terça-feira, 24 de maio de 2005

A desculpa portuguesa, com certeza
Ivo Ferreira, o português preso no Dubai por fumar um charro, em entrevista (rápida) à Grande Reportagem (nº228, 21 de Maio):
Sabia que era proibido fumar haxixe?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

O Pudim Royal teve acesso à entrevista na íntegra. Foi assim:
Sabia que se, conduzindo um automóvel a 50km/h, não parar na passadeira quando peões atravessam, pode atropelá-los e matá-los?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

Sabia que se passar o sinal vermelho num cruzamento pode provocar um acidente?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

Sabia que se o sinal está vermelho, por alguma razão é?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

Sabia que esse princípio serve também para os sinais de STOP e para a sinalização de "via fechada" na Ponte 25 de Abril?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

Sabia que se se atirar de um prédio de 20 andares, provavelmente estatela-se no chão e vai desta pra melhor?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

Sabia que quem anda à chuva, molha-se?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

Sabia que George W. Bush foi re-eleito?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

E sabia que José Sócrates é Primeiro-Ministro de Portugal?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

E que Santana Lopes é um palerma?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

E que Ratzinger é ultra-reaccionário e conservador?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

E que os bebés não vêm de França, no bico de uma cegonha?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

Então e o Ivo sabia que está a ser completamente estúpido ao responder dessa forma à pergunta original desta entrevista?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

E que é, realmente, um perfeito otário?
- Sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse.

Resumindo, esta do «sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse» é a desculpa portuguesa por excelência. Depois de um acidente de viação, diz um sobrevivente culpado, embriagado e tudo o mais: «sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse»; e o Sampaio, agora que remendou o erro de empossar Santana: «sabia, mas nunca pensei que isto acontecesse»; e por aí fora...

quarta-feira, 4 de maio de 2005

Ratzinger no "Directo ao Assunto"
aqui

domingo, 1 de maio de 2005

Pernicioso exercício dedutivo, ao bom estilo de “penso, logo existo”, feito a lápis e entre um café e um cigarro
Se a realidade de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro corresponde a uma “patologia da normalidade”; se a religião é o instrumento último para a procura da felicidade; se não tendo acesso à religião, as gentes de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro eram infelizes, porque “patologicamente normais”; se a Igreja Católica não é uma instituição democrática mas sim uma hierarquia fechada – «há os que mandam e os que obedecem», esclarecem-me católicos praticantes convictos – na qual não há espaço para dúvidas ou questões, porque somente pregando uma verdade e uma certeza é que se pode conservar fiéis seguros e crentes – um clérigo não pode confundir um cristão com mensagens dúbias, mostrando, num momento, o caminho e levantando duvidas à doutrina, noutro; então a Igreja Católica prega uma “patologia da normalidade”; e fá-lo no seu seio e igualmente no seu rebanho.

Se a “patologia da normalidade”, como Fromm a teorizou, é nefasta; não menos perniciosa é aquela praticada pela Igreja Católica.

Acordem, senhores! - apetece dizer.

segunda-feira, 18 de abril de 2005

Cuidado, perigo de aluimento
Em tempo que vem sendo de tantas certezas quantas as dúvidas que me não deixam adormecer, tropeçando de sobressalto em sobressalto pela noite dentro, o céu cinzento ajuda a pensar na areia da praia e no mar que bate nas rochas, no penhasco mais além, encimado por um farol que ainda não brilha.

Os faróis são brinquedos mágicos, mapas em forma de lanternas avariadas, que luzem as espaços, apontando o caminho do mar até à costa a embarcações perdidas ou que simplesmente navegam numa noite demasiado escura.

Queria ter um farol só meu. Daqueles que decoram o rochedo mais deserto, digno de postal, de onde se vê o sol enconder-se, onde a água bate mas não fere, onde o ar húmido entra por mim, enchendo-me os pulmões. E então sustenho a respiração, porque o quero aqui e não que a brisa imediata mo roube, mas revelo-me fraco e o ar gelado logo aquece e luta, bate-se pela liberdade e eu perco, já vermelho ou branco – não tenho espelho – e abro-me em esforço, como que tossindo, não que te queira expulsar, sabes bem que não!, mas porque te não posso mais ter dentro de mim, que acabarias por me matar.

Resigno-me. E logo quero agarrar, então, o mar. A água salgada e fresca que se transforma em espuma e depois em ar. Quero-a! Mas não consigo bebê-la. Não consigo tomá-la nas mãos. Não consigo senão leva-la na retina do coração.

Temos na cabeça uma glândula responsável pelo olfacto, pelos cheiros que nos entram narinas adentro e fazem sentido no segundo logo após o que. Queria ensopar a minha na água do mar, que nem um saquinho de infusão, e colocá-la depois cá dentro, amparando a minha palma direita por baixo e em concha, para não perder uma única gota.

A água do mar, numa garrafinha de plástico, morre. Não cheira; não sabe; não parece; não é. A água do mar fez-se – não foi feita. E fez-se para estar no mar, para alimentar sonhos de mergulhos, gargalhadas por fria que esteja, para se contemplar, para se tocar, até mesmo para se nos engasgar.

A água do mar, assim como o ar que nasce da espuma da onda que se desfaz na rocha, o ar do mar, fizeram-se – não foram feitos. E fizeram-se para ser livres. E para na sua liberdade nos acompanhar. Livres de nos fazer sentido quando bem entendam e não quando queremos que façam. Porque se for hoje à praia e gritar à água do mar ela virar-me-à as costas, indiferente. E se pedir ao ar do mar que me siga, ele logo me vai soprar e ser vento. «E o ar do mar? Hoje não está cá».

As notas do piano lembram o mar – ou o mar, porque se fez primeiro, lembra as notas do piano.

O instrumento de cordas “piano” requer mestria, para soar a mar. Tem que se lhe saber tocar – não basta manejar; aliás, manusear, manobrar ou dirigir não resultarão nunca, porque o piano, tal como o mar, tem que ser tocado.

Como quem passa os dedos na tua pele macia, desvendando os contornos do teu rosto, feio ou bonito, que tudo isso é relativo, já o diz o ditado «quem feio ama, bonito lhe parece». Mas não é de amor que me ocupo; é de tocar, viajar pela linha das tuas sobrancelhas, olhar-te nos olhos, cocegar o teu nariz e olhar o teu sorriso miúdo, sorrindo contigo enquanto subo para as rugas que entretanto se fizeram na tua testa, para depois cair na direcção dos teus lábios, que é por aí que me quero.

O piano tem cordas. Mas não há cordas que prendam a água do mar. Tampouco o ar do mar. As cordas, se fortes, podem segurar-nos, pessoas; segurar-me, homem.

A água do mar puxa-me. O ar do mar empurra-me. Sou eu quem tenho de me arrastar pela corda de piano. Ela só me segura. E se eu cair ela continuará atada à minha cintura, caindo comigo, atada como quem me mostra que me cabe a mim puxar, cortar as mãos e os braços no esforço por subir até onde possa assentar os pés, novamente. Não importa o sangue nem a dor, que não sinta as mãos ou os braços – basta que os veja. Por mais fundo que a corda de aço cave e desfaça a minha casca mole, epiderme, derme e endoderme, há que trepar até onde possa ver, cheirar, saborear e sentir a água do mar e o ar do mar. Tocar-lhes, não lhes tocando.

Sou eu quem tenho de me puxar pela corda de piano acima, a corda de piano atada ao meu farol, no cimo do meu penhasco.


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Primeiramente "postado" aqui

sexta-feira, 1 de abril de 2005

Sugestão do dia
Usar uma escova de dentes para segurar no sítio certo um prego que se pretenda martelar. Assim se poupa um polegar.

Dica do Cafeína, para aqui.
Karol Wojtyla
Quando João Paulo II morrer, temo bem não sentir comoção especial. Não por ser ateu. Simplesmente porque nunca conheci outro Papa e quando este me chegou visivel, era já velho e as suas acções me passaram despercebidas. De tal modo que não sei enumerar um punhado que seja. Nem mesmo de quantos atentados foi vítima, em solo português ou durante o seu pontificado. O que lhe suceder, acompanharei.

A RTP/RTPN foi a primeira estação de TV portuguesa a abrir um especial de informação acerca do assunto, ontem à noite. Seguiu-se-lhe a SIC/SIC Notícias e da TVI vi uma pivot desmaquilhada anunciar não percebi o quê e nada mais - é que a TVI é hoje Independente, Irreverente, Inovadora e por aí fora, como ma apresentaram alguns seus funcionários, aquando de uma visita; mas não quero falar do distante "caso-Marcelo".

A emissão da RTP começou tremida. Até o clérigo que convidaram (não fixei nome ou título) para o estúdio pareceu, a princípio, tremido e sem grandes coisas que dizer. Mas "o especial" melhorou com as peças entretanto apresentadas, sobre o percurso de João Paulo II. Agradou-me e foi uma boa emissão - a informação da RTP mostrou créditos.

Foi a própria correspondente da RTP em Roma (mais uma vez, falta-me o nome) que anunciou o que se veio a verificar: o Vaticano ficaria silencioso durante a noite, perecesse ou não o Papa. E se a primeira informação oficial foi de uma febre alta, para depois a CNN anunciar a santa-unção, de S. Pedro chegou a informação de que o sumo-pontífice estaria a reagir bem aos antibióticos administrados. E assim questiono a decisão de levar a cabo toda aquela emissão. Para além de que cedo se percebeu a quantidade de informações contraditórias.

domingo, 6 de março de 2005

Crónicas de tasca, parte VI
Da gestão das empresas públicas, mais uma vez
Acima já se aludiu às reformas dos gestores públicos. Eu prefiro reforçar a gestão das empresas públicas (ou de capitais públicos). E para tal recordo-me de um texto de Jorge Costa, no Público (Carga e Transportes, 8/Nov), que apontava alguns aspectos da então recém nomeada Administração do Porto de Lisboa (APL), exemplificando quanto se brinca com os dinheiros públicos. Em resumo, era isto: perante passivo e perdas de 50 milhões de euros, a APL nomeou 15 novas chefias (o que orça 350 mil euros/ano, sem contar com pessoal para estes departamentos); o porto de Lisboa tem operado uma redução do número de funcionários, contra um aumento das chefias (40 chefias, actualmente, sem contar com equiparados em gabinetes ou comissões); esta APL criou, no entanto e ao invés da há muito esperada Divisão de Logística, uma Divisão de Animação e Eventos – uma clara aposta na imagem, tendo como pano de fundo a “devolução do porto aos lisboetas”.

Todos estes aspectos contribuem para: mostrar o irrealismo das metas propostas pelo Governo [de então, o XVI]: reduzir até 2006 o tempo médio de despacho em 50%; quadruplicar o movimento de contentores nos portos até 2015; auto-suficiência portuária em 2005. Para mostrar como as instituições públicas (ou de capitais públicos), mais do que servir o país e os cidadãos, servem para albergar amigos, comparsas e conhecidos. Para tornar mais clara a desgraçada tendência nacional para mudar tudo sempre que mudam os executivos e as tutelas. Para ilustrar o desinteresse crescente dos cidadãos por aquilo que deveria ser do interesse de todos.
Crónicas de tasca, parte V
Dos impostos
Mas nem tudo é responsabilidade individual dos habitantes aqui do burgo à beira mar plantado. Há também responsabilidades colectivas, ou do Estado, como a carga fiscal existente sobre alguns sectores da vida portuguesa. Um primeiro exemplo pode ser extraído dos impostos pagos pela compra e manutenção de um automóvel. À primeira vista e sem confirmação do que digo, são quatro: aquando da compra o consumidor paga IVA à taxa de 19 por cento; Imposto Automóvel (IA, que encontrei variando entre 15 por cento sobre o preço base de um automóvel de gama baixa e 28 por cento noutro de gama alta; o imposto varia consoante a cilindrada do veículo); depois, imposto sobre combustível e imposto sobre circulação de veículos, na sua manutenção. Deixo de fora as portagens (de pontes e auto-estradas) porque não considero impostos directos.
Abrindo um parêntesis e tocando no ponto da excessividade de impostos existentes e dos custos da sua cobrança, socorro-me de uma ideia de Luís Aguiar-Conraria (aqui):
«(...) Imposto sobre sucessões e doações e muitos eteceteras que a maioria de nós nem imagina. Por cada imposto cobrado, há imensos impressos, imensos regulamentos internos e imensos funcionários públicos dedicados à cobrança desse imposto. Tantos impostos diferentes traduzem-se num aumento de custos e de burocracias perfeitamente desnecessários(...)»

Mas retomando a fiscalidade operada em Portugal, e retomando igualmente João Casalta Nabais (Pública, 27/Fev), li que a tributação das pequenas e médias empresas (PME) é excessiva e que a contabilidade organizada (para estas) é também contraproducente. Ora destes meandros legais, pouco sei. Mas sei que tenho uma pequena sociedade e que subscrevo inteiramente esta frase: «ser empresário em Portugal é ser-se um herói». E é mesmo! Os procedimentos, as burocracias, os registos, os prazos e afins pelos quais tem de passar quem quiser abrir uma empresa neste país são, realmente, de fugir e repensar se se quer mesmo “meter naquilo”. O autor refere também que as pequenas e médias empresas (PME) são de vital importância para uma economia como a portuguesa, porque são sedentárias, ou seja, mantém postos de trabalho (não se deslocalizam para a China nem para o Leste da Europa); têm elevada resistência às crises (que o comprove o meu caso que, sem um “arranque” efectivo desde há bastante tempo, se mantém lutando). E eu acrescento que: revelam capacidade de adaptação às contingências do mercado; são, muitas vezes, empresas inovadoras; os lucros são, em grande parte, investidos no desenvolvimento do negócio; e outros. E as PME são também boas pagadoras de impostos – é sempre mais fácil a uma estrutura grande contornar o fisco, que a uma pequena.

sexta-feira, 4 de março de 2005

Crónicas de tasca, parte IV
O português não tem poder de compra
O crédito para tudo e para nada também tem de ser tido em conta, quando se fala de consumo. A casa é comprada a crédito, o carro também, o computador não foge à regra, os móveis do IKEA igualmente, as mercearias adquiridas no Jumbo ou Continente também têm essa possibilidade, os próprios telemóveis chegam-nos a crédito mascarado (com cada carregamento, durante um período de tempo, é descontado um montante para pagar o restante do aparelho). E quando acontece um daqueles imprevistos, como um frigorífico avariado ou, azar dos azares, uma inundação lá em casa, o primeiro é comprado (mais uma vez) a crédito e o segundo é resolvido com um empréstimo extraordinário (nas Cetelem ou Cofidis e todas as suas semelhantes, que até já existe crédito por telefone, “quatro mil euros, sem perguntas”...).

O Público de hoje (28/Fev) também deu conta das ofertas da banca para os clientes que desloquem o seu crédito para habitação entre bancos e para modalidades mais longas no tempo – o banco dá ao cliente a benesse de um outro empréstimo pessoal, pois é sempre necessário mais dinheiro, não é verdade? Assim, haver quem compre um carro a pronto, ou mesmo um televisor ou coisa do género, é cada vez mais raro. Os portugueses não têm real poder de compra – e o que têm é artificial.

O que me leva a outra ideia, sob a forma de facto: «Portugal está no pior dos cenários quanto às remunerações do trabalho na União Europeia: os seus salários são os mais baixos da zona euro» (Público, 22/Fev). E o salário baixo não pode, certamente, ser um factor de desenvolvimento. Com remuneração baixa não se pode consumir (em quantidade, pelo menos), e não consumindo, o ciclo económico não funciona: o dinheiro não circula, os produtos não escoam, as indústrias não facturam, os empresários ficam sem com que pagar aos seus assalariados que, por sua vez, não recebendo a sua gratificação, não podem consumir e tudo recomeça.

Contudo, há outra coisa que li mas que ainda não consegui perceber: este país tem dos salários mais baixos da UE mas não é competitivo economicamente porque apresenta custos de trabalho elevados. Terei que pedir a alguém versado em economia que me esclareça acerca disto, embora suspeite, desde já, que deve ter que ver com fiscalidade.

quinta-feira, 3 de março de 2005

Crónicas de tasca, parte III
O português é um consumidor passivo
Isto lembra-me outra coisa que li, também na Pública (27/Fev). Pinto e Castro, professor universitário especializado em marketing, diz que o consumidor português «é ainda muito passivo». Por um lado, desconhece os seus direitos; por outro, não quer ser obrigado a «pensar e a escolher», demitindo-se da escolha «aceitando e agradecendo a manipulação dos anúncios» – ideia de Phillippe Breton, sociólogo, na mesma revista.

O acto de consumo é algo novo para o português. Consumir nem sempre foi um acto quotidiano, tampouco com as facilidades que hoje existem. Não há muitos anos que para comprar era necessário ter dinheiro na carteira, ponderar as opções e distinguir o essencial do acessório, olhando à relação preço/qualidade – porque os produtos tinham que durar. Hoje, para comprar nem é preciso dinheiro vivo – a utilização do dinheiro de plástico (os cartões, de crédito ou débito, tanto faz) tem um lado pernicioso, de contribuir para a desvalorização mental do acto, da quantia, da moeda. O apreço dos portugueses pelas grandes superfícies comerciais, os CC que pelo país fora se multiplicam – nelas passando horas, dias inteiros ao fim-de-semana, com os putos pela mão a berrar de calor, ou de tédio, ou de cansaço, comprando ou somente namorando, à espera que chegue o final do mês –, ilustra parte desta ideia. Li algures (creio que numa edição da Grande Reportagem) que os consumidores do Norte da Europa, por exemplo, encaram o Centro Comercial como um local para ir comprar o que já está previamente estipulado, findo o que regressam a casa.

Quanto a mim, a presente situação da venda de bilhetes para o concerto dos U2 é ilustrativa da passividade do consumidor português. Não só os ingressos são caros (entre 50 a 150 euros, se não erro, para um espectáculo único ao ar livre, não obstante a qualidade da banda, parece-me excessivo) como ninguém parece protestar pela forma como estão a ser vendidos – que considero, no mínimo, espantosamente hostil. A grande maioria dos ingressos estará disponível aos balcões de uma minoria de postos de abastecimento de combustíveis, o cliente terá que ser possuidor do cartão da marca, a British Petroleum, e ainda coleccionar um milhar e pouco de pontos (acumulados mediante consumo dos produtos da marca), para que lhe sejam então vendidos, aos preços referidos, os ditos ingressos. Se isto não é agressivo, não sei o que será.

Para o concerto dos U2 em Viena, Áustria, foram disponibilizados 370 postos de venda, 25 call-centers e uma página na internet. Pergunto-me quantos desses 370 postos de venda foram estações de serviço da BP...

Mas não se duvide: os bilhetes para o concerto em Alvalade esgotarão. Porque entre protestar activa e seriamente contra esta política, junto da produtora ou da imprensa (que, dada a proeminência do evento, não negaria espaço na sua agenda para um protesto desta índole), e esperar umas boas horas numa fila, cheirando vapores de gasolina, a segunda opção é claramente mais confortável. E até divertido e “radical”. Assim se abre um precedente e se alimenta as (bastante careiras) produtoras de eventos musicais que operam em Portugal, que muitas vezes não fornecem um produto que valha o dinheiro que cobram (ou em espaços dignos ou com condições de qualidade mínima). Pedir, à boca pequena, IVA de cinco por cento para os produtos musicais é, realmente, muito fácil; fazer alguma coisa de jeito é que já é muito chato.


(ACTUALIZAÇÃO:
«A BP ia vender os bilhetes em três fases mas, "como se excederam as expectativas, teve de se alterar o processo" e todos serão vendidos desta vez, referiu o engº. João Reis, do Departamento de Comunicação da BP. O cartão BP não é, afinal, essencial para comprar os bilhetes, mas quem o quiser usar tem um pequeno desconto.»

DN, 1Mar2005)

quarta-feira, 2 de março de 2005

Crónicas de tasca, parte II
Vícios de ricos e o crédito para habitação
Li na Pública (27/Fev) João Casalta Nabais, especialista em fiscalidade, dizer que Portugal tem «vícios de ricos, esquecendo-nos de que somos pobres – os mais pobres da União antes do alargamento de 2004», e a frase nunca me fez tanto sentido como hoje. Com os salários mais baixos da União Europeia, os portugueses têm casa própria; frequentemente mais de um automóvel – é certo que há quem tenha nenhum e viva dos transportes públicos e esta ressalva também se aplica aos exemplos seguintes – e suportam a factura da deslocação diária e individual até ao emprego nesse mesmo automóvel; têm vários telemóveis (simultaneamente ou vários num ano, por indivíduo; ou por agregado familiar; e lideram na compra do último grito da moda nestes equipamentos); computadores pessoais de secretária e os inflacionados portáteis; uma panóplia de gadgets sofisticados que ceifam das várias Fnac; e quando se avaria o frigorífico lá de casa, compram o novo a crédito, em 12 vezes. O autor aponta igualmente «vícios que nem os países mais ricos se dão a luxo de ter, como são, por exemplo, as pensões ou reformas pagas com base num pequeno número de anos de serviço, sem se ter atingido a idade de reforma, como as reformas dos políticos, dos gestores públicos, etc...».

A questão da propriedade de habitação é “um pau de dois bicos” mas ilustra várias coisas. A primeira é que Portugal insiste, perdão, os proprietários portugueses com imóveis para alugar insistem em preços impraticáveis, altíssimos, afastando a quase totalidade de potenciais arrendatários, que chegam à conclusão que a “renda” mensal é mais baixa quando paga a um banco, pela compra de um apartamento. Esta classe de senhorios, por sua vez, espelha várias outras coisas: que são gente que, através de um aluguer, quer ganhar o mesmo que ganharia com uma venda, com a diferença que, no fim, o imóvel continua pertencendo-lhes; que são gente que não realiza obras nos seus imóveis, pois estes pertencem-lhes para a colecta e já não pertencem para neles gastar dinheiro; que são gente que não honra contratos (isto de o contrato de arrendamento não ter que cumprir a forma escrita, deveria ser revisto), despejando os seus inquilinos quando se lembram; que são gente que não passa recibos, logo, arrecada dinheiro livre de impostos; e várias outras coisas, de que me não posso ocupar agora.

A segunda observação que me apraz fazer é que, depois de 40 anos de jugo ditatorial, os portugueses querem, agora que podem, ter algo seu. Isto, claro está, é legítimo. Mas critico que se o faça a qualquer custo. E que as gerações mais jovens sejam educadas desta forma, para esta sujeição ao crédito para habitação, é problemático e até duvidoso. O que me leva a um terceiro aspecto, ligado a esse crédito, que é o seguinte: no final, o português pagou a sua casa duas vezes! Isto mesmo esclareceu hoje (28/Fev) o Público, pondo a claro que num empréstimo de 125 mil euros a 50 anos, com uma taxa de juro nominal de 3 por cento, o montante total dos juros ascende a 116 493 euros, ou seja... Bem, os números falam por si. (a 10 anos o encargo com juros totaliza 19 841 euros; a 20 anos sobe para 41 370 euros)

Obviamente que têm lugar quartas e quintas e sextas e mais observações, desde o negócio que é a venda de terrenos para construção, o sustento das autarquias; o lobby do sector da construção civil, que fixa preços muito acima da qualidade dos imóveis; o imposto municipal ou SISA ou lá o que é; entre outros aspectos.

terça-feira, 1 de março de 2005

Crónicas de tasca, parte I
O país virou à esquerda
«Estou na primeira fila para assistir à salvação do país», disse-me um amigo descontente com a viragem à esquerda que as últimas eleições legislativas expressaram. Muito se diz que o voto foi de protesto contra uma determinada direita, que mais propriamente de vontade de esquerda. Seja como for, não é isso que me ocupa. Porque qualquer que seja a orientação política do Governo, nada de substancial mudará no país.

Creio que o problema de Portugal, deste Portugal de que todos nos queixamos, ricos e pobres, comunistas e democrata-cristãos, que a raiz do problema está nas pessoas, na sociedade portuguesa, como se apresenta culturalmente, transversalmente a todos os sectores. O problema está nos empresários, nos assalariados, nos governantes, nos gestores públicos, no sistema fiscal e por aí fora. A imprensa dos últimos dias, em referências que não importa precisar (fá-lo-ei às que me lembrar), foi rica em exemplos dessa mesma crise individual, que por força se torna colectiva.


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Partindo do que acima está escrito, durante os próximos dias publicarei as minhas opiniões e pensamentos recentes sobre o Portugal actual.
O texto foi escrito no dia 28 de Fevereiro mas será publicado em partes, pela sua extensão. Assim, pode dar-se o caso de alguns dos exemplos utilizados estarem desactualizados.
A rubrica "Crónicas de tasca" e o link 'A Tasca' não têm qualquer relação.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2005

Atenta nisto, Santana:
«Nem todos os caminhos são para todos os caminhantes»
(Goethe, creio...)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005

Saber-se-á amanhã...
...quem fica com a Lusomundo Media.

sábado, 12 de fevereiro de 2005

Apetece-me...
...mandar tudo à merda.

sábado, 5 de fevereiro de 2005

Uma noite, há já algum tempo que não sei precisar, estava com o Luís e a Rita e fomos à bomba de gasolina, porque era muito tarde e já tudo estava fechado, beber um café e comprar chocolates. Não me lembro também em que altura ou por que motivo o Luís entendeu que havia de me envergonhar junto da rapariga que lá trabalhava naquela noite, informando-a do meu estado civil e emocional de descomprometimento, além de quão prendado e giro eu era. Tentei, em vão, enquanto ela nos preparava os cafés, lá para dentro, demovê-lo, mas ele e a Rita estavam por demais entretidos em me embaraçar. E ele continuava e a rapariga dava-lhe troco, olhando para mim, até que, enquanto me passava o troco pela gaveta de pagamento fora de horas, me disse «tem é que sorrir».

E hoje reparei que há já algum tempo que não consigo sorrir.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2004

«A intensa leveza dos dias»
A excelência da TSF presenteia-nos com uma belíssima revista do ano.
Aqui

terça-feira, 28 de dezembro de 2004

BP-5/12
Tornei-me solidário com este movimento, logo desde que me chegaram as suas iniciativas.

Aqui
Aqui
Aqui

Estes posts deram origem a uma polémica de plágio, pelo jornal Público. Assunto sem dúvida interessante, também, mas não é isso que quero transmitir hoje.

terça-feira, 7 de dezembro de 2004

Ah e tal...

«O directo não pára porque a redacção quer notícias, mas as notícias não existem. Três repórteres revezam-se no dizer de coisa nenhuma. Cedo, nada mais há para dar conta que dos carros que passam, dos táxis que chegam. Quem vem lá? Será um arguido? Um advogado? Um magistrado? Câmara e jornalista fixam-se num táxi que acaba de chegar. A expectativa cresce, até ser substituída pelo desalento: "Por acaso é uma colega nossa", diz a jornalista Maria João Ruela, num comentário que deixa adivinhar a consciência do ridículo a que se está a prestar.»
João Manuel Rocha
Público 04Dez2004

terça-feira, 30 de novembro de 2004

Parece que sabiam

«Dezembro, por tradição, é um mês de grande acalmia política, em que os portugueses estarão virados para si próprios, para as suas famílias, e para as festas de apaziguamento interior que o país bem precisa. Será assim?»
Luís Delgado,
Diário Digital 28NOV2004
texto completo aqui


«A realidade continua a ultrapassar a ficção. Quase não passa um dia sem que o Governo proporcione aos portugueses mais uma trapalhada. O Governo não, que as trapalhadas têm quase sempre o mesmo epicentro: o centro do Governo, os próximos de Santana Lopes, o próprio primeiro-ministro.»
José Manuel Fernandes,
Público 29NOV2004
texto completo aqui


Jorge Sampaio vai dissolver Assembleia da República
hoje

segunda-feira, 22 de novembro de 2004

:)

domingo, 21 de novembro de 2004






quarta-feira, 17 de novembro de 2004

Porque partiste o candeeiro, morto?











quinta-feira, 11 de novembro de 2004

Quatro boas razões...
...para não ficar em casa. Aqui.

segunda-feira, 8 de novembro de 2004

Da gestão das empresas, em Portugal
Perante um passivo final de 2003 na ordem dos 87 milhões de euros e de uma soma com custos e perdas que ascendeu a 51 milhões de euros (1/3 deste valor adjudicado a custos com pessoal e ¼ com amortizações), a Administração do Porto de Lisboa (APL) nomeou cinco novos directores de serviço, cinco novos chefes de divisão e cinco novos chefes de serviço, o que por si só orça 350 mil euros por ano (sem contar com pessoal para estes departamentos).

Convém lembrar que o presidente e o administrador da APL foram, também eles, recentemente nomeados, e que o porto de Lisboa tem operado uma redução do número de funcionários, contra um aumento das chefias (40 chefias, actualmente, sem contar com equiparados em gabinetes ou comissões).

Tudo isto resulta num aumento da burocracia, dos papéis a circular, do tempo de decisão e da desmotivação dos funcionários.

Esta administração do porto de Lisboa criou, no entanto e ao invés da há muito esperada Divisão de Logística, uma Divisão de Animação e Eventos. Uma clara aposta na imagem, tendo como pano de fundo a “devolução do porto aos lisboetas”.

Todos estes aspectos contribuem para: mostrar o irrealismo das metas propostas pelo Governo (reduzir até 2006 o tempo médio de despacho em 50%; quadruplicar o movimento de contentores nos portos até 2015; auto-suficiência portuária em 2005); para mostrar como as instituições públicas (ou de capitais públicos), mais do que servir o país e os cidadãos, servem para albergar amigos, comparsas e conhecidos; para tornar mais clara a desgraçada tendência nacional para mudar tudo sempre que mudam os executivos e as tutelas; para ilustrar o desinteresse crescente dos cidadãos por aquilo que deveria ser do interesse de todos.

Excertos do texto de Jorge Costa,
em Carga e Transportes
Público, 08Nov2004 (indisponível online)
A sobrevivência dos mais aptos
A insistência no uso do termo “adaptação” quando se refere a teoria darwinista da evolução das espécies faz-me confusão. Ainda mais quando se diz que os animais “fazem adaptação” através da mutação (como se esta fosse voluntária), ao longo das gerações. E transpor isto para as teorias da comunicação, pior. Porque as pessoas se podem adaptar, adaptar as formas de comunicação; mas os animais não se adaptam para uma sobrevivência – isso era o que dizia Lamarck.

As girafas têm o pescoço comprido porque as acácias são altas e então a girafa adaptou-se e desenvolveu um pescoço mais comprido; e depois, pelo princípio da transmissão dos caracteres adquiridos, perpetua-se; e as acácias foram crescendo para fugir às girafas; e isto é (numa abordagem ridícula, é certo) Lamarck.

Darwin disse que somente o mais apto sobrevive. Darwin formulou que a variabilidade é intra-específica (através da mutação, da deriva genética, etc) e daí se selecciona, naturalmente, o indivíduo mais apto. Se este se reproduzir, garante a manutenção da espécie. Ou seja: existiram girafas de pescoço grande e pequeno, umas sobreviveram e outras não; o mesmo para as acácias.

Cuidado com “adaptação”. Obrigado Raul.

segunda-feira, 1 de novembro de 2004

Esta mistura não está bem feita
Jim Jarmush filmou conversas que se têm em volta de café e cigarros. Gosto de café. Não devia gostar de cigarros. Gosto de cinema. Não gostei, especialmente, do filme – faltaram Samuel L. Jackson e John Travolta, discutindo carne de porco na alimentação diária.

Gosto do audio e do visual. E do audiovisual em movimento. Tenho o cinema e o cinema documental – este que, por acaso, passou em Lisboa e eu não vi – como iogurtes de pedaços para o crescimento, o interior. Intelectual ou cultural; individual sim. Ou não pertencesse a uma das gerações do computador. Há delas que são “do livro”, porque era aquele o meio privilegiado de informação. Outras, onde me incluo, são “do computador”, que é o primeiro livro a ser folheado.

Mas também sou das pessoas. Há tempo que tive consciência de um processo de reconhecimento do indivíduo que sou. Dos gostos, das preferências, dos hábitos, isto sem me conhecer bem. Gosto de escolher os filmes que vejo, por exemplo, e de assumir as consequências. Gosto de ter consciência disso. Com as pessoas é diferente, porque não as escolho. Ninguém nos escolhe.

O que me escreveste fez com que desligasse o telefone – fecho essa janela para o meu pequeno mundo, num gesto simbólico de falsa reclusão e que tanto mais significa que o que verdadeiramente quis que significasse no momento em que carreguei no botão e pousei o pequeno objecto em cima da mesa, não lhe tocando mais, como se fosse uma daquelas cartas que trazem más notícias. Só volto a abrir quando o despertador tocar. Porque o que disseste é verdade e sei que te magoei. E isso é um sufoco.

Gosto de pessoas. Invariavelmente me cruzo com alguém que me influencia bastante. Que altera o rumo da minha vida. Ou que contribui para que me detenha um pouco mais olhando a esquerda e a direita, antes de seguir, e escolher. Sem qualquer ordem específica posso recordar-me de algumas letras e efeitos mas há umas poucas que ficarão para sempre gravadas na minha memória.

Uma, fomos a Braga. Apesar da Primavera estava frio e foi a segunda vez que fui acima do Douro, mas acaba sendo a primeira porque a outra não conta porque é só desta que me lembro. O que ali nasceu não mais se quebrou. Outra, foi bem aqui, em Lisboa. E foi quando descobri o coelho da Alice, que corria na estação do metro. Foi também a primeira vez que olhei para dentro de mim.

Estas pessoas que nos ficam, ficam-nos porque trazem sempre uma primeira vez. O princípio fotográfico é mágico por essa mesma razão: só existe uma vez, a primeira.

E pela primeira vez li Almada Negreiros e li de Almada Negreiros uma fotografia genial que escreveu. Como quando a tiramos e depois nos detemos a olhar e a ver. É assim:

«Tinha um pescoço horrível, sem ligação da nuca com as costas. Uma cova em triângulo entre as homoplatas e a falha do pescoço. E aqui a cor era ordinária. Porém, a nuca perfeita de redondeza, nem saliente, nem retraída. O tronco era uma verdadeira maravilha. Era todo o segredo da sua formosura. Os seios hediondos, partidos, duas excrescências inutilizadas. O busto curto mas sólido. Os ombros grandes e largos, levemente subidos. Os braços apertavam desde o ombro até ao pulso por uma forma ridícula e sem distância. As ancas cerradas, entre menina e mulher. A linha dos ombros mais larga do que a das ancas, conforme a robustez do tronco. O ventre, bem posto, era contudo mais admirável do que formoso, mais escultural do que atraente. O umbigo, o sexo, as virilhas, era tudo infantil, inocente. As coxas é que rompiam audaciosas. A cor das coxas era clara e a do ventre incomparavelmente menos clara. Via-se que era filha de uma pessoa muito branca e de outra bastante morena. Mas a mistura não estava bem feita: a sua pele ia desde o mármore rosa-pálido até ao tijolo sujo. As costas, genialmente bem divididas por um único vinco, firme, vertical, helénico, separando duas metades simétricas, amplas, até aos rins longos. Umas nádegas de rapaz. As pernas, se tinham algum atractivo, não pertenciam contudo à maravilha daquele tronco, esse acaso feliz da natureza. As barrigas das pernas, grosseiras, saltimbancanescas. Os joelhos estropiados. Os pés horríveis, o pior de tudo juntamente com as mãos. Estas davam a impressão de não fecharem, desajeitadas, incompletas, mal terminadas, falhas de paciência. Os dedos não se punham direitos. As unhas roídas até para lá do meio. Enfim, as extremidades péssimas. Dir-se-ia que a desordem da sua vida ia dar cabo daquela obra-prima da natureza e começara já a sua destruição pelas extremidades.

A cabeça também era incompleta, mas tinha qualquer beleza que se ligava com o tronco. A testa pequeníssima ao alto e ao largo. Bons cabelos lisos, mal começados na frente, com remoinhos. As orelhas pobres, minúsculas e engraçadas. Uma boca ingénua, sem a sua maldade, e um jeito pândego ao canto da direita. Autentica boca de rua. Bons dentes, curtos, já separados, e as gengivas gastas. Os olhos míopes não davam o encanto que prometiam. O nariz pequeno e perfeito. O perfil desde o fim da testa, com a boca fechada, até ao busto, era formidável de inteireza e de carácter meridional, peninsular, português. Bastante viril e sem por isso ser masculino. (…)

A diferença entre o perfil e a frente era esmagadora. Ela tinha escarrada num focinho animal a triste vida que levava. A fisionomia era canalha e grosseira, e o seu perfil nobre e puro, não cabia ali.»

A miuda do filme da Sofia Coppola era bonita. Branquinha, mas bonita. Não percebi, contudo, qual o fetiche da roupinha colegial. Assim como certamente não vou perceber, amanhã, o Fernando Luís a dizer «a gaja é minha filha», pá.

quarta-feira, 27 de outubro de 2004

IRC, IRS, IVA, IA, IC, CA, SS, TSU... e "não há almoços grátis"
«Sou contra as portagens, porque contribuem para a opacidade fiscal. Pagamos IRC. Pagamos IRS. Pagamos IVA. Pagamos imposto automóvel e imposto sobre o combustível. Pagamos contribuição autárquica e segurança social. Pagamos taxa social única e imposto sobre o tabaco. Pagamos taxas de televisão e de rádio. Pagamos imposto de selo, imposto sobre circulação de veículos e impostos alfandegários. Imposto sobre sucessões e doações e muitos eteceteras que a maioria de nós nem imagina. Por cada imposto cobrado, há imensos impressos, imensos regulamentos internos e imensos funcionários públicos dedicados à cobrança desse imposto. Tantos impostos diferentes traduzem-se num aumento de custos e de burocracias perfeitamente desnecessários. Quanto não se pouparia se, em vez de tantos impostos, se cobrassem apenas uns três ou quatro? Por que há tantos impostos? Por uma razão muito simples. A administração pública não quer que nos consciencializemos dos impostos que pagamos.»
Luís Aguiar-Conraria, no seu blog.

É acerca das portagens nas SCUT e do argumento "não há almoços grátis". Vale a pena ler.
«um desinvestimento de efeitos brutais no ensino superior público»
«… o Governo PSD-PP resolveu, à margem de qualquer debate sobre tão transcendentes questões [processo de Bolonha], adoptar como critério de reforma a versão mais drasticamente desinvestidora, desqualificante e destruidora do ensino superior público. O Estado passaria a financiar unicamente o primeiro grau do ciclo de estudos superiores, reduzido a três anos. Entregaria ao mercado a subsistência dos mestrados e doutoramentos: só quem tivesse capacidade financeira para pagar as propinas proibitivas exigidas para a cobertura das despesas dessas pós-graduações teria acesso a elas.»
Fernando Rosas, 27Out2004 in Público
(não consta da edição online)

O texto, intitulado “Bolonha ou a regressão do ensino superior”, merece leitura atenta. Depois de se ter hipotecado todos os ramos do país, pela falta de apoio ou financiamento, ou pela carga fiscal existente nas mais diversas áreas deste Portugal, hipoteca-se também o ensino superior. Para quê ter gente formada?

terça-feira, 26 de outubro de 2004

Descrédito irreversível do Diário de Notícias
«Os membros eleitos do Conselho de Redacção, confrontados com a inacreditável sucessão de acontecimentos que têm posto o Diário de Notícias na primeira linha da actualidade informativa, pelos piores motivos, manifestam por este meio a sua extrema preocupação pela situação do jornal, que tende a desacreditar-se irreversivelmente perante a opinião pública por razões alheias à vontade, à intervenção e à actuação dos seus jornalistas. (...)

É indesmentível o clima de contínua desmotivação da Redacção perante a evidente degradação da capacidade interventiva da Direcção na elaboração diária do jornal (...)

É evidente a perda de qualidade editorial do DN, patente na elaboração de muitas primeiras páginas. (...)

É preocupante que um dos primeiros actos de gestão da nova Administração tenha sido a abertura de um processo de «rescisões amigáveis», com o objectivo declarado de dispensar mais jornalistas, à semelhança do ocorrido em 2002, que em nada contribuiu — antes pelo contrário — para a resolução dos graves problemas estruturais que têm acelerado a degradação do Diário de Notícias. (...) »

Comunicado do Conselho de Redacção do DN, hoje veiculado pelo Público-Última Hora. Texto integral aqui.

sábado, 23 de outubro de 2004

Sugestão
«Este DocLisboa é uma proposta de oposição construtiva. Sabemos que a actual oferta cultural é pobre, sabemos que as instituições políticas responsáveis por tutelar a qualidade desta oferta não cumprem as suas funções. Por isso, vamos mostrar durante uma semana aquilo que gostaríamos ver regularmente nos cinemas e no prime time dos canais de televisão.»
Cinema documental na Culturgest, ainda para mais a preços convidativos: entre 2,00 e 1,50 euros.
Info em www.doclisboa.org

quarta-feira, 20 de outubro de 2004

Uma grande nabice
«As portagens nas Scut's são uma grande nabice. As vias de comunicação são, historicamente, um factor desenvolvimento, e no caso português mais se justificava.»
Aconselho a leitura, do texto e dos comentários, aqui.
Eles é a indústria da noite, os processos, as penhoras...
E muito mais?

Noticiou o DN que os bens do gabinete do reitor da Universidade Católica Portuguesa (UCP) vão ser penhorados. A acção foi decidida pelo Tribunal do Trabalho, em resolução de um processo levantado por uma professora da instituição, que deliberou o pagamento de uma indemnização no valor de 100 mil euros a seu favor. Ao que parece, a UCP não cumpriu com o contrato que tinha com Maria José Craveiro, passando a pagar-lhe à hora e acabando por despedi-la sem justa causa, depois de ela ter começado a sua tese de doutoramento.

A notícia original está aqui e mereceu uma chamada na primeira página na edição daquele dia do DN. O Público e o Diário Digital, tanto quanto sei, noticiaram posteriormente, porém sem acrescentar dados novos. O Público, de que é director José Manuel Fernandes - que também colabora/lecciona na UCP -, refere o assunto apenas na sua edição on-line "Última-Hora". [Um aparte: responderá isto à sua questão, Professor?]

Mas pela (minha) blogosfera fora, também se escreveu sobre o assunto, nomeadamente no Barnabé.

Ainda no Barnabé se pode ler, mais abaixo, o seguinte:
«Que seria de nós, na verdade, sem os professores da Católica? O negócio é o seguinte: nós contribuímos generosamente para uma instituição que cobra caro pelos seus serviços, foi e continua a ser protegida da concorrência. Em troca, recebemos uns cromos inestimáveis como Braga da Cruz, Mário Pinto ou César das Neves.»

Voltando ao texto publicado pelo DN, cito o seguinte:
«Ao que o DN apurou, existe algum mal-estar entre alguns docentes (...). Motivo de críticas também tem sido o facto de o director da Faculdade de Ciência Humanas, Mário Pinto, ser simultaneamente presidente do Conselho Científico sem que detenha os graus de mestre ou de doutor, contaram ao DN vários docentes.»

Eu apenas digo: interessante e investigável, o comportamento da UCP – nas suas variadas vertentes.
Novas mudanças no Grupo PT
O Jornal de Negócios avançou, há dias, com a notícia de que Clara Ferreira Alves será a nova directora do Diário de Notícias. A verificar-se, seria a primeira mulher no cargo, em cento e alguns anos.

Na edição desta semana, o Expresso confirma e acrescenta Pedro Rolo Duarte como sub-director.

Hoje, o Diário Económico desmente: «O presidente da comissão executiva da PT (...) desmente qualquer decisão no sentido de mudar o actual director do Diário de Notícias»

Em que ficamos?
A liberdade de expressão tem destas coisas
«Miguel Sousa Tavares tem a certeza que Marcelo Rebelo de Sousa saiu da TVI por pressão do Governo. Mesmo assim continua comentador. Que saudades de Francisco Sousa Tavares.»
António Ribeiro Ferreira,
in DN nº1273

segunda-feira, 18 de outubro de 2004

Ecos de um fim-de-semana impresso

[o “caso” Marcelo Rebelo de Sousa] «É um ‘case study’ para quem se interesse pelo liberalismo e suas perversões. Ou para quem estude jornalismo e tenha ilusões.»
Pedro Rolo Duarte,
DNa 15Out2004


«Acho que a música chill out é bastante fria, é uma coisa que funciona bem como música ambiente mas, se queremos emoções diferentes na música é preciso ir procurar outras coisas, outra música.

(…) jazz dos anos 50 e 60, que me influencia bastante e tem um lugar muito importante no meu coração e na minha vida.»
Nicola Conte,
em entrevista ao DnMúsica, sobre o seu novo disco, Other Directions

segunda-feira, 11 de outubro de 2004

«Mas, pior que tudo, é um dia Paes do Amaral ter que se haver com um Presidente da República que despediu da própria empresa.»

Curiosa, a crónica de António Freitas de Sousa, no Diário Económico (08Out2004)

quinta-feira, 7 de outubro de 2004

«Ele [Jorge Sampaio] não percebeu o tipo de gente a que deu posse»
Miguel Sousa Tavares,
in Público 07Out2004

De longe, o melhor que já li, em relação ao XVI Governo Constitucional português.
Mas há mais:


«(...) persistem em Portugal dois males antigos que fazem com que sejamos uma democracia pouco liberal. Primeiro, porque as tentações de os governos controlarem a informação não desapareceram, antes recrudesceram com o actual Executivo, e o império da PT- criado sob o PS, alimentado e protegido pelo PSD - permite ter uma terrível arma de intervenção capaz de condicionar mesmo os grupos privados, na televisão e não só.
(...) um governo acossado e fraco, desorientado e acéfalo, incapaz de resistir à tentação da manipulação e desesperado por não perceber que o mal não está em quem divulga as más notícias, mas em quem lhes dá origem: eles próprios.»
José Manuel Fernandes,
in Público 07Out2004


«Se somarmos a tudo isto o controlo da televisão e da rádio públicas, que já vinha do anterior Governo, as mudanças que se estão a dar nas chefias no grupo Lusomundo dependente da PT, colocando todo seu sector mediático sob o controlo de Luís Delgado, um jornalista cuja promoção não tem outra explicação que não seja o seu proselitismo político, usando instrumentos que o PS preparou com o mesmo objectivo de controlo, o panorama é preocupante. Existem ainda suspeitas de pressões políticas e económicas sobre os grupos empresariais de comunicação, para que se "portem bem", escassamente conhecidas fora das administrações do sector e escapando ao escrutínio público.
(...)
Mais uma vez se verifica que o nosso estado tem uma presença excessiva na comunicação social, que tudo está demasiado partidarizado e que quem tem o poder nunca o cede e usa-o. O PS fê-lo, o PSD está agora a fazê-lo.
(...)
Quando um membro do Governo apela a que a Alta-Autoridade para a Comunicação Social interfira na liberdade de opinião, tal como é expressa numa televisão privada, está a exigir censura do que lhe é incómodo.
(...)
Marcelo é previsível nas suas críticas e nos seus silêncios, nos seus venenos e nos seus ajustes de contas, nas suas verdades e nas suas meia-verdades, só que uma coisa é ter do outro lado alguém convicto do que está a fazer, ou sabendo o que está a fazer, e outra alguém que se desintegra de medo perante o "professor".»
José Pacheco Pereira,
in Público 07Out2004


«(...) convém impedir que quem discorde fale. Já o núcleo do PSD do Norte, constituído, como se sabe, por algumas das maiores cabeças do país (estou a falar do tamanho, claro), tinha vindo mostrar toda a sua indignação com os comentários de Marcelo Rebelo de Sousa. Não basta ser-se do partido do Governo, é preciso aparecer como porta-voz do pensamento do Governo. O que a médio prazo pode levar à esquizofrenia, dado que o Governo tem em si pensamentos diversos, e o próprio Santana Lopes pensa coisas diferentes no mesmo dia (o que mostra como é um espaço de liberdade e pluralismo). Desta vez, temos o extraordinário Rui Gomes da Silva, espaldado por Morais Sarmento num dos seus momentos menos felizes, a começar por exigir que se moderem os comentários de Marcelo Rebelo de Sousa na TVI. Estes comentários são hoje uma verdadeira instituição nacional, e com o apoio de gente desnorteada como o referido ministro (vão lá arranjar "contraditório" para esta afirmação...) arriscam-se a valer tanto como um partido político. Cabeças mais atiladas devem ter explicado, aparentemente com êxito, que afirmações destas não se fazem e que Gomes da Silva estava a criar um caso político onde ele não existia. O que só se compreende porque Marcelo, ao comentar a constituição deste sempre surpreendente Governo, traçou um retrato pouco abonatório deste admirável governante a quem o país tanto deve. O caso veio acrescentar-se ao clima de proibições que se pretende instalar: regulação de horários de discotecas, proibição de mini-saias numa escola de Colares, e agora tentativa de impor a Marcelo um contraditório. E ainda veremos o PSD do Norte propor que cada comentador de um jornal tenha o seu contraditório - que poderá mesmo ser um polícia de serviço.»
Eduardo Prado Coelho,
in Público 07Out2004
(Toda a crónica de EPC está, aliás, deliciosa.)


Não consegui aceder ao DN na internet...


«O director-geral e de informação da TVI [José Eduardo Moniz] tem a esperança de voltar a ter Marcelo Rebelo de Sousa nos ecrãs da estação televisiva. José Eduardo Moniz disse, no Fórum da TSF, que espera que a saída do comentador político seja “um equívoco”.»
in TSF,
07Out2004


«(...) Pedro Santana Lopes transformou o adversário num herói. Criou uma celebridade, vestindo o lobo com pele de cordeiro.»
Raúl Vaz,
in Diário Económico 07Out2004

quinta-feira, 30 de setembro de 2004

A vida é um milagre
(um filme de Emir Kusturica)

O que há a dizer?