A sociedade transforma-se em comunidade.
6) As tragédias têm um desfecho: a portuguesa terminou com a imagem simbólica do primeiro-ministro vendo pelos binóculos o resgate do autocarro submerso; a norte-americana terminou com a missa religiosa proferida na sexta-feira seguinte ao acontecimento, na presença do Presidente Bush e restante poder político.
Desta forma se pode olhar para a queda da ponte de Entre-os-Rios, o 11 de Setembro de 2001 e o 11 de Março de 2003 como «tragédias televisivas».
Estes foram os ensinamentos que retirei da palestra hoje proferida por Eduardo Cintra Torres, na Universidade Católica Portuguesa (UCP) em Lisboa, sob o tema «A tragédia televisiva: um género dramático da informação audiovisual», tese de mestrado de Cintra Torres e o assunto do seu livro agora chegado aos escaparates.
O 2º Ciclo de Seminários de Investigação em Ciências da Comunicação da UCP vai-se revelando interessante.
sábado, 11 de fevereiro de 2006
...na barra aqui do lado. Espreite-se Celofane, Transistores, Jota e Barriguita; noutra prateleira estão Elas e nós, Estudos, Ele digital, Da Invicta, Paragem diária, António, Da Beira e Travessias; a Tasca mudou a gerência, há já algum tempo, e perdeu um cliente. Azareco.
domingo, 22 de janeiro de 2006
Isto foi suficientemente "validamente expresso"?

Tenho vergonha de viver num país onde um voto branco vale tanto como um nulo, num país em que um voto branco não é "validamente expresso".
Votar branco é o mesmo que um voto com uma cruz mal colocada, fora do quadrado, possivelmente feita por um idoso? Ou com cruzes em todos, como protesto? Ou é o mesmo ainda que um recado escrito no boletim, do estilo "vocês querem é poleiro"? Um voto branco é o mesmo que isto? Um voto branco não é a expressão individual do não reconhecimento do eleitor em nenhuma das candidaturas apresentadas? Caramba!...
Nas eleições de 1969 votavam os homens maiores de 21 anos, ou casados, e as mulheres que fossem proprietárias ou tivessem curso superior. Os analfabetos, nem recenseados estavam. Nos meios rurais, delegados recolhiam os boletins de voto, a fim de serem posteriormente depositados em urna, e a mesa dava-se ao direito de impedir a entrada em urna de votos cujo boletim estivesse sujo. Alguns mais esclarecidos lutavam e acabavam por depositar o boletim, que o lugar para anulações é aquando da contagem, e não antes.
Estamos em 2006. Tenho vergonha de viver num país onde um voto branco não é "validamente expresso".
quarta-feira, 11 de janeiro de 2006
Janeiro traz consigo mais uma novidade: o segundo número da Fest Forward - "a revista de todos os festivais" tem distribuição nacional e está disponível em mais de 2400 pontos de venda, como qualquer jornal.

Os conteúdos são:
Fest Forward n.2 — Inverno 2006 (Jan-Mar)
Fest Apresenta
Primeiro filme português na Coreia do Norte / Phono'05 — Serviço público a precisar de apoio público
Destaque
Fantasporto 2006, c/entrevistas a Beatriz Pacheco Pereira e Mário Dorminsky / Agenda Fantasporto 2006
Forward Cinema
Sundance / Premiers Plans d'Angers / Doc Point Helsinki / Tampere / International Short Film Festival / Festival de Gérardmer — Fantastic'Arts Berlinale / ZagrebDox / Animac / Sofia International Film Festival / RAF / Panorama / Festival de Cinema de Las Palmas
Forward Teatro
Santiago a Mil / Escena Contemporanea
Forward BD
Angouleme
Forward Artes Plásticas
Arco / Arte Fiera / Feira Internacional de Arte Contemporânea de Innsbruck, Áustria / Bienal Whitney de Arte Contemporânea / The Armory Show / Bienal de Arte Contemporânea de Berlim
Forward Música
Big Day Out / Baja Prog
Rec — Entrevistas
Carlos Matos — Fade In / Wraygunn / Ilse van Velzen — documentarista holandesa / Costa Gavras — realizador
Stop — CDs
Boedekka / Cat Power / Lupanar / Carlos Bica
Stop — DVDs
Wal Mart / Mind My Gap — Rosto / Live 8 / The Ross McElwee DVD Collection
Stop — Livros
Roteiro Breve da BD em PortugalDádá-Zen — Pintura-Escrita
Rewind Cinema
Imago / Festa do Cinema Francês / Sitges / Doc Lisboa / Cinanima / FIKE / Nippon Koma / L'Alternativa / Kosmopolis
Rewind Design
ExperimentaDesign
Rewind Pluridisciplinar
Temps D'Images
Rewind BD
FIBDA
Rewind Dança
Quinzena de Dança de Almada
Rewind Artes Plásticas
Arte Lisboa
Rewind Música
Número Festival / Seixal Jazz / Wintercase / Trans Musicales / Festival Best Off
Play
Agenda de Festivais para Janeiro, Fevereiro e Março
Tudo isto em 68 páginas, formato A5 e a cores, por apenas dois euros.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2006
«São três da manhã do dia 30 de Dezembro. Cabe-me fechar o DNA com a mesma satisfação e amor com que tive o privilégio de o conceber e “abrir”. Não quero lágrimas nem choros — porque sei bem que um suplemento de jornal não é mais do que isso mesmo: um suplemento, um complemento. Mas também não quero passar ao lado de tudo o que o DNA significou para dezenas de pessoas que o concretizaram, ou para as dezenas de milhar que o leram. Que o amaram ou odiaram. Que nunca lhe foram indiferentes. (…) Tudo o que começa tem um fim. O DNA começou — vai para dez anos — e chega hoje ao fim.»
Pedro Rolo Duarte, DNA, 6 Jan 2006
Fui leitor do DNA durante alguns anos e o DNA foi o meu suplemento de imprensa favorito.
Durante esses anos acompanhei os editoriais do Pedro Rolo Duarte, aqueles em que ele falava dos primeiros passos na profissão, das férias na Zambujeira do Mar, das vicissitudes de fazer jornalismo, das noites que reservava à escrita daqueles mesmos editoriais. Aqueles editoriais a que tantas vezes ele levou o filho, que, descobri hoje, foi o bebé da primeira capa do DNA e é o miúdo da última. Há dias a Diana deu-me um papelinho, onde tinha anotado esta citação: «o jornalismo é frequentemente vivido como uma paixão, tende a preencher todo o espaço da existência, a colonizar a vida familiar e os lazeres». Agora compreendo o Pedro. Agora espero que a Joana, a Diana, o Tiago, o Ricardo, a Ana, a Celeste, a Lília, a Lena, a Maria, o Zé, o Paulo, a outra Ana, o Luís, a Margarida, e todos os outros, para não me esquecer de nenhum, me compreendam também, quando recuso os desafios e os convites, quando desapareço durante semanas.
Construir um produto de imprensa é muito mais intenso do que trabalhar num. Mas, é também algo apenas acessível a uns poucos privilegiados. O Pedro foi um desses. Eu sou um desses.
Levantar, tijolo a tijolo, uma edição de jornal ou revista é um prazer peculiar. Recolher e escolher temas. Distribui-los pelos redactores, hierarquizá-los no plano de edição, página a página, o que fica onde, com que espaço e se terá imagem. Receber as primeiras versões dos textos e ser surpreendido com sua a qualidade (má, publicável, boa, muito boa). Receber as segundas, já modificadas. Tentar titular, disciplina difícil. Acompanhar a revisão e fazer cumprir as convenções. Porque ainda não temos um livro de estilo terminado e adoptado, discutir marcações de discurso, itálicos, aspas subidas ou normais, pelicas ou simplesmente redondo. Procurar e escolher fotografias. Fechar a edição. Ter que optar e deixar “cair” alguns textos. Maquetizar e fazer caber tudo no espaço disponível, passando horas sentado ao lado do grafista. Introduzir correcções no material já paginado. Imprimir as páginas para revisão gráfica. Construir a capa, e para tal escolher a fotografia, redigir a manchete e optar pelos destaques. Juntar tudo num só ficheiro final, que viajará num CD até um armazém em Rio de Mouro. Voltar ao armazém um dia depois para olhar os fotolitos. Regressar passadas outras 24 horas para olhar as primeiras folhas enormes, cuspidas pela “plana” ruidosa — ainda não cheguei à rotativa — e acompanhar o ajuste das cores. Mais um dia e nova fase, com dobragem, corte e montagem. No dia seguinte, a distribuidora recolherá os milhares de revistas para iniciar a distribuição pelo país. Só é pena que, mais tarde, quando for um profissional na verdadeira acepção da palavra, me limite(m) a escrever e perca tudo isto.
No princípio disto tudo está o prazer de fazer uma revista para os leitores, a nossa razão de existir.
Para mim, à data presente, tenho o privilégio de já ter ajudado a construir três revistas, duas em papel e uma electrónica: uma estudantil, outra de informação desportiva e a terceira, a presente, a primeira no género em Portugal. Além destas, já tive a oportunidade de trabalhar para outras duas, igualmente em papel e bits e bytes.
O melhor que retiro destas experiências é a aprendizagem, todo o manancial de informação e conhecimentos, a prática, errar e aprender com os erros, perceber e aplicar o que os teóricos da arte escreveram sobre as técnicas, a conduta, a ética e a deontologia.
A cada número que passa, erro. A cada número que passa, tento cometer um erro diferente.
Hoje percebo porque é que «um jornal sem gralhas é como um jardim sem flores», mas continuo a preferir que as provas sejam revistas por tantos quantos não tenham lido os textos, e continuo a detestar palavras truncadas em finais de parágrafos. Hoje percebo porque são incompatíveis actividades de assessoria e jornalismo, porque senti na pele a dificuldade do distanciamento e imparcialidade, ou tão somente pelo receio de comprometimento por usar ou excluir determinada palavra. Hoje percebo porque é que o jornalismo é «a disciplina da verificação», porque apercebi-me, depois de publicado, que um texto contemplou algumas informações imprecisas, cuja correcção estava ao meu alcance.
Hoje percebo que não quero fazer outra coisa na vida. Hoje acho que o Pedro também não.
Hoje sinto que amanhã estarei em condições de pedir o cartãozinho vermelho. Só que o Pedro já o tem.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2006
sexta-feira, 16 de dezembro de 2005
quinta-feira, 1 de dezembro de 2005
O chanceler Bismarck foi só mais um…
…filho da puta.
Três ficções que vi nas últimas semanas lembraram-me o que penso de África. As guerras, a pobreza, a fome e a morte; os vírus da sida e do ébola; as riquezas naturais, diamantes e petróleo; povos que não conseguem, por mais que queiram, vencer a seca fatal de tantas restrições naturais; a corrupção; o saque de há séculos e depois a partilha de Bismarck; os testes de medicamentos de hoje; um Portugal que reclamava, há semanas, a barragem levantada no Zambeze. E tanto mais.
segunda-feira, 28 de novembro de 2005
Tudo começa com este dilema permanente em mim, entre dormir quando é noite ou fintar a cama e seguir em pé, como que perdido, vagueando de pensamento em ideia ou nota de post-it que ficou por apontar, de tentar sentar-me à mesa ou, como hoje, na cama, e escrever. Tentar escrever. Fazer o exercício que digo ser-me violento e caro, de tentar vomitar o que se me revolve no estômago, dias e dias a fio. Iludir o cansaço, flagrante quando for manhã, seja nos olhos ou no sinal de meio-dia que me assustará para fora do colchão, vencido que fui pela extinção temporária do ser que é o sono, então enfurecido por ter perdido horas, o tempo que o coelho da Alice tanto perseguia, perdido luz e sobretudo por reconhecer-me incapaz de controlar o meu corpo. Se pudesse, não dormia. E logo depois dormia toda a dívida acumulada. E não morria, ausência total de sentir, de me sentir, de consciência, que é isso que me assusta na morte.
Acho que nunca entrei naquela livraria ainda de dia. Hoje, novamente, os carros lá fora já circulavam de luzes acesas, o alcatrão estava ainda mais escuro e cheio do brilho dos reflexos na água da chuva, além do frio que nos torna a todos pequenas chaminés de caldeira ambulantes. Fui lá passar tempo, olhar lombadas coloridas, folhear livros de fotografias, anotar.
«Quem és tu? Como és tu? O que és tu? O que há dentro de ti?
A tua cara é redonda. Não digo que seja bolachuda, e rio-me disto. O teu cabelo é bonito. Os teus olhos parecem-me cansados, sempre, desde que te vi pela primeira vez. As tuas mãos são pequeninas, os teus dedos arredondados. O teu sorriso é esplêndido, assim como o teu olhar, que se transforma quando sorris.»
E levantei-me de um salto para me esconder, envergonhado não sei bem por quê, entre as Farpas e álbuns de fotografias, como quem elenca uma lista de Natal, que nunca faço. Passei pelos títulos mais óbvios, interessadíssimo, como se tentando iludir alguém. Que raio.
sábado, 26 de novembro de 2005
«...toda esta questão da Ota cheira mal à distância: cheira a voluntarismo político (...), que tanto dinheiro custou e continua a custar ao país, e a troca de favores com a clientela empresarial partidária, a que costumam chamar "iniciativa privada". Para esse peditório já demos. Já demos demais, já demos tudo o que tínhamos para dar. O país está cheio de fortunas acumuladas com negócios feitos com o Estado e pagos com o dinheiro dos impostos de quem trabalha, em investimentos cuja utilidade pública foi nula ou pior ainda...»
Miguel Sousa Tavares, in Público, 25Nov2005
(sublinhado meu)
sábado, 19 de novembro de 2005
sexta-feira, 18 de novembro de 2005
Eu gastei-os numa agenda. Comprei um diário Moleskine, de formato A5, muito pseudo-intelectual, para anotar tarefas, ideias para textos [sim, que pretensioso], pensamentos e outras coisas. Encaro-o como o ponto de partida para uma nova etapa. Tal como a música que ouço agora me sugere, hunted by a freak, de Mogwai. A primeira página é em 2006, mas comecei hoje.
Os produtos Moleskine vendem a imagem de Hemingway, a preço alto. É-me indiferente. O que gosto neste diário começa na encadernação, porque detesto argolas, e termina na côr do papel, amarelada. Uma agenda tem que ter capa dura, como esta, que é preta, e ser grande o suficiente para entre páginas guardar bilhetes de cinema, cartões de visita, postais, folhas com anotações ou mapas de museus, até CDs e seja mais o que for que chegado a Dezembro lhe dê o dobro da espessura. Como esta.
O elástico que a envolve a todo o comprimento é dispensável, mas é uma marca. A fita marcadora interior é útil, mas prefiro o que a Vanessa me fez, já não sei há quanto tempo, e que me tem acompanhado desde então.
As páginas reservadas a endereços não me fazem falta. O envelope colado no verso da contracapa é útil.
Gosto da ideia de oferecer uma recompensa a quem encontrar este caderno perdido, uma das originalidades dos produtos da marca, e que é o que reforça a ligação entre o usufruente e o produto, uma vez que reconhece a importância e o valor que este tem para o seu dono — não é uma agenda; é um pedaço de si.
As folhas são finas e agradáveis ao toque, além de não nos roubarem espaço com coisas que não interessam, como as horas, impressas a corpo pequeno e discreto, como devem ser. Porque a hora é o que menos interessa, juntamente com linhas verticais, que não as há. Há apenas um jogo de linhas para ajudar a escrever direito. É a horizontalidade que faz sentido.
Preciso fechar portas. Tenho vivido neste eixo cartesiano de x e y, horizontal e vertical, procurando traçar-lhe uma linha de progressão geométrica. Este ciclo vicioso do “depois”, que faz depender o objectivo de um desejo do que se há-de ter e então sim, é totalmente errado.
Viver em antecipação não é sistema. O controlo total é impossível. O risco é necessário. O desconhecido não é sempre mau.
domingo, 13 de novembro de 2005
Londres, Paris, Moscovo e outras cidades do nosso imaginário têm um rio, felizmente estreito, o que possibilita que cidade e rio existam em comunhão. Quem lá vive só ganha com isso. Lisboa tem um Tejo, evidentemente magnífico, mas largo por demais. E é acidentada. E a outra margem também. Se tudo isto é obra de um arquitecto superior, alguém me forneça o e-mail do gajo, porque quero contestar o projecto. Lisboa vive de costas para o rio. Eu vivo de costas para o rio.
quarta-feira, 2 de novembro de 2005
Dias de chuva
1) Num sábado que passou estive no DocLisboa 2005, na Culturgest, para ver “A Decent Factory”, documentário de Thomas Balmés que retrata as condições de trabalho em fábricas chinesas fornecedoras de equipamentos para a Nokia. O mote é a ética no trabalho, que preocupará uma finlandesa como a Nokia, e que não tem tradução prática na realidade das fábricas chinesas, nem mesmo quando o contratante é alemão. Turnos de 12 horas e semana de trabalho de seis dias, seja qual for o volume de encomendas; ausência de contratos de trabalho; escusado será dizer que seguros de qualquer tipo ou descontos para uma segurança social também não existem; a própria fábrica não está totalmente legal; manufactura em mais de 90 por cento das fases operacionais; 99 por cento dos operários são mulheres, ficando os homens com os cargos de supervisão, aproveitando para o enxovalhamento das primeiras; dormitórios nas imediações da empresa, horários rígidos de entrada, impossibilidade de saída, oito mulheres por cubículo, sem visitas, interdita a entrada de comida naquelas quatro paredes; gravidez é sinónimo de dispensa; as refeições fornecidas no refeitório não prestam — são as operárias quem o diz; falta de condições de higiéne e segurança, no trabalho e no dormitório; do salário é descontado um valor pelo alojamento e alimentação, o remanescente é quase metade do salário mínimo na província; os dois alemães representantes da empresa contratante, e os únicos residindo/trabalhando na fábrica, procuram um buraquinho onde se esconder, mas mesmo assim são sinceros e não têm pejo em pôr às claras os podres do negócio; etc.
Uma pergunta: a Nokia deixou de comprar aquele fornecedor? Um comentário: dizem-me que no comunismo era bem pior, nunca os chineses viveram tão bem e os que são explorados naquela fábrica preferem aquela vida à do campo, na aldeia onde nasceram, a mais de 10 horas de carro de qualquer centro urbano.
2) A edição de 2005 do Seixal Jazz já terminou e teve como ponto alto o concerto de Kurt Rosenwinkel.
3) Na noite passada caiu um telhado no Museu de História Natural, o que provocou uma ligeira inundação, contou-me o porteiro de serviço. O mesmo que me informou acerca do passe anual para o Jardim Botânico (por 7,5eur) e de como se contam pelos dedos de uma mão os portugueses — excluindo os velhinhos habitués — que visitam o Jardim diariamente, sendo que no Museu já teríamos que usar as duas mãos. Fui ver a exposição Fotógrafos da Natureza, da BBC Wildlife Magazine — disponível até 28 Nov. Fui o primeiro. Depois de mim chegou um casal de ingleses e dois casais de portugueses com os respectivos rebentos, com não mais de uns 7 anos, ele um bocado enfadado e ela verdadeiramente surpreendida e entusiasmada.
Do Museu destaco as paredes cinzentas do reboco de cimento, sem pintura, contrastantes com o mármore branco das ombreiras de portas e janelas, buracos aqui e além, denunciando as tubagens de electricidade e canalizações. Um Museu de história que é parte da História e cujos responsáveis devem querer que o aspecto o demonstre — velho e pior conservado que os exemplares de crustáceos em frascos de formol. Percebo o aspecto que se pretende, e até posso considerar museulógico, à falta de melhor palavra. Mas aquele edifício do século XVIII (edificado pouco depois do Terramoto) merece melhor. E no final não há um folheto informativo, institucional, que satisfaça a curiosidade do visitante, esclarece-me o António, que agora já bebe um café, roubado à máquina na outra sala, tal é o fraco movimento. Adeusinho.
4) Wallace & Gromit and the The Curse of the Were-Rabbit. E tantos outros que ficaram pelo caminho, raios.
Espreitar, sff
1) Nasceu a Prisma.com, uma publicação online dedicada à comunicação, informação, tecnologia e artes, propriedade do Centro de Estudos em Tecnologias, Artes e Ciências da Comunicação (CETAC) da Universidade do Porto.
2) E está para nascer o jornal digital “Comum”, do Grupo dos Alunos de Comunicação Social da Universidade do Minho (ver aqui). [no sítio onde estudo continua havendo zero e isso é especialmente ridículo quando os vizinhos das economias e gestões estão a planear um jornal electrónico]
2) A Rascunho já tem algum tempo.
3) O BlogReporters já arrancou, e apresenta-se como um espaço no qual «poderá encontrar notícias, reportagens, entrevistas ou fotografias da autoria de qualquer pessoa interessada em fazer jornalismo profissional».
Esta agora…
Bem, eu já sabia que o Público não era um jornal português, a julgar pelo código de barras iniciado com 977. Mas que os tipos que lá escrevem não são jornalistas, essa apanhou-me de surpresa. «Eurico Reis tem entendimento distinto. “Sem carteira, não podem ser qualificados de jornalistas”, diz, lembrando a violação ao Estatuto do Jornalista.» Soube por aqui.
DNa em risco de acabar
Li, incrédulo, que está a ser ponderado o fim do DNa, o suplemento cultural do DN (aqui). E a Grande Reportagem já sabe que vai deixar de ser impressa (aqui).
Se a primeira notícia me abalou, a segunda é-me indiferente, porque sempre considerei um assassinato da publicação a sua passagem a semanal e todas as mudanças de formato que isso implicou.
O sr Joaquim Oliveira já começa a arrumar a casa, que comprou com os 300 milhões emprestados pelo amigo Ricardo Salgado.
Duas novas “económicas” nas bancas
«Duas novas revistas mensais das áreas de economia e gestão chegaram ontem às bancas: a Just Leader e a Ed. A primeira, do grupo da revista Prémio, é dirigida por Freddy Vinagre, privilegia a área de gestão e é vendida a três euros. A segunda, que incide na área de economia e negócios, é da empresa Lagonda, tem como director Fernando Vicente e custa 1,9 euros. O grupo da Just Leader, já responsável pela revista Prémio — que detém os direitos do título norte-americano Business Week —, estabeleceu um acordo para a utilização dos conteúdos das revistas brasileiras Veja e Exame Brasil, tanto nestas publicações como na Prémio Viagens, um projecto com lançamento previsto para Novembro.»
in Público, 29Out2005-11-02
“Nós, os media”
Terminado o livro de Dan Gillmor, “Nós, os media”, faço minhas as palavras de Eduardo Cintra Torres, um destes dias no Público: «…um daqueles livros americanos de estilo messiânico nos quais se vão repetindo até à exaustão do leitor as ideias principais…». O livro, que tanto alarido causou quando foi lançado em Portugal, é francamente mau. Não consegui extrair uma ideia interessante, uma linha de pensamento construtiva, algo que valesse a pena anotar e parar para pensar.
O cidadão-jornalista de Eduardo Cintra Torres
«É certo que as novas tecnologias possibilitaram uma maior participação dos cidadãos nos media tradicionais e permitiram-lhes criar os seus próprios media, como os blogues. Isso contribui para aprofundar a democracia, para um alargamento do espaço público. Mas há uma forte deriva de determinismo tecnológico neste conceito que abarca ao mesmo tempo o jornalista dum jornal, o turista do telemóvel que filma o tsunami e o autor de um blogue diário. Não é por acaso que Gillmor escreve, com mais certeza do que um pastorinho em Fátima: "Não tenho dúvidas de que a tecnologia acabará por vencer" (p. 229). Mesmo o título do livro, Nós, os Media, faz do cidadão uma tecnologia (media) e não um autor de conteúdos, que é o que um jornalista é.Mas se é cidadão-jornalista aquele que enviou imagens do atentado no metro de Londres, como defendeu um dirigente da BBC (em 06/10), também o deveria ser o habitual informador verbal dos jornalistas. Por exemplo, a mulher que descreveu para a CBS o embate do primeiro avião nas Torres Gémeas ou a mulher que descreveu para a RTP o som da derrocada da ponte de Entre-os-Rios e os faróis acesos afundando-se no Douro. Essas pessoas usaram a velha palavra e uma tecnologia antiga - o telefone - para participar na informação. As pessoas que descrevem um incêndio para a câmara profissional ou para um bloco-de-notas dum jornalista também participam na feitura da notícia com a sua narrativa pessoal. Por que raio se chama jornalista ao transeunte que faz umas imagens no metro de Londres e não à velhota que telefona para a SIC a dizer que há mais um incêndio no seu concelho?
Se o nível de participação é diferente, a função do narrador in loco ou do indivíduo que grava um ataque terrorista no telemóvel é a mesma. O primeiro existe há séculos. O segundo há cinco anos. E todavia, porque o contributo de um é oral e do outro visual, são considerados diferentemente pelos teóricos do cidadão-jornalista.
E que dizer das máquinas de circuitos de vigilância da estação de Atocha no dia 11 de Março de 2004? Elas são tão "cidadãos-jornalistas" como os turistas que gravaram o maremoto na Tailândia ou na Indonésia em 2004.
Por captar imagens de água invadindo Pukhet o turista não é jornalista, da mesma forma que, ao atender o telefone, o Presidente da República não é telefonista. Quem compra tábuas no Ikea e monta o móvel em casa não é marceneiro, quem faz uma transferência bancária numa ATM não é empregado bancário e quem enche o depósito de combustível em auto-serviço não é gasolineiro. Quer dizer, não tem essa profissão.
(…)
O jornalismo não pode ser apenas a "tecnologização" da função do informador. A pessoa não se torna jornalista por participar no espaço público. O messianismo tecnológico e político dos Dan Gillmor que pululam pela Internet menoriza a actividade jornalística e contribui para a diluição do jornalismo (que, aliás, é desejada por Gillmor ou Outing) e para o apagamento das tarefas sem as quais não há notícias autênticas: estruturação, selecção, equilíbrio, factualidade objectiva, confirmação de fontes, estilo, responsabilidade, ética, serviço ao público.»
Eduardo Cintra Torres, in Público, dias 29Out e 1Nov de 2005 (artigo em duas partes)
O Ilharco foi beber o café ao bar da FCEE, viu aquele miudo que copiou o penteado a um tipo da TV, engasgou-se de riso, e “puf”, não se fez o Chocapic, mas surgiu o tema para a crónica quinzenal do Público
«Mas mais do que os D"ZRT parece ser a série "Morangos com Açúcar" que hoje em dia é uma espécie de critério comparativo, de modo de aferição e de valorização da vida de muitos adolescentes e sobretudo pré-adolescentes portugueses.»
(isto não interessa, mas é só pra contextualizar)
«Quando nos lembramos que numa sociedade tecnológica como a nossa o meio é a mensagem esquecemo-nos muitas vezes da conclusão óbvia de McLuhan: que o conteúdo são os utilizadores — somos nós. (…) Com a televisão em todas as divisões da casa, com a lógica de Hollywood, dos bons e dos maus, das marcas e dos produtos, em todos os écrãs do mundo, a realidade é hoje a imitação do universo digital em que vivemos.»
(isto sim, já interessa e é a sério)
Fernando Ilharco, in Público 31Out2005
Apontar na agenda
A edição de amanhã (hoje?) do Clube de Jornalistas, na Dois, é dedicada à questão da invasão da publicidade no espaço informativo. Mais info aqui.
«A malta é jovem… não explicam!...»
«O meu repórter era jovem, feliz com a sua juventude (feliz ou angustiado, o que vem a dar no mesmo). Não que eu tenha uma visão normativa da juventude não tolero tal atitude em relação à minha juventude, não a favoreço face à juventude dos outros. Seja como for, há um valor simbólico que as televisões instalaram no nosso quotidiano. Assim, a maior parte dos repórteres combina a ligeireza do olhar e a futilidade das observações com uma juventude que há muito deixou de ser um mero índice etário, para passar a funcionar como metáfora mediática: é jovem, logo tudo lhe pode ser permitido e desculpado.»
João Lopes, in DN 30Out2005
Ah pois é…
segunda-feira, 3 de outubro de 2005
Em Setembro saiu do prelo o número um (capa abaixo).

Acontece que a Fest, como lhe chamam os amigos, embora inicialmente pensada para ser de distribuição gratuita, tem elevados custos de produção e poucas receitas publicitárias — neste país ainda se julga que duas acreditações para cobrir um evento valem uma página de publicidade à borla. Ora esses mesmos custos ditaram que a revista passasse a ser vendida.
Mas não desesperem. Só custa 2 euros, uma pechincha para 68 páginas de conteúdos. Podem encontrar a Fest à venda num selecto rol de bancas, ainda curto mas em rápido crescimento. É só verificar a lista em www.festforward.com.
Procurem-na, comprem-na, leiam-na e passem palavra aos amigos — no café, por sms, nos blogs vizinhos e sei lá que mais. Usem a seguinte ladaínha, testada e comprovada: «é muito fixe, pá, é a primeira revista portuguesa dedicada a todo o tipo de festivais, ‘tás a ver como é porreiro?, e trata de eventos nacionais e estrangeiros, quem diria hein?, e lá por dentro divide-se em antevisões, reportagens, uma secção de apresentação de coisas novas, e ainda por cima tem sempre uma entrevista a uma personalidade daquelas desconhecidas do meio cultural ou lá próximo, ainda não compraste?»
A Fest Forward Magazine é trimestral e o próximo número, o #2, sairá perto de Janeiro.
Este post tem uma óbvia declaração de interesse…
quarta-feira, 21 de setembro de 2005
«Sta Apolónia, zona de estiva, de comboios e pensões, é um local duro, de marinheiros trapaceiros bem longe da figura romântica de um corto maltese. Uma vez, fui tomar café com uma amiga que visitou aquilo pela primeira vez. E nessa primeira vez, roubaram-lhe a carteira. Acho que não causei boa impressão.»
...regressou de férias. Júbilo.
Nota: esta é a primeira vez que dedico tão explícita homenagem a alguém da blogosfera...
terça-feira, 20 de setembro de 2005
«Nós, cidadãos eleitores, admiradores do Dr. Mário Soares e seus potenciais eleitores, que de forma mais ou menos entusiástica reconhecemos o seu papel na luta contra a ditadura e na construção do estado democrático, recordados da elevação dos seus mandatos presidenciais e tendo ainda fresca na memória o clima verdadeiramente nacional e patriótico da comemoração do seu aniversário, pedimos ao Dr. Soares e aos elementos mais lúcidos da sua candidatura a coragem necessária para desistir. As portuguesas e os portugueses precisam do Dr. Soares onde ele estava. Generoso, informado, atento, no despacho da Fundação, em entrevistas e conferências onde discorra sobre a realidade do país e do mundo sem a avidez dos que agem por táctica e com a serenidade de quem não tem outra estratégia que a procura da verdade. É aí que o queremos continuar a ver.
Nem nós, nem o senhor precisa de ouvir a arquitecta Roseta dizer de si o que Mafoma não disse do toucinho. Nem de assistir à multiplicação das estátuas ao autor da Praça da Canção, à sua inclusão no segundo volume da Antologia Século de Ouro. Nem de ler o que a candidatura do Prof. Cavaco já começou a desenterrar das lixeiras. Nem de assistir, ao longo de quatro longos meses, ao esforço militante de Louçã e de Jerónimo.
Em nome da qualidade do ambiente, da esperança, mesmo que infundada, no futuro, do convívio intergeracional, da história de Portugal que os meninos futuros hão-de aprender, desista Dr. Mário Soares. Não houve e poderá não haver tempo para uma alternativa à esquerda para o Prof. Cavaco? É lamentável. Mas o senhor não é essa alternativa. Se ela existe irá aparecer, a esquerda e a mulher ou o homem que a possam representar. E se não aparecer tanto pior e tanto melhor. Assim todos saberão aquilo com que verdadeiramente podem contar.»
Luís Januário, eleitor 4288, freguesia dos Olivais, Coimbra
Copiado ali do lado, do Inansia.
domingo, 18 de setembro de 2005
Courrier Internacional
edição portuguesa, 16 a 22 Set (semanal), n.º 24
2,50 euros 72 euros assinatura anual
Desde que lia o Pedro Rolo Duarte, ao sábado, no DNa, gabar o jornal e comentar o que lia na edição francesa do Courrier International, que suspirava por não encontrar a publicação nas bancas — excepto raras vezes numa tabacaria do CC Colombo — e mais ainda por ter deixado de praticar o francês, que hoje se resume a dizer que je ne parle pas du français e nem faço ideia se isto está bem escrito. Contudo, chegou a Portugal a edição feita pelo grupo do sr. Balsemão e só a comprei 24 semanas depois. Por ter a possibilidade de ler em português achava menos… charmoso? Não sei.
A verdade é que o jornal tem o seu interesse, é um bom produto para leitura ocasional — sim, ocasional, e não semanal. Porque qualquer serviço de clipping, selecção, tradução e corte, nunca é totalmente imparcial, objectivo — seja lá o que isso for — e desinteressado. Tal como o que faço abaixo.
Desta edição, que contém um punhado de textos relevantes, destaco excertos de um contraponto entre duas posições publicadas no Die Zeit, acerca da candidata a chanceler, Angela Merkel.
Por Susanne Mayer: «Finalmente! É possível? Um século após a obtenção do direito de votação para as mulheres, 50 anos após ter sido instituída a igualdade homens-mulheres na Lei Fundamental, 40 anos após a nomeação da primeira mulher ministra, 30 anos depois de uma mulher ter sido pela primeira vez presidente do Bundestag, ao cabo de décadas de avanços na formação das mulheres e de esforços por uma política de igualdade entre os sexos, é possível que tenhamos finalmente uma candidata à chancelaria? Uma mulher no topo da pirâmide! Em vez de provocar gritos de alegria, isso está a fazer nascer uma vaga de inquietação na Alemanha. Será que ela é capaz?, interrogam-se as pessoas. Será que a Alemanha pode permitir-se ser dirigida por uma mulher? Aliás, é uma mulher?»
Por Susanne Gaschke: «Só pode haver duas razões para votar numa mulher por ser mulher e não pelo seu programa político. A primeira seria o seu valor simbólico numa sociedade onde elas são politicamente discriminadas. Onde lhes é negada a capacidade de exercer a função de chanceler. Onde são afastadas das possibilidades de formação e de carreira e a política dos homens as põe à margem. Está longe de ser o caso da Alemanha.
A segunda razão para eleger uma mulher porque é mulher seria a ideia de que elas fazem uma política diferente, ou antes, melhor do que os homens. De que são mais meigas, mais sensíveis, mais concretas, menos pedantes. Exceptuando o biologismo que subentende uma tal argumentação, isso não corresponde em nada a Angela Merkel. O que a caracteriza é a rigidez, a ausência de escrúpulos, a vontade de poder que a anima para alcançar os seus objectivos (…) mas que não tem nada de especialmente feminino ou simpático.»
O Die Zeit é o semanário mais difundido na Alemanha, com tiragem de 490 mil exemplares, e o Courrier Internacional descreve-o como «tolerante e liberal, um jornal de grande informação e análise». Eu conheço um alemão que o lê e já me tinha passado essa ideia.
Briefing
13 Set (semanal), n.º 507
3,50 euros
O toque é agradável, esclarecendo a ficha técnica que se trata de papel de 115 gramas, mate (tipo jornal, mas bem mais grosso). O cheiro é proeminente e não vale a pena gozar, porque o cheiro do papel tem muito que se lhe diga, no que toca a ler produtos de imprensa. Eu, pelo menos, acho que sim. E o modelo gráfico é simples e de fácil leitura.
Contudo, a maior desilusão da Briefing — publicidade, media, omunicação e produção, está mesmo no seu conteúdo. À base de pequenas notícias e algumas colunas de opinião, a Briefing não oferece mais que uma visita diária ao site da Meios & Publicidade não cubra. E a julgar pelas páginas de publicidade, se o preço de capa pagar o papel e despesas de impressão e circulação (não consta nenhuma informação de tiragem), é lucrativa e poderia ser um produto melhor.
Foi a primeira e última compra.
Media XXI
Julho/Agosto 2005 (bimestral), n.º 82
4,00 euros
Dossier: comunicação e marketing político — técnicas e tendências em Portugal
Foi a primeira vez que comprei a Media XXI — revista de comunicação e sociedade da informação, uma das poucas revistas nacionais dedicada à temática dos media, comunicação, jornalismo e afins. E quer-me parecer que não o volto a fazer.
Por incrível que possa parecer, a Media XXI destaca-se pela fraca qualidade dos textos, muitas vezes bastante mal escritos. Como se isso não fosse já bastante, a revista não faz uso da máxima jornalística que diz haver sempre alguém que nos lê pela primeira vez, e todo um rol de vocabulário específico (e por vezes estrangeiro) surge inexplicado e grafado normalmente, contribuindo para a distracção e desmotivação na leitura, que fica a meio, muitas vezes. É, portanto, mas inassumidamente, uma revista feita por profissionais e para profissionais? Mesmo assim…
Mais — e sabendo que há quem me aponte como crítico excessivo — tenho a dizer acerca do grafismo, que não podia ser menos apelativo, com cores mortas, modelo gráfico nada imaginativo e tipo de letra pobre. E claro, o papel brilhante, impossível de ler sob qualquer luz directa.
Talvez por tudo isto não tenha muito a destacar sobre o tema de capa, comunicação e marketing político — técnicas e tendências em Portugal. Fica esta transcrição: «os eleitores aos quais se destina, prioritariamente, a comunicação eleitoral, não querem fazer política; querem entregá-la aos políticos e esperam deles que resolvam os seus problemas». Reflexo dos tempos.
Nota: acerca da Business Week, também desgosto do papel, de gramagem demasiado fina. No entanto, é mate.
sábado, 17 de setembro de 2005
Business Week
european edition, september 26
4,50 euros / 58 euros assinatura anual
“I’m outta here!” – Why Microsoft is losing some key talent
Gosto da Business Week. Habituei-me a lê-la (irregularmente) faz agora um ano e esta é a segunda vez que a revista me dá um insight sobre os problemas que atravessam algumas das grandes multinacionais norte-americanas. A primeira foi a Coca-Cola e agora a Microsoft do sr. Gates.
A Microsoft atravessa uma grave crise interna. A companhia continua lucrativa, sim senhor, mas apenas cresceu oito por cento no último exercício, o primeiro crescimento de apenas um dígito nos seus 30 anos de história. E são os trabalhadores quem se queixa. De quê? Disto: estagnação da produção, no sentido de falta de inovação; lento desenvolvimento de produto; burocracia em excesso, provocada pela estratégia de sincronismo; desmotivação da massa trabalhadora.
De há uns cinco anos a esta parte a Microsoft tem uma estratégia de sincronismo, ou seja, todos os departamentos – cada produto é um departamento específico, como Windows, Office, MSN, etc – têm que trabalhar em sintonia, para que todos os produtos estejam no mesmo patamar de integração, inovação e até para que as saídas para o mercado não distem muito no tempo. Acontece que quem marca o passo é o departamento Windows. E que esta estratégia de sincronia não é produtiva, porque priveligia uma lógica de manutenção e não de inovação – o que também leva a que os programadores de topo, desejosos de inovação, de criar, acabem deixando a empresa para trabalhar nos concorrentes Yahoo, Google e eBay –, além de óbvias dependências entre departamentos. A Microsoft limita-se a manter o monopólio. Outro dos problemas desta estratégia de sincronia é o tempo dispendido em reuniões entre departamentos, para pontos de situação, aprovação de ideias ou elementos em teste, etc. Isto leva os trabalhadores a pedir autonomia – «dá licença a que eu vá trabalhar, que inove?»
Outra das questões é o fosso salarial entre executivos e engenheiros – cada vez maior e a aumentar, para benefício dos primeiros –, e o corte das stock options a todos os novos funcionários, que apenas recebem o seu salário e nada mais – enquanto 90 por cento das empresas do sector continuam a oferecer opções de compra de acções como complemento salarial e prémio de produtividade. Aliás, a companhia tem cortado nos apoios em doença e compra de medicamentos, e até retirou as toalhas dos balneários – querem secar-se, tragam de casa!
Os trabalhadores queixam-se, igualmente, da falta de tempo para pensar: «like Google, Microsoft should set aside a slice of every employees time so they can think creatively about new business ideas, rather than simply following orders from supervisors», pode ler-se num documento intitulado Ten Crazy Ideas to Shake Up Microsoft, escrito por funcionários da empresa e enviado a Bill Gates.
É nestas coisas que gasto o meu [muito pouco] dinheiro…
sexta-feira, 16 de setembro de 2005
Imagem roubada ao Indústrias Culturais…tinha cagado prá revolução e prá grande Colômbia e pátáti, pátátá… e tinha era fugido com a Amparo Grisales, que é um mulherão. É que era já. E não a seguir.

Hoje vi: Bolívar Soy Yo, fita colombiana, de 2002, ganhadora de um belo rol de prémios internacionais.
Mostra de cinema latino-americano, no Fórum Lisboa, até 24 Set (sáb). Bilhetes a 3 euros.
Mais info aqui: www.mostra-americalatina.web.pt
domingo, 4 de setembro de 2005
Não sou melhor que aqueles que desprezo cada vez que cá venho. Porque também eu vim para cá hoje, domingo, com 30ºC de temperatura exterior à sombra, e eu num centro comercial (CC, para facilitar). Costumo dizer, acerca desta gente, «não têm nada de melhor para fazer?» Pelo que vejo, eu também não tenho. E se tiver em conta que vim para aqui apenas para estar sentado a uma mesa, bebendo café e tomando notas no meu Moleskine, ao invés de ver montras, fazer compras ou comer um hambúrguer, e somar a isto o facto de estar numa zona de esplanada interior junto ao McDonalds, quando poderia estar numa muito mais pseudo-intelectual Fnac, então ainda sou pior que todos estes peões que para aqui andam e me enojam. Por indução, hoje sou um deles e hoje também eu sou vómito.
Começa por me irritar entrar no parque de estacionamento, que é gratuito, e ver carros estacionados fora dos recortes e nas zonas de passagem, próximos da porta mais próxima, quando o parque está longe de estar lotado. Suspiro, estaciono e sigo com precaução para não ser abalroado por um Saxo de mil de cilindrada mas com escape de versão Cup, ou por um AX ou Uno quitados e manuseados por gajos mais velhos que eu, usando boné, calça tipo corsário branca e sapato-ténis Nike ou chinelo havaiano chinês.
Consoante a porta de entrada no CC, o odor ambiente oscila entre o neutro fresco do ar-condicionado e a fragrância Big Mac viajada do segundo piso para o rés-do-chão – foi por aqui que entrei. Os CC têm um cheiro característico, nojento em qualquer dos casos, e depois de trabalhar no laboratório fotográfico de um deles durante mais de um ano e meio, o que mais me incomoda nos CC é o cheiro, que nem mesmo o pivete do nocivo e não inspeccionado líquido revelador de películas tão característico das Kodak Fotosport, consegue apagar da minha memória.
As pessoas que andam pelos CC, qualquer que seja a categoria a que pertençam, também me provocam asco. Os vigilantes, engravatados ou fardados com bota e boina de tropa, que de maus só têm mesmo… tudo menos um duro carácter, que não têm de ser musculados ou ter cumprido o serviço militar, lembram-me um colega do liceu que, não sendo incapacitado, era e continua sendo burro, escolheu a sistemática do charro, de querer ser preto sendo branco, brinco e anel de ouro, ensino recorrente só para despistar e não ter de ouvir os pais – afinal, é à noite que estão em casa –, não sendo isso sinónimo de sequer entrar na sala de aula, colega meu esse que encontrei como vigilante, há coisa de um mês, no recém inaugurado auditório municipal. Para manter o lifestyle diurno.
Além destes, há as lojistas, aquelas raparigas da minha idade, give or take uns dois anos, uma boa parte das vezes bastante boazudas, giras até, muito arranjadas, amiúde até demais e decalques das gajas que se vê na MTV, que trabalham nas perfumarias, boutiques de roupa, malas ou sapatarias, nunca na Fnac ou na Bertrand, miúdas que um gajo só de olhar até coloca a hipótese de poder partilhar um café e conversa durante uma horinha, bastando para isso que ela não esteja a bulir ou não tenha um cão-pastor condutor de chaço tunning-rátátá, que é a onomatopeia para os rátéres, mas depois ouvimo-las falar e percebemos que o 12º ano foi uma miragem, que “inadvertidamente” não aparece nos Malucos do Riso, na rádio Oxigénio ou no Curto Circuito, e é, muito provavelmente, uma palavra inglesa, «e eu sempre tive negas a inglês». Estas não me lembram nenhuma colega do liceu, porque na altura elas não mostravam o umbigo sob as calças de cintura descida e camisolas subidas, não arranjavam as unhas, não iam ao cabeleireiro sozinhas, a TV Cabo era uma raridade e voltando ao que interessa, a gente não sabia que elas eram boas. Só o descobrimos agora, já no fim da faculdade, depois de nos termos tornado amigos e já não dar.
A mais vasta categoria de pessoal que anda pelos CC é a maralha, que a um domingo como este vem maioritariamente aos grupos, com os putos pela mão ou no carrinho, e os avós cansados de tanto andar, que aqui se fazem quilómetros sem se dar por isso. Hoje está particularmente escasso o pai de camisola branca de alças, calção de praia e chinelo, aqueles que não empurram o carrinho, nem o do puto quanto mais o das compras. Mas há-os de t-shirt da JB arranjada pelo Alfredo do café, alguns de pólo!, com óculos escuros de armação plástica azul metalizada, no cimo da cabeça, calça de ganga também azulada – não vi nenhuma daquelas coçadas na coxa ou rasgadas na canela, muito trendy aí há uns anos –, sandália de tipo não-Excesso, vá lá, ou sapato-ténis desportivo, daqueles Puma para futebol de salão, sujeitos que fumam copiosamente e não falam do jogo da selecção com o cunhado porque os luxemburgueses levaram seis a zero e por isso eles estão contentinhos, ainda mais se tivermos também em conta que o Benfica não joga este fim-de-semana e assim não há hipótese de desgosto. Por ser domingo, a sogra, geralmente dele, também veio ao CC. As mães espelham no rosto algum alívio, saíram de casa pela primeira vez no fim-de-semana inteiro, a cozinha ficou longe e o jantar vai ser, pela certa, McDonalds. A mãe, que veste um modelito em que o sapato laranja bate certo com os motivos florais também cor-de-laranja da camisola branca, a mãe que bebe um café ou um Trina – já me esquecia: o pai já está na imperial –, nos espaços de tentar aquietar a miudagem. Estão aqui uns vizinhos meus.
Infelizmente este é o primeiro fim-de-semana de Setembro e a emigrantada já se foi toda embora, digo eu, que não ouço pelos corredores «Jean Pierre, vien ici! Ouvistes? ‘Tás aqui, ‘tás a levar!», Jean Pierre que é como se chama aos putos que nascidos cá teriam sido João Pedro, numa semana em que a TV tivesse avariado e a novela da Globo na SIC não tivesse entrado lá por casa.
Verdadeiro reflexo dos tempos modernos, isto só para elevar um pouco o nível da conversa, até porque desde as gajas lojistas fodíveis, que é uma palavra que aprendi no melhor blog do universo, que ninguém mais se riu, e portanto há que ter um apontamento inteligente, equilibrado e ponderado, que é uma palavra que começa com “P”, assim como Estado-Providência, também há velhos, casais de velhotes que vêm aos CC aos domingos, beber a bica, porque eles chamam-lhe bica e nós café, e passam umas horas sentados à mesa da esplanada, calados, olhando a carneirada, como este casal que está aqui à minha frente. Isto é um verdadeiro reflexo dos tempos modernos e da boa vida que se têm no Portugal de hoje, na medida em que há 40 anos atrás era inconcebível que os velhotes tivessem esta autonomia, almoçassem no restaurante ou fizessem turismo sénior, simplesmente porque não havia reformas. Nem do tipo da do Campos e Cunha nem nenhuma – não havia. Mesmo assim, hoje eles não parecem muito à vontade no CC, o ambiente continua sendo estranho para eles, cujos filhos estão a regressar de férias no Algarve, alugaram um apartamentozinho em Armação de Pêra, e os progenitores cá ficaram, na monotonia da solidão, tão igual à dos outros dias. Contudo, eles são diferentes delas. Eles não vêm em grupo, preferem ficar na taberna a jogar à lerpa; elas vêm, aos trios, arranjadas, para lanchar dois Sundaes de caramelo, um de morango e dois copos com água.
A malta nova também anda por aí. Elas parecem saídas dos telediscos da MTV, tão mal aloiradas que faziam melhor se estivessem a esbofetear violentamente a cabeleireira responsável por aquela merda, ou o namorado que lhes diz, enquanto ela carinhosamente lhe massaja a nuca na viagem de regresso ao bairro, no autocarro apinhado, «môr, tás linda, pareces a Shakira». Mas eles não estão melhor, parecem um dos manos Anjos, à vez, porque os há lambidos e com barba de três dias e igualmente com o cabelo espetado e carinha de menino, de jeans justos, carteira e telemóvel de terceira geração numa mão, gaja na outra e porta chaves pendurado ao pescoço. Ou então elas parecem-se com 90 por cento das gajas lá da faculdade, com calças largas e descidas, top de alças e penteado com franja, e eles também de calças largas, chinelinho e cabelo à surfista de água doce, como o rapazola que apresenta programas na MTV.
Há um ruído constante nos CC, das vozes das pessoas, berros das crianças, pratos e chávenas, moinhos de café, tabuleiros de plástico sendo batidos e arrumados pelas senhoras da limpeza. Gostava de poder medir o ruído num CC, com uma daquelas maquinetas engraçadas, mostrador digital, não sei quantos dB, lê-se dê-bê. As senhoras da limpeza, voltando à sociologia e ao preconceito, teorias de hierarquia social e afins, as senhoras da limpeza têm a minha compaixão. Passam oito ou 12 horas em pé, de um lado para o outro, a limpar as mesas que emporcalhámos e a recolher as merdas que lá deixámos, quando saímos sem nos preocupar. Ah e tal é o trabalho delas. ‘Tá bem, mas nós somos porcos. Estas senhoras, e há aqui algumas que aparentam ter passado a idade da reforma, são exploradas pelo valor mais baixo, neste país merdoso que vive a barreira dos 500 euros, que conheci um suíço e o tipo ficou parvo quando lhe disse que o salário mínimo nacional aqui ronda os 380 euros, muitas destas senhoras da limpeza são africanas e nem falam português, escondem-se da supervisora atrás dos pilares para atender o telemóvel, ninguém sequer lhes agradece quando levam a tralha da mesa. Por que raio agradecemos à brasileira que nos dá o café e cobra por isso, e desprezamos, sem lhe dirigir uma palavra, a senhora que nos limpa a mesa de borla?
Vou buscar um Big Mac. Não quero ser diferente.