quinta-feira, 1 de setembro de 2005

Feliz ano novo.

terça-feira, 30 de agosto de 2005

Para variar...
...cinema europeu. De tanto bater o meu coração parou, directamente de França; Os edukadores, de Berlim. No King ou Monumental, em Lisboa.

quarta-feira, 24 de agosto de 2005

Basileia é a cidade mais quente da Suiça. No norte do país, cortada pelo Reno, ladeada por território alemão e francês, Basileia é uma antiga cidade industrial, com grande tradição na alquimia, a química de hoje e das grandes farmacêuticas. Porque o país é trilingue, Basileia pode ser Bale, em francês, ou Basel, em alemão e inglês. O turismo vende Basileia como a capital cultural da Suiça e a cidade alberga, de facto, cerca de 30 museus. Foi num deles que me deparei com O Português Emigrante, pintura de Georges Braque, datada de 1911. Agosto em Basileia, que mais pareceu Outono.


O Português Emigrante, 1911, Braque


O Kunstmuseum é o ponto de partida para qualquer périplo museológico pela cidade. Porque é o maior, porque a sua exposição permanente reúne todos os grandes nomes da história da pintura do velho continente, como Kandinsky, Picasso, Magritte, Chagall, Munch – onde pára O Grito? –, Gaugin, Van Gogh, Monet, Renoir, Manet, Cézanne, Degás, Delacroix, Bruegel – que assina um perturbador mas belíssimo O Triunfo dos Mortos, de 1569 (imagem grande) –, Miró, Dali e Matisse, entre outros.

O Triunfo dos Mortos, 1569, Bruegel


Foi lá que encontrei a exposição Covering the Real – art and the press picture, from Warhol to Tillmans, uma mostra sobre os media e a forma como é feita a cobertura de eventos que são notícia. Uma pérola.

Um trabalho de Sarah Charlesworth mostrava 45 primeiras-páginas de todo o mundo, do dia 21 de Abril de 1978, data em que o primeiro-ministro italiano Aldo Moro, que havia sido raptado e se cria morto, aparecia, afinal, vivo. Nas páginas tinha sido apagado todo o texto, ficando somente a fotografia alusiva ao evento e outras referentes a outras notícias (se as houvesse), bem como o título do jornal. O trabalho mostrava os diferentes enquadramentos feitos à mesma fotografia de agência, as diferentes localizações na página, tamanhos e destaque. Somente a imagem, sem contexto – para quem, como eu, a data nada dizia, só descobriria lendo o guia da exposição ou pesquisando. O que introduz uma série de questões, desde o mais imediato “porquê assim” do tratamento da imagem em cada periódico, até ao valor da imagem de imprensa por si só.


Neste mesmo tema, numa outra sala, eram projectadas fotografias recebidas em tempo real pela agência suíça Keystone. Somente as imagens, sem qualquer legenda, pela ordem aleatória em que chegavam à redacção. Sucediam-se sem intervalo de tempo predeterminado, que poderia durar dois minutos ou 30 segundos. As minhas notas:

- uma feira de livro algures num país asiático; pessoas folheiam livros numa longa banca, provavelmente de saldos;
- uma mulher vasculha caixotes numa venda de garagem ou mudança; América do Norte ou Latina;
- aviões da British Airways; uma porta de porão de carga aberta mostra apenas “british …ways”;
- incêndios num país tropical (é tudo verdejante); ou uma plantação de droga sul-americana que levou fogo;
- polícia indiana ou indonésia escolta um Volvo, em motas Suzuki de baixa cilindrada (250 ou 500 cm3);
- soldados… Kalashnikovs em punho;
- Durão Barroso :) na Comissão Europeia;
- (bandeira preta, branca e verde com um triângulo vermelho) uma coluna militar em carros civis;
- jovens turistas numa estação de comboio; nacionalidade imperceptível, dada a ausência de referências; os desenhos nas mochilas sugerem um encontro religioso;
- novamente a coluna militar em carros civis; Índia, Paquistão, Iraque?

A fotografia de imprensa, sem legenda, não tem valor? Não passa de uma fotografia banal? A verdade é que, sem legenda de qualquer espécie, apenas pude supor sobre o que ali via retratado. Acertei que os jovens turistas se deslocavam para o encontro religioso de Colónia, porque já havia ouvido falar disso. Mas os meus palpites sobre a nacionalidade dos soldados da coluna militar falharam em grande: a bandeira é da Jordânia. Tudo o resto e mesmo esta última não passou de imagens banais, sem qualquer significado. Quando vemos uma fotografia sem legenda tendemos a olhá-la demorada e atentamente; se a fotografia tiver legenda, acabamos por dar mais atenção à frase que à própria imagem, passando por ela como uma mera ilustração de suporte.

Para descortinar o seu significado, a fotografia de imprensa precisa, sempre, de texto: seja a peça/reportagem ou a legenda.

Porém, logo à entrada da exposição, no hall do terceiro piso do museu estava montada uma instalação de René Pulfer, artista da cidade. Sob o nome News, no chão estavam espalhados 24 pequenos ecrãs LCD, transmitindo a emissão de outras de tantas estações televisivas noticiosas, de diferentes continentes e fusos horários – sem SIC Notícias ou RTP-N.

Mas muito interessante e até engraçado era o trabalho do israelita Omer Fast. CNN Concatenated isolava dez mil palavras ditas por repórteres da estação, construindo-se um novo texto. O vídeo tendia a exprimir e questionar a autoridade – e o controlo, manipulação? – das notícias de televisão. «What the viewer realises is that news reports are riddled with stereotyped, endlessly repeated components that may not be immediately apparent but severely impair the media’s claim to impartiality, objectivity and adequacy.» As transcrições estão aqui.


Um pouco diferentes eram os trabalhos de Martha Rosler. Em Bringing the War Home: House Beautiful e In Vietnam, a nova-iorquina escolheu fotografias de guerra publicadas na revista Life, fazendo fotomontagens com cenas do quotidiano norte-americano.


O francês Bruno Serralongue cobriu o Encontro Intergaláctico contra o Neoliberalismo e para a Humanidade (1996), antecessor do Fórum Social Europeu, e a Cimeira Mundial para a Sociedade de Informação (2003) com uma câmara fotográfica de fole de formato 10x12cm.

De Andy Warhol estavam patentes quatro trabalhos de reprodução mecânica e alteração de fotografias de imprensa: Nine Jackies [Kennedy], Red Race Riot, Five Deaths Seventeen Times in Black and White e Suicide/Silver Jumping Man (tudo entre 1963 e 64).

No fim fica o arrependimento por não ter comprado o álbum/catálogo da exposição, por 60 francos suíços.

Enquanto terminava esta mostra, abria ao público na Fundação Beyeler a exposição René Magritte, a chave dos sonhos. Na mesma casa já se podia ver Picasso surrealista, 1924-1939. Do primeiro impressionaram-me especialmente The Titanic Days (1928), o cachimbo que não o é, The Treachery of Images (1928), The Ignorant Fairy (1950) – de que fiz uma leitura diferente: “a fé ignorante”; a vela é a fé; a fé não ilumina – e The Month of the Grape-harvest (1959) – tão actual: a janela da casa está aberta, todos nos olham lá de fora.

The Titanic Days

The Treachery of Images

The Ignorant Fairy

The Month of the Grape-harvest

De Picasso, para não me estender, apenas O Beijo (1931).

The Kiss

terça-feira, 9 de agosto de 2005

Ben Harper, o incompreendido
Ok, “o sentir vem primeiro”. Mas daí a dizer-se da música de Ben Harper que é essencialmente «muito de Verão (...) que se ouvem bem junto à praia ou na esplanada (...) não importa tanto as canções, que “são bonitas”, mas a forma como as canta, a emoção», isto é redutor.
(no Público de ontem; não linko porque não está disponível)

Ben Harper, caso de estudo pelo raro sucesso alcançado em Portugal - venha quando vier, seja em que sala ou palco for, enche sempre! - tem uma legião de fãs que o conheceu a meio da discografia e que não se preocupou em ver o que estava para trás. É certo que o próprio músico mudou, evoluiu num sentido diferente. Mas esquecer ou desconhecer Pleasure And Pain (1992), Welcome To The Cruel World (1994), Fight For Your Mind (1995) e The Will To Live (1997) e toda a politização da sua obra, é muito redutor.

É como dizer que a estrela vermelha na bateria dos Rage Against The Machine era pra enfeitar. “Fãzecos”...

domingo, 31 de julho de 2005

«Eles comem quase tudo»
«Portugal já foi anexado no mapa dos investimentos espanhóis. Em cinco anos, as mais de 2.000 empresas espanholas a operar em Portugal investiram 10 mil milhões de euros no país, que deixou de ser visto como um mercado externo para passar a fazer parte das regiões da Ibéria. “Nuestros hermanos” não param. O próximo passo desta invasão será a abertura de um novo armazém da cadeia El Corte Inglês. Depois de Lisboa e Gaia, segue-se Évora. Na banca, os nervos estão em franja, com receio de uma megaofensiva do BBVA. É que o sistema financeiro nacional foi abalado quando o Santander comprou o Totta de António Champalimaud e agora os dedos apontam para a aquisição do BPI e para as compras que o Popular quer fazer em Portugal. Tudo uma semana após a aquisição do Grupo Media apital pela Prisa do Jornal El País. Os espanhóis marcam presença em quase todos os sectores da actividade e nem a segurança foge à regra: a Prosegur ganhou o concurso dos aeroportos portugueses.»
Expresso, 30 Jul 2005, Economia & Internacional


Nem mesmo uma área de actividade desqualificada como a segurança as nossas empresas conseguem/querem agarrar? Mas, e os ‘tugas? Ah, claro, andam a construir [obviamente... saberão fazer mais alguma coisa?] em África e no Brasil, onde há dinheiro fácil. Mais fácil ainda que o nosso.

Como escreve, e bem, Nicolau Santos, os espanhóis estão a tomar posições em cinco áreas bem definidas: telecomunicações, energia, água, banca e media. «Perceberam ou é preciso explicar?» As páginas do Expresso deste fim-de-semana fazem o retrato.

Banca
A banca espanhola controla directamente cerca de 15% do sector financeiro português (Santander comprou o Totta a Champalimaud; Banco Popular comprou o BNC a Américo Amorim; BBVA analisa compra de um banco português de «média dimensão») e indirectamente a catalã La Caixa detém 16% do BPI e o Banco Sabadell é o maior accionista do Millenium BCP.

Construção
As construtoras espanholas controlam cerca de 30% do mercado português. A Sacyr comprou a Somague; ACS, número-um em Espanha, detém 10% do Grupo A. Silva&Silva e 45% da Sopol e da CME; Ferrovial detém a Ramalho Rosa; FCC é dona da Cobetar.

Imobiliário e Hotelaria
O Grupo Prasa tem interesses no Algarve e em Loures, além de ter comprado interesses da Lusotur em Vilamoura. No imobiliário português operam ainda as espanholas Hercesa, Aguirre Newmann, WLAR e Reália.
Na hotelaria, as cadeias NH e AC já têm unidades em Lisboa; a Sol Hott soma 11 unidades no país; a Hotusa já inaugurou o primeiro de três hotéis em Portugal, além de deter a gestão de cerca de uma centena de unidades; o Grupo Pransor controla os hotéis AS e as lojas de conveniência ARS.

Combustíveis
A Repsol é a segunda maior distribuidora em Portugal, depois da Galp e após ter comprado a rede Shell. A Cepsa, com 150 postos, está em quarto lugar.
[A Galp quer acabar com a refinação, para se dedicar ao gás natural (mais rentável, porque mais barato de operar - afinal, são só tubos, não é?). Se o fizer, deixa Portugal dependente não da matéria prima petróleo (como já é), mas também (e mais grave) do produto acabado!]

Energia
A Endesa está no capital da Tejo Energia e Central Termoeléctrica do Pego, além de ter comprado a Finerge (ramo eólico; comprou à Somague). A Iberdrola e a Gamesa são concorrentes (com a Galp) ao concurso de atribuição da energia eólica em Portugal. A Iberdrola detém 4% e 5,7% na Galp e na EDP.

Pronto-a-vestir
O Grupo Inditex controla a Zara, Massimu Dutti, Pull&Bear, Stradivarius, Oysho, Zara Home, somando 250 lojas. O Grupo Cortefiel, além das mega-lojas com o seu nome, detém as Springfield, Women's Secret, Pedro del Hierro, Douglas e Milano, totalizando mais de 50 unidades.

Alimentar
No sector alimentar os espanhóis têm uma quota não inferior a 15%. Panrico, Campofrio, Nutrexpa, La Menorquina e a líder mundial nos ultracongelados de peixe, Pescanova - são todas nossas conhecidas.

Media
O Grupo Prisa comprou a Media Capital (TVI; revistas Lux, Maxmen; jornal Metro; publicidade exterior e conteúdos para internet, como os portais Agência Financeira, Portugal Diário, Mais Futebol e IOL; rádios Comercial, Best Rock, Cidade e Rádio Clube Português). A Recoletos domina a imprensa económica, detendo o Diário Económico e o Semanário Económico. A Prensa-Ibérica fechou A Capital e O Comércio do Porto, na falta de comprador. Na distribuição, a Logista (ex-Midesa) reparte o mercado com a VASP - uma distribui o Público e outra o Expresso, por exemplo, além de dezenas de outros títulos.

quinta-feira, 28 de julho de 2005

Ventilar
No DN, secção Media, edição de quarta-feira:
«Porém, as mesmas não chegaram a bom porto porque, segundo se ventilou na altura, o grupo espanhol terá colocado condições inadmissíveis...»

No DN, secção Media, edição de quinta-feira:
«Numa altura em que no mercado televisivo se ventila a hipótese de Francisco Penim vir a ocupar um alto cargo executivo...»

(o jornalista não é o mesmo, por isso será uma coincidência o termo aparecer no mesmo jornal e na mesma secção)

Os sublinhados são meus. O dicionário diz-me que ventilar significa, no figurativo, debater ou discutir. Olhando para o contexto dos excertos, eu diria que o uso do verbo está incorrecto, porquanto o sentido que lhe pretendem atribuir estará mais próximo de veicular, falar, dizer, conversar ou mesmo comentar. Assim: numa altura em que no mercado televisivo se fala/comenta a hipótese de etc e tal.

Vi/ouvi (sim, TV e rádio...) pela primeira vez esta aplicação do verbo ventilar nas notícias desportivas. E por preconceito, ri-me, desculpei, engoli. Agora, na imprensa de referência?

De resto, a palavra é... nojenta! Sai um dicionário de sinónimos prá redacção ali à Av. da Liberdade.

quarta-feira, 27 de julho de 2005

«Blitz, música e cultura jovem»
Passaram anos sem comprar, folhear ou sequer olhar a primeira-página do Blitz. Hoje larguei o meu euro e levei o jornal comigo para a mesa do café, com o único objectivo de “deixa-me cá ver como é que isto está de saúde”.

(sublinhados meus)
Página seis, com o título «Baile de finalistas», soltei o primeiro suspiro. «A primeira banda do reggae branco deleita um coliseu cheio de público nostálgico» era o sub-título ou super-lead (?), de um texto que passei à frente. Aparte o erro e a imprecisão do super-lead (?), pergunto ao Gonçalo Frota: não havia título mais vazio?

Na página oito, encimado pelo título vazio, morto e nada apelativo «A tua presença», e pelo super-lead «A verdadeira diva da MPB conquistou o Coliseu dos Recreios na primeira de três noites para lançar o novo álbum», estava um texto sobre um concerto de Maria Bethânia. Da peça destaco «…estava rendido a Bethânia desde que ela entra em palco ao som da…», além de duas referências a uma MPB não explicada – apesar de facilmente se conjecturar que seja Música Popular Brasileira – e de duas frases começadas por «E, …». Belo trabalho, Jorge Mourinha.

Na página 10 havia uma reportagem sobre o Festival Tejo. Um redundante «Noites do Tejo» abriu um trabalho de Tiago Carvalho, uma reportagem que tentou ser madura e focar o carácter inter-geracional dos festivais de música da época de Verão. Daí as imensas referências que o jornalista fez à idade dos veraneantes com quem falou: Alexandra, 40 anos; uma senhora de 61 anos; Francisco, 45; Rita, 17; Telma, 21. Pena que o texto não deite uma gota, quando espremido. Lá no meio, assim como que caída do céu, esta construção: «Antes da entrada em palco dos Xutos…».

Na página 20, com o título «O mundo num castelo», que já não comento, encontrei uma peça sobre o Festival Músicas do Mundo e no lead um FMM caído de pára-quedas, mais uma vez.

Parei no cinema, à página 29, num texto de Jorge Mourinha, bem redigido e interessante. Somente saltaram à vista o título rebuscadíssimo «Sexo, drogas e rock’n’roll» e – logo na primeira linha, isto é que é pontaria – uma «Antárctica». Nota positiva, pá. Mas, ou é Antártica ou Antárctida.

É esta a imprensa portuguesa de «música e cultura jovem». Oh dona Rosa, tome lá o jornal de volta e dê-me antes um pacote de pastilhas, se faz favor...

domingo, 24 de julho de 2005

TVI: lê-se "tê ubê i", em castelhano, por supuesto!
Em Portugal trabalha-se para sustentar Espanha. Olhe-se para Miguel Pais do Amaral, que vendeu os activos da Media Capital à espanhola Prisa.

Perguntem lá outra vez: porque é que o país não cresce?

sexta-feira, 22 de julho de 2005

Agenda-setting

Após ler no Lóbi isto...
«Estava a ver o Telejornal (RTP) quando surge uma reportagem que relatava uma investigação a 14 alunos que alegadamente copiaram no exame de Matemática. Como não queria acreditar que esta notícia tivesse a dimensão de uma notícia nacional, mudei. A TVI estava a acabar uma peça sobre fraude no desemprego e inicia, imediatamente, a reportagem sobre a hipótese de 14 alunos terem copiado o exame nacional de Matemática.Mudei novamente. No FOX está a dar Will & Grace. Estou-me nas tintas para o país.» (post aqui)

...perdi uns minutos, embora apressados, confesso, a alinhavar este comentário:
«Existem oito principais critérios de noticiabilidade, a saber: actualidade; proximidade; proeminência; curiosidade; conflito; suspense; emoção; consequência. Não obstante a forma, certa ou errada, adequada ou não, como certos acontecimentos são tratados pela imprensa televisiva (portuguesa ou não), tento aqui ajudar a perceber (e a perceber eu mesmo, com este exercício) a noticiabilidade desse evento, a suspeita de que 14 alunos de uma escola de Braga tenham copiado no exame nacional de matemática.

A actualidade resulta aqui essencialmente do factor de oportunidade do evento, no sentido da sua contemporaneidade para com o público.

A proximidade, que será temporal, geográfica, psico-afectiva e social, justifica-se neste caso tendo em conta o destinatário daquela notícia: um jovem estudante, sua família; todos os jovens estudantes que realizaram o exame (dezenas de milhares?), suas famílias. Temporalmente, porque é esta a altura dos exames nacionais (por si e por cá, motivo de notícias variadas); geograficamente, porque é um caso bem localizado (centralizado em Braga, envolvendo 14 pessoas), mas que, por outro lado, tem alcance nacional; socialmente porque, sendo sobre uma franja da sociedade (os estudantes do 12º ano), envolve dezenas de milhares ou mesmo centenas de milhares de pessoas, directa e indirectamente (alunos, famílias, professores, sistema de ensino).

A curiosidade compõe-se de o desejo de ver ou conhecer, estimulado por factos que têm algo de estranho ou raro. Este acontecimento não será, por si, raro, pois estou certo que todos os anos haverá dezenas de provas anuladas na hora por cábulas ou afins, que não são notícia. Posteriormente, quando o corrector detecta casos estranhos, é curioso que este se construa de 14 alunos de uma mesma escola. (Faz lembrar o caso dos alunos que meteram atestado médico para não fazer exame, aí há uns anos, caso esse também bastante centralizado)

O suspense entra aqui em cena porque se trata de um caso de suspeita. Ou seja, o desfecho é desconhecido e por si, é motivo de interesse.

Agora JCS, quantas outras notícias há, mais pobres que esta em motivos para serem emitidas, todos os dias nas TVs portuguesas? Nem tudo agrada a todos os públicos. E isto é a agenda mediática a trabalhar: conteúdos diversificados para públicos variados. E pelo menos esta notícia teve interesse para uns bons milhares de miudos. Eu mesmo, se fosse há uns anos, teria ficado muito curioso. Apetece dizer: “give the kids a break”.

Abraço

P.S.: não obstante, o Verão é a época mais pobre na imprensa nacional… ainda não começaram a aparecer os cães surfistas?»

domingo, 17 de julho de 2005

WORLD PRESS PHOTO
Chega a Lisboa dia 30 de Setembro.
www.worldpressphoto.nl

quinta-feira, 14 de julho de 2005

Nasceram duas publicações
Jazz.pt é uma nova tentativa de entrada no mercado de uma revista sobre jazz, em português. Bimestral, custa 5,00eur e encontra-se na Fnac, por exemplo. Propriedade do Jazz ao Centro Clube.



Fest Forward Magazine é pioneira no género: uma revista em forma de guia dedicada a festivais, sejam eles de música, dança, teatro, cinema, fotografia e demais correntes artísticas. Uma lufada de ar fresco no mercado. Aliás, qual mercado?! A Fest Forward Magazine custa nicles, é trimestral e o número-zero já anda a circular por aí, com a promessa do número-um para Setembro (abordando o trimestre Out/Nov/Dez). Procurem-na (para já, à porta do festival mais próximo), porque vale a pena.

Filipe Pedro é o Director, Gonçalo Guedes-Cardoso o Director-Adjunto e Ana Serafim a Editora, que dirigem um leque de jovens escribas.

terça-feira, 12 de julho de 2005

O choque [tecnológico] necessário
O país precisa de um choque tecnológico. Disse-o o Governo e digo eu, pese embora as minhas ideias diferirem um pouco das do Primeiro-Ministro, o Eng. José Sócrates – ou Socky, daqui em diante.

Em traços gerais, a estratégia do executivo é levar a banda larga a todo o país, a todo o tipo de serviços, dotando os públicos disso mesmo e facilitando (?) aos privados o acesso. Serviços de impostos, de justiça, de administração e gestão, local ou não, o Socky quer tudo online. Os hospitais em vídeo-conferência, para que não se perca no interior a oportunidade de ter um especialista do Santa Maria a ver um doente de caso bicudo. A criação de empresas numa hora. Pedir segundas-vias de livretes e registar veículos na DGV pela internet. E tudo o mais que se possa imaginar. Este é, grosso modo, o choque tecnológico do Socky e dos seus amiguinhos.

Já eu, assim a modos que vejo as coisas de forma diferente. E vou falar somente do tecido privado, supostamente – ou “preconceituosamente” – de melhor e mais longa formação, mais competitivo em todas as unidades da sua verticalidade e horizontalidade – porquanto está sujeito à concorrência, dos lugares e dos outros –, mais preparado e mais “século XXI”. Ora quando o tecido privado não sabe usar a internet, estamos bonitos. Quando um email demora dias a ser respondido (quando é), e quando a resposta não tem nada do que se solicitou, estamos um bocado verdes. Quando a internet deveria servir para diminuir custos e tempo, mas nos pedem que, ou «envie por correio ou por fax», ou ainda que telefonemos, estamos a achar pouca graça. Quanto, pronto ‘tá bem, optámos por telefonar e nos dão o «número directo» ao invés de passar a chamada, ou ainda quando se justificam que é melhor ligar e perguntar «porque senão eu tenho de procurar isso aqui no “sistema” e ‘tá a ver, não é?», então estamos… com cara de parvos, concerteza.

Por isto e muito mais, eu proponho o choque eléctrico. Sim, esse mesmo, em cadeira de carvalho ou pinho, à moda do Texas. Porque de outra forma não vamos lá. Ou melhor, vamos sim, e vão os que têm dois dedinhos de testa, para outro lado – leia-se, para um país civilizado. Portugal é o melhor sítio para se viver, sem dúvida. Mas se se quer trabalhar, é de fugir.

sábado, 9 de julho de 2005

24º Estoril Jazz, 2005
8 de Julho, JAPP – The Charlie Parker Legacy Band


E à quarta noite fez-se jazz
Charlie Parker Legacy Band – o nome, só por si, já augura bons momentos, não tivesse Parker deixado uma marca indelével naquilo a que chamamos jazz. E o que é isso, precisamente, de jazz? Que nem se perca tempo tentando delimitar um conceito, porque tal é impossível e a resposta é tão simples quanto complexa. Porquê? Porque jazz, meus senhores, jazz foi o que se ouviu ontem, na quarta noite do festival do Estoril.

Só pela aparência o sexteto já cumpria com a imagem habitualmente predefinida do que é jazz: músicos negros americanos, barrigudos quanto-baste, daqueles que têm jazz nas veias e por isso tocam de olhos fechados, bem-humorados, e no que aos saxofonistas diz respeito, expressivos nas caretas de esforço e prazer que todos os fotógrafos desejam poder registar, a preto-e-branco, obviamente.

Logo aos primeiros acordes o público presente no Parque Palmela não conseguiu conter a satisfação. Porque o repertório de Parker é largamente conhecido, os comentários de fila de trás, daqueles que nos batem na nuca, foram uma constante entre os cavalheiros que, quixotescos, iniciavam suas donzelas no culto do jazz, quais booklet de CD, enquanto no palco os temas desfilavam alegres.

Como se tratou de interpretar pautas alheias, não houve espaço para improvisos ecletistas, somente para muita melodia. E nisso teve especial responsabilidade o trio de saxofonistas-alto, que bem aproveitou e muito agradou. Vincent Herring, repetente no Estoril, mais uma vez não deixou ninguém indiferente, porquanto o seu talento parecia sair em chamas do seu saxofone – admirável. Jesse Davis, natural do sítio onde tudo começou, Nova Orleães, também sobressaiu, apaixonado, cheio, estupendo. Wess Anderson, o mais jovem, foi porventura o mais fraco, contudo irrepreensível.

No conjunto, um nome saltava à vista. O veteraníssimo Jimmy Cobb, nascido no ano em que Wall Street “crashou”, baterista de formação que ao longo da sua carreira tocou com tantos e tão dotados músicos de jazz que só menciono um – Cobb é o último dos homens que gravaram o histórico Kind of Blue, de Miles Davis. Ontem, Cobb encantou e os seus solos fizeram-me perceber que até então eu vinha sendo intrujado por sucessivos bateristas. E confirmaram que o epíteto “lenda viva” serve, unicamente, aqueles que além de tocar há muito tempo, tocam muito, realmente muito bem.

A prestação de Ray Drummond, o baixista, foi a melhor que já vi no meu parco trajecto de jazz in loco. Nas mãos de Drummond – “lenda júnior”, nas palavras de Herring – o baixo não é um acessório, não está só lá no fundo, não passa despercebido e, acima de tudo, “percebe-se”.

Embora discreto, o pianista Ronnie Matthews foi peça essencial em todo o espectáculo, uma enorme bússola.

No final, era visível a satisfação estampada no rosto de quem descia o macadame rumo ao mar, ainda trauteando um “Quasimodo” ou “Parker’s Mood”. Que raio, nem o vento apareceu!

quarta-feira, 6 de julho de 2005

24º Estoril Jazz, 2005
1 de Julho, Quarteto de Von Freeman


Von Freeman, o maratonista do saxofone
Jazz em modo long play é a primeira ideia que ocorre sobre a prestação de Von Freeman e seu trio ontem à noite, no concerto inaugural do 24º Estoril Jazz/Jazz num dia de Verão. Isto porque o espectáculo, dividido em duas partes, ficou marcado pela longa duração dos temas tocados, uma vez que, quase sem excepções, Freeman e o seu trio solaram à vez. Apesar dos seus 83 anos, o saxofonista tenor correspondeu ao que se poderia esperar e nunca deixou esmorecer o público.

Ao agradável espaço do auditório do Parque Palmela, mesmo apesar do vento frio do mar, compareceu uma audiência capaz de compôr a casa, embora não tenha chegado à lotação máxima. A assistência pareceu heterogéna quanto-baste, ainda que se notassem muitos experimentados. Não, não digo que fossem velhos, que esses são os trapos. Mas sim que, para quem frequenta a época de espectáculos de jazz da grande Lisboa, havia muitas caras repetentes e cabeleiras grisalhas, o que, se por um lado é prova da consolidação destes eventos, por outro é imagem da dificuldade desta corrente musical em chegar a públicos mais jovens. O que será que falta fazer?...

Von Freeman, uma das velhas figuras da escola de Chicago, ali envergando uma singela camisola amarela, casaco de “fato-de-treino” e óculos escuros, apesar de não conseguir sprints dignos de registo olímpico, quando era hora de regressar à frente do palco – uma vez houve que o músico, depois de ter entregue o palco aos seus jovens acompanhantes, não conseguiu regressar a tempo e teve que começar a tocar sem estar perto da frente nem do microfone –, venceu na corrida da performance. Várias vezes gritou ao seu trio um irónico «go for it baby!», a fim de o mandar calar, pois era tempo de entregar todo o seu fôlego ao saxofone, em improvisos nuns momentos mais duros – Perrilo, o pianista, não disfarçou algumas caretas –, noutros mais melódicos e perceptíveis a ouvidos menos treinados.

As interpretações foram longas, como já se disse, mas variadas. Em Speak Like a Child, de Herbie Hancock, o trio Ron Perrillo (piano), Denis Carroll (baixo) e George Fludas (bateria) teve espaço para brilhar, com Perrillo conseguindo até arrancar do público a maior parte dos gritos e assobios de aplauso da noite. Tiveram ainda lugar Miles Davis, uma fenomenal e intensa versão de A Night in Tunisia, de Dizzie Gillespie, e quando as luzes já estavam acesas e a assistência aquecia só com a ideia de regressar ao interior dos seus automóveis, Freeman voltou para uma Yardbird Suite, de Charlie Parker. Se disser que tudo durou mais de duas horas e um quarto, com o devido desconto do intervalo para convívio e refrescar da garganta, certamente não estarei a exagerar.

Desempenhos aparte, outras duas coisas ficaram perceptíveis naquele espectáculo. Que o afamado crítico José Duarte se fez notar, mais uma vez, altercando com um espectador que não havia problema algum em estar ao telefone e que ele, o espectador, certamente não sabia quem ele, José Duarte, era – episódio triste, para dizer o mínimo. E também que entre Freeman e o seu trio existia um fosso, não de idade ou de talento, mas de maturidade – claramente foi um conjunto composto para a [última?] digressão europeia do velho saxofonista.

sábado, 2 de julho de 2005

Blogar requer tempo e disponibilidade mental. Coisas que têm faltado, por estes lados. Mas como me reconciliei com a vida durante umas horas, fui ao CCB espreitar umas coisas penduradas nas paredes.

A colecção da mostra “Lisboa Photo 2005” patente naquela sala, foi uma desilusão. «É arte, estúpido», dir-me-ão. A mim soube-me a falta de originalidade e pobreza. Um euro e setenta e cinco para o lixo e um arranque em tropeção que dificilmente me levará a visitar algumas das outras colecções, expostas algures na cidade.

A exposição “Espelho Meu, Portugal Visto por Fotógrafos da Magnum” é também – para usar um vocábulo agora muito na moda política cá do burgo – um embuste. As anunciadas três partes (de 1955 até à revolução de Abril, com imagens de Henri Cartier-Bresson, Inge Morath, Thomas Hoepker e Bruno Barbey; durante a própria revolução, com trabalhos de Guy Le Querrec, Jean Gaumy e Gilles Peress; e após 1976 e até à actualidade, com trabalhos de Bruce Gilden ou Martin Parr) de um conjunto de mil fotografias sobre Portugal esquecidas e agora encontradas nos arquivos da agência Magnum, mais não são que um conjunto de três fotos por autor. E as próprias imagens escolhidas não satisfazem. Ficamos à mingua…

Para compôr o ramalhete, «as comissárias decidiram complementar e actualizar esta visão através de novos projectos […] Susan Meiselas, Miguel Rio Branco e Josef Koudelka foram convidados, em 2004, a realizar missões em Portugal […] Meiselas, que nunca antes cá tinha estado, dedicou-se ao Bairro da Cova da Moura». Mas alguém se esqueceu de regar as flores e como por cá parece que vivemos tempos de seca, murchou. Francamente pobre.

O único aspecto verdadeiramente interessante desta exposição é o documentário em projecção na sala intermédia – que, aliás, já passou várias vezes no canal dois da RTP. Um filme que parte da tal descoberta de imagens arquivadas sobre Portugal, e que vai ao encontro daqueles que cá vieram fotografar e filmar, no período de 1974/75. Realmente agradável, rico, esclarecedor até, e importante na medida em que mostra excertos de documentários por demais elucidativos sobre o Portugal pequenino e dos pequeninos – da pequenez? –, mais visível naqueles anos.

Estes filmes, aliás, foram reunidos e editados em DVD pelo Público, aquando dos 30 anos do 25 de Abril. São documentos valiosos. E “Torre Bela”, de Thomas Harlan, deve ser visto.

Portanto, vou fingir que o bilhete que paguei se destinava ao visionamento deste documentário, e que as fotos lá expostas também se dispunham somente a embelezar e preencher o espaço envolvente. Mas vale a pena, então, por isto.

sábado, 28 de maio de 2005

Coisas antigas e sem data V

Este filme já passou na minha sala. Como será que acaba desta vez? As reposições terminam sempre da mesma forma e é disto que tenho medo, hoje.

No primário de tudo isto, senti-me vivo. E a hora e meia que levou rodar a cena nocturna, por entre um Tejo salpicado de luzes e versos cantados a voz quente, foi dos momentos mais bonitos que vivi. As tuas palavras doces, as tuas gargalhadas, repetires quão bonita e preciosa é a tua mãe e a sinceridade nua e limpa com que te confessaste e com que te disse que cada balde que puxo do teu poço é puro sentir - tudo isto foi a cena perfeita, porém filmada três stops abaixo. É que, com os truques certos, os erros de revelação podem reverter-se. No entanto, quando o que falha é o tempo de obturação ou a disponibilidade do diafragma, sempre fica tudo muito claro ou muito escuro, numa gradação que sempre sempre resulta invisível.
Coisas antigas e sem data IV

A minha obsessão pelo documento impediu-me de ver para além da linha ténue que demarca o campo da arte. É uma miopia de que sofro. Esta limitação para a criação é uma terrível frustração. Tanto mais que a vontade é grande. A beleza sim, vejo-a. Mas nunca a consegui captar. E na necessidade de alguma mudança, interrompi.

A visualização diária do real custa, consome. Mas revigora, também. O exercício de observação do barco no rio, da água que se separa no casco, das pessoas bonecos sérios, do cego no metro, do velhote sentado no jardim e de todos os outros e de tudo o mais, é extasiante por ser belo. É a realidade que não magoa – porque não é a nossa.

Se naquela manhã ele tivesse demorado um pouco mais no banho, provavelmente estaria morto, esmagado por uma parede de tijolo. O gás teria continuado a sair pelo bico sem chama do fogão, porque um púcaro de leite foi esquecido e ferveu e derramou e abafou o lume mas não o gás. De lençol à cintura, foi quando sentiu o cheiro forte a propano e então caminhou, vagaroso, seguindo o ruído sssssssssssssssssss e girou o botão. Abriu uma janela e outras mais pelo caminho até ao quarto. Cinco minutos mais, ou quatro ou três ou dois ou apenas um e o gás poderia ter subido à flama do esquentador, meio metro acima.

Mesmo assim, o ferry continuaria a cortar o rio, as marionetas iriam para o emprego, o cego a pedir no metro e o velhote a deitar pão aos pombos e todos e tudo porque o sol se haveria de pôr também.

A realidade em que somos actores principais, o dia que amanhece na nossa almofada e ali acaba horas depois, consome-nos; e porque não a vemos de fora, encontramo-nos de mãos e pés atados e com uma mordaça. E é silêncio e é cinzento. Umas vezes mais claro, outras vezes mais escuro.

A simplicidade das coisas não-objectos assusta e arrebata. Mas, que assalte – sim; que assuste – não.
Coisas antigas e sem data III

O senhor não se importa?
«O senhor não se importa de se chegar para o lugar do lado? É que eu não dobro esta perna e então...» E sentou-se. De imediato se justificou perante os que estavam naquele bloco de assentos do metro, esclarecendo que os lugares reservados a deficientes estavam todos ocupados e que... Quanto à perna que não dobrava e na qual calçava um sapato com um tacão alto em madeira, «foi em Moçambique, em 1961 – tinha trinta e cinco anos».

«É que eu já fui perfeito, sabe? Mas um acidente nos comboios, em Moçambique...» Pela forma como repetia Moçambique, Moçambique, Moçambique, adivinhei que estaria para vir a conversa da descolonização. Qual seria a posição deste velho coxo face à debandada portuguesa? Sinceramente, pouco me interessava.

O vizinho ouvia, acenava compreensão, balbuciava acordo, mas não escondia o desagrado pela expropriação do seu banco, onde tentava, trémulo, fazer as palavras-cruzadas, recortadas de um jornal. De olhos no chão e guardando o pedaço de papel no bolso do casaco, «pois, pois... claro, claro». Reformado, também na casa dos setenta, «não, nunca estive em África».

Mas o velho coxo continuou e enveredou pelas histórias vividas em setenta e quatro e setenta e cinco. Não hesitou em demonstrar a paixão assolapada que tinha por personagens como Almeida Santos – «esse cão» –, Mário Soares – «esse bandido» – ou Otelo Saraiva de Carvalho – «esse energúmeno». Segundo ele, «foram esses bandidos que estragaram a vida dos de lá e dos de cá». Lá, que era a sua terra – havia nascido em Lourenço Marques.

Insultos, episódios de venda de imóveis por quantias avultadas, Samora Machel, a aventura daqueles que regressaram com a camisa do corpo. Os seus olhos, guardados por detrás de um par de lentes grossas, percorriam-nos, ansiando ouvir algumas palavras de acordo. Eu, a mulher que estava ao meu lado, o velho das palavras cruzadas. Mas mesmo não tendo uma assistência particularmente interessada, o velho coxo continuou o monólogo.

A fome em África era um assunto que o perturbava. «Até choro, quando vejo na televisão aqueles miúdos esqueléticos!» Quem não chora? A indignação era grande, pois «quem lá tivesse vivido nunca poderia pensar que, algum dia, houvesse fome naquele país». Foi então que as suas mãos deram de si, perdendo a bengala de madeira, que parou nos meus pés. Num esforço para não deixar cair muito mais, agradeceu-me a amabilidade do gesto e mergulhou na mágoa daquelas recordações, em silêncio.

Era segunda-feira e o comboio seguia veloz, estação a estação, repleto até ao topo. O ar carregado de suor, o cego que pedia «a moeda mais pequenina», a gorda que lia a Maria, o par de engravatados que viajava de pé. Estavam todos lá, como sempre, desde sempre.

Outra travagem, novamente o alarme das portas, mais gente que entra no comboio lotado, porque onde cabem mil, cabem dois ou três mil mais. Dando tréguas ao coração, o velho coxo quebrou o silêncio e pediu perdão pelo desabafo. Mostrava-se aliviado mas também envergonhado – certamente aquela situação seria frequente.

Tão frequente quanto a de um outro sujeito com quem me tenho cruzado, também no metro (sempre no metro!), e que vai ameaçando uns tipos que eu não conheço, que ninguém conhece – duvido mesmo que ele os conheça –, referindo-se a uma dívida de uns milhares de contos. E vai nisto toda a viagem, sempre de pé, quase gritando, visivelmente perturbado e excitado. Mas hoje não é ele, é o velho coxo de setenta e seis anos, que viaja mesmo à minha frente.

«Para ir para o Cais do Sodré tenho que mudar no Chiado, que é a próxima, não é?» É sim.
Coisas antigas e sem data II

Imaginava ser revistado, passar por um detector de metais, ter que deixar alguma identificação à porta, ser seguido por uma panóplia de cameras de vídeo ou agentes, fardados ou de fato. No fundo, aquilo a que quatro séries de X-Files me habituaram. Mas não foi nada assim. Nem Skinner, nem Mulder, nem Scully, nem Cancer Man. Apenas um sujeito ridiculamente baixo e em nada intimidante que, para chegar ao balcão estaria, certamente, em bicos de pés. Nem o autêntico caixote que é a minha mala quiseram ver aberta. Estive quase a pedir-lhes que o fizessem, na tentativa de imprimir um ar mais hollywoodesco à coisa. «Traz consigo alguma arma, algum objecto cortante?»

Depois de esperar perto de uma hora, ao ritmo de discussões de teor benfiquista entre o porteiro com ar de funcionário público e outros dois indivíduos que estavam na zona de espera, subi, finalmente. A caminho do elevador passei pelo pórtico de detecção de metais, apesar de não me ter sido exigido – tristemente, o aparelho não piou. «Quarto andar, sala 412.»

O elevador era minúsculo e velho, daquele com botões grandes e uma grade de correr, e cheirava terrivelmente a tabaco. Desiludido, esperei que aquilo melhorasse na secção a que me dirigia. Na viagem, imaginei um hall de entrada, uma recepcionista, vozes, telefones e bater de teclas. Quando abri a porta deparei-me com um corredor estreito, portas e mais portas em madeira velha pintada de branco e umas chapinhas azuis com a indicação das divisões. O soalho rangia a cada passo. Era um antigo edifício de habitação, agora convertido, na Alexandre Herculano.

“Fraudes creditárias”. Fui recebido por um homem que não devia ter sequer trinta anos, em calça de ganga e camisa, num gabinete de paredes amarelecidas. A sala tinha duas secretárias, dois computadores, uma janela com vista para as traseiras do quarteirão. Nada daquilo remetia ao universo polícial de qualquer pessoa que tivesse nascido na era da televisão.

Chateado por não ter almoçado ainda, vi as fotografias a correr e não consegui identificar o brasileiro gordo que, em Agosto, comprou uma máquina fotográfica com um cartão de crédito ilícito. Passaram três meses, outra coisa não seria de esperar. Contudo, o sujeito estava preso e a minha presença ali era para prestar declarações que seriam anexadas ao processo. Como não domino o léxico policial, o meu depoimento necessitou de confirmação frase a frase, arrastando-se por quase quarenta minutos.
Coisas antigas e sem data I

Está frio e chove sem parar. É já de noite quando entro no café, por volta das seis. À porta, sentado à caixa registradora, o velho sovina. Ao balcão, o tipo gordito e baixo, de bigode. Numa mesa, duas mulheres bebem um galão e comem bolos. Ao lado, um sujeito aprumado lança charme às tipas, enquanto folhea o Record. Entro, peço o meu café cheio, sento-me.

Abro o jornal, que comprei ainda de manhã, e leio sobre os atentados na Turquia e a viagem de Bush a Londres. Entra uma senhora com uma criança pela mão. Pede um bolo de arroz, recebe o talão, dirige-se ao velho para pagar. O gajo conta as moedas e deixa cair cada uma no seu respectivo lugar. Porque tudo tem um lugar.

- “Óh senhor Fernando, alcance aí o bolo de chocolate, sff”.
- “Qual deles?”
- “O que...”
- “Você não se explica! Quer que eu adivinhe? É que estão aqui dois! Um tem...”
- “O que está no nome da senhora Olinda.”
- “Ah bom, pois assim já sei. Agora, se você não me diz qual é, como é que eu hei de saber? É que estão aqui dois, um com cobertura e o outro s...”
- “Sim, senhor Fernando. Eu sei disso.”

Apeteceu-me levantar e esbofetear o velho. É costume parar lá, para um café apressado, e nunca o vi ser simpático, fosse para quem fosse. Antes pelo contrário, é estúpido que nem uma tábua. Imagino-o, de porta fechada, a conferir cada soma com o total de dinheiro em caixa. Não batendo certo, aproveita para enxovalhar um pouco mais o empregado e a filha. Será o senhorio? Que merda de acordo ou contrato é aquele, que obriga os sujeitos que lá trabalham a aturar o cabrão do velho sovina, que certamente ganha à comissão? Mas isso não é comigo. Nem com o ucraniano que está sentado à minha frente, aprumado à gangster do leste.
Pois é, já nem me lembrava desses dois (ou do último, vá...)
«E é de lamentar que uma das medidas anunciadas pelo primeiro-ministro - o corte das subvenções vitalícias dos primeiros-ministros - não se aplique aos seus antecessores. Imaginar que Santana Lopes e Durão Barroso vão ter direito a um prémio vitalício pelo lindo serviço prestado ao país é simplesmente intolerável.»
Miguel Sousa Tavares,
Público, 27Maio2005

terça-feira, 24 de maio de 2005

A desculpa portuguesa, com certeza
Ivo Ferreira, o português preso no Dubai por fumar um charro, em entrevista (rápida) à Grande Reportagem (nº228, 21 de Maio):
Sabia que era proibido fumar haxixe?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

O Pudim Royal teve acesso à entrevista na íntegra. Foi assim:
Sabia que se, conduzindo um automóvel a 50km/h, não parar na passadeira quando peões atravessam, pode atropelá-los e matá-los?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

Sabia que se passar o sinal vermelho num cruzamento pode provocar um acidente?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

Sabia que se o sinal está vermelho, por alguma razão é?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

Sabia que esse princípio serve também para os sinais de STOP e para a sinalização de "via fechada" na Ponte 25 de Abril?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

Sabia que se se atirar de um prédio de 20 andares, provavelmente estatela-se no chão e vai desta pra melhor?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

Sabia que quem anda à chuva, molha-se?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

Sabia que George W. Bush foi re-eleito?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

E sabia que José Sócrates é Primeiro-Ministro de Portugal?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

E que Santana Lopes é um palerma?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

E que Ratzinger é ultra-reaccionário e conservador?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

E que os bebés não vêm de França, no bico de uma cegonha?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

Então e o Ivo sabia que está a ser completamente estúpido ao responder dessa forma à pergunta original desta entrevista?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

E que é, realmente, um perfeito otário?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

Resumindo, esta do «sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse» é a desculpa portuguesa por excelência. Depois de um acidente de viação, diz um sobrevivente culpado, embriagado e tudo o mais: «sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse»; e o Sampaio, agora que remendou o erro de empossar Santana: «sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse»; e por aí fora...

quarta-feira, 4 de maio de 2005

Ratzinger no "Directo ao Assunto"
aqui

domingo, 1 de maio de 2005

Pernicioso exercício dedutivo, ao bom estilo de “penso, logo existo”, feito a lápis e entre um café e um cigarro
Se a realidade de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro corresponde a uma “patologia da normalidade”; se a religião é o instrumento último para a procura da felicidade; se não tendo acesso à religião, as gentes de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro eram infelizes, porque “patologicamente normais”; se a Igreja Católica não é uma instituição democrática mas sim uma hierarquia fechada – «há os que mandam e os que obedecem», esclarecem-me católicos praticantes convictos – na qual não há espaço para dúvidas ou questões, porque somente pregando uma verdade e uma certeza é que se pode conservar fiéis seguros e crentes – um clérigo não pode confundir um cristão com mensagens dúbias, mostrando, num momento, o caminho e levantando duvidas à doutrina, noutro; então a Igreja Católica prega uma “patologia da normalidade”; e fá-lo no seu seio e igualmente no seu rebanho.

Se a “patologia da normalidade”, como Fromm a teorizou, é nefasta; não menos perniciosa é aquela praticada pela Igreja Católica.

Acordem, senhores! - apetece dizer.

segunda-feira, 18 de abril de 2005

Cuidado, perigo de aluimento
Em tempo que vem sendo de tantas certezas quantas as dúvidas que me não deixam adormecer, tropeçando de sobressalto em sobressalto pela noite dentro, o céu cinzento ajuda a pensar na areia da praia e no mar que bate nas rochas, no penhasco mais além, encimado por um farol que ainda não brilha.

Os faróis são brinquedos mágicos, mapas em forma de lanternas avariadas, que luzem as espaços, apontando o caminho do mar até à costa a embarcações perdidas ou que simplesmente navegam numa noite demasiado escura.

Queria ter um farol só meu. Daqueles que decoram o rochedo mais deserto, digno de postal, de onde se vê o sol enconder-se, onde a água bate mas não fere, onde o ar húmido entra por mim, enchendo-me os pulmões. E então sustenho a respiração, porque o quero aqui e não que a brisa imediata mo roube, mas revelo-me fraco e o ar gelado logo aquece e luta, bate-se pela liberdade e eu perco, já vermelho ou branco – não tenho espelho – e abro-me em esforço, como que tossindo, não que te queira expulsar, sabes bem que não!, mas porque te não posso mais ter dentro de mim, que acabarias por me matar.

Resigno-me. E logo quero agarrar, então, o mar. A água salgada e fresca que se transforma em espuma e depois em ar. Quero-a! Mas não consigo bebê-la. Não consigo tomá-la nas mãos. Não consigo senão leva-la na retina do coração.

Temos na cabeça uma glândula responsável pelo olfacto, pelos cheiros que nos entram narinas adentro e fazem sentido no segundo logo após o que. Queria ensopar a minha na água do mar, que nem um saquinho de infusão, e colocá-la depois cá dentro, amparando a minha palma direita por baixo e em concha, para não perder uma única gota.

A água do mar, numa garrafinha de plástico, morre. Não cheira; não sabe; não parece; não é. A água do mar fez-se – não foi feita. E fez-se para estar no mar, para alimentar sonhos de mergulhos, gargalhadas por fria que esteja, para se contemplar, para se tocar, até mesmo para se nos engasgar.

A água do mar, assim como o ar que nasce da espuma da onda que se desfaz na rocha, o ar do mar, fizeram-se – não foram feitos. E fizeram-se para ser livres. E para na sua liberdade nos acompanhar. Livres de nos fazer sentido quando bem entendam e não quando queremos que façam. Porque se for hoje à praia e gritar à água do mar ela virar-me-à as costas, indiferente. E se pedir ao ar do mar que me siga, ele logo me vai soprar e ser vento. «E o ar do mar? Hoje não está cá».

As notas do piano lembram o mar – ou o mar, porque se fez primeiro, lembra as notas do piano.

O instrumento de cordas “piano” requer mestria, para soar a mar. Tem que se lhe saber tocar – não basta manejar; aliás, manusear, manobrar ou dirigir não resultarão nunca, porque o piano, tal como o mar, tem que ser tocado.

Como quem passa os dedos na tua pele macia, desvendando os contornos do teu rosto, feio ou bonito, que tudo isso é relativo, já o diz o ditado «quem feio ama, bonito lhe parece». Mas não é de amor que me ocupo; é de tocar, viajar pela linha das tuas sobrancelhas, olhar-te nos olhos, cocegar o teu nariz e olhar o teu sorriso miúdo, sorrindo contigo enquanto subo para as rugas que entretanto se fizeram na tua testa, para depois cair na direcção dos teus lábios, que é por aí que me quero.

O piano tem cordas. Mas não há cordas que prendam a água do mar. Tampouco o ar do mar. As cordas, se fortes, podem segurar-nos, pessoas; segurar-me, homem.

A água do mar puxa-me. O ar do mar empurra-me. Sou eu quem tenho de me arrastar pela corda de piano. Ela só me segura. E se eu cair ela continuará atada à minha cintura, caindo comigo, atada como quem me mostra que me cabe a mim puxar, cortar as mãos e os braços no esforço por subir até onde possa assentar os pés, novamente. Não importa o sangue nem a dor, que não sinta as mãos ou os braços – basta que os veja. Por mais fundo que a corda de aço cave e desfaça a minha casca mole, epiderme, derme e endoderme, há que trepar até onde possa ver, cheirar, saborear e sentir a água do mar e o ar do mar. Tocar-lhes, não lhes tocando.

Sou eu quem tenho de me puxar pela corda de piano acima, a corda de piano atada ao meu farol, no cimo do meu penhasco.


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Primeiramente "postado" aqui

sexta-feira, 1 de abril de 2005

Sugestão do dia
Usar uma escova de dentes para segurar no sítio certo um prego que se pretenda martelar. Assim se poupa um polegar.

Dica do Cafeína, para aqui.
Karol Wojtyla
Quando João Paulo II morrer, temo bem não sentir comoção especial. Não por ser ateu. Simplesmente porque nunca conheci outro Papa e quando este me chegou visivel, era já velho e as suas acções me passaram despercebidas. De tal modo que não sei enumerar um punhado que seja. Nem mesmo de quantos atentados foi vítima, em solo português ou durante o seu pontificado. O que lhe suceder, acompanharei.

A RTP/RTPN foi a primeira estação de TV portuguesa a abrir um especial de informação acerca do assunto, ontem à noite. Seguiu-se-lhe a SIC/SIC Notícias e da TVI vi uma pivot desmaquilhada anunciar não percebi o quê e nada mais - é que a TVI é hoje Independente, Irreverente, Inovadora e por aí fora, como ma apresentaram alguns seus funcionários, aquando de uma visita; mas não quero falar do distante "caso-Marcelo".

A emissão da RTP começou tremida. Até o clérigo que convidaram (não fixei nome ou título) para o estúdio pareceu, a princípio, tremido e sem grandes coisas que dizer. Mas "o especial" melhorou com as peças entretanto apresentadas, sobre o percurso de João Paulo II. Agradou-me e foi uma boa emissão - a informação da RTP mostrou créditos.

Foi a própria correspondente da RTP em Roma (mais uma vez, falta-me o nome) que anunciou o que se veio a verificar: o Vaticano ficaria silencioso durante a noite, perecesse ou não o Papa. E se a primeira informação oficial foi de uma febre alta, para depois a CNN anunciar a santa-unção, de S. Pedro chegou a informação de que o sumo-pontífice estaria a reagir bem aos antibióticos administrados. E assim questiono a decisão de levar a cabo toda aquela emissão. Para além de que cedo se percebeu a quantidade de informações contraditórias.

domingo, 6 de março de 2005

Crónicas de tasca, parte VI
Da gestão das empresas públicas, mais uma vez
Acima já se aludiu às reformas dos gestores públicos. Eu prefiro reforçar a gestão das empresas públicas (ou de capitais públicos). E para tal recordo-me de um texto de Jorge Costa, no Público (Carga e Transportes, 8/Nov), que apontava alguns aspectos da então recém nomeada Administração do Porto de Lisboa (APL), exemplificando quanto se brinca com os dinheiros públicos. Em resumo, era isto: perante passivo e perdas de 50 milhões de euros, a APL nomeou 15 novas chefias (o que orça 350 mil euros/ano, sem contar com pessoal para estes departamentos); o porto de Lisboa tem operado uma redução do número de funcionários, contra um aumento das chefias (40 chefias, actualmente, sem contar com equiparados em gabinetes ou comissões); esta APL criou, no entanto e ao invés da há muito esperada Divisão de Logística, uma Divisão de Animação e Eventos – uma clara aposta na imagem, tendo como pano de fundo a “devolução do porto aos lisboetas”.

Todos estes aspectos contribuem para: mostrar o irrealismo das metas propostas pelo Governo [de então, o XVI]: reduzir até 2006 o tempo médio de despacho em 50%; quadruplicar o movimento de contentores nos portos até 2015; auto-suficiência portuária em 2005. Para mostrar como as instituições públicas (ou de capitais públicos), mais do que servir o país e os cidadãos, servem para albergar amigos, comparsas e conhecidos. Para tornar mais clara a desgraçada tendência nacional para mudar tudo sempre que mudam os executivos e as tutelas. Para ilustrar o desinteresse crescente dos cidadãos por aquilo que deveria ser do interesse de todos.
Crónicas de tasca, parte V
Dos impostos
Mas nem tudo é responsabilidade individual dos habitantes aqui do burgo à beira mar plantado. Há também responsabilidades colectivas, ou do Estado, como a carga fiscal existente sobre alguns sectores da vida portuguesa. Um primeiro exemplo pode ser extraído dos impostos pagos pela compra e manutenção de um automóvel. À primeira vista e sem confirmação do que digo, são quatro: aquando da compra o consumidor paga IVA à taxa de 19 por cento; Imposto Automóvel (IA, que encontrei variando entre 15 por cento sobre o preço base de um automóvel de gama baixa e 28 por cento noutro de gama alta; o imposto varia consoante a cilindrada do veículo); depois, imposto sobre combustível e imposto sobre circulação de veículos, na sua manutenção. Deixo de fora as portagens (de pontes e auto-estradas) porque não considero impostos directos.
Abrindo um parêntesis e tocando no ponto da excessividade de impostos existentes e dos custos da sua cobrança, socorro-me de uma ideia de Luís Aguiar-Conraria (aqui):
«(...) Imposto sobre sucessões e doações e muitos eteceteras que a maioria de nós nem imagina. Por cada imposto cobrado, há imensos impressos, imensos regulamentos internos e imensos funcionários públicos dedicados à cobrança desse imposto. Tantos impostos diferentes traduzem-se num aumento de custos e de burocracias perfeitamente desnecessários(...)»

Mas retomando a fiscalidade operada em Portugal, e retomando igualmente João Casalta Nabais (Pública, 27/Fev), li que a tributação das pequenas e médias empresas (PME) é excessiva e que a contabilidade organizada (para estas) é também contraproducente. Ora destes meandros legais, pouco sei. Mas sei que tenho uma pequena sociedade e que subscrevo inteiramente esta frase: «ser empresário em Portugal é ser-se um herói». E é mesmo! Os procedimentos, as burocracias, os registos, os prazos e afins pelos quais tem de passar quem quiser abrir uma empresa neste país são, realmente, de fugir e repensar se se quer mesmo “meter naquilo”. O autor refere também que as pequenas e médias empresas (PME) são de vital importância para uma economia como a portuguesa, porque são sedentárias, ou seja, mantém postos de trabalho (não se deslocalizam para a China nem para o Leste da Europa); têm elevada resistência às crises (que o comprove o meu caso que, sem um “arranque” efectivo desde há bastante tempo, se mantém lutando). E eu acrescento que: revelam capacidade de adaptação às contingências do mercado; são, muitas vezes, empresas inovadoras; os lucros são, em grande parte, investidos no desenvolvimento do negócio; e outros. E as PME são também boas pagadoras de impostos – é sempre mais fácil a uma estrutura grande contornar o fisco, que a uma pequena.

sexta-feira, 4 de março de 2005

Crónicas de tasca, parte IV
O português não tem poder de compra
O crédito para tudo e para nada também tem de ser tido em conta, quando se fala de consumo. A casa é comprada a crédito, o carro também, o computador não foge à regra, os móveis do IKEA igualmente, as mercearias adquiridas no Jumbo ou Continente também têm essa possibilidade, os próprios telemóveis chegam-nos a crédito mascarado (com cada carregamento, durante um período de tempo, é descontado um montante para pagar o restante do aparelho). E quando acontece um daqueles imprevistos, como um frigorífico avariado ou, azar dos azares, uma inundação lá em casa, o primeiro é comprado (mais uma vez) a crédito e o segundo é resolvido com um empréstimo extraordinário (nas Cetelem ou Cofidis e todas as suas semelhantes, que até já existe crédito por telefone, “quatro mil euros, sem perguntas”...).

O Público de hoje (28/Fev) também deu conta das ofertas da banca para os clientes que desloquem o seu crédito para habitação entre bancos e para modalidades mais longas no tempo – o banco dá ao cliente a benesse de um outro empréstimo pessoal, pois é sempre necessário mais dinheiro, não é verdade? Assim, haver quem compre um carro a pronto, ou mesmo um televisor ou coisa do género, é cada vez mais raro. Os portugueses não têm real poder de compra – e o que têm é artificial.

O que me leva a outra ideia, sob a forma de facto: «Portugal está no pior dos cenários quanto às remunerações do trabalho na União Europeia: os seus salários são os mais baixos da zona euro» (Público, 22/Fev). E o salário baixo não pode, certamente, ser um factor de desenvolvimento. Com remuneração baixa não se pode consumir (em quantidade, pelo menos), e não consumindo, o ciclo económico não funciona: o dinheiro não circula, os produtos não escoam, as indústrias não facturam, os empresários ficam sem com que pagar aos seus assalariados que, por sua vez, não recebendo a sua gratificação, não podem consumir e tudo recomeça.

Contudo, há outra coisa que li mas que ainda não consegui perceber: este país tem dos salários mais baixos da UE mas não é competitivo economicamente porque apresenta custos de trabalho elevados. Terei que pedir a alguém versado em economia que me esclareça acerca disto, embora suspeite, desde já, que deve ter que ver com fiscalidade.

quinta-feira, 3 de março de 2005

Crónicas de tasca, parte III
O português é um consumidor passivo
Isto lembra-me outra coisa que li, também na Pública (27/Fev). Pinto e Castro, professor universitário especializado em marketing, diz que o consumidor português «é ainda muito passivo». Por um lado, desconhece os seus direitos; por outro, não quer ser obrigado a «pensar e a escolher», demitindo-se da escolha «aceitando e agradecendo a manipulação dos anúncios» – ideia de Phillippe Breton, sociólogo, na mesma revista.

O acto de consumo é algo novo para o português. Consumir nem sempre foi um acto quotidiano, tampouco com as facilidades que hoje existem. Não há muitos anos que para comprar era necessário ter dinheiro na carteira, ponderar as opções e distinguir o essencial do acessório, olhando à relação preço/qualidade – porque os produtos tinham que durar. Hoje, para comprar nem é preciso dinheiro vivo – a utilização do dinheiro de plástico (os cartões, de crédito ou débito, tanto faz) tem um lado pernicioso, de contribuir para a desvalorização mental do acto, da quantia, da moeda. O apreço dos portugueses pelas grandes superfícies comerciais, os CC que pelo país fora se multiplicam – nelas passando horas, dias inteiros ao fim-de-semana, com os putos pela mão a berrar de calor, ou de tédio, ou de cansaço, comprando ou somente namorando, à espera que chegue o final do mês –, ilustra parte desta ideia. Li algures (creio que numa edição da Grande Reportagem) que os consumidores do Norte da Europa, por exemplo, encaram o Centro Comercial como um local para ir comprar o que já está previamente estipulado, findo o que regressam a casa.

Quanto a mim, a presente situação da venda de bilhetes para o concerto dos U2 é ilustrativa da passividade do consumidor português. Não só os ingressos são caros (entre 50 a 150 euros, se não erro, para um espectáculo único ao ar livre, não obstante a qualidade da banda, parece-me excessivo) como ninguém parece protestar pela forma como estão a ser vendidos – que considero, no mínimo, espantosamente hostil. A grande maioria dos ingressos estará disponível aos balcões de uma minoria de postos de abastecimento de combustíveis, o cliente terá que ser possuidor do cartão da marca, a British Petroleum, e ainda coleccionar um milhar e pouco de pontos (acumulados mediante consumo dos produtos da marca), para que lhe sejam então vendidos, aos preços referidos, os ditos ingressos. Se isto não é agressivo, não sei o que será.

Para o concerto dos U2 em Viena, Áustria, foram disponibilizados 370 postos de venda, 25 call-centers e uma página na internet. Pergunto-me quantos desses 370 postos de venda foram estações de serviço da BP...

Mas não se duvide: os bilhetes para o concerto em Alvalade esgotarão. Porque entre protestar activa e seriamente contra esta política, junto da produtora ou da imprensa (que, dada a proeminência do evento, não negaria espaço na sua agenda para um protesto desta índole), e esperar umas boas horas numa fila, cheirando vapores de gasolina, a segunda opção é claramente mais confortável. E até divertido e “radical”. Assim se abre um precedente e se alimenta as (bastante careiras) produtoras de eventos musicais que operam em Portugal, que muitas vezes não fornecem um produto que valha o dinheiro que cobram (ou em espaços dignos ou com condições de qualidade mínima). Pedir, à boca pequena, IVA de cinco por cento para os produtos musicais é, realmente, muito fácil; fazer alguma coisa de jeito é que já é muito chato.


(ACTUALIZAÇÃO:
«A BP ia vender os bilhetes em três fases mas, "como se excederam as expectativas, teve de se alterar o processo" e todos serão vendidos desta vez, referiu o engº. João Reis, do Departamento de Comunicação da BP. O cartão BP não é, afinal, essencial para comprar os bilhetes, mas quem o quiser usar tem um pequeno desconto.»

DN, 1Mar2005)

quarta-feira, 2 de março de 2005

Crónicas de tasca, parte II
Vícios de ricos e o crédito para habitação
Li na Pública (27/Fev) João Casalta Nabais, especialista em fiscalidade, dizer que Portugal tem «vícios de ricos, esquecendo-nos de que somos pobres – os mais pobres da União antes do alargamento de 2004», e a frase nunca me fez tanto sentido como hoje. Com os salários mais baixos da União Europeia, os portugueses têm casa própria; frequentemente mais de um automóvel – é certo que há quem tenha nenhum e viva dos transportes públicos e esta ressalva também se aplica aos exemplos seguintes – e suportam a factura da deslocação diária e individual até ao emprego nesse mesmo automóvel; têm vários telemóveis (simultaneamente ou vários num ano, por indivíduo; ou por agregado familiar; e lideram na compra do último grito da moda nestes equipamentos); computadores pessoais de secretária e os inflacionados portáteis; uma panóplia de gadgets sofisticados que ceifam das várias Fnac; e quando se avaria o frigorífico lá de casa, compram o novo a crédito, em 12 vezes. O autor aponta igualmente «vícios que nem os países mais ricos se dão a luxo de ter, como são, por exemplo, as pensões ou reformas pagas com base num pequeno número de anos de serviço, sem se ter atingido a idade de reforma, como as reformas dos políticos, dos gestores públicos, etc...».

A questão da propriedade de habitação é “um pau de dois bicos” mas ilustra várias coisas. A primeira é que Portugal insiste, perdão, os proprietários portugueses com imóveis para alugar insistem em preços impraticáveis, altíssimos, afastando a quase totalidade de potenciais arrendatários, que chegam à conclusão que a “renda” mensal é mais baixa quando paga a um banco, pela compra de um apartamento. Esta classe de senhorios, por sua vez, espelha várias outras coisas: que são gente que, através de um aluguer, quer ganhar o mesmo que ganharia com uma venda, com a diferença que, no fim, o imóvel continua pertencendo-lhes; que são gente que não realiza obras nos seus imóveis, pois estes pertencem-lhes para a colecta e já não pertencem para neles gastar dinheiro; que são gente que não honra contratos (isto de o contrato de arrendamento não ter que cumprir a forma escrita, deveria ser revisto), despejando os seus inquilinos quando se lembram; que são gente que não passa recibos, logo, arrecada dinheiro livre de impostos; e várias outras coisas, de que me não posso ocupar agora.

A segunda observação que me apraz fazer é que, depois de 40 anos de jugo ditatorial, os portugueses querem, agora que podem, ter algo seu. Isto, claro está, é legítimo. Mas critico que se o faça a qualquer custo. E que as gerações mais jovens sejam educadas desta forma, para esta sujeição ao crédito para habitação, é problemático e até duvidoso. O que me leva a um terceiro aspecto, ligado a esse crédito, que é o seguinte: no final, o português pagou a sua casa duas vezes! Isto mesmo esclareceu hoje (28/Fev) o Público, pondo a claro que num empréstimo de 125 mil euros a 50 anos, com uma taxa de juro nominal de 3 por cento, o montante total dos juros ascende a 116 493 euros, ou seja... Bem, os números falam por si. (a 10 anos o encargo com juros totaliza 19 841 euros; a 20 anos sobe para 41 370 euros)

Obviamente que têm lugar quartas e quintas e sextas e mais observações, desde o negócio que é a venda de terrenos para construção, o sustento das autarquias; o lobby do sector da construção civil, que fixa preços muito acima da qualidade dos imóveis; o imposto municipal ou SISA ou lá o que é; entre outros aspectos.

terça-feira, 1 de março de 2005

Crónicas de tasca, parte I
O país virou à esquerda
«Estou na primeira fila para assistir à salvação do país», disse-me um amigo descontente com a viragem à esquerda que as últimas eleições legislativas expressaram. Muito se diz que o voto foi de protesto contra uma determinada direita, que mais propriamente de vontade de esquerda. Seja como for, não é isso que me ocupa. Porque qualquer que seja a orientação política do Governo, nada de substancial mudará no país.

Creio que o problema de Portugal, deste Portugal de que todos nos queixamos, ricos e pobres, comunistas e democrata-cristãos, que a raiz do problema está nas pessoas, na sociedade portuguesa, como se apresenta culturalmente, transversalmente a todos os sectores. O problema está nos empresários, nos assalariados, nos governantes, nos gestores públicos, no sistema fiscal e por aí fora. A imprensa dos últimos dias, em referências que não importa precisar (fá-lo-ei às que me lembrar), foi rica em exemplos dessa mesma crise individual, que por força se torna colectiva.


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Partindo do que acima está escrito, durante os próximos dias publicarei as minhas opiniões e pensamentos recentes sobre o Portugal actual.
O texto foi escrito no dia 28 de Fevereiro mas será publicado em partes, pela sua extensão. Assim, pode dar-se o caso de alguns dos exemplos utilizados estarem desactualizados.
A rubrica "Crónicas de tasca" e o link 'A Tasca' não têm qualquer relação.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2005

Atenta nisto, Santana:
«Nem todos os caminhos são para todos os caminhantes»
(Goethe, creio...)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005

Saber-se-á amanhã...
...quem fica com a Lusomundo Media.

sábado, 12 de fevereiro de 2005

Apetece-me...
...mandar tudo à merda.

sábado, 5 de fevereiro de 2005

Uma noite, há já algum tempo que não sei precisar, estava com o Luís e a Rita e fomos à bomba de gasolina, porque era muito tarde e já tudo estava fechado, beber um café e comprar chocolates. Não me lembro também em que altura ou por que motivo o Luís entendeu que havia de me envergonhar junto da rapariga que lá trabalhava naquela noite, informando-a do meu estado civil e emocional de descomprometimento, além de quão prendado e giro eu era. Tentei, em vão, enquanto ela nos preparava os cafés, lá para dentro, demovê-lo, mas ele e a Rita estavam por demais entretidos em me embaraçar. E ele continuava e a rapariga dava-lhe troco, olhando para mim, até que, enquanto me passava o troco pela gaveta de pagamento fora de horas, me disse «tem é que sorrir».

E hoje reparei que há já algum tempo que não consigo sorrir.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2004

«A intensa leveza dos dias»
A excelência da TSF presenteia-nos com uma belíssima revista do ano.
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terça-feira, 28 de dezembro de 2004

BP-5/12
Tornei-me solidário com este movimento, logo desde que me chegaram as suas iniciativas.

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Estes posts deram origem a uma polémica de plágio, pelo jornal Público. Assunto sem dúvida interessante, também, mas não é isso que quero transmitir hoje.